===== MOUSA ===== gr. Μοῦσα, mousa Invocada pelo [[lexico:p:poeta:start|poeta]] no [[lexico:c:comeco:start|começo]] de um canto, a [[lexico:m:musa:start|musa]] deve tornar conhecidos os acontecimentos passados2: “E dizei-me [[lexico:a:agora:start|agora]], [[lexico:m:musas:start|Musas]], habitantes do Olimpo — pois sedes, vós, deusas presentes por toda [[lexico:p:parte:start|parte]], e conheceis tudo; [[lexico:n:nao:start|não]] ouvimos mais do que um ruído, e nós [[lexico:n:nada:start|nada]] sabemos — dizei-me quais eram os guias, os chefes dos Dânaos. A [[lexico:m:multidao:start|multidão]], não poderia enumerá-la, nem denominá-la, mesmo que tivesse dez línguas, dez bocas e uma [[lexico:v:voz:start|voz]] incansável, um [[lexico:c:coracao:start|coração]] de bronze em meu peito, a menos que as filhas de [[lexico:z:zeus:start|Zeus]], que leva a Égide, as Musas do Olimpo, não ‘se recordem’ (mnesaiath) daqueles que chegaram a Ilion. A [[lexico:p:palavra:start|palavra]] do poeta, tal [[lexico:c:como-se:start|como se]] desenvolve na [[lexico:a:atividade:start|atividade]] poética, é solidária a duas noções complementares: a Musa e a [[lexico:m:memoria:start|Memória]]. Essas duas potências religiosas definem a configuração [[lexico:g:geral:start|geral]] que dá à [[lexico:a:aletheia:start|aletheia]] poética sua [[lexico:s:significacao:start|significação]] [[lexico:r:real:start|real]] e profunda. Qual é a significação da Musa? Qual é a [[lexico:f:funcao:start|função]] da Memória? Evidenciamos, frequentemente, a [[lexico:p:presenca:start|presença]], no panteon [[lexico:g:grego:start|grego]], de divindades que têm o [[lexico:n:nome:start|nome]] de sentimentos, de paixões, de atitudes mentais, de qualidades intelectuais etc. Mousa é uma dessas potências religiosas que ultrapassa o [[lexico:h:homem:start|homem]] “no mesmo [[lexico:m:momento:start|momento]] em que este sente interiormente a sua presença”. Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], pela mesma [[lexico:r:razao:start|razão]] que métis, [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] intelectual, corresponde a Métis, esposa de Zeus, e thémis, que é uma [[lexico:n:nocao:start|noção]] [[lexico:s:social:start|social]], corresponde à grande Thémis, outra esposa de Zeus, um nome comum corresponde, no [[lexico:p:plano:start|plano]] profano, à Musa do panteon grego. Numerosos testemunhos da [[lexico:e:epoca:start|época]] clássica permitem-nos [[lexico:p:pensar:start|pensar]] que significa a palavra cantada, a palavra ritmada. O duplo [[lexico:v:valor:start|valor]] de mousa — nome comum, [[lexico:p:potencia:start|potência]] divina — faz-se entender particularmente [[lexico:b:bem:start|Bem]] num “[[lexico:d:discurso:start|discurso]] antigo” (palaios [[lexico:l:logos:start|Logos]]), transmitido por Fílon de [[lexico:a:alexandria:start|Alexandria]]: “Canta-se um velho [[lexico:r:relato:start|relato]], imaginado pelos sábios, e transmitido de memória, como tantos outros, de [[lexico:g:geracao:start|geração]] em geração... É assim como se segue: Quando o Criador acabou o [[lexico:m:mundo:start|mundo]] inteiro, perguntou a um dos profetas se desejaria que algo não existisse dentre todas as [[lexico:c:coisas:start|coisas]] que haviam nascido sobre a [[lexico:t:terra:start|Terra]]. Respondeu-lhe o [[lexico:o:outro:start|outro]] que todas eram absolutamente perfeitas e completas, que faltava somente uma, a palavra laudatória (ton epaineten... logon). . . O Pai de Tudo escutou [[lexico:e:esse:start|esse]] discurso, e, ao aprová-lo, criou imediatamente a linhagem das cantoras plenas de harmonias, nascidas de uma das potências que o rodeavam, a Virgem Memória ([[lexico:m:mneme:start|mneme]]), que o [[lexico:v:vulgar:start|vulgar]], alterando seu nome, chama Mnemosyne8.” Entre as Musas e a “palavra cantada” — especificada aqui como “Palavra de louvor” — existe uma estreita [[lexico:s:solidariedade:start|solidariedade]], que se afirma ainda mais claramente em nomes muito explícitos que possuem as filhas de Memória, pois toda uma [[lexico:t:teologia:start|teologia]] da palavra cantada se desenvolve a partir deles: Clio, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], conota a [[lexico:g:gloria:start|glória]] (chleos), a glória das grandes façanhas que o poeta transmite às gerações futuras; Tália faz alusão à festa (thallein, [[lexico:c:condicao:start|condição]] social da [[lexico:c:criacao:start|criação]] poética; Melpômene e Terpsícore despertam tanto as imagens de [[lexico:m:musica:start|música]] quanto de dança. Outros ainda, tais como Polimínia e Calíope, exprimem a rica [[lexico:d:diversidade:start|diversidade]] da palavra cantada, e a voz potente que dá [[lexico:v:vida:start|vida]] aos poemas. As epícleses mais antigas das Musas são igualmente reveladoras: muito antes de [[lexico:h:hesiodo:start|Hesíodo]], as Musas existiam em [[lexico:n:numero:start|número]] de três. Eram veneradas em um santuário muito antigo, situado no Hélicon, e chamavam-se Meléte, Mnéme e Aoide; cada uma delas levava o nome de um [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] [[lexico:e:essencial:start|essencial]] da função poética. Meléte designa a [[lexico:d:disciplina:start|disciplina]] indispensável ao aprendizado do ofício de aedo; é a [[lexico:a:atencao:start|atenção]], a concentração, o exercício mental. Mnéme é o nome da função psicológica que permite a recitação e a improvisação. Aoide é o [[lexico:p:produto:start|produto]], o canto épico, o poema acabado, [[lexico:t:termo:start|termo]] [[lexico:u:ultimo:start|último]] da Meléte e da Mnéme. Outras nomenclaturas são ainda atestadas. Cícero refere-se a uma, em que as Musas aparecem em número de [[lexico:q:quatro:start|Quatro]]: Arché, Meléte, Aoide e Thelxinoé. Duas delas desenvolvem aspectos inéditos: Arché é o [[lexico:p:principio:start|princípio]], o original, pois a palavra do poeta busca descobrir o original, a [[lexico:r:realidade:start|realidade]] primordial. Thelxinoé é a [[lexico:s:seducao:start|sedução]] do [[lexico:e:espirito:start|espírito]], o [[lexico:e:encantamento:start|encantamento]] que a palavra cantada exerce sobre o outro. Todos os epítetos da Musa, através dos quais se desenvolve uma verdadeira teologia da palavra, testemunham, pois, a importância, nos meios de aedos e de poetas inspirados, da [[lexico:e:equivalencia:start|equivalência]] entre a Musa e a noção de “palavra cantada”. Marcel Detienne, Os mestres da [[lexico:v:verdade:start|verdade]] na [[lexico:g:grecia:start|Grécia]] arcaica] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}