===== MUNDO É MINHA REPRESENTAÇÃO ===== Die Welt ist meine Vorstellung § 1. “O [[lexico:m:mundo-e-minha-representacao:start|mundo é minha representação]]”: – esta é uma [[lexico:v:verdade:start|verdade]] que vale em [[lexico:r:relacao:start|relação]] a cada [[lexico:s:ser:start|ser]] que vive e conhece, embora apenas o ser [[lexico:h:humano:start|humano]] possa trazê-la à [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] refletida e abstrata: e se de [[lexico:f:fato:start|fato]] o faz, então nele surge a clarividência filosófica. Torna-se-lhe claro e certo que [[lexico:n:nao:start|não]] conhece [[lexico:s:sol:start|sol]] algum nem [[lexico:t:terra:start|Terra]] alguma, mas sempre apenas um olho que vê um Sol, uma mão que toca uma Terra; que o [[lexico:m:mundo:start|mundo]] que o cerca existe apenas como [[lexico:r:representacao:start|representação]], isto é, tão somente em relação a outrem, aquele que representa, que é ele mesmo. – Se alguma verdade pode ser expressa [[lexico:a:a-priori:start|a priori]], é essa; pois é a [[lexico:e:enunciacao:start|enunciação]] da [[lexico:f:forma:start|forma]] de toda [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] [[lexico:p:possivel:start|possível]] e imaginável, mais [[lexico:u:universal:start|universal]] que qualquer outra forma, mais universal que [[lexico:t:tempo:start|tempo]], [[lexico:e:espaco:start|espaço]] e [[lexico:c:causalidade:start|causalidade]], pois todas estas já a pressupõem; e se cada uma destas formas, conhecidas por todos nós como figuras particulares do [[lexico:p:principio:start|princípio]] de [[lexico:r:razao:start|razão]], somente valem para uma [[lexico:c:classe:start|classe]] específica de representações, já a [[lexico:d:divisao:start|divisão]] em [[lexico:s:sujeito-e-objeto:start|sujeito e objeto]], ao contrário, é a forma comum de todas as classes, unicamente sob a qual é em [[lexico:g:geral:start|geral]] possível [[lexico:p:pensar:start|pensar]] qualquer [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de representação, abstrata ou [[lexico:i:intuitiva:start|intuitiva]], pura ou empírica. Verdade alguma é, portanto, mais certa, mais [[lexico:i:independente:start|independente]] de todas as outras e menos necessitada de uma [[lexico:p:prova:start|prova]] do que esta: o que existe para o [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]], portanto o mundo inteiro, é apenas [[lexico:o:objeto:start|objeto]] em relação ao [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]], [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] de [[lexico:q:quem:start|quem]] intui, numa [[lexico:p:palavra:start|palavra]], representação. Naturalmente isso vale tanto para o presente quanto para o passado e o [[lexico:f:futuro:start|futuro]], tanto para o [[lexico:p:proximo:start|próximo]] quanto para o distante, pois é aplicável até mesmo ao tempo, [[lexico:b:bem:start|Bem]] como ao espaço, unicamente nos quais tudo se diferencia. Tudo o que pertence e pode pertencer ao mundo está inevitavelmente investido desse estar-condicionado pelo sujeito, existindo apenas para este. O mundo é representação. Nova essa verdade não é. Ela já se encontrava nas considerações céticas das quais partiu [[lexico:d:descartes:start|Descartes]]. [[lexico:b:berkeley:start|Berkeley]], no entanto, foi o primeiro que a expressou decididamente e prestou assim um serviço imortal à [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]], embora o restante de sua doutrina não possa sustentar-se. O primeiro [[lexico:e:erro:start|erro]] de [[lexico:k:kant:start|Kant]] foi o menosprezo desse princípio, como é apontado no apêndice desta [[lexico:o:obra:start|obra]]. – O quão cedo essa verdade fundamental foi conhecida pelos sábios da Índia, na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que aparece como o princípio básico da filosofia védica atribuída a Vyasa, testemunha-o W. Jones no [[lexico:u:ultimo:start|último]] de seus [[lexico:e:ensaios:start|Ensaios]], On the philosophy of the Asiatics; Asiatic researches: the fundamental tenet of the [[lexico:v:vedanta:start|vedanta]] school consisted not in denying the existence of matter; that is of solidity, impenetrability, and extended figure (to deny which would be lunacy), but in correcting the popular notion of it, and in contending that it has no essence independent of mental perception; that existence and perceptibility are convertible terms. Tais [[lexico:p:palavras:start|palavras]] exprimem suficientemente a [[lexico:c:compatibilidade:start|compatibilidade]] entre [[lexico:r:realidade:start|realidade]] empírica e [[lexico:i:idealidade:start|idealidade]] [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]]. Portanto, apenas do lado indicado, apenas na medida em que é representação, consideramos o mundo neste primeiro livro. Todavia, que [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] consideração, sem prejuízo de sua verdade, seja unilateral, consequentemente produzida por uma [[lexico:a:abstracao:start|abstração]] arbitrária, anuncia-se a cada um pela resistência interior com a qual aceita o mundo como sua mera representação. Aceitação a que, por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, nunca pode furtar-se. A unilateralidade dessa consideração, entretanto, o próximo livro complementará mediante uma verdade – não tão imediatamente certa quanto à verdade da qual partimos – à qual só a [[lexico:i:investigacao:start|investigação]] mais aprofundada, a abstração mais difícil, a [[lexico:s:separacao:start|separação]] do diferente e a unificação do [[lexico:i:identico:start|idêntico]] podem conduzir: tal verdade, que tem de ser deveras séria e grave para cada um, quando não terrível, e que cada um justamente pode e tem de dizer, soa: “O mundo é minha [[lexico:v:vontade:start|vontade]]”. Até lá, contudo, portanto neste primeiro livro, é [[lexico:n:necessario:start|necessário]] considerar firmemente o lado do mundo do qual partimos, o lado da cognoscibilidade, e, por conseguinte, considerar sem resistência todos os objetos existentes, até mesmo o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] [[lexico:c:corpo:start|corpo]], apenas como representações, e não designá-las de outro [[lexico:m:modo:start|modo]] senão [[lexico:s:simples:start|simples]] representações. Aquilo do que se faz aqui abstração, como espero que mais [[lexico:t:tarde:start|Tarde]] se tornará certo a cada um, é sempre a VONTADE, única que constitui o outro lado do mundo. Pois assim como este é, de um lado, inteiramente REPRESENTAÇÃO, é, de outro, inteiramente VONTADE. Uma realidade que não fosse nenhuma dessas duas, mas um objeto em si, é uma não [[lexico:c:coisa:start|coisa]] fantasmagórica, cuja aceitação é um [[lexico:f:fogo:start|fogo]] fátuo da filosofia. [Schopenhauer, MVR1:43-45] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}