===== MISTICISMO ===== (in. Mysticism; fr. Mysticisme, al. Mysticismus; it. Misticismo). Toda doutrina que admita a [[lexico:c:comunicacao:start|comunicação]] direta entre o [[lexico:h:homem-e-deus:start|homem e Deus]]. A [[lexico:p:palavra:start|palavra]] [[lexico:m:mistica:start|mística]] começou a [[lexico:s:ser:start|ser]] usada nesse [[lexico:s:sentido:start|sentido]] nas obras de Dionísio o Aeropagita, pertencentes à segunda metade do séc. V e inspiradas no neoplatônico [[lexico:p:proclo:start|Proclo]]. Em tais obras é acentuado o [[lexico:c:carater:start|caráter]] [[lexico:m:mistico:start|místico]] do [[lexico:n:neoplatonismo:start|neoplatonismo]] original, que é a doutrina de [[lexico:p:plotino:start|Plotino]]. Para isso, insiste-se na [[lexico:i:impossibilidade:start|impossibilidade]] de chegar até [[lexico:d:deus:start|Deus]] ou de realizar qualquer comunicação com ele através dos procedimentos comuns do [[lexico:s:saber:start|saber]] [[lexico:h:humano:start|humano]], de cujo [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista só se pode definir Deus negativamente ([[lexico:t:teologia-negativa:start|teologia negativa]]). Por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, insiste-se também numa [[lexico:r:relacao:start|relação]] originária, íntima e [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]] entre o [[lexico:h:homem:start|homem]] e Deus, em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] da qual o homem pode retornar a Deus e unir-se finalmente a ele num [[lexico:a:ato:start|ato]] supremo. Este é o [[lexico:e:extase:start|êxtase]], que Dionísio considera a [[lexico:d:deificacao:start|deificação]] do homem. [[lexico:e:esse:start|esse]] é o [[lexico:e:esquema:start|esquema]] de toda doutrina mística, e foi extraído pelo pseudo-Dionísio dos textos neoplatônicos; contém muitos vestígios das crenças orientais, às quais deviam boa [[lexico:p:parte:start|parte]] de sua inspiração. O misticismo medieval colocou-se algumas vezes como [[lexico:a:alternativa:start|alternativa]] que excluía o [[lexico:c:caminho:start|caminho]] da busca [[lexico:r:racional:start|racional]]: esse foi o caso de Bernardo de Clairvaux (séc. XII), em [[lexico:q:quem:start|quem]] a defesa da via mística é acompanhada pela polêmica contra a [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] e, em [[lexico:g:geral:start|geral]], o [[lexico:u:uso:start|uso]] da [[lexico:r:razao:start|razão]]. Outras vezes a via mística e a da [[lexico:e:especulacao:start|especulação]] [[lexico:e:escolastica:start|escolástica]] são admitidas e reconhecidas, como fizeram Hugo e Ricardo de S. Vítor, também no séc. XII. O misticismo conserva os mesmos [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]] em S. [[lexico:b:boaventura:start|Boaventura]], que cultiva igualmente a especulação filosófica e a mística. Por outro lado, a grande corrente do misticismo especulativo alemão do séc. XIV ([[lexico:m:mestre:start|mestre]] [[lexico:e:eckhart:start|Eckhart]], Tauler, Suso e outros) opõe-se também a qualquer tentativa de empregar a razão no [[lexico:c:campo:start|campo]] da [[lexico:r:religiao:start|religião]], mas sua [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] é ser uma especulação sobre a [[lexico:f:fe:start|fé]], considerada como via de comunicação direta entre o homem e Deus. [[lexico:n:nao:start|Não]] pertencem ao domínio da filosofia, mas sim ao domínio do misticismo, os místicos práticos do Cristianismo, como Santa Teresa, Santa Catarina de Siena, S. Francisco, Joana D’Arc e outros (cf. H. Delacroix, Étude d’histoire et de psychologie du mysticisme, Paris, 1908; J. H. Leuba, The Psychology of Religious Mysticism, 1925). A prática mística consiste essencialmente em definir os graus progressivos da ascensão do homem até Deus, em ilustrar com metáforas o [[lexico:e:estado:start|Estado]] de êxtase e em procurar promover essa ascensão com discursos edificantes. Os graus da ascensão mística são habitualmente três: [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] (cogitatió), que tem por [[lexico:o:objeto:start|objeto]] as imagens provenientes do [[lexico:e:exterior:start|exterior]] e destina-se a considerar as marcas de Deus nas [[lexico:c:coisas:start|coisas]]; a [[lexico:m:meditacao:start|meditação]] (meditatió), que é o recolhimento da [[lexico:a:alma:start|alma]] em si mesma e que tem por objeto a [[lexico:i:imagem-de-deus:start|imagem de Deus]]; e a [[lexico:c:contemplacao:start|contemplação]] (contemplatió), que visa a Deus mesmo. Esses graus estão ilustrados e subdivididos de vários modos pelos místicos, que habitualmente dividem cada um desses graus em outros dois, enumerando assim, no êxtase, sete graus de ascensão, P. ex., segundo Boaventura, o pensamento pode considerar as coisas em sua [[lexico:o:ordem:start|ordem]] objetiva (I [[lexico:g:grau:start|grau]]) ou na [[lexico:a:apreensao:start|apreensão]] que a alma humana tem delas (II grau). A meditação pode contemplar a [[lexico:i:imagem:start|imagem]] de Deus nos pode-res naturais da alma ([[lexico:m:memoria:start|memória]], [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]] e [[lexico:v:vontade:start|vontade]] ) ou ainda nos poderes que a alma conquista graças às três [[lexico:v:virtudes:start|virtudes]] teologais (IV grau). A contemplação pode considerar Deus em seu primeiro [[lexico:a:atributo:start|atributo]], ou seja, em seu ser (V grau), ou ainda em sua [[lexico:m:maxima:start|máxima]] [[lexico:p:potencia:start|potência]], que é o [[lexico:b:bem:start|Bem]] (VI grau) (Itinerarium mentis in Deum, 1259). Para todos os místicos, acima de todos os graus está o êxtase’, ou excessus mentis, definido às vezes como "[[lexico:d:douta-ignorancia:start|douta ignorância]]" e, em todos os caso, considerado como a "deificação do homem", ou seja, a sua [[lexico:u:uniao:start|união]] com Deus. Do ponto de vista filosófico-religioso, é importante a apreciação de [[lexico:k:kierkegaard:start|Kierkegaard]] sobre o misticismo: o místico é "aquele que se escolhe em isolamento completo", ou seja, isolado do [[lexico:m:mundo:start|mundo]] e dos contatos humanos ([[lexico:a:aut-aut:start|Aut Aut]], em Werke, II, p. 215), mas, assim agindo, comete certa indiscrição em relação a Deus. Isso porque, em primeiro [[lexico:l:lugar:start|lugar]], desdenha a [[lexico:e:existencia:start|existência]], a [[lexico:r:realidade:start|realidade]] na qual Deus o colocou, e, em segundo lugar, degrada Deus e a [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]]. "Degrada-se porque é sempre degradação ser essencialmente diferente dos outros graças a [[lexico:s:simples:start|simples]] acidentalidade, e degrada Deus porque faz dele um [[lexico:i:idolo:start|ídolo]] e de si mesmo um favorito em sua corte" (Ibid., Werke, II, p. 219). Na filosofia contemporânea o misticismo foi defendido por [[lexico:b:bergson:start|Bergson]], que nele viu a "religião [[lexico:d:dinamica:start|dinâmica]]", a religião que continua o elã criador da [[lexico:v:vida:start|vida]] e tende a [[lexico:c:criar:start|criar]] formas de vida mais perfeitas para o homem. "O [[lexico:a:amor:start|amor]] místico" — diz Bergson — "identifica-se com o amor de Deus por sua [[lexico:o:obra:start|obra]], amor que criou todas as coisas e é capaz de revelar a quem souber interrogá-lo o [[lexico:m:misterio:start|mistério]] da [[lexico:c:criacao:start|criação]]. É [[lexico:c:composto:start|composto]] de [[lexico:e:essencia:start|essência]] mais [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] que [[lexico:m:moral:start|moral]]. Com a ajuda de Deus, ele gostaria de aperfeiçoar a criação da [[lexico:e:especie:start|espécie]] humana e fazer da [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]] o que logo teria sido [[lexico:p:possivel:start|possível]], se tivesse podido constituir-se definitivamente sem a ajuda do homem." Em outras [[lexico:p:palavras:start|palavras]], é ao elã místico que se pode atribuir o restabelecimento da "[[lexico:f:funcao:start|função]] [[lexico:e:essencial:start|essencial]] do [[lexico:u:universo:start|universo]], que é uma [[lexico:m:maquina:start|máquina]] destinada a criar divindades" (Deux sources; trad. it., pp. 256, 349). Essa [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] do misticismo, feita por Bergson, não se diferencia do [[lexico:p:panteismo:start|panteísmo]] comum. Mystos era o iniciado nos [[lexico:m:misterios:start|mistérios]] (mysterion) da antiga [[lexico:g:grecia:start|Grécia]]; mystagogo (gogia, significa condução) era o que conduzia o aprendiz aos mistérios, também mystodotes. a) O [[lexico:t:termo:start|termo]] tomou o sentido da [[lexico:c:crenca:start|crença]] na [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de uma união ([[lexico:f:fusao:start|fusão]]) intima e direta do [[lexico:e:espirito:start|espírito]] humano ao [[lexico:p:principio:start|princípio]] fundamental do ser, ao [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] supernatural da divindade. b) Toda [[lexico:a:atitude:start|atitude]] religiosa que busca a união com a divindade. c) É a doutrina que afirma que a realidade última é revelada por meios cognoscitivos distintos do perceptivo e do [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]] e [[lexico:s:superior:start|superior]] a estes. d) O misticismo popular se caracteriza por considerar sobrenaturais certos fatos naturais que parecem violar as leis da [[lexico:n:natureza:start|natureza]] ou são produzidos por poderes que ultrapassam as coisas, os quais determinam que se dêem de determinado [[lexico:m:modo:start|modo]]. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}