===== MOVIMENTO FENOMENOLÓGICO ===== Foi este [[lexico:p:projeto|projeto]] compreendido e seguido? O [[lexico:e:estudo|estudo]] dos desenvolvimentos da [[lexico:f:fenomenologia-husserliana|fenomenologia husserliana]] de que, como dissemos, certos aspectos tiveram um [[lexico:e:extraordinario|extraordinário]] brilho, mostrou, pelo contrário, uma incompreensão quase [[lexico:g:geral|geral]] da [[lexico:i:ideia|ideia]] diretriz do [[lexico:f:filosofo|filósofo]]. Ele [[lexico:p:proprio|próprio]] teve claramente [[lexico:c:consciencia|consciência]] disso e exprimiu-o, entre outros, num [[lexico:t:texto|texto]] de 1930 (posfácio a Idées): «Que me acusem de [[lexico:i:intelectualismo|intelectualismo]], que se fale de atolamento do meu percurso metódico em abstrações unilaterais, ou que me censurem de [[lexico:n:nao|não]] atender de nenhuma [[lexico:f:forma|forma]] e por razões de [[lexico:p:principio|princípio]] à [[lexico:s:subjetividade|subjetividade]] originariamente concreta, àquela que é prática e ativa, não mais do que os problemas chamados ‘existenciais’ nem às questões metafísicas, são objecções que assentam todas em mal-entendidos e, em última [[lexico:a:analise|análise]], no [[lexico:f:fato|fato]] de se reconduzir a minha [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]] a um nível cuja [[lexico:s:superacao|superação]] constitui precisamente toda a sua [[lexico:s:significacao|significação]].» E ele denuncia no [[lexico:f:fim|fim]] do mesmo texto todos os arranjos que se quer introduzir na fenomenologia como [[lexico:c:ciencia|ciência]]: «Aquele que crê poder invocar o [[lexico:p:patetico|patético]] fecundo da [[lexico:e:experiencia|experiência]] no [[lexico:s:sentido|sentido]] [[lexico:v:vulgar|vulgar]] do [[lexico:t:termo|termo]], ou os ‘resultados garantidos’ das ciências exatas, da [[lexico:p:psicologia|psicologia]] [[lexico:e:experimental|experimental]] ou [[lexico:f:fisiologia|fisiologia]], ou da [[lexico:l:logica|lógica]] e matemáticas, por mais aperfeiçoadas que estejam, para extrair premissas filosóficas.» Os equívocos assim inventariados com uma notável [[lexico:l:lucidez|lucidez]] estão ainda vivos atualmente. A [[lexico:h:historia|história]] do «[[lexico:m:movimento-fenomenologico|movimento fenomenológico]]» permite encarná-los em cada discípulo que, quase sempre, foi um dissidente. A ambição de [[lexico:h:husserl|Husserl]] era dar à fenomenologia o [[lexico:c:carater|caráter]] de uma [[lexico:o:obra|obra]] colectiva. Houve, portanto, «círculos» fenomenológicos, aliás rapidamente desfeitos, estando a [[lexico:r:ruptura|ruptura]] com o [[lexico:m:mestre|mestre]] de [[lexico:m:modo|modo]] geral consumada antes de 1916; o [[lexico:m:motivo|motivo]] ideológico desta ruptura foi, na maior [[lexico:p:parte|parte]] dos casos, a [[lexico:r:recusa|recusa]] da [[lexico:t:transformacao|transformação]] da fenomenologia em [[lexico:i:idealismo-transcendental|idealismo transcendental]]. Depois, o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] fenomenológico seguiu o seu próprio curso e conheceu livres interpretações. Um quadro [[lexico:h:historico|histórico]], aliás demasiado linear e incompleto relativamente a certos contemporâneos (pensamos em E. [[lexico:l:levinas|Levinas]], sem [[lexico:f:falar|falar]], [[lexico:b:bem|Bem]] entendido, em comentadores que deram aos estudos husserlianos um [[lexico:e:estilo|estilo]] novo: S. [[lexico:b:bachelard|Bachelard]], J. Derrida, etc), foi estabelecido por Herbert Spiegellberg em The Phenomenological Mouvement (1960). Contentar-nos-emos com indicar aqui as orientações essenciais e os pontos de ruptura ou de inflexão. A aplicação do [[lexico:m:metodo|método]] [[lexico:d:descritivo|descritivo]] nos domínios da [[lexico:i:intencionalidade|intencionalidade]] apenas indicado mas não explorado por Husserl cimentou momentaneamente a [[lexico:u:unidade|unidade]] dos círculos fenomenológicos de Gottingen e de Munique: fenomenologia do querer, dos sentimentos (Alexander Pfänder, 1870-1941), do [[lexico:d:direito|direito]] e dos actos sociais (Adolf Reinach, 1883-1917), da [[lexico:e:estetica|estética]] (Moritz Geiger, 1880-1937). A [[lexico:a:atencao|atenção]] dada aos atos intencionais, às essenciais e às leis de [[lexico:e:essencia|essência]], situa nitidamente estas «fenomenologías» no prolongamento direto das Recherches Logiques ou da primeira parte das Idees Directrices. É conveniente, nesta «fenomenologia das [[lexico:e:essencias|essências]]», tratada como parte [[lexico:i:independente|independente]] do conjunto do projeto husserliano, conceder um [[lexico:l:lugar|lugar]] especial a Max [[lexico:s:scheler|Scheler]] (1874-1928). A sua Phénoménologie de la Sympathie, de L’Amour et de la Haine (1913) é citada pelo próprio Husserl como um [[lexico:e:exemplo|exemplo]] de análise [[lexico:i:intencional|intencional]] no domínio da psicologia dos sentimentos e do [[lexico:v:valor|valor]] (intenções axiológicas). Mas o método, em Scheler, insere-se em preocupações especulativas, metafísicas, religiosas, que dão à sua [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] o [[lexico:c:caracter|carácter]] de uma [[lexico:v:visao|visão]] [[lexico:e:etica|ética]] do [[lexico:m:mundo|mundo]] e a tornam totalmente estranha ao [[lexico:e:espirito|espírito]] de [[lexico:r:radicalismo|radicalismo]] [[lexico:t:teorico|teórico]] da fenomenologia [[lexico:t:transcendental|transcendental]]. Toda uma linhagem de fenomenólogos (entre os quais se retém o [[lexico:n:nome|nome]] de [[lexico:e:edith-stein|Edith Stein]], 1891-1942), à qual se deve um ensaio de corporação da fenomenologia no [[lexico:t:tomismo|tomismo]], destacou assim da fenomenologia certos traços do método [[lexico:e:eidetico|eidético]] para sustentar, dando-lhe um contorno de cientificidade, uma [[lexico:i:ideologia|ideologia]] herdada de outras fontes. De um alcance bem diferente para a [[lexico:c:compreensao|compreensão]] da própria filosofia de Husserl, isto é, de certas das suas possibilidades e daquelas que exclui, é a [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] de [[lexico:h:heidegger|Heidegger]]. L’Etre et le Temps (1927), obra dedicada a Husserl, inaugura na historia da fenomenologia um novo período. Doravante é relativamente a Husserl ou a Heidegger, ou tentando urna [[lexico:s:sintese|síntese]] dos seus [[lexico:p:pensamentos|Pensamentos]], ou seja, numa confusão dos dois, que os fenomenólogos definirão a sua própria [[lexico:a:atitude|atitude]]. A [[lexico:c:critica|crítica]] heideggeriana incide, antes de mais, na pretensão à universalidade do método de análise intencional constitutiva; põe portanto o [[lexico:p:problema|problema]] do sentido da fenomenologia do [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista da sua fundação. A partir da compreensão do [[lexico:s:ser|ser]] do [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]], Heidegger faz surgir, como [[lexico:q:questao-filosofica|questão filosófica]] central, a «[[lexico:q:questao-do-ser|questão do ser]]» que Husserl refere sempre «à dádiva do sentido de ser» pela subjetividade constituinte. Ora a [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] do fenômeno não é esclarecida por uma [[lexico:e:estrutura|estrutura]] da consciência, mas remete para uma estrutura de ser do existente. As noções-chave de [[lexico:s:ser-no-mundo|ser-no-mundo]], de [[lexico:s:ser-ai|ser-aí]] ([[lexico:d:dasein|Dasein]]) e, consequentemente, de análise das estruturas apriorísticas não da consciência mas do existente (Daseinsanalyse), surgem no lugar dos [[lexico:c:conceitos|conceitos]] husserlianos considerados por Heidegger como não originários. Heidegger, ao rejeitar o [[lexico:i:idealismo|Idealismo]] transcendental, não recusa, pois, como os outros fenomenólogos, o sentido da sua [[lexico:p:problematica|problemática]]: ele muda-lhe os pontos de aplicação e os «operadores» e é neste sentido que a sua dissidência poderá ser encarada como a mais autêntica [[lexico:f:fidelidade|fidelidade]]. A [[lexico:q:questao|questão]] do ser, a única questão filosófica para Heidegger, renova a problemática da [[lexico:o:origem|origem]], portanto o sentido de um radicalismo que não encontrará já a sua legitimição na [[lexico:e:evidencia|evidência]] do [[lexico:v:vivido|vivido]]. Uma «[[lexico:o:ontologia|ontologia]]» para [[lexico:a:alem|além]] de qualquer ontologia «regional» despoja a consciência do seu privilégio de [[lexico:p:presenca|presença]] a si e subordina a [[lexico:c:certeza|certeza]] apodíctica do preenchimento [[lexico:a:adequado|adequado]] à manifestação sempre equívoca do ser na [[lexico:l:linguagem|linguagem]]. Mas, ao abandonar o terreno da certeza, esta ontologia reencontra necessariamente noções especulativas que Husserl entendia eliminar. O [[lexico:e:essencial|essencial]] da confrontação entre Husserl e Heidegger pode resumir-se na questão seguinte: pode uma filosofia eliminar da sua construção todos os [[lexico:e:elementos|elementos]] especulativos, não se logra a si própria quando pensa [[lexico:t:ter|ter]] podido fazê-lo à [[lexico:l:luz|luz]] da consciência absoluta? Se ela tenta elucidar todos os conceitos com os quais opera, não vem a [[lexico:e:especulacao|especulação]] realojar-se no seio mesmo das evidências? Estas questões, as mais pertinentes que foram postas ao idealismo trancendental como ciência de rigor, foram levantadas por Eugen [[lexico:f:fink|Fink]] a propósito da análise intencional e da obscuridade que marca, para o comentador [[lexico:a:atual|atual]], os conceitos husserlianos de [[lexico:e:epoche|epoche]], de [[lexico:c:constituicao|constituição]], de produção de uma subjetividade absoluta e histórica. (L’Analyse Intentionnelle em Problèmes Actuelles de la Phénoménologie e les Concepts Opératoires dans la Phénoménologie de Husserl em Husserl, «Les Cahiers de Royaumont».) Para um exame novo, isento de preconceitos, e que resistirá à lógica interna do método husserliano, é, por sua vez, este método que parece apoiar-se em múltiplas pressuposições. Os seus conceitos mais incontestáveis são postos em [[lexico:c:causa|causa]], não para dar lugar a outros do mesmo [[lexico:t:tipo|tipo]], mas para assinalar o lugar onde a [[lexico:r:reflexao|reflexão]] filosófica se abre necessariamente para uma especulação sem a qual não podia mesmo começar. Que haja especulação e não simplesmente [[lexico:o:observacao|observação]] imparcial nos conceitos husserlianos de [[lexico:v:vida|vida]] transcendental, de intencionalidade, de constituição, na evidência da própria [[lexico:c:coisa|coisa]], torna, por sua vez, especulativa e não cientificamente legitimada, a [[lexico:f:fe|fé]] no método. (L’Analyse Intentionnelle, p. 83.) O [[lexico:l:limite|limite]] da cientificidade husserliana, [[lexico:e:esse|esse]] «quase [[lexico:n:nada|nada]]» que separa a ciência «no mundo» da ciência filosófica, que faz aquela ciência [[lexico:e:estar|estar]] sempre na procura da sua auto-legitimação e não realizada senão através do retomar perpétuo do seu [[lexico:c:comeco|começo]], pode resumir-se também numa despossessão do [[lexico:s:sujeito|sujeito]] [[lexico:p:puro|puro]] e traduzir-se pela [[lexico:n:necessidade|necessidade]] filosófica de andar constantemente do pensado ao «impensado», sem poder fazer outra coisa, em nome do próprio rigor, da [[lexico:s:seriedade|seriedade]] da [[lexico:t:tarefa|tarefa]] filosófica, senão aceitar esta no seu ser bruto ([[lexico:m:merleau-ponty|Merleau-Ponty]]: Le Philosophe et son Ombre). A filosofia husserliana tem pois o curioso [[lexico:d:destino|destino]] de ter sido melhor compreendida e respeitada segundo o seu projeto filosófico total por aqueles que mais radicalmente aplicaram o seu pensamento ao mundo ou puseram a questão do ser do sendo. Porque a clareza do sujeito lhe [[lexico:f:falta|falta]], a filosofia contemporânea, no [[lexico:h:horizonte|horizonte]] da fenomenologia, incide a sua atenção sobre a «sombra» (E. Fink) e transforma de novo (depois da elucidação husserliana) o sujeito em enigma. [Schérer]