===== MUNDOS ===== E [[lexico:a:agora|agora]] lembremo-nos de que o primeiro poema cosmogônico tem, por [[lexico:t:tradicao|tradição]] remotíssima, o [[lexico:n:nome|nome]] de [[lexico:t:teogonia|teogonia]]. Importa que o [[lexico:n:nao|não]] esqueçamos: a [[lexico:r:real|real]] ou pretensa [[lexico:c:cosmogonia|cosmogonia]] é pretensa ou real teogonia. Fala-se de [[lexico:m:mundo|mundo]], ou de pedaços do mundo, [[lexico:c:como-se|como se]] de [[lexico:d:deuses|deuses]] se falasse; e de deuses se [[lexico:f:fala|fala]] como se de mundo ou de pedaços do mundo se falasse. Em [[lexico:h:hesiodo|Hesíodo]], mundo sucede a mundo, como reinado de um [[lexico:d:deus|Deus]] sucede ao do [[lexico:o:outro|outro]]. Úrano, Crono e [[lexico:z:zeus|Zeus]] tanto designam deuses quanto mundos que cada um deles governa. O mundo de Urano não é o de Crono, nem o de Crono é o de Zeus. Para Hesíodo não há mundo, há mundos, mundos que uns a outros se sucedem pelo desenvolver-se, pelo explicar-se, pelo desencobrir-se o que [[lexico:c:ceu|Céu]] e [[lexico:t:terra|Terra]] envolvem, implicam e encobrem. Não é só a Terra, mas Céu e Terra, que formam assento firme, [[lexico:d:dado|dado]] a deuses e homens. Céu e Terra são os primeiros; depois vêm os deuses (se não consideramos que Céu e Terra já são deuses). Homens são os últimos a chegar. É fácil descobrir a [[lexico:m:mal|mal]] encoberta [[lexico:i:intencao|intenção]] do [[lexico:p:poeta|poeta]]: não quer ele, como nenhum [[lexico:g:grego|grego]] queria, que homens convivessem com os monstros dos mundos pretéritos. Mas seria [[lexico:n:necessario|necessário]] depor tanta ênfase na acomodação do [[lexico:h:homem|homem]] a um mundo, ou de um mundo a um homem, na humanização de mundo e de deuses, se, na [[lexico:r:realidade|realidade]], ele não tivesse visto o que Sófocles viria a dizer, mais de dois séculos depois: «enormes e pavorosas, muitas [[lexico:c:coisas|coisas]] existem, mais que o homem, porém, não há nenhuma»? O sacerdócio de Delfos e os poetas gnômicos da [[lexico:g:grecia|Grécia]] arcaica reencareceram o intento da Teogonia hesiódica: «homem, sabe o que és; não queiras ultrapassar os limites de tua [[lexico:h:humanidade|humanidade]]; uma é a estirpe dos deuses, outra, a dos homens». Baldados esforços: que proviria da [[lexico:e:excessividade|excessividade]] do [[lexico:c:caos|caos]]? Mundos que são excelências mal contidas, deuses que são excessos incontidos, e homem que é incontinência do excessivo. No mundo mais propriamente grego, que é o do maior de todos os trágicos, [[lexico:b:bem|Bem]] se mostra que um mundo, agora completo, com [[lexico:c:ceu-terra|Céu-Terra]], Deuses e Homens, é a excedência, o transbordar das águas primordiais do Grande [[lexico:a:abismo|abismo]]. Entre o mundo que foi, o mundo que é, mundo que venha a [[lexico:s:ser|ser]], sempre se entrevê, no entremundos, raivando, o ímpeto irreprimível da [[lexico:c:criacao|criação]] de todos os mundos que foram, do mundo que é, dos mundos que virão a ser. [EudoroMito:71-72]