===== NOESIS ===== nóêsis: a [[lexico:o:operacao:start|operação]] do [[lexico:n:nous:start|noûs]], [[lexico:p:pensar:start|pensar]] (como oposto à [[lexico:s:sensacao:start|sensação]]), [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] (como oposto ao [[lexico:r:raciocinio:start|raciocínio]] [[lexico:d:discursivo:start|discursivo]]) 1. Diferenças sutis entre a mera [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] de um [[lexico:o:objeto:start|objeto]] ou objetos, i. e., a sensação ([[lexico:a:aisthesis:start|aisthesis]]) e outra [[lexico:e:especie:start|espécie]] de [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] psíquica que vai [[lexico:a:alem:start|além]] dos [[lexico:d:dados-dos-sentidos:start|dados dos sentidos]] e percebe [[lexico:c:coisas:start|coisas]] menos tangíveis, como semelhanças e diferenças entre os objetos, está já presente em Homero e é identificada com o [[lexico:o:orgao:start|órgão]] [[lexico:c:chamado:start|chamado]] noûs. Com os filósofos a [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] torna-se um [[lexico:p:problema:start|problema]]. [[lexico:h:heraclito:start|Heráclito]] suspeita da falibilidade da sensação para a percepção da verdadeira [[lexico:n:natureza:start|natureza]] das coisas. É incansável na sua [[lexico:a:assercao:start|asserção]] de que «a natureza gosta de ocultar-se» ([[lexico:v:ver:start|ver]] frg. 123 e [[lexico:l:logos:start|Logos]] 1), e esta [[lexico:r:realidade:start|realidade]] oculta está claramente fora do alcance dos homens que confiam demasiado implicitamente nos seus sentidos (frg. 107). Como é que a outra [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] que é capaz de discernir o logos [[lexico:o:oculto:start|oculto]] das coisas podia operar [[lexico:n:nao:start|não]] é imediatamente [[lexico:a:aparente:start|aparente]], embora sejamos informados ([[lexico:s:sexto-empirico:start|Sexto Empírico]], Adv. Math. VII, 129) de que o noûs que está dentro de nós é cictivado pelo seu contato, através dos canais da sensação (aisthetikoi poroi), com o logos [[lexico:d:divino:start|divino]] no [[lexico:u:universo:start|universo]], contato [[lexico:e:esse:start|esse]] que é mantido de [[lexico:m:modo:start|modo]] atenuado pela respiração (ver [[lexico:p:pneuma:start|pneuma]]) durante o sono. Os sentidos, portanto, são obviamente uma espécie de [[lexico:c:condicao:start|condição]] para a noesis, embora não sejam, como é evidente no frg. 107 e seus congêneres, idênticos a ela. 2. [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] observa ([[lexico:d:de-anima:start|De anima]] III, 427a; [[lexico:m:metafisica:start|Metafísica]] 1009b) que os [[lexico:p:pre-socraticos:start|pré-socráticos]] não fizeram geralmente [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre a noesis e a aisthesis. É fácil de [[lexico:c:compreender:start|compreender]] por que é que ele assim pensou visto que todos eles tentaram [[lexico:e:explicar:start|explicar]] as operações da [[lexico:p:psyche:start|psyche]] em termos puramente físicos, procedimento que, de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com Aristóteles (loc. cit.), não pode explicar o [[lexico:e:erro:start|erro]] ([[lexico:p:pseudos:start|pseudos]]) uma vez que o [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] pode conhecer o semelhante (ver [[lexico:h:homoios:start|homoios]], aisthesis). De um certo [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista isto é [[lexico:v:verdade:start|verdade]]; mas é igualmente verdade que desde o ataque de [[lexico:p:parmenides:start|Parmênides]] à percepção [[lexico:s:sensivel:start|sensível]] em termos de [[lexico:i:instabilidade:start|instabilidade]] do seu objeto (ver on 1, [[lexico:e:episteme:start|episteme]] 2) se tornou uma [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] epistemológica distinguir entre os perigos óbvios da aisthesis e um «[[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]]» mais ou menos [[lexico:i:independente:start|independente]] dos sentidos. 3. Estas tentativas podem ver-se nas dúvidas de [[lexico:e:empedocles:start|Empédocles]] sobre a confiança na nossa percepção sensível e na necessidade de auxílio divino (Sexto [[lexico:e:empirico:start|Empírico]], Adv. Math. VII, 122-14). Mas as limitações da sensação aqui parecem [[lexico:s:ser:start|ser]] devidas mais ao mau [[lexico:u:uso:start|uso]] que delas fazemos do que a qualquer fraqueza inerente às mesmas (frg. 3, versos 9-13). Quando passa a explicar a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] do erro (chamado a [[lexico:i:ignorancia:start|ignorância]] e oposto a [[lexico:p:phronesis:start|phronesis]]; [[lexico:t:teofrasto:start|Teofrasto]], De sens. 9), Empédocles recorre a uma [[lexico:e:explicacao:start|explicação]] mecanicista de como os efluxos ([[lexico:a:aporrhoai:start|aporrhoai]]; ver aisthesis 7) de um objeto dos sentidos são apenas simétricos com os poros do seu órgão [[lexico:a:adequado:start|adequado]] dos sentidos, e assim não pode ser julgado pelos outros (Teofrasto, op. cit. 7). Se o [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] é para Empédocles qualquer [[lexico:c:coisa:start|coisa]] ele é um [[lexico:t:tipo:start|tipo]] especial de sensação que ocorre no [[lexico:s:sangue:start|sangue]] em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] dele ser uma [[lexico:m:mistura:start|mistura]] perfeita de todos os stoidieia (ibid. 9). 4. É um pouco mais surpreendente encontrar [[lexico:a:anaxagoras:start|Anaxágoras]], o eminente preconizador do noûs, no catálogo aristotélico dos que não conseguiram distinguir a sensação do pensamento. Nos fragmentos encontramos de [[lexico:f:fato:start|fato]] as afirmações habituais que lançam dúvidas sobre a sensação (v. g. frg. 21), mas não há nenhuma explicação da noesis. Na verdade, o noûs não parece ser de modo algum um [[lexico:p:principio:start|princípio]] cosmológico. Inicia o [[lexico:m:movimento:start|movimento]] (e nisto tem óbvias afinidades com a [[lexico:a:alma:start|alma]]; ver psyche 1, 7, e passim) e guia e governa tudo (frg. 12). O que Anaxágoras obviamente oferece é a [[lexico:p:presenca:start|presença]] de um certo princípio inteligente e por isso com [[lexico:f:finalidade:start|finalidade]] no universo. Mas parece que o noûs é também um princípio [[lexico:i:imanente:start|imanente]] e somos informados de que não está presente em tudo (frg. 11). Alcméon de Crotona, que tinha já lucidamente distinguido a phronesis da aisthesis, sustentou que aquela era [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] apenas dos homens (Teofrasto, De sens. 25), mas não fazemos qualquer [[lexico:i:ideia:start|ideia]] da [[lexico:e:extensao:start|extensão]] do noûs imanente em Anaxágoras. Provavelmente cobria o mesmo [[lexico:c:campo:start|campo]] que a psyche, i. e., [[lexico:t:todo:start|todo]] o [[lexico:m:mundo:start|mundo]] animado. 5. Para Diógenes de Apolónia, que também se debruçou sobre o problema, o [[lexico:a:aer:start|aer]] — a [[lexico:a:arche:start|arche]] inteligente e divina — é [[lexico:c:continuo:start|contínuo]] e está presente em todas as coisas que existem (frg. 5), mas presente em graus variados. O [[lexico:g:grau:start|grau]] baseia-se na secura e no calor do [[lexico:a:ar:start|ar]], distinções de textura que explicam progressivamente atos cognitivos superiores (Teofrasto, op. cit. 40-43). Deste modo são explicados a [[lexico:a:ausencia:start|ausência]] completa das [[lexico:a:atividades:start|atividades]] cognitivas nas plantas e o grau relativamente [[lexico:s:superior:start|superior]] da phronesis no [[lexico:h:homem:start|homem]], quando comparado aos outros animais (ibid. 44). 6. As teorias dos [[lexico:a:atomistas:start|atomistas]] sobre as [[lexico:q:qualidades-sensiveis:start|qualidades sensíveis]] (ver aisthesis 11, [[lexico:p:pathos:start|pathos]] 4) exigiam aperfeiçoamentos nas [[lexico:f:faculdades:start|faculdades]] cognitivas. Muitas das qualidades assim chamadas são impressões puramente subjetivas e a verdadeira natureza do atonion não é visível à vista. Daqui tira [[lexico:d:democrito:start|Demócrito]] a distinção (frg. 11) entre um conhecimento genuíno e um conhecimento sofisticado; este é a sensação e aquele, possivelmente (o [[lexico:t:texto:start|texto]] interrompe-se), a [[lexico:r:razao:start|razão]], operação do logikon que se localiza no peito (Aécio IV, 4, 6; ver [[lexico:k:kardia:start|kardia]] 2 e psyche 7), Mas se [[lexico:b:bem:start|Bem]] que a phronesis e a aisthesis tenham objetos diferentes e sedes diferentes, os mecanismos da sua operação são os mesmos (Aécio IV, 8, 5; IV, 8, 10). 7. Para recapitular a [[lexico:a:atitude:start|atitude]] pré-socrática: havia sólidas bases epistemológicas para fazer uma distinção em espécie entre o pensamento (noesis, phronesis; no contexto epistemológico, episteme) e a sensação (aisthesis; no contexto epistemológico [[lexico:d:doxa:start|doxa]]) e, na verdade, a [[lexico:d:diferenciacao:start|diferenciação]] pôde ser especificada quando se passou a atribuir-lhes diferentes localizações no [[lexico:c:corpo:start|corpo]] (aisthesis ligada aos órgãos dos sentidos; a faculdade superior numa [[lexico:l:localizacao:start|localização]] central, embora nem sempre distinta da [[lexico:n:nocao:start|noção]] mais genérica da psyche; ver kardia). Mas as operações desta faculdade superior podiam distinguir-se das da sensação somente em grau, v. g. mais delicadas ou mais quentes na composição. 8. [[lexico:p:platao:start|Platão]], aderindo firmemente à [[lexico:e:epistemologia:start|epistemologia]] parmenidiana (ver episteme 2), tem, além disso, uma nova concepção espiritualizada da alma que, embora originariamente postulada em bases religiosas (ver psyche 13), está incorporada na [[lexico:t:teoria:start|teoria]] platônica do conhecimento (ibid. 14). É esta alma pura e unitária do [[lexico:f:fedon:start|Fédon]] que se torna o correlato epistemológico dos eide e, sendo absolutamente diferente em espécie do corpo, pode desempenhar todas as atividades cognitivas que os filósofos pós-parmenidianos associaram ao noûs mas foram incapazes de explicar ao nível da [[lexico:s:substancia:start|substância]]. Mas o problema é no entanto consideravelmente mais [[lexico:c:complexo:start|complexo]] ainda. No [[lexico:p:proprio:start|próprio]] Fédon a alma é a arche de toda a [[lexico:a:atividade:start|atividade]] cognitiva: a sensação é a percepção pela alma através do corpo; a phronesis é uma operação da alma apenas (Fédon, 79d; ver aisthesis 15-16). 9. No Fédon a distinção entre as duas operações é amplamente conduzida em termos dos objetos conhecidos; na [[lexico:r:republica:start|República]] reaparece, de uma [[lexico:f:forma:start|forma]] muito mais complexa, também baseada nas operações internas da alma. Esta é [[lexico:a:agora:start|agora]] dividida em três partes (ver psyche 15) e a [[lexico:p:parte:start|parte]] superior, o [[lexico:l:logistikon:start|logistikon]] (ibid. 16), é responsável pela atividade [[lexico:n:noetica:start|noética]]. Mas a [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]] é aqui muito mais sofisticada, e no Diagrama da Linha na Republica VI a atividade noética é explicada com certo pormenor. A distinção previamente traçada (Republica IV, 476a-480a) entre a episteme e a doxa é aqui mantida. Mas descobrimos que há mais do que um tipo de episteme. A parte superior da linha que representava o conhecimento dos noeta (ibid. 509e) é ainda subdividida naquilo que Platão chama noesis e [[lexico:d:dianoia:start|dianoia]] (ibid. 511d). 10. Estas duas operações do logistikon têm sido muito debatidas; uma [[lexico:e:escola:start|escola]] de pensamento vê a dianoia como aquela atividade do [[lexico:e:espirito:start|espírito]] que tem como seu objeto os «matemáticos», enquanto os objetos da noesis são os eide (ver [[lexico:m:mathematika:start|mathematika]] 2); a outra escola vê a dianoia como o raciocínio discursivo em [[lexico:g:geral:start|geral]] e a noesis como a imediata [[lexico:i:intuicao-intelectual:start|intuição intelectual]], de modo muito semelhante àquele como Aristóteles (ver Anal. post. II, 100b; [[lexico:e:epagoge:start|epagoge]] 3) e [[lexico:p:plotino:start|Plotino]] (ver 18-19 infra) distinguiram entre [[lexico:l:logismos:start|logismos]] e noûs. [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] claro contudo é que o [[lexico:m:metodo:start|método]] da noesis é o que Platão conhece como [[lexico:d:dialektike:start|dialektike]] (q. v.; ibid. 511b) e o modo de [[lexico:v:vida:start|vida]] nele baseado é a [[lexico:p:philosophia:start|philosophia]] (q. v., e [[lexico:c:comparar:start|comparar]] phronesis, [[lexico:t:theoria:start|theoria]]). 11. Há certos passos em Platão, de que Aristóteles se faz [[lexico:e:eco:start|Eco]], que dão algo mais da [[lexico:v:visao:start|visão]] puramente psicológica do funcionamento do [[lexico:p:processo:start|processo]] intelectivo. Ambos procuram fazer derivar episteme da [[lexico:p:palavra:start|palavra]] grega que significa «[[lexico:e:estar:start|estar]] parado em» ou «chegar a uma paragem» (episthamai) e assim explicam a [[lexico:i:inteleccao:start|intelecção]] como uma «chegada a uma paragem» no [[lexico:m:meio:start|meio]] de uma [[lexico:s:serie:start|série]] de impressões dos sentidos, a «fixação» de um [[lexico:c:conceito:start|conceito]] intuitivo (Crát. 437a; Fédon 96b; Anal. post. II, 100a; [[lexico:p:physica:start|Physica]] VII, 247b). Mas esta abordagem psicológica é subjugada por uma avalanche de considerações «físicas». A noesis é uma atividade e assim deve ser localizada nas [[lexico:c:categorias:start|categorias]] gerais da [[lexico:m:mudanca:start|mudança]] e da [[lexico:k:kinesis:start|kinesis]]. Platão [[lexico:f:fala:start|fala]] de [[lexico:r:revolucao:start|revolução]] na [[lexico:a:alma-do-mundo:start|alma do mundo]] ([[lexico:t:timeu:start|Timeu]] 37a) e na parte imortal da alma individual (ibid. 43a). Isto [[lexico:n:nada:start|nada]] deve, evidentemente, à [[lexico:i:introspeccao:start|introspecção]], mas baseia-se nas considerações das revoluções do corpo e do [[lexico:k:kosmos:start|kosmos]] que revelam o movimento da sua própria alma (ibid. 34b) e fornecem um [[lexico:p:paradigma:start|paradigma]] visível e [[lexico:m:moral:start|moral]] para os movimentos da nossa própria alma (ibid. 47b e ver [[lexico:o:ouranos:start|ouranos]] 2-3; para a sensação como movimento, ver ibid. 43c; e para o problema mais vasto do movimento na alma, psyche 19). Para a operação do noûs cósmico em Platão, ver noûs 5-6; [[lexico:k:kinoun:start|kinoun]] 5. 12. O tratamento que Aristóteles faz da noesis, tal como a sua explicação da aisthesis, é conduzido dentro das categorias da [[lexico:p:potencia:start|potência]] ([[lexico:d:dynamis:start|dynamis]]) e do [[lexico:a:ato:start|ato]] ([[lexico:e:energeia:start|energeia]]). O noûs, antes de conhecer, nada é na realidade a não ser potencialmente todas as coisas que é capaz de conhecer: os eide estão presentes nele mas apenas potencialmente (De [[lexico:a:anima:start|anima]] III, 429a). Quando o noûs começa a operar passa de um [[lexico:e:estado:start|Estado]] [[lexico:p:passivo:start|passivo]] para um ativo em virtude de se tornar [[lexico:i:identico:start|idêntico]] ao seu objeto, a forma [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]] (ibid. III, 431a). Há na noesis um paralelo com a aisthesis: tal como a aisthesis extrai as formas sensíveis (eide) dos objetos sensíveis (ver aisthesis 19), também a noesis pensa as formas inteligíveis em imagens sensíveis (phantasiai), e a noesis nunca ocorre sem estas últimas (ibid. III, 431a-b). A noesis pode ser diretamente das [[lexico:e:essencias:start|essências]] (para o papel intuitivo do noûs ver epagoge 3-4 e confrontar Metafísica 1036a), ou pode operar através de juízos (hypolepseis), i. e., pela combinação ([[lexico:s:synthesis:start|synthesis]]) ou [[lexico:s:separacao:start|separação]] ([[lexico:d:diairesis:start|diairesis]]) de [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]], e é só nesta última operação que o erro (pseudos) é [[lexico:p:possivel:start|possível]] (ibid. 430a-b; para a teoria platônica do [[lexico:j:juizo:start|juízo]], ver doxa 4). Para a operação do noûs cósmico em Aristóteles, cf. noûs, kinoun. 13. Os atomistas consideraram a alma, que estava distribuída por todo o corpo (Aristóteles, De An. I, 409; Lucrécio III, 370), como sendo a sede de todas as sensações (para o [[lexico:m:mecanismo:start|mecanismo]] disto, ver aisthesis 22-23). Mas, [[lexico:d:dado:start|dado]] que a alma (psyche) e o espírito (noûs) são substancialmente o mesmo (De anima I, 404a), parecia [[lexico:d:dever:start|dever]] concluir-se que a sensação e o pensamento são idênticos e assim concluiu Aristóteles (Metafísica 1009b; ver Aécio IV, 8, 5; IV, 8, 10). Quanto à sua operação, visto que o noûs nada mais é do que uma espécie de aglutinação (ver [[lexico:h:holon:start|holon]] 10) dos átomos-alma no peito, é [[lexico:r:razoavel:start|razoável]] supor que alguns dos eidola penetram para além dos órgãos dos sentidos de superfície, atingem o interior do peito, e assim ocasionam este tipo superior de percepção (ver Lucrécio IV, 722-731). 14. Mas já vimos que os primeiros atomistas tinham tentado distinguir, pela pureza da sua [[lexico:c:constituicao:start|constituição]] e sua localização, o espírito da alma. Os epicuristas mantiveram e aperfeiçoaram a distinção e esta está especialmente presente na aplicação consistente que Lucrécio faz da anima para psyche e [[lexico:a:animus:start|animus]] para noûs ou dianoia ([[lexico:m:mens:start|mens]] é um pouco estreita de mais na [[lexico:c:conotacao:start|conotação]] da última dado que o animus é a sede da atividade volitiva bem como intelectual; III, 145). Separa nitidamente as duas em III, 396-416 onde argumenta que parte da anima pode ser perdida (v. g., na [[lexico:p:perda:start|perda]] de um membro) e um homem pode ainda sobreviver, mas a perda do animus significa o [[lexico:f:fim:start|fim]] instantâneo do [[lexico:o:organismo:start|organismo]]. 15. Para o epicurista o noûs opera um pouco à maneira dos sentidos. Pode também perceber diretamente os eidola dados pelos corpos mas que não são, neste caso, apreendidos pelos sentidos. É o caso, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], das misturas acidentais dos eidola que dão [[lexico:o:origem:start|origem]] a que se imaginem centauros e quimeras (Lucrécio IV, 129), visões tidas em sonhos (IV, 749-777), e os eidola dos [[lexico:d:deuses:start|deuses]] (IV, 148-149; Cícero, De nat. deor. I, 49). Estas operações são afins do pensamento dos conceitos indivisíveis do noûs aristotélico (De anima III, 430a); há também intelecção componendo et dividendo, i. e., que avalia e julga os dados da sensação. As imagens (phantasiai) em que os eidola se encontram agrupados são passadas para a dianoia ou nons onde se acumulam em «preconceitos» gerais (prolepseis). Estes, por sua vez, servem de [[lexico:m:modelo:start|modelo]] de comparação para os juízos (hypolepseis) acerca das coisas sensíveis individuais (D. L. X, 33). Esta é a zona de [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] em que entra o erro (ver doxa 7; o [[lexico:c:criterio:start|critério]] epicurista da verdade e do erro é discutido na rubrica energeia). Finalmente o espírito é também capaz de entrar no domínio dos imperceptíveis (adela), i. e., para realizar um processo discursivo de raciocínio (logismas, a [[lexico:r:ratio:start|ratio]] de Lucrécio) que lida com entidades não imediatamente perceptíveis aos sentidos, [[lexico:c:classe:start|classe]] que, evidentemente, inclui os próprios atoina (ver D. L. X, 32). 16. A versão estóica da noesis, a operação do [[lexico:h:hegemonikon:start|hegemonikon]], é propriamente a [[lexico:k:katalepsis:start|katalepsis]] ou [[lexico:a:apreensao:start|apreensão]]. O processo começa com uma [[lexico:i:impressao:start|impressão]] ([[lexico:t:typosis:start|typosis]]) nos sentidos que tem como resultado uma [[lexico:i:imagem:start|imagem]] sensível ([[lexico:p:phantasia:start|phantasia]]; ver aisthesis 24-25) Estas são levadas, via pneuma, para o hegemonikon onde ela é primeiro admitida ([[lexico:s:synkatathesis:start|synkatathesis]], adsensio) e é assim apreendida (katalepsis; Cícero, Acad, post. I, 40-42). Deste modo o que era uma imagem sensível (phantasia) torna-se uma imagem inteligível ou conceito ([[lexico:e:ennoia:start|ennoia]]). Nos primeiros anos este é quase um processo [[lexico:i:inconsciente:start|Inconsciente]] e a criança forma vários «preconceitos» ([[lexico:p:prolepsis:start|prolepsis]]) sob cuja [[lexico:i:influencia:start|influência]] o hegemonikon amadurece até ao ponto em que é capaz de [[lexico:c:criar:start|criar]] os seus próprios ennoiai conscientes (SVF II, 83; segundo o mesmo texto, a operação completa do hegemonikon começa aos sete anos de idade ou, pelo menos, entre os sete e os catorze, juízo não baseado na [[lexico:o:observacao:start|observação]] do [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]] [[lexico:r:racional:start|racional]] dos adolescentes mas no [[lexico:c:comeco:start|começo]] da puberdade e na primeira produção de esperma; ver SVF II, 764, 785). Tal como no [[lexico:e:epicurismo:start|epicurismo]], a noesis não é só dos aistheta mas alcança livremente uma vasta [[lexico:a:area:start|área]] de pensamento, criando os seus próprios ennoiai pelo recurso aos [[lexico:p:principios:start|princípios]] da [[lexico:s:similaridade:start|similaridade]], [[lexico:a:analogia:start|analogia]], [[lexico:p:privacao:start|privação]], [[lexico:o:oposicao:start|oposição]], etc. (SVF II, 87). Sobre a primeira prolepsis estóica do bem e do [[lexico:m:mal:start|mal]], ver [[lexico:o:oikeiosis:start|oikeiosis]]. 17. Esta teoria não persistiu completamente intacta. Crisipo fez algumas revisões importantes que tiveram como resultado a reunificação da psyche sob a égide do hegemonikon de tal modo que mesmo os pathe se tornaram juízos intelectuais (kriseis; SVF III, 461) e, em oposição direta à visão platônica da [[lexico:a:alma-tripartida:start|alma tripartida]], a atividade volitiva foi subsumida à intelectual (SVF II, 823; ver aisthesis 25, pathos 12). A isto seguiu-se uma forte [[lexico:r:reacao:start|reação]] platonizante com [[lexico:p:posidonio:start|Posidônio]] que se opôs a Crisipo sobre a natureza intelectual dos pathe e restabeleceu a [[lexico:d:divisao:start|divisão]] platônica da alma (Galeno, Placita Hipp. et Plat. 448, 450). Posteriormente assiste-se ainda a uma distinção mais acentuada entre a psyche e o noûs (particularmente aparente em [[lexico:m:marco-aurelio:start|Marco Aurélio]] III, 16; XII, 3) com ênfase na natureza divina e imortal ao noûs aposto às outras partes da alma (ver [[lexico:s:sympatheia:start|sympatheia]] 5), e, devido à presença deste [[lexico:d:daimon:start|daimon]] nela (assim Galeno, op. cit. 448; Plutarco, De [[lexico:g:genio:start|gênio]] Socr. 591c-f; inspiração platônica no Timeu 90a e ver daimon), um novo [[lexico:i:interesse:start|interesse]] pela [[lexico:p:posicao:start|posição]] média da alma (ver psyche 29). 18. O [[lexico:p:platonismo:start|platonismo]] médio concentrou a sua [[lexico:a:atencao:start|atenção]] nos aspectos cósmicos do noûs e é só com Plotino que temos qualquer contribuição significativa para o funcionamento do noûs imanente. Como Platão e Aristóteles, Plotino distingue dois tipos de atividade intelectual, uma [[lexico:i:intuitiva:start|intuitiva]] e outra discursiva. A primeira, a noesis, é, em primeira [[lexico:i:instancia:start|instância]], a vida e a energeia do noûs cósmico hipostasiado. Não é todavia uma atividade do [[lexico:u:uno:start|uno]], dado que, para Plotino, mesmo um ato tão auto-integrado como a noesis evidencia [[lexico:d:dualidade:start|dualidade]] e assim é anátema para o Uno ([[lexico:e:eneadas:start|Eneadas]] VI, 6, 3, com uma [[lexico:r:referencia:start|referência]] passageira aos comentários de Platão no Soph. 254d e no Pannénides 146a sobre o papel de «O [[lexico:o:outro:start|outro]]» ([[lexico:h:heteron:start|heteron]]) no ser e portanto na intelecção). Que necessidade, [[lexico:p:pergunta:start|pergunta]] Plotino (VI, 7, 4), teria o olho de ver algo se ele próprio fosse a [[lexico:l:luz:start|luz]]? 19. Assim, a noesis na sua forma genuína é uma [[lexico:u:unidade:start|unidade]] do [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] e do objeto que, embora difiram apenas logicamente, constituem uma [[lexico:p:pluralidade:start|pluralidade]] ([[lexico:p:plethos:start|plethos]]). É caracteristicamente interiorizada: os noeta que são os objetos da noesis estão no noûs que os conhece (VI, 2, 21). A noesis, que é a vida do noûs, lança a sua imagem ([[lexico:e:eikon:start|eikon]]) sob a forma de uma energeia na [[lexico:h:hypostasis:start|hypostasis]] inferior da alma. Isto é o logismos ou raciocínio discursivo, operação que, ao contrário da noesis imediata e interiorizada, abrange os phantasmata dos objetos fora dela, que lhe são oferecidos pela sensação, e faz juízos (kriseis) a eles respeitantes invocando regras (kanones) transmitidas pelo noûs (V, 3, 4), ou, como ele põe a [[lexico:q:questao:start|questão]] algures, por composição e divisão ([[lexico:s:synagoge:start|synagoge]], diairesis: V, 3, 2; ver os antecedentes platônicos destes termos na rubrica dialektike). Aquilo a que ele aqui se refere é um conhecimento dos eide fornecido pelo noûs que os contém e que tornam possíveis os nossos juízos comparativos (cf. V, 1, 11; V, 3, 3; e confrontar Fédon 74a ss.). 20. A alma é capaz de duas atividades: quando «virada para cima» entrega-se à noesis/logismos; quando «para baixo», à aisthesis e à operação das outras faculdades (VI, 2, 22; ver aisthesis 26). A sensação usa um meio, uma imagem ([[lexico:p:phantasma:start|phantasma]]), separado do seu modelo e contudo diferente da coisa em que reside; a noesis é imediata: conhecedor e conhecido confrontam-se diretamente e identificam-se (V, 3, 8). Mas nós não temos a noesis na sua pureza. A noesis é uma visão de unidade; a imagem que dela temos, logismos, trata da pluralidade e quanto mais uma [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] se liberta da composição e divisão que é a nossa [[lexico:i:imitacao:start|imitação]] da noesis e em vez disso se volta para uma autocontemplação, tanto mais se estará a assimilar a si próprio à verdadeira operação do noûs (V, 3, 6). A razão pela qual a alma é forçada a suportar este logismos faz parte da condição geral da sua descida num corpo (ver [[lexico:k:kathodos:start|kathodos]]). É, como a sua [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]] externa, a [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]], uma fraqueza, um indício da [[lexico:p:preocupacao:start|preocupação]] da alma com áreas que lhe não são afins (IV, 3, 18). 21. Neste passo (IV, 3, 18), Plotino faz uso do princípio da atenção (phrontis) para explicar a degeneração da noesis em logismos (confrontar a [[lexico:m:metafora:start|metáfora]] elaborada em IV, 3, 17 onde a preocupação da alma com a [[lexico:m:materia:start|matéria]] é comparada à do capitão de um barco com o seu barco e a sua carga; para a ulterior degeneração do pensamento em atividade, ver [[lexico:p:physis:start|physis]] 5) e recorre a um tipo semelhante de explicação ao confrontar outro problema. Se o noûs é uma faculdade da alma, como explicar a natureza intermitente da noesis no homem comparada ao seu contínuo exercício no princípio superior? Aristóteles enfrentara já o problema e sugerira que enquanto os objetos da noesis estão sempre no espírito, nem sempre são presentes ao espírito; em [[lexico:s:suma:start|suma]], o homem tem de escolher para pensar (De anima II, 417b). Além disso, esta atividade pode durar apenas durante breves períodos no homem, visto que envolve uma passagem da potência ao ato e assim fatiga o pensador (Metafísica 1050b, 1072b; [[lexico:e:ethica-nichomacos:start|Ethica Nichomacos]] 1175a). Para Plotino é uma questão de consciência. O noûs imanente está sempre em operação, mas nós, porque a nossa atenção está voltada para outro lado, nem sempre estamos conscientes disso (iv, 8, 8). Este ponto de vista, baseado como está num [[lexico:d:desejo:start|desejo]] de manter a alma humana perpetuamente ligada através do noûs ao [[lexico:k:kosmos-noetos:start|kosmos noetos]], acha-o [[lexico:p:proclo:start|Proclo]] uma novidade na [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] platônica (In Timeu III, 333-334) e por conseguinte volta à posição de um funcionamento intermitente da noesis na alma «decaída» (Elem. theol, prop, 211; ver kathodos e psyche 35). {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}