===== MORAL TEOLÓGICA ===== A concepção teológica é, na [[lexico:m:moral|moral]], aquela que submete a [[lexico:a:atividade|atividade]] do [[lexico:h:homem|homem]] aos cânones estabelecidos pela [[lexico:t:teologia|teologia]]. No cristianismo encontramos diversas manifestações desse [[lexico:p:pensamento|pensamento]]. Para [[lexico:s:santo|santo]] [[lexico:a:agostinho|Agostinho]] [[lexico:v:viver|viver]] moralmente é viver de [[lexico:a:acordo|acordo]] com a [[lexico:n:natureza|natureza]] de [[lexico:s:ser|ser]] [[lexico:r:racional|racional]]. A [[lexico:f:felicidade|felicidade]] alcança-se pela [[lexico:p:posse|posse]] da [[lexico:c:contemplacao|contemplação]] de [[lexico:d:deus|Deus]]. A moral, segundo [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]], que segue o [[lexico:c:caminho|caminho]] marcado por [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] apresenta como postulados fundamentais: "Se a felicidade humana é o [[lexico:f:fim|fim]] da nossa atividade, ela só pode ser alcançada através de nossos atos. E esses atos nos levam, direta ou indiretamente, ao fim almejado. E a [[lexico:r:razao|razão]] é o [[lexico:m:meio|meio]] de que dispõe o homem para alcançar [[lexico:e:esse|esse]] fim. O homem é um ser imerso no ser. É cumprindo a [[lexico:l:lei|lei]] do ser que ele poderá alcançar a sua plenitude. Portanto a felicidade só poderá ser conseguida na plenitude do ser acabado e [[lexico:p:perfeito|perfeito]]. E um ser racional [[lexico:n:nao|não]] atinge sua plenitude na [[lexico:r:racionalidade|racionalidade]]? A [[lexico:m:moralidade|moralidade]] só pode firmar-se no que favoreça a realização dos destinos humanos, no que permite alcançar o seu fim. A atividade moral deve coincidir com a atividade racional. Mas um [[lexico:a:ato|ato]] é [[lexico:r:razoavel|razoável]] quando é apto, por sua natureza, para obter o fim que intenta a razão, que é a felicidade". "Onde quer que se estabeleça uma [[lexico:o:ordem|ordem]] de [[lexico:f:finalidade|finalidade]] [[lexico:b:bem|Bem]] determinada, é de [[lexico:n:necessidade|necessidade]] que a ordem instituída conduza ao fim proposto e que o afastar-se dela implique já o privar-se de tal fim. Pois, [[lexico:o:o-que-e|o que é]] em razão de um fim, recebe sua necessidade desse mesmo fim; de [[lexico:f:forma|forma]] tal, que deve positivar-se, se se quer obter o fim; e uma vez posto, salvo o caso de [[lexico:f:forca|força]] maior, o fim é conseguido". (Tomás de Aquino, Summa Contra Gentiles, c.104). Mas um ato de [[lexico:v:virtude|virtude]] não nos dá logo a felicidade, nem mesmo uma [[lexico:v:vida|vida]] inteira, reconhecia ele. Há desgraças entre os momentos, infortúnios que surgem, azares que transtornam as vidas, conspirações de condições e, [[lexico:a:alem|além]] disso, o [[lexico:e:escandalo|escândalo]] constante dos ímpios triunfantes e a opressão sobre os justos. Tais fatos podem enfraquecer o descrente, que na descrença se abismará. São tantas as circunstâncias de que depende a felicidade, que esta e a virtude marcham isoladas muitas vezes. Mas a virtude pode realizar-se independentemente, [[lexico:p:por-si|por si]] mesma, embora não nos dê logo a felicidade. E muitas vezes a virtude não a alcança, o que é desconcertante. Por isso os estoicos acabam por considerar que não há [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] bem [[lexico:h:humano|humano]] fora do bem moral em [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]]. A [[lexico:v:vontade|vontade]] de agir bem é o bem, e não há [[lexico:o:outro|outro]]. Por essa razão [[lexico:k:kant|Kant]] termina por afirmar que a moral não poderia pretender resultados práticos. A satisfação deve [[lexico:e:estar|estar]] no [[lexico:d:dever|dever]] cumprido. Para Tomás de Aquino a moralidade não tem apenas a finalidade de satisfazer um [[lexico:f:formalismo|formalismo]] [[lexico:a:abstrato|abstrato]], um [[lexico:i:imperativo|imperativo]] sem fundamentação no ser, nem a mandamentos arbitrários, mas a mandamentos que estão no ser. A virtude é um [[lexico:a:autentico|autêntico]] prolongar dos instintos, sempre que estes sejam autênticos, que sejam realmente naturais, que pertençam ao [[lexico:g:genio|gênio]] da [[lexico:e:especie|espécie]]. Se os atos de bem não realizam desde logo a felicidade, eles são, no entanto, uma semente. Realizar a ordem do ser é santificar-se. A virtude vem de uma lei [[lexico:u:universal|universal]]. Nossas obras "nos seguem". A [[lexico:r:realidade|realidade]] não é moral por si mesma, mas o é em sua [[lexico:t:totalidade|totalidade]], porque o ser o é, e Deus é o Ser Supremo. E esse ser está no [[lexico:u:universo|universo]] e em cada homem. É o ser em nós que nos incita ao bem, à felicidade. E se unirmos nosso [[lexico:e:esforco|esforço]] ao do Ser Supremo seremos invencíveis, porque permanecemos na ordem universal. A boa [[lexico:c:consciencia|consciência]] é uma força. De que valeria a virtude se ela não lutasse pela conservação do ser e por ampliá-lo? Ela não se apoia em mal-entendidos, em ilusões, em preconceitos. Se tende a realizações temporais, tende ainda mais a realizações intemporais, extratemporais, sobrenaturais, porque o ser ultrapassa a tudo quanto é limitado. Nossa natureza integral não se prende apenas à natureza. O que podemos realizar, como seres daqui, é apenas uma [[lexico:p:parte|parte]] do que podemos realizar. Não se exclui da [[lexico:i:ideia|ideia]] da felicidade a de [[lexico:p:prazer|prazer]]. Conhecemos prazeres entre dores e mágoas. O prazer é também uma [[lexico:p:perfeicao|perfeição]], pois é o cumprimento de uma [[lexico:a:acao|ação]] vital. É um complemento [[lexico:i:intrinseco|intrínseco]] das operações vitais. Quando [[lexico:s:spinoza|Spinoza]] diz que o gozo é "a passagem de uma perfeição menor a uma perfeição maior", e a [[lexico:t:tristeza|tristeza]] o inverso, não o negava Tomás de Aquino, pois dizia o mesmo. Eis porque [[lexico:t:todo|todo]] ser humano deseja o prazer. Se vivemos por que não levar até o seu [[lexico:u:ultimo|último]] [[lexico:t:termo|termo]] o [[lexico:g:gosto|gosto]] da vida? Perguntava Aristóteles em sua [[lexico:e:etica|Ética]] se teria sido criado "o prazer para a vida ou a vida para o prazer". Tomás de Aquino é decisivo. Repele esta última [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] e aceita a primeira. Não é o deleite que dá a [[lexico:i:intencao|intenção]] à [[lexico:c:criacao|criação]]; o deleite é secundário. O prazer é um bem em si, não por si mesmo. É um bem e um germe de novos [[lexico:b:bens|bens]]. Sempre que ligamos a agradabilidade a [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]], fazemo-la melhor. Conclui-se que se a virtude for realizada com gosto, ela torna-se mais virtuosa. O prazer não é um óbice à ação, salvo quando a ela se opõe. O prazer da ação ativa o homem. Por isso Tomás de Aquino não o condena. Ele está no cume de todas as [[lexico:c:coisas|coisas]]. O gozo de Deus é Deus. Deus é [[lexico:b:beatitude|beatitude]]. Mas nossos prazeres são passageiros, transeuntes, frágeis, [[lexico:r:relativos|relativos]] e proporcionais ao bem que os acompanha. Desaparecido o [[lexico:o:objeto|objeto]], desaparece o prazer, desvanece-se. Desejamos um prazer [[lexico:e:eterno|eterno]]. Reprova Tomás de Aquino as investidas que se dirigem ao prazer, que só as aceita quanto ao prazer [[lexico:i:irracional|irracional]] e abusivo. Há prazeres nobres e há prazeres viciosos. Toda forma viciosa ofende a razão. O prazer é um bem, mas como não é o primeiro, é consequentemente secundário. Se ele favorece à vida, não é a vida. [[lexico:q:quem|quem]] se sentiria satisfeito de ser rei apenas de pantomima? A natureza uniu o prazer à ação. E se assim é, evidentemente o prazer favorece a sua [[lexico:n:normal|normal]] atividade. O maior prazer corporal está ligado ao que respeita a espécie. Há, no prazer, um [[lexico:v:valor|valor]]. Se a posse de uma [[lexico:v:verdade|verdade]] nos dá um prazer é porque nutrir-se corporalmente é um bem para a vida do [[lexico:c:corpo|corpo]]. Há bens maiores e menores. O prazer está ligado ao objeto. Gozar por gozar é contra a razão e, portanto, imoral. Se afeta apenas a ordem da vida é uma [[lexico:f:falta|falta]] leve, mas quando tais prazeres transtornam os valores da vida, desorganizam-na, o dano que produzem revela a sua imoralidade. A moral é portanto, para o homem, a [[lexico:a:arte|arte]] de chegar ao seu fim. E este fim é o bem, e esse é a plena realização de si mesmo, de sua [[lexico:n:natureza-humana|natureza humana]]. E é moral o meio que a facilite. Desrespeitá-lo é [[lexico:p:provocar|provocar]] a [[lexico:s:sancao|sanção]] que sobrevem consequentemente. As [[lexico:a:acoes|ações]] humanas devem enquadrar-se numa realização moral: as ações naturais devem ser realizadas naturalmente; as humanas, humanamente, livremente. Há uma lei [[lexico:i:imanente|imanente]] que dirige o [[lexico:m:mundo|mundo]]; na verdade, leis que se subordinam à Lei primeira. Sair da ordem [[lexico:n:natural|natural]], o que o homem pode devido ao seu [[lexico:l:livre-arbitrio|livre arbítrio]] é ser mau, e é ele por isso responsável. O homem quer o bem e não pode fugir a essa lei. Mas pode escolher entre bens diferentes. Há uma moral imanente que o homem pode descobrir; é a moral da própria vida. Não é a moral heterônima e imposta por Deus. A moral é imanente ao ser e a sanção surge da própria [[lexico:i:imanencia|imanência]]. O prêmio está no cumprimento dessa lei e o castigo sobrevem porque nos afastamos da rota ascensional imanente do ser. A virtude é o meio racional da felicidade; e o [[lexico:v:vicio|vício]], o desdém irracional desse meio. A virtude é um meio e não um fim. "O [[lexico:v:valor-da-vida|valor da vida]] é a razão do [[lexico:r:respeito|respeito]] à vida; o valor da saúde, a razão da higiene; o do [[lexico:s:saber|saber]], a razão do [[lexico:e:estudo|estudo]]; o de nossas [[lexico:r:relacoes|relações]] recíprocas, a razão da [[lexico:j:justica|justiça]]; o da felicidade integral, a razão da virtude em sua integridade também", afirma Sertillanges. Se não há correspondências sempre neste mundo, se são precárias as nossas seguranças na vida presente, esta não é um termo final, lembra Tomás de Aquino. "A moral tomista é uma moral sem [[lexico:o:obrigacao|obrigação]], uma moral sem sanções. Repele o [[lexico:l:legalismo|legalismo]] kantiano ou escotista para permanecer com a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] do ser evolutivo sobre a base de Deus; e quanto às sanções, não conta com ‘recompensas extrínsecas’ , mas com o resultado de uma [[lexico:e:evolucao|evolução]] normal, dentro e sob a [[lexico:g:garantia|garantia]] de uma ordem que sabemos ser da divindade"(Sertillanges). A moral é o cumprimento da Lei divina do ser, e é cumprindo-a e nela elevando-nos, nela exaltando-nos, que alcançamos a plenitude do ser, a suprema felicidade do ser que, em sua plenitude, realiza a plenitude de si mesmo.