===== NOVA ATLÂNTIDA ===== Encontramos [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:e:entusiasmo|entusiasmo]] desmedido pela [[lexico:a:atividade|atividade]] técnico-científica e pelas possibilidades que através delas se oferecem na [[lexico:u:utopia|utopia]] de Francis [[lexico:b:bacon|Bacon]]: A [[lexico:n:nova-atlantida|Nova Atlântida]]. Já citamos no início um trecho desse relatório de proezas mecânicas, tidas por Bacon como o maior título de [[lexico:g:gloria|glória]] da [[lexico:h:humanidade|humanidade]]. O [[lexico:c:conhecimento-cientifico|conhecimento científico]], na Nova [[lexico:a:atlantida|Atlântida]], é [[lexico:p:propriedade|propriedade]] de um [[lexico:g:grupo|grupo]] [[lexico:h:hermetico|hermético]] e maçônico, que constitui a assim chamada Casa de Salomão. O [[lexico:p:personagem|personagem]] imaginário que visita as terras da Nova Atlântida e que, depois de uma [[lexico:s:serie|série]] de vicissitudes de menor importância, é introduzido junto aos iniciados dessa fundação, transpõe os umbrais da Casa de Salomão com um terror quase [[lexico:r:religioso|religioso]]. É [[lexico:c:como-se|como se]] o pressentimento do [[lexico:m:mundo|mundo]] que estava por vir se apresentasse repentinamente à sua [[lexico:c:consciencia|consciência]]. Revelando os [[lexico:m:misterios|mistérios]] da Casa de Salomão, assim se manifesta o Grã-Sacerdote que recebe o visitante de outras terras: “[[lexico:d:deus|Deus]] te bendiga, meu [[lexico:f:filho|filho]]: vou dar-te a mais preciosa joia que possuo, pois, pelo [[lexico:a:amor|amor]] de Deus e dos homens, vou revelar-te os segredos da Casa de Salomão. E para dar-te a conhecer, filho, a grande [[lexico:o:onipotencia|onipotência]] desta nossa Casa de Salomão, seguirei essa [[lexico:o:ordem|ordem]]: primeiro, dar-te-ei conta do [[lexico:o:objeto|objeto]] de nossa fundação. Segundo, das preparações e instrumentos que temos para o nosso [[lexico:t:trabalho|trabalho]]. [[lexico:t:terceiro|terceiro]], dos vários empregos e funções a que nossos companheiros estão destinados. E quarto, das ordenanças e ritos que observamos. O objeto de nossa fundação é o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] das [[lexico:c:causas|causas]] e secretas noções das [[lexico:c:coisas|coisas]] e engrandecimento dos limites da [[lexico:m:mente|mente]] humana, para a realização de todas as coisas possíveis”. Dentro da concepção naturalista de Bacon, o conhecimento legítimo é o conhecimento da [[lexico:n:natureza|natureza]], dos fenômenos perceptíveis através dos sentidos e de suas leis. É por [[lexico:m:meio|meio]] desse conhecimento que nos libertamos dos idola e preconceitos que entorpecem o nosso [[lexico:s:saber|saber]] utilitarista. Ao lado disso, continua sem [[lexico:d:duvida|dúvida]] a [[lexico:e:existir|existir]] o mundo das coisas divinas, mas totalmente separado das oportunidades terrestres, segundo a [[lexico:d:dicotomia|dicotomia]] que se tornou clássica na [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] inglesa entre a [[lexico:c:crenca|crença]] (believe) e o saber [[lexico:p:positivo|positivo]] (utility). Na Nova Atlântida, estátuas são erguidas aos inventores de aparatos mecânicos e técnicos, e prêmios são distribuídos aos que se distinguem pelo [[lexico:b:bem|Bem]] prestado à [[lexico:c:causa|causa]] da [[lexico:c:civilizacao|civilização]] material. Há um paralelo muito [[lexico:i:interessante|interessante]] entre os segredos próprios da Casa de Salomão e a [[lexico:s:situacao|situação]] a que chegamos no que diz [[lexico:r:respeito|respeito]] ao [[lexico:c:carater|caráter]] [[lexico:e:esoterico|esotérico]] e sigiloso da [[lexico:p:pesquisa|pesquisa]] científica contemporânea. Assim é que diz ainda o Grão-Sacerdote baconiano: “E outra [[lexico:c:coisa|coisa]] que também fazemos é celebrar consultas sobre que inventos e experimentos, descobertos por nós, devem fazer-se públicos e quais [[lexico:n:nao|não]], jurando todos guardar segredo sobre aqueles que pensamos conveniente ocultar, ainda que alguns destes, às vezes, são revelados ao [[lexico:e:estado|Estado]]”. Bacon, entretanto, não teve consciência de que no Estado orientado pela Casa de Salomão não haveria [[lexico:l:lugar|lugar]] para uma [[lexico:h:harmonia|harmonia]] entre a ordem positiva da utility e a ordem divina da adoração e do [[lexico:c:culto|culto]] religioso. Como bem observou Benedetto [[lexico:c:croce|Croce]], existe um imperialismo das [[lexico:a:atividades|atividades]] culturais, tendendo a [[lexico:p:parte|parte]] sempre a devorar o [[lexico:t:todo|todo]]. Isso foi justamente o que aconteceu no mundo ocidental, logo após a eclosão da [[lexico:r:revolucao|revolução]] industrial. O [[lexico:i:ideal|ideal]] humanístico-burguês que permeava a [[lexico:m:mentalidade|mentalidade]] desses utopistas tinha em si ingredientes contraditórios, como a própria [[lexico:e:epoca|época]] em que viviam. Bacon, em especial, com sua doutrina filosófico-política, acreditava na [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de uma [[lexico:s:subordinacao|subordinação]] do conhecimento [[lexico:n:natural|natural]] às finalidades de uma civilização humanística, sem o mínimo pressentimento do demonismo ínsito em tal [[lexico:p:processo|processo]]. Entretanto, encontramos no [[lexico:p:proprio|próprio]] [[lexico:r:renascimento|Renascimento]] a consciência definida e profética dos desenvolvimentos últimos e abismais do mundo separado de Deus e entregue à sua própria propulsividade, na [[lexico:o:obra|obra]] artística de Jeronimus Bosch. A babel das cidades cosmopolitas, a despersonalização e massificação do [[lexico:h:homem|homem]], as perversões morais e sexuais, o [[lexico:a:aspecto|aspecto]] monstruoso e apocalíptico das guerras modernas, tudo isso vemos aflorar nas telas de Bosch, numa antevisão prefiguradora. A [[lexico:c:ciencia|ciência]] naturalística e instrumental, com o seu [[lexico:s:ser|ser]] para si fechado e autônomo, devia constituir o homem numa cidadela também fechada e autônoma, com todas as suas consequências metafísicas e religiosas. Ninguém nega, hoje em dia, que a [[lexico:f:forca|força]] determinante de nossa [[lexico:c:cultura|cultura]] é o processo de domínio da natureza e a força [[lexico:e:economica|econômica]] dos organismos sociais. Todos os outros aspectos da cultura são meramente adjetivos e aleatórios, [[lexico:s:simples|simples]] epifenômenos das [[lexico:r:relacoes|relações]] econômico-materiais. A virtu dos doutrinadores do [[lexico:h:humanismo|humanismo]], a [[lexico:c:categoria|categoria]] [[lexico:m:moral|moral]] do honnête homme dos iluministas, se transmudaram no [[lexico:c:codigo|código]] elástico do homem eficiente de nossos dias, cujo [[lexico:m:merito|mérito]] [[lexico:s:social|social]] é aquilatado em [[lexico:f:funcao|função]] de suas possibilidades econômicas. Se a civilização [[lexico:m:moderna|moderna]], que teve início justamente com esses apóstolos do conhecimento científico e do [[lexico:c:credo|credo]] racionalista, nos libertou dos múltiplos jugos da [[lexico:n:necessidade|necessidade]] natural do homem, isto é, das doenças, das distâncias, do desconforto, por [[lexico:o:outro|outro]] lado nos alienou e nos jungiu ao processo da civilização [[lexico:m:mecanica|mecânica]], e ao arbítrio cego das lutas de poder. A “[[lexico:l:liberdade|liberdade]] de” não se transformou numa “liberdade para”. A [[lexico:t:transcendencia|transcendência]] dos limites e confinamentos da necessidade natural decaiu numa transcendência, ou melhor, numa nova [[lexico:b:barbarie|barbárie]] crepuscular e desalentadora. É estranho o contraste entre o [[lexico:o:otimismo|otimismo]] de certos homens imersos no fragor da civilização [[lexico:a:atual|atual]] e a consciência temerosa e pessimista dos maiores vultos deste século. [[lexico:q:quem|quem]] estará com a [[lexico:r:razao|razão]]? Os que confundem a sua mesquinha prosperidade [[lexico:p:pessoal|pessoal]] com o bem do mundo, ou os que se elevando acima de suas vantagens ou desvantagens pessoais contemplam o todo [[lexico:h:historico|histórico]] em suas perspectivas acabrunhadoras? Entretanto, como vimos, esses primeiros sonhadores da idade moderna não captaram esse aspecto [[lexico:n:negativo|negativo]] da ordem das coisas. Devemos, porém, abrir uma [[lexico:e:excecao|exceção]] ao [[lexico:f:filosofo|filósofo]] italiano Giambattista [[lexico:v:vico|Vico]], que no início da era moderna prognosticou a inevitável barbarização das nações, como [[lexico:c:consequencia|consequência]] do [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] das artes e letras humanas. Os utopistas, pelo contrário, levados pelas esperanças da cultura renascentista prognosticaram uma seara auspiciosa para a [[lexico:s:sociedade|sociedade]] humana, guiada pela [[lexico:l:luz|luz]] do conhecimento e da filosofia. Um [[lexico:e:exemplo|exemplo]] desta irrestrita confiança, encontramo-lo no filósofo italiano Tomaso [[lexico:c:campanella|Campanella]], cuja utopia denominada Heliópolis ou a imaginária [[lexico:c:cidade|cidade]] do [[lexico:s:sol|sol]] passaremos a examinar. [VFSTM:206-209]