===== NOÇÃO DE SER ===== O [[lexico:s:ser|ser]] do qual procuramos precisar a [[lexico:n:nocao|noção]] [[lexico:n:nao|não]] é aquele que se encontra em qualquer nível do [[lexico:p:pensamento|pensamento]], mas somente aquele ao qual o [[lexico:e:espirito|espírito]] se eleva por este esfôrço de [[lexico:s:separacao|separação]] absoluta que caracteriza a [[lexico:a:abstracao-metafisica|abstração metafísica]], isto é, o ser apreendido formalmente como ser, ou o [[lexico:s:ser-enquanto-ser|ser enquanto ser]]. É, com [[lexico:e:efeito|efeito]], extremamente importante dar-se conta de que só um esfôrço de [[lexico:p:purificacao|purificação]] intelectual longamente praticado permite ao espírito atingir este nível. Espontaneamente, a [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] volta-se de início para as realidades do [[lexico:m:mundo|mundo]] [[lexico:s:sensivel|sensível]] e necessariamente, como o dissemos, ela os concebe como seres. Mas o ser que assim afirmo destas [[lexico:c:coisas|coisas]] não é um ser [[lexico:a:abstrato|abstrato]], é o ser particularizado de cada uma delas. Trata-se de um [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] [[lexico:a:atual|atual]], apreendo o ser efetivamente, mas com um conhecimento confuso, pois não o afasto suficientemente dos sujeitos em que está implicado. Esta [[lexico:e:experiencia|experiência]] diversificada do ser que penetra [[lexico:t:todo|todo]] o nosso pensamento habitual e que se encontra no [[lexico:f:fundamento|fundamento]] mesmo das ciências está em um nível infra-filosófico Sem atingir ainda o nível metafísico, parece que posso desde aí elevar-me a uma certa universalidade em minha [[lexico:p:percepcao|percepção]] do ser. Se, com efeito, através de generalizações progressivas, envolvo os objetos de minha experiência em [[lexico:i:ideias|ideias]] cada vez mais [[lexico:u:universais|universais]], seguindo, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], as gradações da [[lexico:a:arvore-de-porfirio|árvore de Porfírio]]: homem-animal-ser-vivo-corpo-substância. . . ao [[lexico:t:termo|termo]] desta ascensão rumo a ideias sempre mais extensivas, atingirei finalmente a [[lexico:n:nocao-de-ser|noção de ser]], a mais [[lexico:u:universal|universal]] de todas O [[lexico:p:processo|processo]] que terei posto em execução será aquele da [[lexico:a:abstracao|abstração]] total, ou de um todo [[lexico:l:logico|lógico]] dos seus inferiores. A noção que assim obterei é, ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] que a mais universal, a menos determinada de todas, uma vez que contém virtualmente todas as diferenças, multiplicadas ao [[lexico:i:infinito|infinito]], da variedade dos seres. Esta noção comum do ser, que confundimos, às vezes, com o [[lexico:c:conceito|conceito]] [[lexico:f:formal|formal]] de que iremos [[lexico:f:falar|falar]], corresponde já, por sua universalidade, a uma certa [[lexico:r:reflexao|reflexão]] filosófica, mas que permanece ainda no [[lexico:p:plano|plano]] das elaborações do [[lexico:s:senso-comum|senso comum]]. É preciso um novo esfôrço de abstração ou de purificação para se elevar ao plano da [[lexico:a:apreensao|apreensão]] ou da [[lexico:i:intuicao|intuição]] [[lexico:m:metafisica-do-ser|metafísica do ser]] enquanto ser. Qual é, pois, o conteúdo ou a [[lexico:s:significacao|significação]] desta noção primeira da qual acabamos de indicar o longo processo de [[lexico:f:formacao|formação]] no espírito [[lexico:h:humano|humano]]? Fixemos nosso [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida na [[lexico:a:analise|análise]] da [[lexico:l:linguagem|linguagem]]. O infinitivo francês "être" pretende traduzir o particípio substantivo [[lexico:g:grego|grego]] "to on" ou o particípio latino "eris". Seria mais [[lexico:e:exato|exato]] dizer "o [[lexico:e:ente|ente]]"; ou de [[lexico:m:modo|modo]] mais preciso ainda "[[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]] que é". Esta [[lexico:t:transposicao|transposição]] tem a [[lexico:v:vantagem|vantagem]] de [[lexico:p:por|pôr]] melhor em [[lexico:e:evidencia|evidência]] dois aspectos na noção de ser: um [[lexico:a:aspecto|aspecto]] do [[lexico:s:sujeito|sujeito]] [[lexico:r:receptor|receptor]], "a alguma [[lexico:c:coisa|coisa]]", e um aspecto de atuação ou de [[lexico:d:determinacao|determinação]] deste sujeito, "que é". Na [[lexico:t:terminologia|terminologia]] [[lexico:m:metafisica|metafísica]] dir-se-á que o primeiro destes aspectos significa a [[lexico:e:essencia|essência]], essentia, e o segundo a [[lexico:e:existencia|existência]], existentia ou [[lexico:e:esse|esse]]. O ser é alguma coisa que tem por determinação própria ou por [[lexico:a:atualidade|atualidade]] [[lexico:e:existir|existir]]. Observar-se-á que a noção de ser implica necessariamente estes dois aspectos. A essência só se concebe com a sua ordenação à existência, e esta exige ser determinada por uma essência. Pode-se, contudo, no [[lexico:m:momento|momento]] em que se considera o ser, apoiar-se tanto sobre um aspecto como sobre o [[lexico:o:outro|outro]]. Diz-se então que se toma o ser "ut nomen" ou "nominaliter" e "ut participium" ou "verbaliter". No primeiro caso é a essência, a "res", que se encontra posta em evidência: o ser é "isto que existe" sem que, contudo, relembremos ainda uma vez, se possa abstrair totalmente esta ordenação à existência que se encontra implicada na noção. No segundo caso, é a existência que se assinala: o ser é então "o que existe"; a existência é sempre relativa a alguma coisa. Em definitivo, o ser se nos manifesta na sua [[lexico:u:unidade|unidade]] como uma composição dos dois aspectos inseparáveis: [[lexico:e:essencia-e-existencia|essência e existência]], sem que seja ainda precisada, neste nível da reflexão filosófica, a significação exata desta composição. Resta determinar em que [[lexico:s:sentido|sentido]] deve ser tomada a existência que o metafísico considera. O esse que se encontra [[lexico:s:significado|significado]] no [[lexico:e:ens|ens]] in quantum ens é a existência em seu sentido [[lexico:i:imediato|imediato]] de existência efetiva atual: o que se designa pela [[lexico:e:expressao|expressão]] de ens actuale; mas [[lexico:o:o-que-e|o que é]] suscetível de tomar [[lexico:l:lugar|lugar]] neste mundo da existência concreta, o [[lexico:p:possivel|possível]], ens possibile, deve também ser compreendido na significação do ser enquanto ser. Tudo, portanto, que foi, é, será ou poderá efetivamente ser, sob não importa que modo; mesmo o que se refere a esta [[lexico:o:ordem|ordem]] concreta a título de [[lexico:n:negacao|negação]] ou de [[lexico:p:privacao|privação]] se vê assim envolvido no [[lexico:o:objeto|objeto]] da metafísica. Contudo, existe uma [[lexico:m:modalidade|modalidade]] especial de ser, já encontrada na [[lexico:l:logica|lógica]], o ser de [[lexico:r:razao|razão]], [[lexico:e:ens-rationis|ens rationis]], que deve ser excluído da metafísica. O [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] ser de razão tem, com efeito, um fundamento na [[lexico:r:realidade|realidade]], mas é da sua [[lexico:n:natureza|natureza]], não poder existir como tal, senão no espírito que o concebe. Tal ser não pertence, pois, ao mundo da existência concreta, atual ou possível, que o metafísico considera. São as precisões que podemos figurar no quadro seguinte: ens: ens rationis, ens [[lexico:r:reale|Reale]] ens reale: ens actuale, ens possibile ens possibile: objectum methaphysicae As distinções que acabamos de fazer com [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]] correspondem já, é preciso convir, a uma tomada de [[lexico:p:posicao|posição]] decisiva no que concerne à [[lexico:o:orientacao|orientação]] de toda a metafísica. Como o veremos melhor em seguida, esta [[lexico:c:ciencia|ciência]] atinge, em [[lexico:p:particular|particular]], a determinação exata do sentido da noção formal de ser ao preço de inúmeras apalpadelas, e não foi sempre que conseguiu guardar a pureza de suas perspectivas. Enquanto o pensamento contemporâneo parece sobretudo sensível ao aspecto [[lexico:c:concreto|concreto]], [[lexico:e:existencial|existencial]] da percepção, os filósofos das épocas precedentes tiveram por seu lado a tentação, colocando a existência como que entre [[lexico:p:parenteses|parênteses]], de considerar principalmente o ser como uma natureza ou como uma essência. Para Tomás de Aquino, teremos frequentemente a [[lexico:o:ocasiao|ocasião]] de repeti-lo, o ser implica sempre necessariamente este aspecto [[lexico:c:complexo|complexo]] de uma essência que atua, como sua [[lexico:p:perfeicao|perfeição]] última, uma existência.