===== MITOLOGIA ===== Por escrever está a mitologia que [[lexico:n:nao:start|não]] seja nem queira [[lexico:s:ser:start|ser]] «biografia dos [[lexico:d:deuses:start|deuses]]» ou, pelo menos, que não queira ficar por aí. [[lexico:b:bem:start|Bem]] sabemos que por aí julga não ficar quando, terminado o rol dos deuses, procede pelo [[lexico:r:relato:start|relato]] da [[lexico:l:lenda:start|lenda]] heroica. Mas o feito comum de todos os mitógrafos é que por [[lexico:p:perfeito:start|perfeito]] deem o [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] mitográfico e mitológico, uma vez dispostos, em [[lexico:o:obediencia:start|obediência]] a critérios que não importa mencionar e, muito menos, discutir, os relatos tradicionais que compõem a tal biografia dos deuses e a consecutiva biografia dos heróis. Por aí ficam todos se não ousam dizer a [[lexico:m:modo:start|modo]] de prefácio, introdução ou, ainda, de comentários intercalados o que entendem por [[lexico:m:mito:start|mito]]. Raríssimos, em [[lexico:t:todo:start|todo]] o caso, são os que valem a [[lexico:p:pena:start|pena]] ser lidos, quando a exigência do leitor ultrapassa a mesma [[lexico:c:curiosidade:start|curiosidade]] que os leva a percorrer as galerias de um museu de cera ou uma fugidia saudade que os chama à releitura de histórias que deliciaram a sua infância. Decerto que não pomos em [[lexico:d:duvida:start|dúvida]] a honestidade de [[lexico:q:quem:start|quem]] afirme que, se outra [[lexico:c:coisa:start|coisa]] fizesse, não teria feito o que fazer devia; que a não ser biógrafo de deuses e heróis, o mitólogo [[lexico:n:nada:start|nada]] seria. Menos do que nada: abominável detrator de uma [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] por dezenas de séculos ininterrupta. Não estou certo de acertar [[lexico:c:caminho:start|caminho]] desviando-me de tão respeitável e respeitada tradição. Mas vale todas as penas tentá-lo; até a de retroceder ao [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de partida, e partir por [[lexico:o:outro:start|outro]] [[lexico:d:desvio:start|desvio]]. Só não vale pena nenhuma o abrir portas amplamente abertas, repetir a lição lida e relida, a ponto de nos acometer a [[lexico:n:nausea:start|náusea]] só ao [[lexico:p:pensar:start|pensar]] na eventual [[lexico:o:obrigacao:start|obrigação]] de tornar a lê-la, mais diluída ou mais concentrada, mais repleta ou mais despojada de referências eruditas. Se o leitor imaginasse quão pouco custa a [[lexico:a:aparente:start|aparente]] erudição... Se mo pedir, gostosamente lhe confiarei o segredo dessa tão ambicionada [[lexico:a:aparencia:start|aparência]]. Mas vamos ao que em [[lexico:v:verdade:start|verdade]] à verdade importa. Que mitologia está por escrever, depois de tantas que se escreveram? Que mitologia poderá ser a que não seja «biografia dos deuses»? Pois não é da [[lexico:v:vida:start|vida]] dos deuses que a mitologia sempre tratou, [[lexico:c:como-se:start|como se]] de nada mais lhe conviesse tratar? [EudoroMito:43-44] Porém, há maneira e maneira de [[lexico:f:falar:start|falar]]. Uma é a dos alegoristas, outra a dos tautegoristas, isto é, a dos que pensam que o mito diz precisamente o que disse e nada mais [[lexico:a:alem:start|além]] do que ficou [[lexico:d:dito:start|dito]]. E aqui se levanta diante de nós, desafiante e soberbo, o óbice em que mitógrafos e mitólogos não pensam, e porque o não pensam, vão sempre escrevendo a biografia de deuses e heróis. É que, no mito, não se pode negar que em primeiro [[lexico:p:plano:start|plano]] não se exponham deuses e heróis, principalmente deuses, à nossa [[lexico:v:visao:start|visão]] interessada. Ninguém dirá, por conseguinte, que inteiramente falsa seja a [[lexico:n:nocao:start|noção]] comum de mito como «biografia dos deuses». Falsa não é, mas também não é a inteira verdade do mito. Algo ficou esquecido. Tentemos lembrar o que se envolveu de um [[lexico:e:esquecimento:start|esquecimento]] que reputamos como a quase inevitável [[lexico:r:razao:start|razão]] de ser e do haver uma mitologia apresentada e representada pelo que não é mais do que «biografia dos deuses». Até hoje, mitógrafos e mitólogos esqueceram-se do [[lexico:m:mundo:start|mundo]] em que os deuses vivem a vida que bem ou [[lexico:m:mal:start|mal]] descrevem. Só isto — o que não é pouco nem de pouco alcance. Mas se dele ainda se lembram, deixando subentendido que [[lexico:e:esse:start|esse]] mundo é o deles e o nosso, melhor fora que o não lembrassem. Pois se neste ainda se podem achar vestígios de [[lexico:d:deus:start|Deus]] da [[lexico:t:teologia:start|teologia]] Revelada, do que se fez o [[lexico:h:homem:start|homem]] que veio a ser Homem, decerto que o mesmo mundo inabitável se tornou para o deus ou deuses do mito. A vida deles, tal como a [[lexico:l:literatura:start|literatura]] mitográfica a descreve, não poderia decorrer neste mundo, porque este é o mundo que adequadamente se definiria pela inexistência dos deuses, ou pela [[lexico:c:crenca:start|crença]] em que eles já não existem, provisto que alguma vez tenham existido. Mas se a vez passou, em que se acreditava que existissem, parece que, com ela, passou também a crença em que, a existirem, só podiam [[lexico:e:existir:start|existir]] em mundo que não se lhes recusava a [[lexico:e:existencia:start|existência]]. Em [[lexico:s:suma:start|suma]], à «biografia dos deuses», que a mitologia pretende ser, e mais não ser, o que sempre faltou, o que continua faltando, é traçar o [[lexico:c:circulo:start|círculo]] de um [[lexico:h:horizonte:start|horizonte]] [[lexico:p:proprio:start|próprio]] dos deuses cuja biografia se escreveu. Os deuses não viveram no Mundo, mas cada um em seu mundo. Contudo, ainda por aqui não ficam os indícios do delineamento de uma nova ou renovada mitologia. [EudoroMito:46] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}