===== NOVOS ENSAIOS SOBRE O ENTENDIMENTO HUMANO ===== Estes Novos [[lexico:e:ensaios:start|Ensaios]] são, como já dissemos, uma resposta ao Ensaio sobre o [[lexico:e:entendimento:start|entendimento]] [[lexico:h:humano:start|humano]] de [[lexico:l:locke:start|Locke]]. Foram escritos em francês e o [[lexico:t:texto:start|texto]] revisto por Hugony e Barbeyrac. Desde o [[lexico:c:comeco:start|começo]] [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]] patenteia a sua [[lexico:i:intencao:start|intenção]] e a sua inspiração. "Concebi um novo [[lexico:s:sistema:start|sistema]] — assim faz [[lexico:f:falar:start|falar]] o [[lexico:p:personagem:start|personagem]] a [[lexico:q:quem:start|quem]] empresta a sua [[lexico:p:palavra:start|palavra]], pois se trata realmente do seu sistema — o qual parece aliar [[lexico:p:platao:start|Platão]] com [[lexico:d:democrito:start|Demócrito]], [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] com [[lexico:d:descartes:start|Descartes]], os escolásticos com os modernos, a [[lexico:t:teologia:start|teologia]] e a [[lexico:m:moral:start|moral]] com a [[lexico:r:razao:start|razão]]. Dir-se-ia que ele toma o lado melhor de cada um, indo depois mais longe que qualquer deles. Encontro aí uma [[lexico:e:explicacao:start|explicação]] [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]] da [[lexico:u:uniao:start|união]] da [[lexico:a:alma:start|alma]] e do [[lexico:c:corpo:start|corpo]]... Encontro os verdadeiros [[lexico:p:principios:start|princípios]] das [[lexico:c:coisas:start|coisas]] nas unidades das [[lexico:s:substancias:start|substâncias]] que este sistema introduz e na [[lexico:h:harmonia:start|harmonia]] dessas unidades, preestabelecidas peia [[lexico:s:substancia:start|substância]] primitiva. Encontro uma simplicidade e uma [[lexico:u:unidade:start|unidade]] surpreendentes, podendo-se dizer que é em toda [[lexico:p:parte:start|parte]] e sempre a mesma [[lexico:c:coisa:start|coisa]], variando apenas os graus de [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]]... Assim se denunciavam os seus propósitos de [[lexico:e:ecletismo:start|ecletismo]] e os princípios que deviam presidir à sua construção. Quanto ao [[lexico:p:principio:start|princípio]] da construção de Locke, princípio aliás em que este devia introduzir gradações sutis, era o da "tabula rasa" e a rejeição de qualquer [[lexico:i:ideia:start|ideia]] inata na alma. Tudo provinha dos sentidos para se ordenar em seguida na alma; desaparecia [[lexico:t:todo:start|todo]] inteligível, pelo menos todo inteligível prévio, e chegava-se desta [[lexico:f:forma:start|forma]] a um [[lexico:e:empirismo:start|empirismo]] [[lexico:p:puro:start|puro]]. Leibniz [[lexico:n:nao:start|não]] repelia de todo uma tal concepção. Admitia que as [[lexico:i:ideias:start|ideias]] chegassem à alma pelos sentidos, mas colocava também nesta alma ideias primeiras, ainda obscuras ou obscurecidas, e que germinavam ou se desenvolviam à proporção que crescia o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] [[lexico:s:ser:start|ser]] — princípios que não dependiam, quanto à [[lexico:o:origem:start|origem]], das circunstâncias a que deviam o seu [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]]. Assim eram reinstituídos o inteligível e a ideia pura, que não eram talvez claramente visíveis no [[lexico:c:composto-humano:start|composto humano]] mas jaziam nele como que sepultados, à espera de frutificar, e constituíam-lhe o fundo [[lexico:e:essencial:start|essencial]]. Isto era expresso pela célebre [[lexico:f:formula:start|fórmula]], emenda [[lexico:c:capital:start|capital]] da de Locke: [[lexico:n:nada:start|nada]] existe no [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]] que já não tenha [[lexico:e:estado:start|Estado]] nos sentidos, exceto o próprio intelecto (nihil est in intellectu [[lexico:q:quod:start|quod]] nom fuerit in sensu, excipe nisi ipse intellectus). A que se ajuntavam as seguintes especificações do próprio Leibniz: "Ora, a alma encerra o ser, a substância, o [[lexico:u:uno:start|uno]], o mesmo, a [[lexico:c:causa:start|causa]], a [[lexico:p:percepcao:start|percepção]], o [[lexico:r:raciocinio:start|raciocínio]] e uma [[lexico:q:quantidade:start|quantidade]] de outras noções que os sentidos não poderiam fornecer..." e ainda a [[lexico:o:observacao:start|observação]], que o próprio Locke era forçado a admitir quando levado a procurar "uma boa parte das ideias na [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] do [[lexico:e:espirito:start|espírito]] sobre a sua própria [[lexico:n:natureza:start|natureza]]". Vemos, pois, que Leibniz não se jactava em vão de [[lexico:t:ter:start|ter]] ressuscitado Platão e ouvimos aqui o [[lexico:e:eco:start|Eco]] de uma [[lexico:v:voz:start|voz]] [[lexico:b:bem:start|Bem]] longínqua. A [[lexico:t:teoria:start|teoria]] da "[[lexico:r:reminiscencia:start|reminiscência]]" outra coisa não era — sob uma forma menos precisa e mais poética — senão a das [[lexico:i:ideias-inatas:start|ideias inatas]]. A alma platônica, caída no [[lexico:m:mundo:start|mundo]] [[lexico:s:sensivel:start|sensível]], guardava a obscura lembrança do mundo inteligível, das ideias que lá pudera contemplar e dessas realidades primeiras e soberanas que eram o [[lexico:b:belo:start|belo]] e o Bem; sua única [[lexico:a:aspiracao:start|aspiração]] era para lá voltar após o circuito terrestre. Sabemos igualmente que a [[lexico:r:realidade:start|realidade]] una ou as realidades múltiplas de Leibniz são de [[lexico:o:ordem:start|ordem]] inteligível e que embora sejam precisadas, tenham denominações mais abstratas que as de Platão e pareçam de ordem especulativa — substância, uno, causa, raciocínio — continuam a ser de natureza ou de origem inteligível, e que as môna-des e a Mônade suprema, [[lexico:d:deus:start|Deus]], são realidades — as únicas realidades — duma ordem puramente [[lexico:i:ideal:start|ideal]]. Estuda Leibniz deste [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista as noções inatas, as ideias, as [[lexico:p:palavras:start|palavras]], o [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]]. A [[lexico:m:materia:start|matéria]] é uma [[lexico:c:consequencia:start|consequência]], uma produção, uma [[lexico:c:criacao:start|criação]]; é segunda e não poderia ser um princípio; nada pode provir dela apenas; [[lexico:a:alem:start|além]] disso, não pensa: quem pensa é a substância pensante. O [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] pode, sem [[lexico:d:duvida:start|dúvida]], passar pela matéria; na nossa [[lexico:c:condicao-humana:start|condição humana]], é-lhe anterior e está incluído nela. São essas ideias inatas depositadas na matéria antes de qualquer [[lexico:e:experiencia:start|experiência]], essas percepções confusas que pouco a pouco se aclaram, que constituem o pensamento e o desenvolvem. Isso ocorre, todavia, sempre de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com o nosso estado de [[lexico:c:composto:start|composto]]: não somos [[lexico:a:anjos:start|anjos]] ou substâncias separadas; o nosso corpo não pensa, mas nós pensamos com ele. Cada coisa na natureza, "com [[lexico:e:excecao:start|exceção]] dos milagres", possui sua [[lexico:v:virtude:start|virtude]] própria e age de acordo com ela: "Deus não dá, arbitrária e indiferentemente, tais e tais qualidades às substâncias; jamais lhes dará senão aquelas que lhes forem naturais, isto é, que puderem ser derivadas da natureza delas como modificações explicáveis." Podemos muito bem chegar ao pensamento de maneira gradual, mas em sua [[lexico:e:essencia:start|essência]] ele é primordial e serve de [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] à [[lexico:e:evidencia:start|evidência]] e à [[lexico:c:certeza:start|certeza]]. A própria [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] é insuficiente para isso, pois somente em Deus existem verdades intuitivas: faz-se necessária a razão. "Por mais experiências particulares que tenhamos de uma [[lexico:v:verdade:start|verdade]] [[lexico:u:universal:start|universal]], a [[lexico:s:simples:start|simples]] [[lexico:i:inducao:start|indução]] não nos poderia dar uma certeza definitiva dessa verdade; para isso, é preciso a razão." A experiência cotidiana que temos do nascer e do ocaso do [[lexico:s:sol:start|sol]] não nos revela o segredo desses fenômenos: [[lexico:s:sucessao:start|sucessão]] não é [[lexico:c:causalidade:start|causalidade]]. "E no fundo se pode dizer que a ideia do [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] é anterior, na natureza das coisas, à dos limites que traçamos." Do mesmo [[lexico:m:modo:start|modo]] Descartes e [[lexico:m:malebranche:start|Malebranche]] queriam que, em certo [[lexico:s:sentido:start|sentido]] e nessa própria "natureza das coisas", o [[lexico:g:geral:start|geral]] precedesse o [[lexico:p:particular:start|particular]] e o universal, o individual. Estas indicações bastam para precisar o sentido, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], da doutrina e do [[lexico:m:metodo:start|método]]. O que Leibniz quer estabelecer contra Locke é a insuficiência radical da experiência e a [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] de um princípio pensante para [[lexico:e:explicar:start|explicar]] o pensamento. Sabemos que ele encontra este princípio não no sensível, que de tal é incapaz, mas no inteligível, apresentado aliás como única realidade. Todavia, o sensível permanece estreitamente ligado aos exercícios da [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] humana, e se Leibniz rejeita em [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] a ideia de uma "substância" extensa, para ele puramente fenomenal, torna contudo a introduzi-la no seu [[lexico:e:estudo:start|estudo]] do composto alma e corpo, estudo a que ele procede dentro de um espírito todo cartesiano. Ao falar da realidade do conhecimento, dirá o seguinte: "O fundamento da verdade das coisas contingentes e singulares está na feliz [[lexico:o:ocorrencia:start|ocorrência]] de se encadearem os fenômenos dos sentidos justamente como o exigem as verdades inteligíveis." Esta ideia de encadeamento é, com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], a chave e a [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] do conhecimento humano. Sabemos o [[lexico:o:obstaculo:start|obstáculo]] com que ela se choca em todo sistema idealista, onde precisamente a [[lexico:t:transcendencia:start|transcendência]] radical da ideia torna [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] qualquer acordo entre a realidade ideal e a realidade sensível. E já vimos como Leibniz julgou afastar a dificuldade mediante essa outra [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]], que nos apresenta como uma certeza, da [[lexico:h:harmonia-preestabelecida:start|harmonia preestabelecida]]. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}