===== MUNDIVIDÊNCIA ===== O [[lexico:p:problema|problema]] das mundividências converteu-se, nestes últimos tempos, num dos mais apaixonantes capítulos da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]], cabendo ao [[lexico:p:pensamento|pensamento]] [[lexico:a:atual|atual]] o [[lexico:m:merito|mérito]] de tê-lo [[lexico:a:agregado|agregado]] à [[lexico:p:problematica|problemática]] filosófica. ‘Mundividência’ traduz o vocábulo alemão [[lexico:w:weltanschauung|Weltanschauung]], ‘[[lexico:v:visao|visão]] do [[lexico:m:mundo|mundo]]’ ou ‘concepção do [[lexico:u:universo|universo]]’, traduzido também pelo vocábulo [[lexico:h:hibrido|híbrido]] greco-latino ‘cosmovisão’ ou pelo inteiramente helênico ‘cosmoscopia’, significando o conjunto de intuições que dominam [[lexico:n:nao|não]] só as particularizações teóricas de um [[lexico:t:tipo|tipo]] [[lexico:h:humano|humano]] ou cultural e condicionam toda [[lexico:c:ciencia|ciência]], corno também englobam, em [[lexico:p:particular|particular]], as formas normativas, fazendo da mundividência uma [[lexico:n:norma|norma]] para a [[lexico:a:acao|ação]]. Daí se apresentarem como tais vastos sistemas que, usualmente, vêm sendo considerados como filosofia ou como [[lexico:s:simples|simples]] posições metafísicas, tais como, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], o [[lexico:m:materialismo|materialismo]], o [[lexico:e:espiritualismo|espiritualismo]] etc. A [[lexico:m:multiplicidade|multiplicidade]] de mundividências, determinadas pela [[lexico:p:psicologia|psicologia]], pela [[lexico:r:raca|raça]], pela [[lexico:c:classe-social|classe social]], pela fase histórica e até mesmo pela própria [[lexico:b:biologia|biologia]], permitem a [[lexico:r:reducao|redução]] de suas formas a uma [[lexico:s:serie|série]] de tipos. Nesse [[lexico:s:sentido|sentido]], estabelece [[lexico:d:dilthey|Dilthey]] uma [[lexico:t:tipologia|tipologia]] que, mais atenta aos tipos metafísicos, compreende como mundividências básicas o materialismo, o [[lexico:i:idealismo-objetivo|idealismo objetivo]] e o [[lexico:i:idealismo-da-liberdade|idealismo da liberdade]]. Para Lucien Goldmann — que define as mundividências como conceitualizações de "um conjunto de aspirações, de sentimentos e de [[lexico:i:ideias|ideias]] que reúne os membros de um [[lexico:g:grupo|grupo]] (quase sempre, de uma [[lexico:c:classe|classe]] [[lexico:s:social|social]]) e as opõe aos outros grupos" — as mundividências fundamentais são a) a racionalista ([[lexico:d:descartes|Descartes]], [[lexico:l:leibniz|Leibniz]]), que às vezes está ligada, b) à empirista ([[lexico:h:hume|Hume]]), c) à trágica ([[lexico:p:pascal|Pascal]], [[lexico:k:kant|Kant]]) e d) à [[lexico:d:dialetica|dialética]] ([[lexico:m:marx|Marx]], [[lexico:e:engels|Engels]]). A mundividência racionalista se caracteriza pelo [[lexico:i:individualismo|individualismo]], a [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] da infinitude do [[lexico:e:espaco|espaço]], o descobrimento de respostas limitadas; a trágica, pelo totalismo, pela [[lexico:h:historicidade|historicidade]], pela [[lexico:v:visao-de-deus|visão de Deus]] escondido, pela cisão, pela [[lexico:a:angustia|angústia]], pela [[lexico:a:ambiguidade|ambiguidade]] e pela [[lexico:f:falta|falta]] de resposta; a dialética, pela [[lexico:t:temporalidade|temporalidade]], pela [[lexico:i:integracao|integração]] de opostos e pela resposta completa. Como conjunto do [[lexico:r:real|real]] cognoscível, distingue-se a mundividência da ‘[[lexico:i:imagem|imagem]] do mundo’, já que esta é a [[lexico:s:sintese|síntese]] dos traços gerais das imagens especiais que as diversas ciências esboçam de seu respectivo território, o que não quer dizer que não seja, em grande [[lexico:p:parte|parte]], determinada pela mundividência. Portanto, a imagem do mundo, própria da ciência, não equivale sempre à mundividência, porquanto somente esta penetra a [[lexico:v:vida|vida]] espiritual do [[lexico:h:homem|homem]], sendo a imagem do mundo uma [[lexico:i:ideia|ideia]] [[lexico:g:geral|geral]] da organização do cosmos material de [[lexico:a:acordo|acordo]] com os descobrimentos científicos. Esta imagem do mundo é conseguida mediante uma [[lexico:g:generalizacao|generalização]] dos dados parciais da ciência e é susceptível de modificações e [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]], enquanto a mundividência é dada de uma vez em sua [[lexico:t:totalidade|totalidade]], é inalterável e depende, em grande [[lexico:m:medida|medida]], do [[lexico:c:carater|caráter]] individual do [[lexico:p:povo|povo]] ou conjunto de povos, do [[lexico:m:momento|momento]] [[lexico:h:historico|histórico]] etc. A confusão entre imagem do mundo e mundividência, assim como a confusão entre mundividência e filosofia, foram apontadas recentemente quando um [[lexico:e:estudo|estudo]] mais atento do passado cultural indicou a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de uma [[lexico:s:separacao|separação]] delas e, com isso, a possibilidade de uma [[lexico:t:teoria|teoria]] das mundividências Intimamente relacionada, consoante Dilthey, com o problema da filosofia da filosofia, entendida esta como um [[lexico:f:fato-historico|fato histórico]] humano que é [[lexico:o:objeto|objeto]] de [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]]. [[lexico:c:como-se|como se]] vê, a formulação do problema das mundividências constitui, [[lexico:p:por-si|por si]] só, uma importante [[lexico:t:tarefa|tarefa]] filosófica. Em primeiro [[lexico:l:lugar|lugar]], porque o [[lexico:p:proprio|próprio]] nascimento da [[lexico:p:palavra|palavra]] Weltanschauung denuncia uma determinada [[lexico:s:situacao|situação]] histórica do homem. Significa uma radical [[lexico:m:mudanca|mudança]] na direção de seu [[lexico:p:ponto|ponto]] de mira, pois o homem, que durante tantos séculos teve seus olhos fixados em [[lexico:d:deus|Deus]], volta-os para o mundo. Interessa-se muito mais pela [[lexico:n:natureza|natureza]], pela [[lexico:s:sociedade|sociedade]] e pela [[lexico:c:cultura|cultura]] que pelo [[lexico:r:reino|reino]] [[lexico:d:divino|divino]]. Claro está que tal [[lexico:i:interesse|interesse]] não é de hoje, pois data — na cultura [[lexico:m:moderna|moderna]] — do [[lexico:r:renascimento|Renascimento]], cujo [[lexico:p:processo|processo]] de secularização do pensamento culminará no [[lexico:i:iluminismo|Iluminismo]]. Mas é indubitável que coube à filosofia atual, com especial relevância na [[lexico:o:obra|obra]] de Dilthey, ocupar-se sistematicamente com o problema mundividente. Em segundo lugar, é preciso distinguir, no [[lexico:c:conceito|conceito]] de ‘mundividência’, duas vertentes diversas em íntima [[lexico:r:relacao|relação]]. Não significa apenas uma visão do mundo, [[lexico:a:apreensao|apreensão]] de seu sentido total, pois nesta visão palpita um [[lexico:i:ideal|ideal]] para a própria vida; não se trata apenas de uma pura imagem, mas também de uma [[lexico:l:lei|lei]] da vida; não é apenas um conjunto de reflexões, ou seja, um [[lexico:c:comportamento|comportamento]] meramente [[lexico:t:teorico|teórico]], pois é também uma [[lexico:a:atitude|atitude]] total do homem, de um povo, de uma [[lexico:e:epoca|época]]. É uma [[lexico:d:decisao|decisão]] interna que se nutre de nossas últimas convicções referentes à totalidade do mundo e seu sentido [[lexico:u:ultimo|último]]. A mundividência não se apresenta apenas pela imagem do mundo, mas também pelo comportamento [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] em vista desta imagem. Não diz [[lexico:r:respeito|respeito]] apenas a [[lexico:r:razao|razão]], mas também ao [[lexico:s:sentimento|sentimento]] e à [[lexico:v:vontade|vontade]]. Daí afirmar Dilthey que [[lexico:t:todo|todo]] homem, com maior ou menor clareza, reflete sempre, em seu [[lexico:e:espirito|espírito]], as [[lexico:r:relacoes|relações]] que ocorrem entre ele e seu [[lexico:a:ambiente|ambiente]]. Suas funções psíquicas, o [[lexico:p:pensar|pensar]], o sentir e o desejar constituem diferentes atitudes suas com relação ao próprio mundo, e cada uma delas fá-lo ver-se sob uma [[lexico:l:luz|luz]] particular e o subsume em particulares [[lexico:c:categorias|categorias]]. Através do pensamento o mundo aparece como ura [[lexico:s:sistema|sistema]] de fatos que são o que são independentemente de nós, e procuramos conhecer o que são em [[lexico:v:verdade|verdade]], distinguir a [[lexico:r:realidade|realidade]] da [[lexico:a:aparencia|aparência]]. Por [[lexico:o:outro|outro]] lado, o sentimento nos mostra um mundo repleto de valores que apreciamos e gozamos, ou de desvalores que sofremos e suportamos, e tendemos ao [[lexico:v:valor|valor]] melhor, ao [[lexico:p:prazer|prazer]] ou à [[lexico:f:felicidade|felicidade]]. Por [[lexico:f:fim|fim]], através do [[lexico:d:desejo|desejo]] e da vontade vemos o mundo como um teatro para a ação, projetamos fins nele e convertemos seus conteúdos em objetos que almejamos ou repelimos. Mas, sentimento, [[lexico:i:inteligencia-e-vontade|inteligência e vontade]] sempre se acham unidos no [[lexico:d:devir|devir]] interno do homem. Cada uma destas três instâncias tem suas próprias categorias e vê o mundo á sua maneira. A vida não será uma [[lexico:u:unidade|unidade]], a menos que essas três maneiras de [[lexico:v:ver|ver]] o mundo se combinem de algum [[lexico:m:modo|modo]] e suas peculiares categorias se reconciliem sob o controle de um [[lexico:p:principio|princípio]] [[lexico:u:unico|único]]. A [[lexico:f:forca|força]] relativa das três atitudes num espírito [[lexico:d:dado|dado]] determinará qual será este princípio; mas de um ou de outro modo, por [[lexico:s:subordinacao|subordinação]] de uma ou duas delas à outra ou por qualquer tipo de combinação, em cada espírito amadurecido se estabelece uma unidade, e esta unidade é o que constitui sua mundividência. Na mundividência distingue Dilthey três [[lexico:e:elementos|elementos]] estruturalmente vinculados. O primeiro é uma [[lexico:c:crenca|crença]] acerca da natureza e conteúdo dos fatos; o segundo, [[lexico:c:construido|construído]] sobre [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:f:fundamento|fundamento]], um sistema de preferências e antipatias, expresso em juízos de valor; e o [[lexico:t:terceiro|terceiro]], resultante dos dois precedentes, é um sistema de desejos e aversões, fins, deveres, regras práticas e [[lexico:p:principios|princípios]]. Este sistema compreensivo de ideias e hábitos de pensamento, sentimento e vontade, resulta da [[lexico:o:operacao|operação]] conjunta das três [[lexico:a:atividades|atividades]] básicas, e o caráter da mundividência variará consoante qual dessas atitudes seja predominante. Se predomina a [[lexico:f:funcao|função]] cognitiva, o homem se orgulhará de seu [[lexico:r:realismo|realismo]], a clareza do espírito constituirá seu valor supremo e se limitará em reduzir os juízos de valor [[lexico:i:imperativo|imperativo]] a afirmações de fatos psicológicos. Ao contrário, o [[lexico:i:individuo|indivíduo]] no qual predomina o sentimento escolhe aqueles aspectos do universo que mais o atraem, sua [[lexico:b:beleza|beleza]] e sua [[lexico:h:harmonia|harmonia]], e os converte em chave de sua natureza e [[lexico:s:significado|significado]] reais. O homem no qual a vontade predomina verá o mundo fático como a [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] de um poder criativo, que existe para [[lexico:s:ser|ser]] o teatro da ação humana; não verá a verdade como clareza cognitiva, mas como o [[lexico:d:dever|dever]] [[lexico:m:moral|moral]] da sinceridade e honestidade, e a [[lexico:e:existencia|existência]] objetiva como um conjunto de condições que, na ação, se impõem a si mesmas. Dilthey afirma que este desenvolvimento, [[lexico:n:natural|natural]] e inevitável, se acha poderosamente ajudado pelo [[lexico:e:esforco|esforço]] [[lexico:c:consciente|consciente]] em resolver o que ele chama "o enigma da vida"; isto é, os problemas [[lexico:r:relativos|relativos]] ao nascimento e à [[lexico:m:morte|morte]], à [[lexico:a:alegria|alegria]] e à [[lexico:d:dor|dor]], [[lexico:a:amor|amor]] e ódio, poder e fraqueza do homem e sua ambígua [[lexico:p:posicao|posição]] na natureza. E toda mundividência, seja religiosa, artística ou filosófica é, essencialmente, uma tentativa de solucionar esse enigma, "que constitui o único, [[lexico:o:obscuro|obscuro]] e espantoso objeto de toda a filosofia".