===== MNEME ===== gr. Μνήμη, mnéme (he), mneme, [[lexico:m:memoria:start|memória]]. É a [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] de aprender ([[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]], Met., A, 1). Sinônimo: mnemosyne. Mas a [[lexico:p:palavra:start|palavra]] cantada é inseparável da memória: na [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] hesiódica, as [[lexico:m:musas:start|Musas]] são filhas de Mnemosyne; em Kios, elas levam o [[lexico:n:nome:start|nome]] de "remembranças" (mneiai); são elas também que fazem o [[lexico:p:poeta:start|poeta]] "lembrar-se". Qual é a [[lexico:s:significacao:start|significação]] da memória? Quais são suas [[lexico:r:relacoes:start|relações]] com a palavra cantada? Em primeiro [[lexico:l:lugar:start|lugar]], o [[lexico:e:estatuto:start|estatuto]] [[lexico:r:religioso:start|religioso]] da memória, seu [[lexico:c:culto:start|culto]] nos meios dos aedos e sua importância no [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] poético [[lexico:n:nao:start|não]] podem [[lexico:s:ser:start|ser]] compreendidos se se desprezar o [[lexico:f:fato:start|fato]] de que, do século XII ao século IX, a [[lexico:c:civilizacao:start|civilização]] grega fundava-se não sobre a [[lexico:e:escrita:start|escrita]], mas sobre as tradições orais. "Que memória não era necessária naqueles tempos?! Quantas indicações eram dadas sobre os meios de identificar os [[lexico:l:lugares:start|lugares]], sobre os momentos propícios aos empreendimentos, sobre os sacrifícios que haveriam de ser feitos aos [[lexico:d:deuses:start|deuses]]. . . sobre os monumentos dos heróis, cuja [[lexico:l:localizacao:start|localização]] era secreta e muito difícil de ser encontrada em regiões tão distantes da [[lexico:g:grecia:start|Grécia]]." Uma civilização oral exige um [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] da memória, ela necessita da execução de técnicas de memória muito precisas. A [[lexico:p:poesia:start|poesia]] oral, da qual resultam a Ilíada e a Odisseia, não pode ser compreendida sem se postular uma verdadeira "[[lexico:m:mnemotecnica:start|mnemotécnica]]". As pesquisas de Milmann Parry e seus epígonos esclarecem bastante os procedimentos de composição dos poetas através da [[lexico:a:analise:start|análise]] da [[lexico:t:tecnica:start|técnica]] formular: os aedos, com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], criavam oralmente e de maneira direta, "não através de [[lexico:p:palavras:start|palavras]], mas através de fórmulas, por grupos de palavras construídas de antemão e prontas para se engatar no hexâmetro dactílico". Sob a inspiração poética, suspeita-se um lento adestramento da memória. Os poemas homéricos oferecem, por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, exemplos destes exercícios "mnemotécnicos", que deviam assegurar aos jovens aedos o domínio da difícil técnica poética: são estas as passagens conhecidas sob o nome de "catálogos". Há um catálogo dos melhores guerreiros aqueus, um catálogo dos melhores cavalos. O catálogo dos exércitos [[lexico:g:grego:start|grego]] e troiano, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], ocupa a metade do segundo canto da Ilíada, ou seja, quatrocentos versos que representam para o recitante uma autêntica proeza. Mas a memória dos poetas é uma [[lexico:f:funcao:start|função]] psicológica orientada como a nossa? As pesquisas de J.-P. Vernant permitem afirmar que a memória divinizada dos gregos não responde, de [[lexico:m:modo:start|modo]] algum, aos mesmos fins que a nossa; ela não visa, em [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]], reconstruir o passado segundo uma [[lexico:p:perspectiva:start|perspectiva]] [[lexico:t:temporal:start|temporal]]. A memória sacralizada é, em primeiro lugar, um privilégio de alguns grupos de homens organizados em confrarias: assim sendo, ela se diferencia radicalmente do poder de se recordar que possuem os outros indivíduos. Nesses meios de poetas inspirados, a Memória é uma [[lexico:o:onisciencia:start|onisciência]] de [[lexico:c:carater:start|caráter]] adivinhatório; define-se como o [[lexico:s:saber:start|saber]] mântico, pela [[lexico:f:formula:start|fórmula]]: "[[lexico:o:o-que-e:start|o que é]], o que será, o que foi". Através de sua memória, o poeta tem [[lexico:a:acesso:start|acesso]] direto, mediante uma [[lexico:v:visao:start|visão]] [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]], aos acontecimentos que evoca; tem o privilégio de entrar em contato com o outro [[lexico:m:mundo:start|mundo]]. Sua memória permite-lhe "decifrar o invisível". A memória não é somente o suporte material da palavra cantada, a função psicológica que sustenta a técnica formular; é também, e sobretudo, a [[lexico:p:potencia:start|potência]] religiosa que confere ao [[lexico:v:verbo:start|verbo]] poético seu estatuto de palavra mágico-religiosa. Com efeito, a palavra cantada, pronunciada por um poeta dotado de um [[lexico:d:dom:start|dom]] de vidência, é uma palavra eficaz; ela institui, por [[lexico:v:virtude:start|virtude]] própria, um mundo simbólico-religioso que é o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] [[lexico:r:real:start|real]]. Qual é, a partir de então, a função do poeta? Com que fins utiliza seu dom de vidência? Quais são os registros da palavra cantada, inserida na memória? Qual é, em [[lexico:m:meio:start|meio]] a esses registros, o lugar e o [[lexico:v:valor:start|valor]] da [[lexico:a:aletheia:start|aletheia]]? {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}