===== MITO EM PLATÃO ===== Já constatamos que a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] nasceu como [[lexico:l:libertacao|libertação]] do [[lexico:l:logos|Logos]] em [[lexico:r:relacao|relação]] ao "[[lexico:m:mito|mito]]" e à [[lexico:f:fantasia|fantasia]]. Os [[lexico:s:sofistas|sofistas]] fizeram um [[lexico:u:uso|uso]] [[lexico:f:funcional|funcional]] (alguém disse "iluminista", ou seja, "racionalista") do mito. [[lexico:s:socrates|Sócrates]] condenou até mesmo [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:t:tipo|tipo]] de uso do mito, exigindo fosse ele tratado com procedimento rigorosamente dialético. [[lexico:p:platao|Platão]], inicialmente, participou com Sócrates dessa [[lexico:p:posicao|posição]]. Entretanto, já a partir do [[lexico:g:gorgias|Górgias]], passou a atribuir ao mito um novo [[lexico:v:valor|valor]], que passaria a usar de [[lexico:f:forma|forma]] constante, conferindo-lhe grande importância. Como [[lexico:e:explicar|explicar]] esse [[lexico:f:fato|fato]]? Por que a filosofia voltava a assumir o mito? Representa isso uma [[lexico:i:involucao|involução]], uma abdicação parcial de suas próprias prerrogativas por [[lexico:p:parte|parte]] da filosofia, uma [[lexico:r:renuncia|renúncia]] à [[lexico:c:coerencia|coerência]] ou, talvez, um [[lexico:s:sintoma|sintoma]] de desconfiança em si mesma? Em breve, qual o [[lexico:s:significado|significado]] do [[lexico:m:mito-em-platao|mito em Platão]]? Extremamente diversificadas foram as respostas oferecidas a esse [[lexico:p:problema|problema]]. Soluções diametralmente opostas derivaram de [[lexico:h:hegel|Hegel]] e da [[lexico:e:escola|escola]] de [[lexico:h:heidegger|Heidegger]]. Hegel (e seus seguidores) viu no mito platônico um [[lexico:o:obstaculo|obstáculo]] ao [[lexico:p:pensamento|pensamento]], uma certa imaturidade do logos, que ainda [[lexico:n:nao|não]] conquistara a [[lexico:l:liberdade|liberdade]] plena. Por [[lexico:o:outro|outro]] lado, a escola de Heidegger pensava [[lexico:r:representar|representar]] o mito a [[lexico:e:expressao|expressão]] mais autêntica do pensamento platônico. De fato, o logos capta o [[lexico:s:ser|ser]], mas não a [[lexico:v:vida|vida]]; assim, o mito vinha colaborar exatamente para a [[lexico:e:explicacao|explicação]] da vida, que o logos não tinha condições de captar. Mas a [[lexico:v:verdade|verdade]] reside no [[lexico:m:meio|meio]] [[lexico:t:termo|termo]]. Platão passa a atribuir valor ao mito a partir do [[lexico:m:momento|momento]] em que começa a valorizar algumas teses fundamentais do [[lexico:o:orfismo|orfismo]], juntamente com aspectos religiosos de seu [[lexico:p:proprio|próprio]] pensamento. Para Platão, mais do que expressão de fantasia, o mito é expressão de [[lexico:f:fe|fé]] e de [[lexico:c:crenca|crença]]. Na verdade, em muitos [[lexico:d:dialogos|diálogos]], a partir do Górgias, a filosofia de Platão relativa a certos temas se configura como fé racionalizada: o mito procura clarificação no logos e o logos busca complementação no mito. Em [[lexico:s:sintese|síntese]], ao chegar a [[lexico:r:razao|razão]] aos limites extremos de suas possibilidades, Platão confia à [[lexico:f:forca|força]] do mito a [[lexico:t:tarefa|tarefa]] de [[lexico:s:superar|superar]] intuitivamente esse limites, elevando o [[lexico:e:espirito|espírito]] a uma [[lexico:v:visao|visão]] ou, pelo menos, a uma [[lexico:t:tensao|tensão]] [[lexico:t:transcendente|transcendente]]. [[lexico:a:alem|Além]] disso, importa observar particularmente o seguinte: o mito de que Platão se serve metodicamente, em [[lexico:e:essencia|essência]], é diferente do mito pré-filosófico, que ainda não conhecia o logos. Trata-se não apenas de um mito que, como dissemos, constitui mais expressão de fé do que assombro [[lexico:f:fantastico|fantástico]], mas também de um mito que não subordina o logos a si, mas funciona como [[lexico:e:estimulo|estímulo]] paralele, fecundando-o no [[lexico:s:sentido|sentido]] anteriormente explicado. Por isso, representa um mito que, no momento em que é criado, sofre a sua própria demitização, sendo despojado pelo logos de seus [[lexico:e:elementos|elementos]] fantásticos para que se preservem apenas seus poderes alusivos e intuitivos. Eis a [[lexico:e:exemplificacao|exemplificação]] mais clara do que afirmamos em uma passagem do [[lexico:f:fedon|Fédon]] que se segue imediatamente à narração de um dos mais grandiosos mitos com que Platão procurou representar o [[lexico:d:destino|destino]] das almas no além: "Certamente, não convém a um [[lexico:h:homem|homem]] dotado de [[lexico:b:bom-senso|bom senso]] sustentar que as [[lexico:c:coisas|coisas]] se passem exatamente como [[lexico:e:eu|eu]] as descrevi; sustentar, entretanto, que algo de [[lexico:s:semelhante|semelhante]] deva acontecer no que diz [[lexico:r:respeito|respeito]] às almas e às suas moradas, a partir do fato de que se conclui que a [[lexico:a:alma|alma]] é imortal, me parece perfeitamente legítimo, sendo [[lexico:i:interessante|interessante]] correr o [[lexico:r:risco|risco]] de acreditar, porquanto o risco é [[lexico:b:belo|belo]]! É importante que, com tais crenças, nos encantemos a nós mesmos; é por isso que eu, desde há algum [[lexico:t:tempo|tempo]], continuo sustentando o meu mito." Consequentemente, se quisermos entender Platão, devemos preservar a [[lexico:f:funcao|função]] e o valor do mito, ao lado e juntamente com a função reservada ao logos, nos moldes do que ficou acima explicado. Por conseguinte, está enganado tanto [[lexico:q:quem|quem]] pretende cancelá-lo em benefício exclusivo do [[lexico:p:puro|puro]] logos como quem busca conceder-lhe [[lexico:p:prioridade|prioridade]] em relação ao logos a [[lexico:p:ponto|ponto]] de representar a sua [[lexico:s:superacao|superação]] (mito-logia).