===== NORMALIZAÇÃO ===== Um fator decisivo é que a [[lexico:s:sociedade|sociedade]], em todos os seus níveis, exclui a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de [[lexico:a:acao|ação]], que outrora era excluída do [[lexico:l:lar|lar]] doméstico. Ao invés de ação, a sociedade espera de cada um dos seus membros certo [[lexico:t:tipo|tipo]] de [[lexico:c:comportamento|comportamento]], impondo inúmeras e variadas regras, todas elas tendentes a “normalizar” os seus membros, a fazê-los comportarem-se, a excluir a ação espontânea ou a façanha extraordinária. Com [[lexico:r:rousseau|Rousseau]], encontramos essas exigências nos salões da alta sociedade, cujas convenções sempre equacionam o [[lexico:i:individuo|indivíduo]] com a sua [[lexico:p:posicao|posição]] dentro da [[lexico:e:estrutura|estrutura]] [[lexico:s:social|social]]. O que importa é [[lexico:e:esse|esse]] equacionamento com a posição social, e é [[lexico:i:irrelevante|irrelevante]] se se trata da efetiva posição na sociedade semifeudal do século XVIII, do título na sociedade de classes do século XIX, ou da mera [[lexico:f:funcao|função]] na [[lexico:a:atual|atual]] sociedade de massas. O surgimento da sociedade de massas, pelo contrário, indica apenas que os vários grupos sociais foram absorvidos por uma sociedade única, tal como as unidades familiares antes deles; com o surgimento da sociedade de massas o domínio do social atingiu finalmente, após séculos de [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]], o [[lexico:p:ponto|ponto]] em que abrange e controla, igualmente e com igual [[lexico:f:forca|força]], todos os membros de uma determinada [[lexico:c:comunidade|comunidade]]. Mas a sociedade iguala em quaisquer circunstâncias, e a vitória da [[lexico:i:igualdade|igualdade]] no [[lexico:m:mundo|mundo]] [[lexico:m:moderno|moderno]] é apenas o [[lexico:r:reconhecimento|reconhecimento]] [[lexico:p:politico|político]] e jurídico do [[lexico:f:fato|fato]] de que a sociedade conquistou o domínio [[lexico:p:publico|público]], e que a [[lexico:d:distincao|distinção]] e a [[lexico:d:diferenca|diferença]] tornaram-se assuntos privados do indivíduo. [ArendtCH, 6] “Com a perdição no [[lexico:i:impessoal|impessoal]] já sempre se decidiu sobre o poder-ser fático mais [[lexico:i:imediato|imediato]] do [[lexico:s:ser-ai|ser-aí]] — as tarefas, regras, critérios de [[lexico:m:medida|medida]], a urgência e a amplitude do [[lexico:s:ser-no-mundo|ser-no-mundo]] ocupado e preocupado” [HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo, § 54, p. 268]. Essa é a meu [[lexico:v:ver|ver]] a passagem mais sintética e mais descritiva daquilo que está em [[lexico:j:jogo|jogo]] na [[lexico:c:compreensao|compreensão]] heideggeriana do impessoal em [[lexico:s:ser-e-tempo|Ser e Tempo]]. O ser-aí cotidiano articula sempre existencialmente sentidos pretensamente positivos disponíveis no mundo. Esses sentidos sustentam a [[lexico:f:facticidade|facticidade]] em sua versão sedimentada, de tal [[lexico:m:modo|modo]] que o cotidiano antecipa a [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] no [[lexico:l:limite|limite]] de possibilidades já abertas pelo mundo fático, ou seja, pelo que desde o [[lexico:p:principio|princípio]] já era. A [[lexico:c:consequencia|consequência]] disso é que o presente cotidianamente se mostra como [[lexico:r:repeticao|repetição]] [[lexico:n:nao|não]] criativa do mundo fático. Tal repetição não criativa da facticidade, então, tem consequências radicais para tudo aquilo que constitui o afã propriamente [[lexico:d:dito|dito]] da [[lexico:c:cotidianidade|cotidianidade]]. Incessantemente no cotidiano, nós nos deparamos com [[lexico:c:coisas|coisas]] que precisamos aparentemente fazer. Precisamos acordar na hora certa para mantermos a pontualidade no [[lexico:t:trabalho|trabalho]], precisamos estudar para fazer um concurso, manter o [[lexico:c:corpo|corpo]] em [[lexico:f:forma|forma]] com [[lexico:a:atividades|atividades]] físicas, ler jornais para permanecermos informados etc. etc. Um [[lexico:e:ente|ente]] ontologicamente [[lexico:i:indeterminado|indeterminado]], contudo, não precisa radicalmente fazer [[lexico:c:coisa|coisa]] alguma, uma vez que não tem por [[lexico:c:constituicao|constituição]] nenhuma [[lexico:n:necessidade|necessidade]] [[lexico:e:essencial|essencial]] originária. E o mundo circundante que torna pela primeira vez algo [[lexico:n:necessario|necessário]], na medida em que a [[lexico:a:absorcao|absorção]] inicial da [[lexico:e:existencia|existência]] em seu [[lexico:h:horizonte|horizonte]] de [[lexico:s:sentido|sentido]] tem por correlato imediato a constituição de uma estrutura normatizante e normalizante de nossos comportamentos em [[lexico:g:geral|geral]]: ele torna necessário dormir cedo para conseguir suportar o dia seguinte, estabelecer um [[lexico:r:ritmo|ritmo]] de [[lexico:a:atividade|atividade]] no âmbito de nosso trabalho, realizar uma preparação para o [[lexico:c:casamento|casamento]] etc. etc. O que o mundo chama de uma [[lexico:t:tarefa|tarefa]], portanto, determina o que para nós, de saída e na [[lexico:m:maioria-das-vezes|maioria das vezes]], aparece como tal. Há aqui toda uma pressão constitutiva das mil tarefas do mundo, dos mil trabalhos a serem realizados, das mil atividades a serem empreendidas. O mundo fático, porém, não determina apenas o que pode [[lexico:a:aparecer|aparecer]] como uma tarefa para nós na cotidianidade. Ele também determina as regras para avaliar se a tarefa foi [[lexico:b:bem|Bem]] ou [[lexico:m:mal|mal]] resolvida, para a [[lexico:o:orientacao|orientação]] da execução propriamente dita da tarefa, para a vinculação normativa de um certo tipo de comportamento . Ele não diz apenas que precisamos estudar, mas o quanto precisamos estudar; não apenas que precisamos constituir uma [[lexico:f:familia|família]], mas quando precisamos constituí-la etc. [[lexico:a:alem|Além]] disso, não é tampouco o ser-aí cotidiano que define a urgência com que uma atividade precisa [[lexico:s:ser|ser]] realizada. Se estudar é algo que alguém precisa fazer, como ele precisa estudar e com que urgência ele precisa começar a estudar, isso é algo que não é determinado pelo [[lexico:p:particular|particular]], mas que segue necessariamente orientações prévias oriundas da facticidade. Por [[lexico:f:fim|fim]], a amplitude da tarefa, ou seja, qual a [[lexico:d:dimensao|dimensão]] de sua abrangência, também não é uma [[lexico:q:questao|questão]] [[lexico:p:pessoal|pessoal]], mas se acha estabelecido previamente no horizonte mesmo de [[lexico:d:determinacao|determinação]] da ação. Em [[lexico:s:suma|suma]], todos os nossos modos de [[lexico:r:relacao|relação]] com os utensílios (ocupação), assim como todos os nossos modos de relação com os outros ([[lexico:p:preocupacao|preocupação]]) se acham previamente determinados não em seu [[lexico:c:carater|caráter]] factual, mas em seu caráter [[lexico:p:possivel|possível]] pelo domínio do impessoal, pela predominância da significância sedimentada na constituição mesma de nossas possibilidades de ação em geral, o que se confunde ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] com as nossas possibilidades de ser. Dizer isso implica, ao mesmo tempo, afirmar a cotidianidade como o [[lexico:l:lugar|lugar]] da indecisão, na medida em que tudo [[lexico:o:o-que-e|o que é]] e pode ser já se encontra previamente decidido pelo mundo. Uma vez mais não porque é o mundo que realiza efetivamente cada uma das atividades cotidianas, mas porque é ele que diz o que é ou não possível. Descrever um [[lexico:p:projeto|projeto]] [[lexico:e:existencial|existencial]], com isso, que aponte para a reconquista de si a partir da retomada do caráter de poder-ser do [[lexico:e:existir|existir]], a partir da necessidade de ser [[lexico:q:quem|quem]] se é sempre a cada vez na possibilidade finita de ser, não significa aqui outra coisa senão escapar da indecisão na qual existe o ser-aí cotidiano e recuperar o âmbito da [[lexico:d:decisao|decisão]]. [[lexico:h:heidegger|Heidegger]] descreve logo abaixo essa possibilidade por [[lexico:m:meio|meio]] de um recobrar da [[lexico:e:escolha|escolha]] própria. [CasanovaMH1:63-65]