===== MORTE ===== (gr. [[lexico:t:thanatos:start|thanatos]]; lat. mors; in. Death; fr. Mort; al. Tod; it. Morte). A morte pode [[lexico:s:ser:start|ser]] considerada 1) como falecimento, [[lexico:f:fato:start|fato]] que ocorre na [[lexico:o:ordem:start|ordem]] das [[lexico:c:coisas:start|coisas]] naturais; 2) em sua [[lexico:r:relacao:start|relação]] específica com a [[lexico:e:existencia:start|existência]] humana. 1) Como falecimento, a morte é um fato [[lexico:n:natural:start|natural]] como todos os outros e [[lexico:n:nao:start|não]] tem [[lexico:s:significado:start|significado]] específico para o [[lexico:h:homem:start|homem]]. Existem procedimentos objetivos para a constatação ou [[lexico:v:verificacao:start|verificação]] desse fato. Por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]]: chama-se um médico para constatar o falecimento de uma [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]]; nesse caso, o falecimento é um fato atestável, de [[lexico:n:natureza:start|natureza]] biológica, que pode [[lexico:t:ter:start|ter]] consequências determinadas, mas indiretas, para outras pessoas. Sempre que se [[lexico:f:fala:start|fala]] em morte nesse [[lexico:s:sentido:start|sentido]], como fato natural constatável com procedimentos apropriados, entende-se a morte como falecimento. O mesmo acontece quando se considera a morte como uma [[lexico:c:condicao:start|condição]] da [[lexico:e:economia:start|economia]] [[lexico:g:geral:start|geral]] da natureza viva, ou da circulação da [[lexico:v:vida:start|vida]] ou da [[lexico:m:materia:start|matéria]] e assim por diante. Nesse sentido, [[lexico:m:marco-aurelio:start|Marco Aurélio]] falava da [[lexico:i:igualdade:start|igualdade]] dos homens perante a morte: "Alexandre da Macedônia e seu arrieiro, mortos, reduziram-se à mesma [[lexico:c:coisa:start|coisa]]: ou ambos são reabsorvidos nas [[lexico:r:razoes-seminais:start|razões seminais]] do [[lexico:m:mundo:start|mundo]] ou ambos são dispersos entre os átomos" (Recordações, VI, 24). No mesmo sentido, Shakespeare dizia: "Alexandre morreu, Alexandre foi sepultado, Alexandre voltou ao pó. O pó é [[lexico:t:terra:start|Terra]] e com a terra se faz argila; por que a argila em que ele se transformou não poderia vir a ser a tampa de um barril de cerveja?" (Hamlet, a. V, cena I). Em todos esses casos entende-se por morte o falecimento do ser vivo, qualquer que seja, sem [[lexico:r:referencia:start|referência]] específica ao ser [[lexico:h:humano:start|humano]]. Perante a morte assim entendida, a única [[lexico:a:atitude:start|atitude]] filosófica [[lexico:p:possivel:start|possível]] é a expressa por [[lexico:e:epicuro:start|Epicuro]]: "Quando nós estamos, a morte não está; quando a morte está, nós não estamos" (Dióg. L, 125). No mesmo sentido, [[lexico:w:wittgenstein:start|Wittgenstein]] disse.- "A morte não é um [[lexico:a:acontecimento:start|acontecimento]] da vida: não se vive a morte" (Tractatus, 6.4311). E [[lexico:s:sartre:start|Sartre]] ressaltou a insignificância da morte: "A morte é um fato [[lexico:p:puro:start|puro]], como o nascimento; chega-nos do [[lexico:e:exterior:start|exterior]] e transforma-nos em [[lexico:e:exterioridade:start|exterioridade]]. No fundo, não se distingue de [[lexico:m:modo:start|modo]] algum do nascimento, e é a [[lexico:i:identidade:start|identidade]] entre nascimento e morte que chamamos de [[lexico:f:facticidade:start|facticidade]]" (L’être et le néant, 1955, p. 630). Entendida nesse sentido, a morte não concerne propriamente à existência humana. O contraste entre a morte assim entendida e a morte como ameaça iminente sobre a existência individual foi [[lexico:b:bem:start|Bem]] expresso por Léon Tolstoi no [[lexico:c:conto:start|conto]] A morte de Ivan Iljitsch, no qual o [[lexico:p:protagonista:start|protagonista]], que reconhece como certa e válida a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] genérica da morte, como falecimento, rebela-se contra a ameaça que a morte faz pairar sobre ele. 2) Em sua relação específica com a existência humana, a morte pode ser entendida: a) como início de um ciclo de vida; ti) como [[lexico:f:fim:start|fim]] de um ciclo de vida; c) como [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] [[lexico:e:existencial:start|existencial]]. a) A morte é entendida como início de um ciclo de vida por muitas doutrinas que admitem a [[lexico:i:imortalidade-da-alma:start|imortalidade da alma]]. Para elas, a morte é o que [[lexico:p:platao:start|Platão]] chamava de "[[lexico:s:separacao:start|separação]] entre a [[lexico:a:alma:start|alma]] e o [[lexico:c:corpo:start|corpo]]" (Fed., 64 c). Com essa separação de fato, inicia-se o novo ciclo de vida da alma: seja ele entendido como reencarnação da alma em novo corpo, seja uma vida incorpórea. [[lexico:p:plotino:start|Plotino]] expressava essa concepção dizendo: "Se a vida e a alma existem depois da morte, a morte é um bem para a alma porque esta exerce melhor sua [[lexico:a:atividade:start|atividade]] sem o corpo. E, se com a morte a alma passa a fazer [[lexico:p:parte:start|parte]] da Alma [[lexico:u:universal:start|universal]], que [[lexico:m:mal:start|mal]] pode haver para ela?" (Enn., I, 7, 3). [[lexico:i:identico:start|Idêntico]] [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de morte reaparece sempre que se considera a vida do homem sobre a terra como preparação ou aproximação de uma vida diferente, e quando se afirma a [[lexico:i:imortalidade:start|imortalidade]] [[lexico:i:impessoal:start|impessoal]] da vida, como faz [[lexico:s:schopenhauer:start|Schopenhauer]]; para ele a morte é comparável ao pôr-do-sol, que representa, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], o nascer do [[lexico:s:sol:start|sol]] em [[lexico:o:outro:start|outro]] [[lexico:l:lugar:start|lugar]] (Die Welt, I, § 65). b) O conceito de morte como fim do ciclo de vida foi expresso de várias formas pelos filósofos. Marco Aurélio considerava-a como repouso ou cessação das preocupações da vida: conceito que ocorre frequentemente nas considerações da [[lexico:s:sabedoria:start|sabedoria]] popular em torno da morte Marco Aurélio dizia: "Na morte está o repouso dos contragolpes dos sentidos, dos movimentos impulsivos que nos arrastam para cá e para lá como marionetas, das divagações de nossos raciocínios, dos cuidados que devemos ter para com o corpo" (Recordações, VI, 28). [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]] concebia o fim do ciclo vital como [[lexico:d:diminuicao:start|diminuição]] ou [[lexico:i:involucao:start|involução]] da vida: "Não se pode [[lexico:f:falar:start|falar]] de [[lexico:g:geracao:start|geração]] total ou de morte perfeita, entendida rigorosamente como separação da alma. O que nós chamamos de geração sem desenvolvimentos e acréscimos, e o que chamamos de morte são involuções e diminuições" (Monad., § 73). Em outros termos, com a morte a vida diminui e desce para um nível inferior ao da [[lexico:a:apercepcao:start|apercepção]] ou [[lexico:c:consciencia:start|consciência]], para uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de "aturdimento", mas não cessa (Principes de la nature et de la grâce, 1714, § 4). Por sua vez, [[lexico:h:hegel:start|Hegel]] considera a morte como o fim do ciclo da existência individual ou finita, pela [[lexico:i:impossibilidade:start|impossibilidade]] de adequar-se ao universal: "A inadequação do [[lexico:a:animal:start|animal]] à universalidade é sua [[lexico:d:doenca:start|doença]] original e germe [[lexico:i:inato:start|inato]] da morte A [[lexico:n:negacao:start|negação]] desta inadequação é o cumprimento de seu [[lexico:d:destino:start|destino]]" (Enc., § 375). Finalmente, o conceito bíblico de morte como [[lexico:p:pena:start|pena]] do [[lexico:p:pecado-original:start|pecado original]] (Gen., II, 17; Rom., V, 12) é, ao mesmo tempo, conceito dela como conclusão do ciclo da vida humana perfeita em Adão e o conceito de [[lexico:l:limitacao:start|limitação]] fundamental imposta à vida humana a partir do [[lexico:p:pecado:start|pecado]] de Adão. [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]] diz a [[lexico:r:respeito:start|respeito]]: "A morte, a doença e qualquer defeito [[lexico:f:fisico:start|físico]] decorrem de um defeito na sujeição do corpo à alma. E assim como a rebelião do [[lexico:a:apetite:start|apetite]] carnal contra o [[lexico:e:espirito:start|espírito]] é a pena pelo pecado dos primeiros pais, também o são a morte e todos os outros defeitos físicos" (S. Th., II, 2, q. 164, a. 1). Porém este segundo [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]], [[lexico:t:tipico:start|típico]] da [[lexico:t:teologia:start|teologia]] cristã, pertence propriamente ao conceito de morte como possibilidade existencial. c) O conceito de morte como possibilidade existencial implica que a morte não é um acontecimento [[lexico:p:particular:start|particular]], situável no início ou no término de um ciclo de vida do homem, mas uma possibilidade sempre presente na vida humana, capaz de determinar as características fundamentais desta. Na [[lexico:f:filosofia-moderna:start|filosofia moderna]], a chamada [[lexico:f:filosofia-da-vida:start|filosofia da vida]], especialmente com [[lexico:d:dilthey:start|Dilthey]], levou à consideração da morte nesse sentido: "A relação que caracteriza de modo mais [[lexico:p:profundo:start|profundo]] e geral o sentido de nosso ser é a relação entre vida e morte porque a limitação da nossa existência pela morte é decisiva para a [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] e a avaliação da vida" (Das [[lexico:e:erlebnis:start|Erlebnis]] und die Dichtung, 5a ed., 1905, p. 230). A ideia importante aqui expressa por Dilthey é que a morte constitui "uma limitação da existência", não enquanto término dela, mas enquanto condição que acompanha todos os seus momentos. Essa concepção, que, de algum modo, reproduz no [[lexico:p:plano:start|plano]] filosófico a concepção de morte da teologia cristã, foi expressa por [[lexico:j:jaspers:start|Jaspers]] com o conceito da situação-limite como "[[lexico:s:situacao:start|situação]] decisiva, [[lexico:e:essencial:start|essencial]], que está ligada à [[lexico:n:natureza-humana:start|natureza humana]] enquanto tal e é inevitavelmente dada com o ser [[lexico:f:finito:start|finito]]" (Psychologie der Weltanschauungen, 1925, III, 2; trad. it., p. 266; cf. Phil, II, pp. 220 ss.). Referindo-se a esses precedentes, [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]] considerou a morte como possibilidade existencial: "A morte, como fim do [[lexico:s:ser-ai:start|ser-aí]] ([[lexico:d:dasein:start|Dasein]]), é a sua possibilidade mais própria, incondicionada, certa e, como tal, indeterminada e insuperável" (Sein und Zeit, § 52). Sob este [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista, de possibilidade, "a morte [[lexico:n:nada:start|nada]] oferece a realizar ao homem e nada que possa ser como [[lexico:r:realidade:start|realidade]] [[lexico:a:atual:start|atual]]. Ela é a possibilidade da impossibilidade de toda relação, de [[lexico:t:todo:start|todo]] [[lexico:e:existir:start|existir]]" (Ibid., § 53). E já que a morte pode ser compreendida só como possibilidade, sua compreensão não é esperá-la nem fugir dela, "não [[lexico:p:pensar:start|pensar]] nela", mas a sua [[lexico:a:antecipacao:start|antecipação]] [[lexico:e:emocional:start|emocional]], a [[lexico:a:angustia:start|angústia]] . A [[lexico:e:expressao:start|expressão]] usada por Heidegger ao definir a morte como "possibilidade da impossibilidade" pode com [[lexico:r:razao:start|razão]] parecer contraditória. Foi sugerida a Heidegger por sua doutrina da impossibilidade radical da existência: a morte é a ameaça que tal impossibilidade faz pairar sobre a existência. A prescindir dessa [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] da existência em termos de [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] negativa, pode-se dizer que a morte é "a nulidade possível das possibilidades do homem e de toda a [[lexico:f:forma:start|forma]] do homem" ([[lexico:a:abbagnano:start|Abbagnano]], Struttura dell’esistenza, 1939, § 98; cf. Possibilita e liberta, 1956, pp. 14 ss.). Já que toda possibilidade, como possibilidade, pode não ser, a morte é a nulidade possível de cada uma e de todas as possibilidades existenciais; nesse sentido, [[lexico:m:merleau-ponty:start|Merleau-Ponty]] diz que o sentido da morte é a "[[lexico:c:contingencia:start|contingência]] do [[lexico:v:vivido:start|vivido]]", "a ameaça perpétua para os significados eternos em que este pensa expressar-se por inteiro" (Structure du comportement, 1942, IV, II, § 4). A cessação definitiva da vida. — Toda [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] parece, como dizia o romancista Pasternak, "um imenso [[lexico:e:esforco:start|esforço]] para sobrepujar o [[lexico:p:problema-da-morte:start|problema da morte]] e do destino". [[lexico:c:como-se:start|como se]] apresenta a ideia da morte? I. — O [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]] da morte. Se a natureza não dotou o homem de um [[lexico:i:instinto:start|instinto]] que o advertisse sobre a data e a hora exata de sua morte — diz [[lexico:b:bergson:start|Bergson]] em As duas fontes —, é que daí resultaria um sentimento totalmente deprimente, capaz de aniquilar qualquer [[lexico:v:vontade:start|vontade]] de [[lexico:a:acao:start|ação]] e qualquer [[lexico:d:desejo:start|desejo]] elementar de [[lexico:v:viver:start|viver]]. A natureza, assim, não nos deu um [[lexico:i:instante:start|instante]] que nos permitisse adivinhar o [[lexico:m:momento:start|momento]] preciso da morte. Daí resulta que a ideia da morte não é, para o homem, uma ideia precisa, mas um sentimento [[lexico:i:indeterminado:start|indeterminado]] de "angústia": não se pode dizer que se tem "medo" da morte, na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que medo se refere a um [[lexico:o:objeto:start|objeto]] determinado (tem-se medo de [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]], de um leão etc.); a angústia, ao contrário, não evoca um objeto determinado, mas sim uma [[lexico:p:presenca:start|presença]] vaga e [[lexico:l:latente:start|latente]], uma possibilidade permanente, cujos sinais anunciadores são as doenças, os perigos exteriores e a fadiga do [[lexico:o:organismo:start|organismo]]. Na [[lexico:v:verdade:start|verdade]], do ponto de vista [[lexico:p:psicologico:start|psicológico]], a presença em nós da ideia da morte é somente o [[lexico:s:sinal:start|sinal]] e a [[lexico:p:prova:start|prova]] do exercício da [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]]. Ela persegue, em geral, o [[lexico:t:tedio:start|tédio]] da inação; entretanto, como [[lexico:e:esse:start|esse]] tédio é, ele [[lexico:p:proprio:start|próprio]], o ponto de partida da [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]], todos os pensadores têm sido levados naturalmente a ligar a ideia — até mesmo a angústia — da morte com o exercício da reflexão. Os pensadores modernos (Jaspers, Heidegger, aliás em seguida a Hegel) fizeram uma [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre a "vida orgânica" e a "existência humana", definindo a existência como a vida mais a consciência da morte. Só o homem — e nunca os animais — pode conhecer a angústia da morte. No [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] da [[lexico:p:personalidade:start|personalidade]], a angústia da morte aparece (por volta dos quinze anos no rapaz) com o nascimento da reflexão sobre si. Em geral, o homem lança-se na ação para fugir da ideia da morte, que, em compensação, escolta e envolve — como seu motor e objeto [[lexico:u:ultimo:start|último]] —n qualquer reflexão filosófica (Platão, Hegel, Heidegger). II. — O que se pode pensar da morte? Quase todas as religiões do mundo fazem-nos conceber a morte como o momento do [[lexico:j:julgamento:start|julgamento]] final. Certas passagens do Apocalipse precisam que esse julgamento só poderia ocorrer com o fim da [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]], no momento em que tudo estará preparado para julgar de maneira definitiva as consequências últimas de nossas [[lexico:a:acoes:start|ações]] no mundo, que, na verdade, nos escapam e estão sempre mudando. Na [[lexico:r:religiao:start|religião]] cristã, a morte do corpo é interpretada como o momento do [[lexico:r:renascimento:start|Renascimento]] do espírito em [[lexico:d:deus:start|Deus]]. Concebe-se dois tipos de imortalidade: a da alma individual (Platão, doutrina cristã) e a da alma individual integrando-se numa [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] universal (imortalidade impessoal, sustentada, por exemplo, por [[lexico:s:spinoza:start|Spinoza]]). Na verdade, entretanto, é preciso reconhecer, com [[lexico:s:socrates:start|Sócrates]], que não se pode pensar concretamente nada da morte. "Enquanto estamos lá, ela não está, e quando ela está, não estamos mais." É então mais [[lexico:u:util:start|útil]] destacar o ensino que pode trazer para a vida humana o sentimento da morte. III. — As reações ao sentimento da morte. O sentimento da limitação de nossa vida individual provoca uma [[lexico:r:reacao:start|reação]] natural; o [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]] quer perpetuar-se [[lexico:a:alem:start|além]] dela. A necessidade de ter filhos responde a "esse desejo de [[lexico:e:eternidade:start|Eternidade]]" (título de uma [[lexico:o:obra:start|obra]] de F. [[lexico:a:alquie:start|Alquié]]). O indivíduo morre mas se perpetua na espécie (para [[lexico:m:marx:start|Marx]], nesse sentido "a morte aparece como a dura vitória da espécie sobre o indivíduo"). O desejo de eternidade pode manifestar-se por uma obra histórica: cultural, artística, [[lexico:p:politica:start|política]]. A obra assegura a perpetuidade do indivíduo e a [[lexico:h:historia:start|história]] é o [[lexico:j:juizo:start|juízo]] final que faz viver eternamente os heróis e que enterra no [[lexico:e:esquecimento:start|esquecimento]] os que nada fizeram de sua vida. (Essa religião da história foi expressa por Vigny; foi o [[lexico:p:principio:start|princípio]] da filosofia de Hegel: Weltgeschichte ist Weltgerichte, "a história do mundo é o julgamento do mundo". Contudo, se refletimos, vemos que a humanidade, que nasceu há alguns milhares de anos, terá necessariamente uma morte: é a [[lexico:d:definicao:start|definição]] da vida. A espécie e a história humanas são, elas mesmas, limitadas; há uma pré-história, haverá uma idade pós-histórica. A morte e a vida do indivíduo tomam então um significado [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]]: para o homem, não há verdade da vida além- da vida presente. Por isso, os filósofos que pensaram de maneira radical (Platão, Spinoza, Leibniz, [[lexico:f:fichte:start|Fichte]], Hegel) julgaram que o destino do homem só podia consistir na presença total de [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] na vida, no máximo de atividade. Essa [[lexico:v:vontade-de-viver:start|vontade de viver]] totalmente — que é uma reação ao sentimento da morte — pode exprimir-se, como mostrou [[lexico:a:albert:start|Albert]] Carnus, através de um desejo imoderado de "gozar" a vida. Mas os gozos sensíveis não satisfazem inteiramente o homem. A maioria dos filósofos reconheceu que essa presença total do homem — não somente [[lexico:f:fisica:start|física]], mas inteligente — em si mesmo, só poderia realizar-se no [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] intelectual, na [[lexico:c:criacao:start|criação]] espiritual de uma obra, na reflexão filosófica propriamente dita (Spinoza, Fichte, Hegel). Resta, então, viver-se plenamente a vida, agir-se ao máximo no [[lexico:c:caminho:start|caminho]] em que nossa vontade e as circunstâncias nos colocaram, prosseguir-se uma obra e um trabalho, pois além da existência individual, das decisões atuais, da ação eficaz ou do momento de criação espiritual, existe apenas uma história [[lexico:p:problematica:start|problemática]] e, no que concerne à morte, um nada inconcebível. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}