===== NECESSÁRIO ===== (gr. anankaios; lat. necessarius; in. Necessary; fr. Nécessaire; al. Notwendig; it. Necessário). O que [[lexico:n:nao:start|não]] pode não [[lexico:s:ser:start|ser]]; ou o que não pode ser. Esta é a [[lexico:d:definicao:start|definição]] nominal tradicional que constitui uma das noções mais [[lexico:u:uniforme:start|uniforme]] e firmemente estabelecidas na [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] filosófica. Segundo essa definição, "o que não pode ser" é o [[lexico:i:impossivel:start|impossível]], que é o contrário oposto de necessário, sendo também necessário, assim como o preto, que é a cor oposta do branco, também é cor. O contraditório do necessário, o não-necessário, é a outra [[lexico:m:modalidade:start|modalidade]] fundamental, o [[lexico:p:possivel:start|possível]]. As discussões lógicas contemporâneas sobre o necessário, quando não equivalem à [[lexico:n:negacao:start|negação]] expressa ou implícita dessa [[lexico:n:nocao:start|noção]], [[lexico:n:nada:start|nada]] mais são que a reapresentação dessa definição em termos de [[lexico:c:convencionalismo:start|convencionalismo]] [[lexico:m:moderno:start|moderno]]. O primeiro a fazer uma [[lexico:a:analise:start|análise]] exaustiva de "necessário" foi [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]]. Ele distinguiu: a) o necessário como [[lexico:c:condicao:start|condição]] ou concausa, em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] do que se diz, p. ex., que o alimento é necessário à [[lexico:v:vida:start|vida]] ou o remédio é necessário à saúde, ou que ir a certo [[lexico:l:lugar:start|lugar]] é necessário para receber certa quantia; ti) o necessário como [[lexico:f:forca:start|força]] ou [[lexico:c:coacao:start|coação]], em virtude do que se diz que é necessário o que impede ou obsta à [[lexico:a:acao:start|ação]] de um [[lexico:i:instinto:start|instinto]] ou uma [[lexico:e:escolha:start|escolha]]; c) o necessário como o que não pode ser de outra [[lexico:f:forma:start|forma]], que é o [[lexico:s:sentido:start|sentido]] fundamental do [[lexico:c:conceito:start|conceito]]. De [[lexico:f:fato:start|fato]], segundo Aristóteles, os outros sentidos podem ser reduzidos a [[lexico:e:esse:start|esse]]: "Diz-se que é necessário aquilo a que somos coagidos quando uma força qualquer nos obriga a fazer ou a sofrer [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]] que é contra o instinto, de tal [[lexico:m:modo:start|modo]] que a [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] consiste, neste caso, em não poder fazer ou sofrer de outra forma. O mesmo vale para as condições da vida e do [[lexico:b:bem:start|Bem]], pois quando o bem, a vida ou o ser não podem [[lexico:e:existir:start|existir]] sem algumas condições, estas são chamadas de necessárias e diz-se que a [[lexico:c:causa:start|causa]] é a própria necessidade" (Met., V, 5, 1014 b 35). No sentido fundamental, as demonstrações são necessárias porque não podem concluir de outra forma, e não podem concluir de outra forma porque as premissas não podem ser diferentes do que são (Ibid., 1015 b 7). O [[lexico:s:significado:start|significado]] à) de necessário é [[lexico:d:designado:start|designado]] por Aristóteles como necessidade hipotética: é a necessidade que se encontra nas [[lexico:c:coisas:start|coisas]] naturais, mais precisamente na [[lexico:m:materia:start|matéria]] delas, porquanto constitui a condição delas (Fís., II, 9, 200 a 30, ‘); De somno, 455 b 26; De part. an., 639 b 24, 642 a 9). Já [[lexico:p:platao:start|Platão]] havia admitido essa [[lexico:e:especie:start|espécie]] de necessidade, julgando-a um dos constituintes do [[lexico:m:mundo:start|mundo]] (juntamente com a [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]]) e identificando-a com a matéria (Tini., 47 d ss.). Finalmente, Aristóteles distingue [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] necessário em virtude de uma causa externa e aquilo que é [[lexico:p:por-si:start|por si]] [[lexico:p:proprio:start|próprio]] a causa da necessidade. As coisas [[lexico:s:simples:start|simples]] são necessárias neste segundo sentido e portanto o são de modo [[lexico:p:primario:start|primário]] e eminente (Ibid., 1015 b 10). Mas o conceito da necessidade é sempre o mesmo. Estas concepções quase não mudaram ao longo da [[lexico:h:historia-da-filosofia:start|história da filosofia]]. Os estoicos definiram a necessidade tendo em [[lexico:m:mente:start|mente]] enunciados verbais mais que condições de fato; por isso, chamaram de necessário "aquilo que é [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] e não pode revelar-se [[lexico:f:falso:start|falso]]" (Diógenes Laércio, VII, 1, 75), onde "não poder revelar-se falso" significa não poder ser diferente. Tampouco as distinções estabelecidas por [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]] de Aquino mudam o conceito do necessário, conforme a [[lexico:d:divisao:start|divisão]] aristotélica das [[lexico:q:quatro:start|Quatro]] [[lexico:c:causas:start|causas]]. Tomás de Aquino de Aquino enumera: a) necessidade material (ou ex principio [[lexico:i:intrinseco:start|intrínseco]]), no sentido em que se diz que "é necessário que tudo o que é [[lexico:c:composto:start|composto]] por contrários se corrompa"; b) necessidade [[lexico:f:formal:start|formal]], que é [[lexico:n:natural:start|natural]] e absoluta, segundo a qual se diz que "é necessário que um [[lexico:t:triangulo:start|triângulo]] tenha os três ângulos iguais a dois retos"; c) necessidade final ou [[lexico:u:utilidade:start|utilidade]], segundo a qual se diz que o alimento é necessário à vida ou um cavalo é necessário à viagem; d) necessidade eficiente, ou necessidade de coação, segundo a qual somos coagidos por uma causa eficiente de tal modo que não se pode agir de [[lexico:o:outro:start|outro]] modo. Em todos os casos, para Tomás de Aquino de Aquino necessário é "aquilo que não pode não ser" (S. Th., I, q. 82, a. 1, I; De [[lexico:v:ver:start|ver]]., q. 22, a. 5). Está claro que essa [[lexico:d:distincao:start|distinção]] reproduz a aristotélica. A necessidade material e a final são a necessidade hipotética de Aristóteles; a necessidade por coação tem o mesmo [[lexico:n:nome:start|nome]] em Aristóteles, e tanto para Tomás de Aquino de Aquino quanto para Aristóteles a necessidade "natural e absoluta" é o significado fundamental da necessidade. Essas distinções, às vezes indicadas com outros nomes, não mudaram durante muito [[lexico:t:tempo:start|tempo]] na [[lexico:h:historia:start|história]] da [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]]. Os escolásticos repetem-nas sem alterações, assim como repetem, mesmo acreditando pouco, o significado fundamental de necessário como aquilo que não pode ser de outra forma (cf., p. ex., João de Salisbury, Metalogicus, II, 13). [[lexico:a:avicena:start|Avicena]], a [[lexico:q:quem:start|quem]] se deve a prevalência do conceito de necessidade em [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] e em [[lexico:t:teologia:start|teologia]], tanto na [[lexico:e:escolastica:start|escolástica]] árabe quanto na cristã, partira da distinção aristotélica (Met., V, 5, 1015 b 10, já cit.) entre o que é necessário para si e o que é necessário para outra [[lexico:c:coisa:start|coisa]] (Met., II, 1, 2): distinção que fundamenta a doutrina de [[lexico:s:spinoza:start|Spinoza]] (Et., I, 33, schol. 1) e foi repetida inúmeras vezes a partir daí. As primeiras novidades conceptuais nessa história uniforme são a definição da necessidade [[lexico:l:logica:start|lógica]] e a introdução do conceito de necessidade [[lexico:m:moral:start|moral]] por [[lexico:p:parte:start|parte]] de [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]], que distinguiu: a) a necessidade geométrica, que pertence às [[lexico:v:verdades-eternas:start|verdades eternas]] e "cujo oposto implica [[lexico:c:contradicao:start|contradição]]"; b) a necessidade [[lexico:f:fisica:start|física]], que constitui "a [[lexico:o:ordem:start|ordem]] da [[lexico:n:natureza:start|natureza]] e consiste nas regras do [[lexico:m:movimento:start|movimento]] e em alguma outra [[lexico:l:lei:start|lei]] [[lexico:g:geral:start|geral]] que aprouve a [[lexico:d:deus:start|Deus]] dar às coisas ao criá-las"; c) a necessidade moral, que é "a escolha do [[lexico:s:sabio:start|sábio]] por ser digna de sua [[lexico:s:sabedoria:start|sabedoria]]", ou seja, a escolha do "melhor" (Théod., Disc., § 2). A necessidade física baseia-se na necessidade moral (foi Deus quem escolheu as leis da natureza que constituem a necessidade física e sua escolha foi ditada pelo fato de que eram as melhores possíveis); as necessidades física e moral são chamadas por Leibniz de hipotéticas; segundo ele, estas nada têm a ver com a necessidade absoluta, que. é a [[lexico:i:impossibilidade:start|impossibilidade]] do contrário (Nouv. ess., II, 21,13). Leibniz utiliza essa distinção para defender a [[lexico:l:liberdade-de-deus:start|liberdade de Deus]] e a do [[lexico:h:homem:start|homem]], ao mesmo tempo em que põe a salvo a infalibilidade da [[lexico:p:previsao:start|previsão]] divina: "A [[lexico:v:verdade:start|verdade]] de que amanhã escreverei não é absolutamente necessária. Mas, supondo-se que Deus a preveja, é necessário que ela se verifique, ou seja, é necessária a [[lexico:c:consequencia:start|consequência]] de que ela se realize desde que foi prevista, já que Deus é infalível: isso é o que se chama de necessidade hipotética" (Théod., I, § 37; cf. Disc. de mét., 13). A [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] entre essa doutrina de Leibniz e a tradicional é que esta última considerava uma espécie de necessidade, integrante do significado fundamental do [[lexico:t:termo:start|termo]], aquilo que Leibniz considera como [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] e escolha: a necessidade hipotética. Em outras [[lexico:p:palavras:start|palavras]], Leibniz restringiu o significado de necessidade ao que Aristóteles e a tradição aristotélica consideravam como necessidade "primária", "absoluta" ou "natural", dando-lhe o nome de "geométrica" ou "metafísica". A definição leibniziana dessa necessidade como "aquilo cujo oposto é impossível", ou "aquilo cujo oposto é contraditório", serve para limitar sua [[lexico:e:extensao:start|extensão]] apenas às verdades matemáticas e a um restrito [[lexico:n:numero:start|número]] de verdades metafísicas. Esse é o resultado importante e duradouro da introdução do conceito de necessidade moral por parte de Leibniz. Quanto a esse conceito, a partir do [[lexico:m:momento:start|momento]] que exclui a necessidade e é a própria definição da [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] livre, pode-se objetar a impropriedade do nome: ele não é "necessidade". No entanto, foi como [[lexico:t:tipo:start|tipo]] ou espécie de necessidade que ingressou na filosofia do séc. XVIII, juntamente com a distinção das formas do necessário proposta por Leibniz. [[lexico:w:wolff:start|Wolff]] reelaborou esta distinção, distinguindo: a) o absolutamente necessário, que é "aquilo cujo oposto é impossível ou implica contradição" (Ont., § 279); b) o hipoteticamente necessário, que é "aquilo cujo oposto implica contradição ou é impossível só em dada [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]] ou em determinada condição" (Ont., § 302); c) o moralmente necessário, que é "aquilo cujo oposto é moralmente impossível" (Phil. pratica, I, § 115). A diferença entre o absolutamente necessário e o hipoteticamente necessário é que o primeiro exclui a [[lexico:c:contingencia:start|contingência]] e o segundo não (Ibid., §§ 317-18). Ao contrário de Leibniz, Wolff não reduz a necessidade hipotética à necessidade moral, ou seja, à liberdade, mas identifica-a com a necessidade regida pelo [[lexico:p:principio-de-razao-suficiente:start|princípio de razão suficiente]], ou seja, com a [[lexico:c:causalidade:start|causalidade]] (Ibid., §§ 320 ss.). O próprio Wolff afirma que essa sua doutrina da necessidade é idêntica à tradicional, em [[lexico:p:particular:start|particular]] à de Tomás de Aquino de Aquino (Ibid., § 327), com a definição do necessário como aquilo que não pode ser de outra forma; e certamente o é, salvo no que se refere ao [[lexico:r:reconhecimento:start|reconhecimento]] da necessidade moral. Essa doutrina é simplesmente reproduzida por [[lexico:k:kant:start|Kant]], que também faz a distinção entre "necessidade material na [[lexico:e:existencia:start|existência]]", que consiste na conexão causal, e necessidade "formal e lógica na conexão dos [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]]" (Crít. R. Pura, Anal, II, cap. II, seção 3, Postulados do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] [[lexico:e:empirico:start|empírico]]); distingue ainda dessas duas espécies de necessidade a "necessidade moral", como coação ou [[lexico:o:obrigacao:start|obrigação]], que é o [[lexico:d:dever:start|dever]] (Crít. R. Prática, I, livro I, cap. III; trad. it., p. 96). A necessidade material é a necessidade [[lexico:r:real:start|real]] ou hipotética. Kant diz: "Tudo o que acontece é hipoteticamente necessário; esse é um [[lexico:p:principio:start|princípio]] que subordina a [[lexico:t:transformacao:start|transformação]] no mundo a uma lei, a uma [[lexico:r:regra:start|regra]] da existência necessária, sem a qual a natureza não existiria" (Crít. R. Pura, 1. c). Na [[lexico:r:realidade:start|realidade]], para Kant a conexão causal é "hipotética", porque a considera aberta nos dois lados e não acha legítimo considerá-la fechada como [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] ou [[lexico:s:serie:start|série]] absoluta. Obviamente, se isso acontecesse, a necessidade hipotética tomar-se-ia necessidade absoluta ou geométrica. [[lexico:s:schopenhauer:start|Schopenhauer]], por sua vez, achava que a necessidade não tinha outro sentido [[lexico:a:alem:start|além]] de "inevitabilidade do [[lexico:e:efeito:start|efeito]] quando a causa foi posta", considerando até contraditório [[lexico:f:falar:start|falar]] de um ser "absolutamente necessário", ou seja, "necessário sem condições" (Über die vierfache Wurzel des Satzes vom zureichenden Grande, § 49). Mas com o [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]] romântico, foi a necessidade absoluta que assumiu o papel mais importante. [[lexico:f:fichte:start|Fichte]] afirmava: "Qualquer coisa realmente existe, existe por absoluta necessidade; e existe necessariamente na forma precisa em que existe. É impossível que não exista ou que exista de outra forma" (Grundzüge des gegenwärtigen Zeitalters, 9). [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] também era o significado da necessidade que [[lexico:h:hegel:start|Hegel]] definia como "[[lexico:u:unidade:start|unidade]] de [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] e realidade", definição que exprime a "[[lexico:p:presenca:start|presença]] da totalidade das condições" em cada momento do real e portanto da plena e absoluta necessidade do real. "Quando se têm todas as condições" — diz Hegel — "a coisa deve tornar-se real" (Enc., § 147). "O necessário é mediado por um [[lexico:c:circulo:start|círculo]] de circunstâncias: é assim porque as circunstâncias são assim, e ao mesmo tempo é assim [[lexico:i:imediato:start|imediato]], é assim porque é" (Ibid., § 149). Desse modo a necessidade torna-se [[lexico:a:alma:start|alma]] da realidade, [[lexico:d:dialetica:start|dialética]] da [[lexico:r:razao:start|Razão]] Real ou da Realidade [[lexico:r:racional:start|racional]]. Essa extensão da necessidade ao [[lexico:i:infinito:start|infinito]] não renova, como é óbvio, as características do conceito, que contínua sendo o mesmo definido por Aristóteles; assim como essas características não são renovadas pelo [[lexico:u:uso:start|uso]] contemporâneo desse conceito, que mais insiste na necessidade do real, em seus diversos graus e formas: Nicolai [[lexico:h:hartmann:start|Hartmann]] (cf. especialmente Möglichkeit und Wirklichkeit, 1938). [[lexico:a:agora:start|agora]] podemos lançar uma vista d’olhos na [[lexico:s:sorte:start|sorte]] que a filosofia contemporânea deu às três formas do necessário, comumente admitidas a partir de Wolff, provando que esse conceito realmente não foi inovado. 1) O moralmente necessário, o obrigatório ou o que é de dever, embora algumas vezes continue recebendo esse nome, não pode ser incluído nas formas do necessário; 2) O hipoteticamente necessário, identificando-se com o causal ou o condicional, compartilha o [[lexico:d:destino:start|destino]] desses conceitos; 3) É ao absolutamente necessário, ao necessário "geométrico" ou "[[lexico:l:logico:start|lógico]]", que se faz mais frequentemente [[lexico:r:referencia:start|referência]] no domínio do [[lexico:s:saber:start|saber]] filosófico e científico. [[lexico:w:wittgenstein:start|Wittgenstein]] diz: "Existe apenas uma necessidade lógica, e assim existe apenas uma impossibilidade lógica" (Tractacus, 6.375). Quase todos os lógicos contemporâneos subscrevem, ou implicitamente admitem, essa [[lexico:t:tese:start|tese]] de Wittgenstein. Não há [[lexico:a:acordo:start|acordo]] entre eles, no entanto, quanto à definição de necessidade lógica. As principais doutrinas a [[lexico:r:respeito:start|respeito]] são: a) doutrina da [[lexico:a:analiticidade:start|analiticidade]], b) doutrina da regra; c) doutrina da imunidade, d) doutrina da [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]]. a) A primeira é herdeira da definição leibniziana da necessidade lógica como "impossibilidade do contrário". [[lexico:p:peirce:start|Peirce]] dizia que lógica ou essencialmente necessário é aquilo que uma [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] que não conhece os fatos, mas está perfeitamente a par das regras do [[lexico:r:raciocinio:start|raciocínio]] e das palavras implícitas no raciocínio, sabe que é verdadeiro. Tal pessoa, p. ex., não sabe se existe ou não um [[lexico:a:animal:start|animal]] [[lexico:c:chamado:start|chamado]] basilisco ou se existem coisas como serpentes, galinhas e ovos, mas sabe que [[lexico:t:todo:start|todo]] basilisco nasceu de um ovo de galinha chocado por uma serpente. "Isso é essencialmente necessário porque é isso que a [[lexico:p:palavra:start|palavra]] basilisco significa" (Coll. Pap., 4.67). Lewis, por sua vez, disse que "uma [[lexico:a:assercao:start|asserção]] é logicamente necessária se, e somente se, o contraditório dela é incompatível consigo mesmo" (Analysis of Knowledge and Valuation, 1946, p. 89), que nada mais é que uma reformulação da definição de Leibniz. No mesmo sentido [[lexico:s:strawson:start|Strawson]] disse que "uma asserção é necessária quando é a contraditória de uma asserção inconsistente" (Intr. to Logical Theory), 1952, p. 22). Carnap, observando que o conceito de necessidade lógica é comumente entendido no sentido de que se aplica a uma [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] p "se e somente se a verdade de p se baseia em razões puramente lógicas e não dependentes da contingência dos fatos, em outras palavras, se a [[lexico:p:pressuposicao:start|pressuposição]] de não-p conduz a uma contradição lógica, independentemente dos fatos", identificou a necessidade lógica com a [[lexico:v:verdade-logica:start|verdade lógica]] e definiu a verdade lógica, na esteira de Leibniz, como a verdade que é válida em todos os [[lexico:m:mundos:start|mundos]] possíveis, ou, em sua [[lexico:t:terminologia:start|terminologia]], é válida em qualquer [[lexico:d:descricao:start|descrição]] de [[lexico:e:estado:start|Estado]] de um [[lexico:s:sistema:start|sistema]]. Sua definição da descrição de estado esclarece esse conceito: "Uma [[lexico:c:classe:start|classe]] de enunciados em SI que, para cada [[lexico:e:enunciado:start|enunciado]] [[lexico:a:atomico:start|atômico]], contém esse enunciado ou sua negação mas não ambas as coisas, nem nenhum outro enunciado, é chamado de descrição de estado em SI, porque ele obviamente dá a descrição completa de um possível estado do [[lexico:u:universo:start|universo]] dos indivíduos em [[lexico:r:relacao:start|relação]] a todas as propriedades e [[lexico:r:relacoes:start|relações]] expressas pelos [[lexico:p:predicados:start|predicados]] do sistema. Assim, as descrições de estado representam os mundos possíveis de Leibniz ou os possíveis estados de coisas de Wittgenstein" (Meaning and Necessity, §§ 2 e 39). Essa é a [[lexico:e:expressao:start|expressão]] mais rigorosa que a tese da [[lexico:r:reducao:start|redução]] da necessidade à analiticidade já teve. No entanto, não esteve imune a críticas (cf., p. ex., Quine, From a Logical Point of View, II; A. Pap, Semantics and Necessary Truth, pp. 150 ss.). b) A segunda [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] da necessidade lógica reduz os enunciados à aplicação da necessidade a simples regras: regras de transformação ou, mais simplesmente, regras linguísticas. A doutrina segundo a qual as "verdades necessárias" da [[lexico:m:matematica:start|matemática]] (p. ex., a famosa proposição de que falava Kant, "7 + 5 = 12") nada mais são do que regras de transformação, regras que permitem inferir uma [[lexico:f:formula:start|fórmula]] de outra, permitindo, portanto, a possibilidade de substituições recíprocas das fórmulas, já foi exposta pelo [[lexico:c:circulo-de-viena:start|Círculo de Viena]], especialmente por Schlick, e reaparece frequentemente na [[lexico:l:literatura:start|literatura]] contemporânea (cf., p. ex., K. Britton, em Proceedings of the Aristotelian Society, 21s, 1947). Aliás, como também reaparece a doutrina segundo a qual as proposições analíticas (ou tautologias) que constituem as "verdades necessárias" da lógica nada mais são que regras linguísticas ou, mais precisamente, regras semânticas. De fato o enunciado "todos os solteiros são não casados" pode ser interpretado como uma regra para o uso da palavra "solteiro", regra extraída do uso. A [[lexico:o:objecao:start|objeção]] algumas vezes formulada contra essas doutrinas, de que elas privariam a verdade necessário do nível de "proposição" porque uma proposição é sempre verdadeira ou falsa, enquanto uma regra, ao contrário, é sobretudo [[lexico:u:util:start|útil]], conveniente, correta, etc. (cf., p. ex., Pap, op. cit., pp. 179 ss.), não é muito concludente, porque demonstra apenas a [[lexico:i:incompatibilidade:start|incompatibilidade]] entre essa interpretação de verdade necessário e o conceito tradicional de proposição. c) A terceira interpretação da necessidade lógica é a dada por Quine, segundo quem ela seria a imunidade concedida a certas proposições em matemática e lógica, porquanto, em vista do [[lexico:c:carater:start|caráter]] central que ocupam no sistema, sua revisão perturbaria enormemente esse sistema, cujas características fundamentais tendemos a conservar na [[lexico:m:medida:start|medida]] do possível. Desse [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista, necessário não significaria "aquilo que não pode ser de outra maneira", mas sim "aquilo sem o que não se quer passar", não porque seja impossível passar sem ele, mas porque assim é preferível. Esta interpretação baseia-se na rejeição da distinção entre verdades analíticas (ou de razão) e verdades sintéticas (ou de fato), nas quais se baseiam as interpretações estudadas em a) (Quine, Methods of Logic, p. XIII; From a Logical Point of View, II e VIII). Essa interpretação obviamente equivale à eliminação do próprio conceito de necessidade. d) A quarta interpretação considera a necessidade como uma [[lexico:p:propriedade:start|propriedade]] intrínseca das proposições, consideradas como objetos, no sentido de Carnap: precisamente uma propriedade que as proposições possuem antes da formulação das convenções linguísticas. Desse ponto de vista, "[[lexico:e:explicar:start|explicar]] a necessidade dos [[lexico:p:principios:start|princípios]] tradicionais da [[lexico:i:inferencia:start|inferência]] dedutiva em termos de convenções linguísticas significa [[lexico:p:por:start|pôr]] o carro à frente dos bois". Esta é a tese de A. Pap (Semantics and Necessary Truth, espec. cap. 7; cf. também "Necessary Propositions and Linguistics Rules", em Archivio di filosofia, 1955, pp. 63-105). Segundo essa doutrina, a necessidade lógica não se distingue de uma qualitas occulta. Dessas quatro interpretações, a única que não equivale à negação da necessidade é a primeira, que a identifica com analiticidade ou tautologicidade. Trata-se de uma interpretação intimamente ligada ao conceito que Wittgenstein expôs sobre a [[lexico:t:tautologia:start|tautologia]]: "Entre os possíveis grupos de condições de verdade dão-se dois casos extremos: em um, a proposição é verdadeira para todas as possibilidades de verdade das proposições elementares, e nesse caso dizemos que as condições de verdade são tautológicas; no outro, a proposição é falsa para todas as possibilidades de verdade. as condições de verdade são contraditórias" (Tractatus, 4. 46). Por consequência, "a tautologia não tem condição de verdade porque é incondicionalmente verdadeira, e a contradição a nenhuma condição é verdadeira" (Ibid., 4.461). Isso equivale a dizer que uma [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] incondicionalmente verdadeira, ou seja, uma tautologia, uma proposição necessário, [[lexico:c:como-se:start|como se]] queira chamá-la, é aquela que esgota todas as gamas de possibilidades. Este também é o significado da doutrina de Carnap sobre a verdade lógica como "descrição de estado", ou seja, como verdade válida para todos os mundos possíveis ou para todos os possíveis estados de coisas. Desse ponto de vista, há necessidade sempre que é possível enumerar todas as possibilidades, e necessidade equivale, praticamente, a onipossibilidade. Não se trata de doutrina recente. No séc. XIV, Ockham só considerava necessário as proposições condicionais ou equivalentes ou as que tratam do possível, como, p. ex., "Se existe homem, o homem é animal racional", ou "Todo homem pode ser animal racional" (Quodl., V, q. 15). Como apenas convenções linguísticas de outra natureza podem limitar convenientemente a gama de possibilidades a que uma proposição faz referência, está claro que esse conceito de necessidade é inteiramente reduzível a convenção. (do lat. ne e cedo, ceder, portanto incedível, não cedível, o caráter do que é incedível). o que não pode deixar de ser. — Essa definição lógica caracteriza o que se chama necessidade absoluta. Neste sentido, o necessário opõe-se não somente ao que é [[lexico:p:problematico:start|problemático]] mas também ao que existe pura e simplesmente (que é assertórico). Uma lei necessária não enuncia o que é, mas o que deve ser. Dessa necessidade absoluta distingue-se a necessidade moral, que se exprime no [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]] do que se deve fazer e do que não se deve fazer: embora saibamos o que é necessário fazer, depende de nossa liberdade ([[lexico:l:livre-arbitrio:start|livre arbítrio]]) agir moralmente ou não. A necessidade moral é então um dever proposto à nossa liberdade, mas que não poderia constrangir-nos nem nos ser absolutamente imposto. a) O que não só é verdadeiro, mas que também seria verdadeiro sob todas as circunstâncias. O contrário de necessário é [[lexico:c:contingente:start|contingente]]. b) Kant define como o que é [[lexico:a:a-priori:start|a priori]] certo. c) Para Schopenhauer é o caráter de inevitabilidade de uma consequência se o [[lexico:a:antecedente:start|antecedente]] é [[lexico:d:dado:start|dado]]. d) Também se chama a relação de um [[lexico:m:meio:start|meio]] com respeito a um [[lexico:f:fim:start|fim]], ou de uma condição com respeito a um fato condicionado, se esse fim não pode ser alcançado senão por esse meio, ou se o fato condicionado não se pode produzir senão sob essa condição. Necessário chama-se, também, o ser que para existir não depende de nenhum outra coisa ou condição: o Deus de [[lexico:d:descartes:start|Descartes]], a [[lexico:s:substancia:start|substância]] de Spinoza. Um adjunto necessário é um [[lexico:p:predicado:start|predicado]] não-essencial que pertence sempre e sob todas as condições a cada [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]] da espécie e, que além disso, não pertence a nenhuma outra espécie. O uso inexato da palavra muitas vezes confunde o adjunto necessário com a propriedade. Uma causa necessária é aquela que atua em virtude da sua própria natureza, inevitavelmente, e sem liberdade. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}