===== MÚSICA ===== (gr. [[lexico:m:mousike:start|mousike]] [[lexico:t:techne:start|techne]]; lat. musica; in. Music; fr. Musique, al. Musik; it. Musica). Duas são as definições filosóficas fundamentais dadas da música A primeira considera-a como [[lexico:r:revelacao:start|revelação]] de uma [[lexico:r:realidade:start|realidade]] privilegiada e divina ao [[lexico:h:homem:start|homem]]: revelação que pode assumir a [[lexico:f:forma:start|forma]] do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] ou do [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]]. A segunda considera-a como uma [[lexico:t:tecnica:start|técnica]] ou um conjunto de técnicas expressivas que concernem à [[lexico:s:sintaxe:start|sintaxe]] dos sons. 1) A primeira concepção, que passa por [[lexico:s:ser:start|ser]] a única "filosófica", mas que na [[lexico:v:verdade:start|verdade]] é [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] ou teologizante, consiste em considerar a música como [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] ou [[lexico:a:arte:start|arte]] privilegiada, porquanto seu [[lexico:o:objeto:start|objeto]] é a realidade suprema, divina, ou alguma de suas características fundamentais. Nessa concepção é [[lexico:p:possivel:start|possível]] distinguir duas fases: a) para a primeira, o objeto da música é a [[lexico:h:harmonia:start|harmonia]] como [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] divina do [[lexico:u:universo:start|universo]]; portanto, considera a música como uma das ciências supremas; b) para a segunda, o objeto da música é o [[lexico:p:principio:start|princípio]] cósmico ([[lexico:d:deus:start|Deus]], [[lexico:r:razao:start|Razão]] Auto-consciente ou [[lexico:v:vontade:start|vontade]] Infinita, etc), e a música é a auto-revelação desse princípio na forma de sentimento. Ambas as concepções têm uma característica fundamental em comum: a [[lexico:s:separacao:start|separação]] entre música, como arte "pura", e as técnicas em que esta se realiza. [[lexico:p:platao:start|Platão]] reprova os músicos que procuram novos acordes nos instrumentos (Rep., VII, 531 b); o mesmo faz [[lexico:p:plotino:start|Plotino]]. [[lexico:s:schopenhauer:start|Schopenhauer]] e [[lexico:h:hegel:start|Hegel]] falam em "[[lexico:e:essencia:start|essência]]" da música, de sua [[lexico:n:natureza:start|natureza]] [[lexico:u:universal:start|universal]] e eterna, porquanto é separável dos meios expressivos nos quais ganha [[lexico:c:corpo:start|corpo]] como [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] [[lexico:a:artistico:start|artístico]]. a) A doutrina da música como ciência da harmonia e de harmonia como [[lexico:o:ordem:start|ordem]] divina do cosmos nasceu com os pitagóricos. "Os pitagóricos, que Platão frequentemente segue, dizem que a música é harmonia dos contrários, unificação dos muitos e [[lexico:a:acordo:start|acordo]] dos discordantes" (Filolau, Fr. 10, Diels). A [[lexico:f:funcao:start|função]] e os [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]] da harmonia musical são idênticos à função e aos caracteres da harmonia cósmica: a música é, portanto, o [[lexico:m:meio:start|meio]] direto para elevar-se ao conhecimento dessa harmonia. Entre as ciências propedêuticas, Platão punha a música em quarto [[lexico:l:lugar:start|lugar]] (depois da [[lexico:a:aritmetica:start|aritmética]], da [[lexico:g:geometria:start|geometria]] plana e sólida e da [[lexico:a:astronomia:start|astronomia]]), considerando-a a mais próxima da [[lexico:d:dialetica:start|dialética]] e a mais filosófica (Fed., 61 a). Contudo, para Platão, como ciência autêntica, a música [[lexico:n:nao:start|não]] consiste em procurar com o ouvido novos acordes nos instrumentos: desse [[lexico:m:modo:start|modo]], as orelhas seriam mais importantes que a [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] (Rep., VII, 531 a).As pessoas que agem desse modo "comportam-se como os astrônomos, pois procuram os números nos acordes acessíveis ao ouvido, mas não chegam até os problemas, não indagam quais números são harmoniosos, quais não são e de onde vem sua [[lexico:d:diferenca:start|diferença]]" (Ibid., VII, 531 b-c). Por essa [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de passar dos ritmos sensíveis à harmonia [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]], Plotino considera a música como um dos caminhos para ascender até Deus: "Depois das sonoridades, dos ritmos e das figuras perceptíveis pelos sentidos, o músico deve prescindir da [[lexico:m:materia:start|matéria]] na qual se realizam os acordes e as proporções, e atingir a [[lexico:b:beleza:start|beleza]] deles por eles. Deve aprender que as [[lexico:c:coisas:start|coisas]] que o exaltavam são entidades inteligíveis; isto é harmonia: a beleza que nela se encontra é absoluta, não [[lexico:p:particular:start|particular]]. Por isso, deve utilizar raciocínios filosóficos que o levem a crer em coisas que tem em si, sem [[lexico:s:saber:start|saber]]" (Enn., I, 3, 1). Foram essas considerações que levaram a incluir a música no rol das "artes liberais", consideradas fundamentais em toda a Idade Média. S. [[lexico:a:agostinho:start|Agostinho]] expõe a transição da música da fase da [[lexico:s:sensibilidade:start|sensibilidade]], na qual ela cuida dos sons, para a fase da razão, em que se torna [[lexico:c:contemplacao:start|contemplação]] da harmonia divina: "A razão compreendeu que neste [[lexico:g:grau:start|grau]], tanto no [[lexico:r:ritmo:start|ritmo]] quanto na harmonia, os números reinam e conduzem tudo à [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]]; observou então com a [[lexico:m:maxima:start|máxima]] diligência a que natureza pertenciam e descobriu que eram divinos e eternos, porque com eles tinham sido ordenadas todas as coisas supremas" (De ordine, II, 14). Em Nozze di Mercúrio e della [[lexico:f:filologia:start|filologia]], Marciano Capella, em meados do séc. V, incluía a música entre as artes liberais (reduzidas a sete), e com isso ela passava a ser um dos pilares da [[lexico:e:educacao:start|educação]] medieval. Alguns séculos depois, Dante comparava a música ao planeta Marte, pois, como ele, é "a mais bela [[lexico:r:relacao:start|relação]]" porque está no centro dos outros planetas, e o mais caloroso porque seu calor é [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] ao do [[lexico:f:fogo:start|fogo]]; assim é a música: "relativa, [[lexico:c:como-se:start|como se]] vê nas [[lexico:p:palavras:start|palavras]] harmonizadas e nos cantos, cuja harmonia é tão mais doce quanto mais bela é a relação"; ela "atrai para si os [[lexico:e:espiritos:start|espíritos]] humanos, que são principalmente como vapores do [[lexico:c:coracao:start|coração]], pois quase cessam suas operações" (Conv., II, 14). O que Dante chama de "relação" é a harmonia de que falavam os antigos; o [[lexico:c:carater:start|caráter]] cósmico da música é expresso na sua comparação com um dos maiores astros do universo. b) A doutrina da música como auto-revelação do Princípio Cósmico tende a privilegiar a música acima de todas as outras artes ou ciências e a vê-la como a via de [[lexico:a:acesso:start|acesso]] mais direta ao [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]]. Estas são as características da concepção romântica, cuja melhor [[lexico:e:expressao:start|expressão]] se encontra na [[lexico:t:teoria:start|teoria]] de Schopenhauer. Segundo ele, enquanto a arte em [[lexico:g:geral:start|geral]] é a [[lexico:o:objetivacao:start|objetivação]] da [[lexico:v:vontade-de-viver:start|vontade de viver]] (que é o princípio cósmico [[lexico:i:infinito:start|infinito]]) em tipos-ou formas [[lexico:u:universais:start|universais]] (as [[lexico:i:ideias:start|ideias]] platônicas), que cada arte reproduz à sua maneira, a música é revelação imediata ou direta dessa mesma vontade de [[lexico:v:viver:start|viver]]. "A música" — diz ele — "é objetivação e [[lexico:i:imagem:start|imagem]] da Vontade tão direta quanto o [[lexico:m:mundo:start|mundo]], ou melhor, quanto as Ideias, cujo fenômeno multiplicado constitui o mundo dos objetos particulares. A música não é, portanto, como as outras artes, a imagem das ideias, mas a imagem da própria Vontade, da qual as ideias também são [[lexico:o:objetividade:start|objetividade]]. Por isso, o [[lexico:e:efeito:start|efeito]] da música é mais potente e insinuante que o das outras artes, visto que estas nos dão apenas o [[lexico:r:reflexo:start|reflexo]], ao passo que aquela nos dá a essência" (Die Welt, 1819, I, § 52). A doutrina de Hegel coincide com essa exaltação da música, mas acrescenta a importante [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] de que a música é a expressão do absoluto na forma do sentimento (Gemüth). Hegel diz: "A música constitui o [[lexico:p:ponto:start|ponto]] central da [[lexico:r:representacao:start|representação]] que expressa o [[lexico:s:subjetivo:start|subjetivo]] como tal, tanto em relação ao conteúdo quanto em relação à forma, pois participa da [[lexico:i:interioridade:start|interioridade]] e permanece subjetiva mesmo em sua objetividade." Em outras palavras, ao contrário das artes figurativas, ela não permite que a [[lexico:e:exteriorizacao:start|exteriorização]] fique livre para desenvolver-se [[lexico:p:por-si:start|por si]] mesma e chegar à [[lexico:e:existencia:start|existência]] autônoma, "mas supera a objetivação externa e não se imobiliza nela, até transformá-la em algo de [[lexico:e:externo:start|externo]] que tenha existência [[lexico:i:independente:start|independente]] de nós" (Vorlesungen über die Ästhetik, ed. Glockner, III, p. 127). Isso quer dizer que na música, ao contrário das outras artes, a forma [[lexico:s:sensivel:start|sensível]] em que a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] se manifesta e exprime é inteiramente superada como tal e resolvida em pura interioridade, em [[lexico:p:puro:start|puro]] sentimento. Desse ponto de vista, Hegel diz que o sentimento é a forma da música: "O papel fundamental da música não consiste em fazer ressoar a própria objetividade, mas, ao contrário, as formas e os modos nos quais a [[lexico:s:subjetividade:start|subjetividade]] mais íntima do [[lexico:e:eu:start|eu]] e [[lexico:a:alma:start|alma]] [[lexico:i:ideal:start|ideal]] se movem em si mesmas" (Ibid., p. 129). Com o [[lexico:r:reconhecimento:start|reconhecimento]] do sentimento como forma própria da música e como [[lexico:j:justificacao:start|justificação]] da superioridade desta, a teoria romântica encontrou expressão definitiva. A radicalização dessa expressão acha-se na teoria de [[lexico:k:kierkegaard:start|Kierkegaard]], de que a música "encontra seu objeto absoluto na genialidade erótico-sensual" ([[lexico:a:aut-aut:start|Aut Aut]], "As etapas eróticas", etc; trad. fr., Prior e Guignot, p. 54). A [[lexico:d:definicao:start|definição]] de música como arte de expressar "os sentimentos" ou "as paixões" através dos sons foi repetida infinitas vezes, chegando-se a esquecer o [[lexico:s:sentido:start|sentido]] de suas implicações teóricas. Foi assumida como uma definição objetiva ou científica da música (cf. Hanslick, Vom Musikalisch-Shönen, 1854, a [[lexico:n:nota:start|nota]] final do cap. 1), e nela se inspirou a [[lexico:o:obra:start|obra]] de Wagner, que de [[lexico:f:fato:start|fato]] compartilhava a [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] de Schopenhauer sobre música [[lexico:n:nietzsche:start|Nietzsche]], na juventude, adotou essa concepção, dela se desligando a partir de 1878 (com [[lexico:h:humano:start|humano]], demasiado humano), quando começou a entrever na obra de Wagner, que se orientava nostalgicamente para o Cristianismo, o [[lexico:a:abandono:start|abandono]] dos valores vitais da [[lexico:a:antiguidade:start|antiguidade]] clássica e um [[lexico:e:espirito:start|espírito]] de [[lexico:r:renuncia:start|renúncia]] e resignação. Mas nem mesmo Nietzsche se afastou realmente do [[lexico:c:conceito:start|conceito]] romântico de música Seu ideal de música "meridional" (como a de Bizet) conserva ainda a característica romântica de expressão de sentimentos, ainda que de um sentimento situado "[[lexico:a:alem:start|além]] do [[lexico:b:bem:start|Bem]] e do [[lexico:m:mal:start|mal]]". De fato, escreveu: "Meu ideal seria uma música cujo maior fascínio consistisse na [[lexico:i:ignorancia:start|ignorância]] do bem e do mal, uma música que no máximo vibrasse por alguma nostalgia de marinheiro, por alguma sombra dourada, por alguma lembrança terna; uma arte que absorvesse em si, com grande distância, todas as cores de um [[lexico:m:mundo-moral:start|mundo moral]] no crepúsculo, um mundo quase incompreensível, e que fosse suficientemente hospitaleira e profunda para acolher em si os últimos fugitivos" (Jenseits von Gut und Böse, § 255). Ainda hoje se recorre frequentemente à definição de música como expressão de sentimentos ou pelo menos isso é [[lexico:p:pressuposto:start|pressuposto]] como [[lexico:c:coisa:start|coisa]] óbvia e certa (cf. p. ex., [[lexico:d:dewey:start|Dewey]], Art as Experience, cap. 10; trad. it., pp. 278 ss.). Na Itália, isso foi reforçado pela doutrina crociana da arte como expressão de sentimentos, mas, obviamente, essa doutrina [[lexico:n:nada:start|nada]] mais é que a [[lexico:g:generalizacao:start|generalização]], para [[lexico:t:todo:start|todo]] o domínio da arte, da definição romântica de música Esta definição ainda se materializa frequentemente na [[lexico:f:figura:start|figura]] do músico, considerado como sacerdote ou profeta que sabe ouvir a [[lexico:v:voz:start|voz]] do Absoluto e traduzi-la para a [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] sonora do sentimento. Ainda hoje raramente se renuncia a almejar essa representação romântica da música, graças à qual os ouvintes da música sentem-se arrebatados num [[lexico:h:horizonte:start|horizonte]] [[lexico:m:mistico:start|místico]], onde os acordes musicais são palavras de uma divindade oculta. 2) A característica da segunda concepção fundamental da música é a [[lexico:i:identidade:start|identidade]], que ela implica, entre a música e suas técnicas. Tal identidade foi claramente expressada por [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]], ao reconhecer a [[lexico:m:multiplicidade:start|multiplicidade]] das técnicas musicais: "A música não deve ser praticada por um [[lexico:u:unico:start|único]] [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de benefício que dela possa resultar, mas para usos múltiplos, pois pode servir para a educação, para a [[lexico:c:catarse:start|catarse]] e, em [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] lugar, para o repouso, o alívio da alma e a suspensão de todos os afãs. Disso resulta que é preciso fazer [[lexico:u:uso:start|uso]] de todas as harmonias, mas não de todas no mesmo modo, empregando para a educação as que têm maior conteúdo [[lexico:m:moral:start|moral]], e para outras finalidades as que incitam à [[lexico:a:acao:start|ação]] ou inspiram à comoção" (Pol, VIII, 7, 1341 b 30 ss.). Essas considerações, que, em sua [[lexico:a:aparente:start|aparente]] simplicidade, parecem excluir a [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] filosófica da música, na realidade expressam o conceito de que a música é um conjunto de técnicas expressivas que têm objetivos ou usos diversos e que podem ser indefinida e oportunamente variadas. Na realidade, [[lexico:e:esse:start|esse]] conceito é o único que ajudou e sustentou o [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] da arte musical. Retornou no [[lexico:r:renascimento:start|Renascimento]], sendo assim expresso por Vicente Galilei: "O uso da música foi introduzido pelos homens para o [[lexico:r:respeito:start|respeito]] e o [[lexico:f:fim:start|fim]] indicado de comum acordo pelos sábios; de outra coisa não nasceu senão, principalmente, da [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] de expressar com mais eficácia os [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] do espírito deles ao celebrarem os louvores a Deus, aos gênios e aos heróis, como se pode em [[lexico:p:parte:start|parte]] [[lexico:c:compreender:start|compreender]] nos cantochãos e cantos eclesiásticos, [[lexico:o:origem:start|origem]] desta nossa (música) a várias vozes, e imprimi-los, a seguir, com idêntica [[lexico:f:forca:start|força]] nas mentes dos [[lexico:m:mortais:start|mortais]], para a [[lexico:u:utilidade:start|utilidade]] e a comodidade deles" (Dialogo della música antica e della [[lexico:m:moderna:start|moderna]], 1581, ed. Fano, 1947, pp. 95-96). Nestas palavras de Galilei também se reconhece claramente o caráter expressivo das técnicas musicais: caráter que faz da música uma arte no sentido [[lexico:m:moderno:start|moderno]] do [[lexico:t:termo:start|termo]] (v. [[lexico:e:estetica:start|estética]]). O conceito de técnica expressiva é apresentado por [[lexico:k:kant:start|Kant]] com a [[lexico:n:nocao:start|noção]] de "[[lexico:b:belo:start|belo]] [[lexico:j:jogo:start|jogo]] de sensações", que ele utiliza para definir a música e a técnica das cores. Kant observa que "não se pode saber com [[lexico:c:certeza:start|certeza]] se uma cor e um som são [[lexico:s:simples:start|simples]] sensações agradáveis ou se já são, em si mesmos, um belo jogo de sensações e, portanto, contêm, enquanto jogo, um [[lexico:p:prazer:start|prazer]] que decorre da forma deles no [[lexico:j:juizo:start|juízo]] estético". Alguns fatos, especialmente a [[lexico:f:falta:start|falta]] de sensibilidade artística em alguns homens e a [[lexico:e:excelencia:start|excelência]] dessa sensibilidade em outros, convencem a considerar que as sensações dos dois sentidos, [[lexico:v:visao:start|visão]] e [[lexico:a:audicao:start|audição]], não são simples impressões sensíveis, mas "efeito de um juízo [[lexico:f:formal:start|formal]] no jogo de muitas sensações". Em todo caso, "segundo se adote uma ou outra [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] ao julgar o princípio da música, será diferente a definição desta: ou será definida (como fizemos) como um belo jogo de sensações (da audição), ou como um jogo de sensações agradáveis. De acordo com a primeira definição, a música é considerada uma arte bela, pura e simplesmente; de acordo com a segunda, é considerada, pelo menos em parte, uma arte agradável" (Crít. do juízo, § 51). O conceito de "belo jogo de sensações" já tende a exprimir uma noção sintática da música e, por acréscimo, uma noção para a qual a [[lexico:i:investigacao:start|investigação]] sintática pode ser dirigida livremente em todas as direções (isto está [[lexico:i:implicito:start|implícito]] na [[lexico:p:palavra:start|palavra]] "jogo"). Em meados do séc. XIX essa noção foi formulada com maior rigor e clareza na obra de Hanslick, O belo musical (1854), que ainda hoje continua sendo uma das mais importantes obras de estética musical. Hanslick cerra fileiras contra o conceito romântico de música como "representação do sentimento". O objeto da música é o belo musical, entendendo-se com isto "um belo que, sem decorrer nem depender de qualquer conteúdo [[lexico:e:exterior:start|exterior]], consista unicamente nos sons e em sua interligação artística. As engenhosas combinações dos belos sons, sua concordância e [[lexico:o:oposicao:start|oposição]], seus afastamentos e reuniões, seu crescimento e [[lexico:m:morte:start|morte]], é tudo isso que se apresenta em formas livres à [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] de nosso espírito e agrada como belo. O [[lexico:e:elemento:start|elemento]] primordial da música é a eufonia, sua essência é o ritmo" (Vom Musikalisch-Schönen, III; trad. it., 1945, p. 82). Assim entendida, a música identifica-se com a técnica realizadora. Hanslick diz a respeito: "Se as pessoas não sabem reconhecer toda a beleza que vive no elemento puramente musical, grande parte da [[lexico:c:culpa:start|culpa]] deve ser atribuída ao desprezo pelo [[lexico:s:sensorial:start|sensorial]], que, nos antigos estetas, se dava em favor da moral e do sentimento, e em Hegel em favor da ideia. Toda arte parte do sensível e nele se move. A teoria do sentimento desconhece esse fato, despreza completamente ouvir e leva em consideração imediata o sentir. Acham que a música é feita para o coração e que o ouvido é coisa desprezível" (Ibid., III, pp. 85-86). Por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, Hanslick expressou com clareza o caráter que diferencia a linguagem musical da linguagem comum: "A diferença consiste em que na linguagem o som é somente um [[lexico:s:signo:start|signo]], é um meio para expressar algo completamente diferente desse meio, enquanto na música o som tem importância em si, é [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] por [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]]. A [[lexico:a:autonomia:start|autonomia]] das belezas sonoras, por um lado, e o absoluto predomínio da opinião de que o som é puro e simples meio de expressão, por outro lado, contrapõem-se de maneira tão definitiva que a [[lexico:m:mistura:start|mistura]] dos dois [[lexico:p:principios:start|princípios]] é uma [[lexico:i:impossibilidade:start|impossibilidade]] [[lexico:l:logica:start|lógica]]" (Ibid., IV, p. 113). Contudo esse caráter não se encontra apenas na linguagem musical, mas em qualquer linguagem artística, em confronto com a linguagem comum (v. estética). Embora a noção de música à qual músicos, críticos e estudiosos de estética musical recorreram e recorrem de modo [[lexico:e:explicito:start|explícito]] continue sendo de "representação dos sentimentos", foi a noção de música como técnica da sintaxe dos sons, cujas regras podem ser indefinidamente mudadas, que prevaleceu na prática da [[lexico:c:criacao:start|criação]] musical e na busca de modos de criação novos e mais livres. A última e mais radical tentativa de libertar a [[lexico:l:lingua:start|língua]] musical da sintaxe tradicional é a chamada música atonal, que nada mais é que a [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] programática da [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] da linguagem musical em escolher sua própria [[lexico:d:disciplina:start|disciplina]]; esta, em certos casos, pode ser até a disciplina tonai. Schönberg diz a respeito: "A emancipação da dissonância, ou seja, sua equiparação com os sons consonantes ocorreu de modo [[lexico:i:inconsciente:start|Inconsciente]], com o pressuposto de que sua compreensibilidade é favorecida por determinadas circunstâncias (em Harmonielehre explico isso com o fato de que a diferença entre consonância e dissonância não é [[lexico:a:antitetica:start|antitética]], mas gradual, ou seja, as consonâncias são os sons mais próximos do som fundamental, e as dissonâncias são os mais afastados; por conseguinte, sua compreensibilidade é graduada, sendo os sons mais próximos mais facilmente percebidos que os afastados). Como não basta o ouvido para reconhecer e compreender as [[lexico:r:relacoes:start|relações]] e as funções, tais circunstâncias encontraram-se no [[lexico:c:campo:start|campo]] da expressão e no campo — até então pouco considerado — da sonoridade" ("Gesinnung oder Erkenntnis?", 1926, em L. Rognoni, Espressionismo e dodecafonia, 1954, p. 249). Desse ponto de vista, a tonalidade é definida, de modo muito geral, como "tudo aquilo que resulta de uma [[lexico:s:serie:start|série]] de notas, que é coordenada através da [[lexico:r:referencia:start|referência]] direta a uma única nota fundamental ou através de interligações complicadas" (Harmonielehre, 1922, 3g ed., III, p. 488; em Rognoni, Op. cit, p. 243). Alban Berg observava que "a renúncia à tonalidade ‘maior’ ou ‘menor’ não implica absolutamente [[lexico:a:anarquia:start|anarquia]] harmônica" porque, "apesar de, com a [[lexico:p:perda:start|perda]] do ‘maior’ e do ‘menor’ ter-se [[lexico:a:aberto:start|aberto]] mão de algumas possibilidades harmônicas, ainda ficaram todos os outros [[lexico:e:elementos:start|elementos]] essenciais da música verdadeira e autêntica ("Was ist Atonal", 1930, em Rognoni, op. cit., p. 290). Seja qual for o juízo de [[lexico:g:gosto:start|gosto]] sobre as obras musicais inspiradas nesse programa, não há [[lexico:d:duvida:start|dúvida]] de que o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] programa nada mais é que a liberalização da língua musical e de suas técnicas em relação aos obstáculos da sintaxe tradicional, e o início da busca de novas formas sintáticas, que até podem, ocasionalmente, coincidir com as tradicionais. Portanto, no campo da música, o atonalismo é a realização da mesma exigência de [[lexico:l:libertacao:start|libertação]]. Representada pelo [[lexico:a:abstracionismo:start|abstracionismo]] no campo da pintura: assim como a pintura pretende prescindir das formas de representação ou [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] estabelecidas ou reconhecidas, a música pretende prescindir das formas de harmonia musical estabelecidas e reconhecidas. Uma e outra estão em busca de novas disciplinas, de novas formas sintáticas para suas técnicas expressivas; uma e outra pressupõem (mesmo que nem sempre com conceitos claros) a noção de arte como "técnica da expressão", entendendo-se por expressão as formas livres e finais da sintaxe [[lexico:l:linguistica:start|linguística]]. Como foi essa a noção de música que, no fim da Idade Média e no Renascimento, presidiu à [[lexico:g:genese:start|gênese]] da música moderna, porquanto se apresentou desde o início como procura de técnicas expressivas, pode-se vislumbrar nela a [[lexico:c:condicao:start|condição]] que ainda hoje garante [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] de desenvolvimento à música. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}