===== NÃO-SABER SOCRÁTICO ===== Os [[lexico:s:sofistas:start|sofistas]] mais famosos colocavam-se em [[lexico:r:relacao:start|relação]] aos ouvintes na [[lexico:s:soberba:start|soberba]] [[lexico:a:atitude:start|atitude]] de [[lexico:q:quem:start|quem]] sabe tudo. [[lexico:s:socrates:start|Sócrates]], ao contrário, colocava-se diante dos interlocutores na atitude de quem [[lexico:n:nao:start|não]] sabe, tendo tudo para aprender. Mas muitos equívocos têm sido cometidos em relação a [[lexico:e:esse:start|esse]] "não [[lexico:s:saber:start|saber]]" [[lexico:s:socratico:start|socrático]], a [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de se [[lexico:v:ver:start|ver]] nele o início do [[lexico:c:ceticismo:start|ceticismo]]. Na [[lexico:r:realidade:start|realidade]], ele pretendia [[lexico:s:ser:start|ser]] uma [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] de [[lexico:r:ruptura:start|ruptura]]: a) em relação ao saber dos naturalistas, que se havia revelado vão; b) em relação ao saber dos sofistas, que logo se havia revelado mera [[lexico:p:presuncao:start|presunção]]; c) em relação ao saber dos políticos e dos cultores das várias artes, que quase sempre se revelava inconsistente e acrítico. Mas não é só isso: o [[lexico:s:significado:start|significado]] da afirmação do [[lexico:n:nao-saber-socratico:start|não-saber socrático]] pode ser calibrado mais exatamente se, [[lexico:a:alem:start|além]] de relacioná-lo com o saber dos homens, o relacionarmos também com o saber de [[lexico:d:deus:start|Deus]]. Como veremos, para Sócrates Deus é onisciente, estendendo-se o seu [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] do [[lexico:u:universo:start|universo]] ao [[lexico:h:homem:start|homem]], sem qualquer [[lexico:e:especie:start|espécie]] de [[lexico:r:restricao:start|restrição]]. Ora, é precisamente quando comparado com a estatura desse saber [[lexico:d:divino:start|divino]] que o saber [[lexico:h:humano:start|humano]] mostra-se em toda a sua fragilidade e pequenez. E, nessa ótica, não apenas aquele saber ilusório de que falamos, mas também a própria [[lexico:s:sabedoria:start|sabedoria]] humana socrática revela-se um não-saber. De resto, na [[lexico:a:apologia:start|apologia]], interpretando a [[lexico:s:sentenca:start|sentença]] do Oráculo de Delfos, segundo a qual ninguém era mais [[lexico:s:sabio:start|sábio]] do que Sócrates, o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] Sócrates explicita esse [[lexico:c:conceito:start|conceito]]: "Unicamente Deus é sábio. E é isso o que ele quer significar em seu oráculo: que a sabedoria do homem pouco ou [[lexico:n:nada:start|nada]] vale. Considerando Sócrates como sábio, creio [[lexico:e:eu:start|eu]], não quer se referir propriamente a mim, Sócrates, mas somente usar o meu [[lexico:n:nome:start|nome]] como um [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]]. É quase [[lexico:c:como-se:start|como se]] houvesse querido dizer assim: ‘Homens, é sapientíssimo dentre vós aquele que, como Sócrates, tiver reconhecido que, na [[lexico:v:verdade:start|verdade]], a sua sabedoria não tem [[lexico:v:valor:start|valor]].’" A [[lexico:c:contraposicao:start|contraposição]] entre "saber divino" e "saber humano" era uma das antíteses muito caras a toda a sabedoria proveniente da [[lexico:g:grecia:start|Grécia]] — que, portanto, Sócrates volta a reafirmar. Por [[lexico:f:fim:start|fim]], deve-se destacar o poderoso [[lexico:e:efeito:start|efeito]] irônico de benéfico abalo que o [[lexico:p:principio:start|princípio]] do não-saber provocava nas [[lexico:r:relacoes:start|relações]] com o [[lexico:i:interlocutor:start|interlocutor]]: acarretava o atrito do qual brotava a centelha do [[lexico:d:dialogo:start|diálogo]]. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}