===== NACIONALISMO ===== (in. Nationalism; fr. Nationalisme; al. Nationalismus; it. Nazionalismó). O [[lexico:c:conceito|conceito]] de [[lexico:n:nacao|nação]] começou a formar-se a partir do conceito de [[lexico:p:povo|povo]], que havia dominado a [[lexico:f:filosofia-politica|filosofia política]] do séc. XVIII, quando se acentuou, nesse conceito, a importância dos fatores naturais e tradicionais em detrimento dos voluntários. O povo é constituído essencialmente pela [[lexico:v:vontade|vontade]] comum, que é a base do pacto originário; a nação é constituída essencialmente por vínculos independentes da vontade dos indivíduos: [[lexico:r:raca|raça]], [[lexico:r:religiao|religião]], [[lexico:l:lingua|língua]] e todos os outros [[lexico:e:elementos|elementos]] que podem [[lexico:s:ser|ser]] compreendidos sob o [[lexico:n:nome|nome]] de "[[lexico:t:tradicao|tradição]]". Diferentemente do "povo", que [[lexico:n:nao|não]] existe senão em [[lexico:v:virtude|virtude]] da vontade deliberada de seus membros e como [[lexico:e:efeito|efeito]] dessa vontade, a nação [[lexico:n:nada|nada]] tem a [[lexico:v:ver|ver]] com a vontade dos indivíduos: é um [[lexico:d:destino|destino]] que paira sobre os indivíduos, ao qual estes não podem subtrair-se sem traição. Nesses termos, a nação só começou a ser concebida claramente no início do séc. XIX; o nascimento desse conceito coincide com o nascimento da [[lexico:f:fe|fé]] nos gênios nacionais e nos destinos de uma nação [[lexico:p:particular|particular]], que se chama nacionalismo. O conceito de povo permanecia ligado aos ideais cosmopolitas do séc. XVIII. Mas já em [[lexico:r:rousseau|Rousseau]] se encontra a condenação desses ideais: o apego de Rousseau ao conceito de cidade-estado, da [[lexico:f:forma|forma]] realizada na [[lexico:g:grecia|Grécia]] antiga, levava-o a condenar o [[lexico:u:universalismo|universalismo]] setecentista. Ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]], [[lexico:e:esse|esse]] apego anacrônico levava-o a exaltar o [[lexico:v:valor|valor]] do [[lexico:e:estado|Estado]] nacional: "São as instituições nacionais que formam o [[lexico:g:genio|gênio]], o [[lexico:c:carater|caráter]], os gostos e os [[lexico:c:costumes|costumes]] de um povo, que o fazem ser ele mesmo e não [[lexico:o:outro|outro]], que lhe inspiram o [[lexico:a:amor|amor]] ardente pela pátria, fundamentado em hábitos impossíveis de erradicar, que o fazem morrer de [[lexico:t:tedio|tédio]] entre outros povos, em [[lexico:m:meio|meio]] a delícias das quais está [[lexico:p:privado|privado]] em seu país" (Considér sur le gouvernement de Pologne, III). Mas foi principalmente na [[lexico:e:epoca|época]] da restauração pós-napoleônica que o conceito de nação começou a assumir importância dominante como um dos produtos ou o [[lexico:p:produto|produto]] fundamental da "tradição" à qual se atribuía naquele período a [[lexico:o:origem|origem]] e a conservação de todos os valores fundamentais do [[lexico:h:homem|homem]]. Em Discursos à nação alemã (1808) de [[lexico:f:fichte|Fichte]], primeiro documento do nacionalismo alemão, o povo alemão é visto como "o [[lexico:u:unico|único]] povo que tem [[lexico:d:direito|direito]] de ser [[lexico:c:chamado|chamado]] de povo, sem outra [[lexico:d:designacao|designação]], ao contrário dos ramos que dele se separaram, como, aliás, indica [[lexico:p:por-si|por si]] só a [[lexico:p:palavra|palavra]] alemão" (Reden, VII), sendo assegurada pela própria [[lexico:p:providencia|providência]] da [[lexico:h:historia|história]] o [[lexico:f:futuro|futuro]] desse povo [[lexico:s:superior|superior]]. Com a [[lexico:n:nocao|noção]] de "[[lexico:e:espirito|espírito]] de povo", [[lexico:h:hegel|Hegel]] levava a cabo a elaboração do conceito de nação: "O espírito de um povo é um [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:c:concreto|concreto]]: deve ser reconhecido em sua [[lexico:d:determinacao|determinação]]. (...) Desenvolve-se em todas as [[lexico:a:acoes|ações]] e em todas as tendências de um povo e realiza-se até a [[lexico:f:fruicao|fruição]] e a [[lexico:c:compreensao|compreensão]] de [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]]. Suas manifestações são religião, [[lexico:c:ciencia|ciência]], [[lexico:a:arte|arte]], destinos, acontecimentos. É tudo isso que confere caráter a um povo, e não o [[lexico:m:modo|modo]] como ele é determinado por [[lexico:n:natureza|natureza]] (como poderia sugerir o [[lexico:f:fato|fato]] de a palavra natio [[lexico:t:ter|ter]] derivado de nasci)" (Phil. der [[lexico:g:geschichte|Geschichte]], ed. Lasson, p. 42; trad. it., 1, p. 49). No espírito dos povos encarna-se, alternadamente, o Espírito do [[lexico:m:mundo|mundo]], a [[lexico:r:razao|Razão]] [[lexico:u:universal|universal]] que preside aos destinos do mundo e determina a vitória do povo que seja sua melhor [[lexico:e:encarnacao|encarnação]]. Nesse conceito de espírito do povo como encarnação ou [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] de [[lexico:d:deus|Deus]] no mundo, portanto do caráter fatal e providencial da [[lexico:v:vida|vida]] histórica da nação, já estão compreendidos todos os elementos do nacionalismo europeu do séc. XIX e de qualquer nacionalismo. Na Itália, Mazzini procurou conciliar os ideais universalistas do [[lexico:i:iluminismo|Iluminismo]] com o nacionalismo, e viu na "missão" de uma nação o modo como esta pode servir ao [[lexico:o:objetivo|objetivo]] [[lexico:g:geral|geral]] da [[lexico:h:humanidade|humanidade]]. Era uma [[lexico:s:sintese|síntese]] bastante incoerente, mas que evitava a exaltação da [[lexico:f:forca|força]] que depois seria encontrada com tanta frequência no nacionalismo europeu. Gian Domenico Romagnosi foi o primeiro a apresentar uma [[lexico:t:teoria|teoria]] jurídica do estado nacional nesse [[lexico:s:sentido|sentido]] (Delia costituzione di una monarchia nazionale rappresentativa, 1815): teoria adotada mais [[lexico:t:tarde|Tarde]] por P. S. Mancini como [[lexico:f:fundamento|fundamento]] do [[lexico:d:direito-internacional|direito internacional]] (Delia nazione como fondamento dei diritto delle genti, 1851). Na França a [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] do nacionalismo está ligada principalmente à [[lexico:o:obra|obra]] do historiador Michelet, que, com o livro Le peuple (1843), criava um dos principais documentos do nacionalismo profetizante. Na Alemanha, outro historiador, Treitschke, empreendia a [[lexico:i:ilustracao|ilustração]] e a defesa do nacionalismo alemão, que, na origem, vinculou-se à [[lexico:p:politica|política]] de força de Bismarck e mais tarde à de Guilherme II. Na Rússia, por [[lexico:f:fim|fim]], Dostoievski erigiu-se em profeta do nacionalismo russo (cf. Hans Kohn, Prophets and Peoples, 1946, trad. it., 1949; The [[lexico:i:ideal|ideal]] of Nationalism, Nova York 1944). Tanto a Primeira como a Segunda [[lexico:g:guerra|guerra]] Mundial foram travadas sob o emblema de um nacionalismo que perdera todo o contato com o universalismo setecentista e via na força o único [[lexico:s:sinal|sinal]] decisivo concedido pela Providência histórica à nação por ela favorecida. Essa [[lexico:i:ideia|ideia]], entronizada pelo fascismo italiano e pelo nacional-socialismo germânico, não era nova: tratava-se da velha ideia hegeliana e romântica do privilégio que o Espírito do Mundo concede à nação em que prefere encarnar-se, pois o único sinal desse privilégio é precisamente a força vitoriosa que tal nação pode exercer sobre as outras. Esse nacionalismo profético já não é professado hoje em dia pelos povos europeus, que, graças à lição dada pelas duas guerras, foram reconduzidos aos ideais universalistas do iluminismo: tende, porém, a afirmar-se em outras regiões do globo terrestre, às quais só se pode desejar que aproveitem a [[lexico:e:experiencia|experiência]] cultural e histórica da velha Europa.