===== MITOPEIA ===== [[lexico:a:agora|agora]] vamos [[lexico:j:jogar|jogar]] de propósito deliberado. No [[lexico:f:fim|fim]] de um fragmento de [[lexico:s:schelling|Schelling]], intitulado «[[lexico:i:ideias|ideias]] para uma [[lexico:f:filosofia-da-natureza|filosofia da natureza]]» (Jubilaunsdruck, vol. I, p. 706, Munchen, 1927), lê-se esta curta [[lexico:f:frase|frase]]: «[[lexico:n:natureza|natureza]] tem de [[lexico:s:ser|ser]] [[lexico:e:espirito|Espírito]] visível, e o Espírito, Natureza invisível.» Joguemos o nosso [[lexico:j:jogo|jogo]]: «um [[lexico:m:mundo|mundo]] seria um [[lexico:d:deus|Deus]] visível e um deus, um mundo invisível». Isto nos lembra um dos possíveis sentidos do fragmento 30 de [[lexico:h:heraclito|Heráclito]], que completamos ou, antes, prolongamos sem pretensão de acertar no que o Efésio verdadeiramente pensou: Cosmos é [[lexico:f:fogo|fogo]] que se extingue; reaceso o Fogo, nele se consome o Cosmos. Cosmos «vira» Fogo, Fogo «vira» Cosmos. Fogo e Cosmos se opõem como o anverso e o reverso da mesma moeda. Analogamente se pode [[lexico:p:pensar|pensar]] a [[lexico:r:relacao|relação]] entre um deus e seu mundo. Em outros fragmentos do mesmo [[lexico:f:filosofo|filósofo]], a «viragem» diz-se «[[lexico:m:morte|morte]]». Se nos apropriamos deste [[lexico:m:modo|modo]] de dizer, se o transpropriamos, o resultado é surpreendente: a «[[lexico:c:cosmofania|cosmofania]] teocríptica» que, a nosso [[lexico:v:ver|ver]], é desenvolto, desencoberto, nudificado germe do [[lexico:m:mito|mito]], bate violentamente de encontro à [[lexico:m:mitologia|mitologia]] que se entende como «biografia dos [[lexico:d:deuses|deuses]]». A [[lexico:v:verdade|verdade]] corre em [[lexico:s:sentido|sentido]] oposto: mito [[lexico:n:nao|não]] é «biographia», mas «thanatographia». O que, evidentemente, significa: facto seminal do mito não é a [[lexico:v:vida|vida]] de um deus, mas, sim, a morte dele. Poder-nos-iam objectar que «deuses» e «imortais» são [[lexico:s:sinonimos|sinônimos]] na mitopeia grega. Ainda assim, não nos desdizemos. A uma, porque não faltam naquela mitopeia deuses que morrem, embora se emende a mão, acrescentando que, depois de mortos, ressuscitam; e depois porque sempre se pode interpretar a morte como [[lexico:m:metamorfose|metamorfose]]. E então diríamos: um deus morre como deus e ressuscita como mundo, ou, ainda, um mundo é a última e mais espantosa metamorfose de um deus. Não nos faltam apoios históricos e antropológicos (cf. Sempre o mesmo acerca do mesmo, nas últimas páginas, e adiante, §§ 58 e segs.) para manter [[lexico:b:bem|Bem]] firme o que se poderia olhar como um castelo de cartas. Não joguei sem trunfos que assegurassem o [[lexico:s:sucesso|sucesso]] do jogo em meu proveito, que é o de que se me afigura ser a verdade. Porém, todos eles, em conjunto bem compacto, comprometem o mito com a [[lexico:r:religiao|religião]], e os mitógrafos de hoje não querem nem [[lexico:s:saber|saber]] de [[lexico:s:semelhante|semelhante]] [[lexico:c:compromisso|compromisso]], se ele não for apenas acidental. Mais um [[lexico:o:obstaculo|obstáculo]] a contornar ou a remover. Preferimos removê-lo a contorná-lo. [EudoroMito:48-49]