===== MILESIANOS ===== Essa grande aventura intelectual [[lexico:n:nao:start|não]] começa na [[lexico:g:grecia:start|Grécia]] continental; do período que estudamos, quase todos os nomes ilustres podem [[lexico:s:ser:start|ser]] localizados na Jônia (metade sul da costa ocidental da Ásia Menor) e na "Grande Grécia" (sul da península italiana e Sicília). A Jônia foi a primeira [[lexico:r:regiao:start|região]] de [[lexico:c:civilizacao:start|civilização]] helênica (ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] que a primeira região do [[lexico:m:mundo:start|mundo]] ocidental) [[lexico:a:a-se:start|a se]] desprender plenamente do imobilismo e das opressoras tradições que definem a organização dos [[lexico:m:modos-de-vida:start|modos de vida]] predominantemente camponesa onde reinam aristocracias fundiárias. Uma certa civilização urbana já se tinha afirmado em muitos [[lexico:l:lugares:start|lugares]], com um [[lexico:a:artesanato:start|artesanato]] desenvolvido e trocas comerciais a longa distância por via marítima (notadamente em Creta, desde os fins do século III a. C.). Mas as condições de um [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] livre e [[lexico:b:bem:start|Bem]] individualizado parecem [[lexico:t:ter:start|ter]] sido reunidas, pela primeira vez, apenas um pouco mais [[lexico:t:tarde:start|Tarde]], na opulência industrial e comercial da Jônia dos séculos VI e VII a.C; não é certamente por [[lexico:a:acaso:start|acaso]] que a mais florescente das cidades da Jônia, a mais laboriosa em toda a bacia do Mediterrâneo oriental e dos países limítrofes, a mais variegada, na encruzilhada de um sem-número de ricas influências culturais, Mileto, velha colônia cretense por sua vez fundadora de numerosos entrepostos comerciais, tenha sido a pátria dos três primeiros pensadores que importam nesta [[lexico:h:historia:start|história]], Tales, [[lexico:a:anaximandro:start|Anaximandro]] e [[lexico:a:anaximenes:start|Anaxímenes]]. Nenhuma [[lexico:c:cidade:start|cidade]] da bacia mediterrânea podia conhecer problemas mais novos, impossíveis de se resolver nos limites das tradições abaladas e ter ao mesmo tempo e no mesmo [[lexico:g:grau:start|grau]] o [[lexico:o:ocio:start|ócio]] para encará-los com um [[lexico:o:otimismo:start|otimismo]] profano. A [[lexico:a:atitude:start|atitude]] comum aos três mi-lesianos, mais importante a definir que a [[lexico:d:divisao:start|divisão]] de seus atributos respectivos, revela, como indicamos acima, uma [[lexico:r:reacao:start|reação]] francamente desfavorável aos hábitos do pensamento [[lexico:m:mitico:start|mítico]]. A [[lexico:u:unidade:start|unidade]] primordial de onde provêm os seres da [[lexico:n:natureza:start|natureza]], em sua rica [[lexico:d:diversidade:start|diversidade]], estava já presente nas cosmogonias míticas. Ela se afirma [[lexico:a:agora:start|agora]] num [[lexico:m:monismo:start|monismo]] ao qual deseja oferecer antes uma base permanente e uma [[lexico:f:forca:start|força]] [[lexico:i:imanente:start|imanente]] de [[lexico:g:geracao:start|geração]] que um [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de partida para uma genealogia, a [[lexico:f:fim:start|fim]] de [[lexico:s:superar:start|superar]] as ambiguidades do [[lexico:m:mito:start|mito]], sempre pronto, quanto a ele, a duplicar, depois de tê-los por um tempo humanizado, os seres da natureza e sua própria [[lexico:o:origem:start|origem]] por outras tantas imagens antropomórficas. A narração [[lexico:r:ritual:start|ritual]] e anônima que cantava obscuramente as famílias de [[lexico:d:deuses:start|deuses]] e de reis divinos comandando a ordenação do mundo cede francamente [[lexico:l:lugar:start|lugar]] a um [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de [[lexico:e:explicacao:start|explicação]] prosaica e mais [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]], ainda grandemente influenciada pelos temas míticos, mas orientada essencialmente por forças ou propriedades naturais e precisas, purificadas de [[lexico:t:todo:start|todo]] [[lexico:a:antropomorfismo:start|antropomorfismo]], localizáveis sem [[lexico:m:misterio:start|mistério]] no [[lexico:s:sensivel:start|sensível]] e idênticas, fora do alcance dos homens, ao que são no funcionamento das técnicas. Tales, essa etiqueta de um [[lexico:t:teorema:start|teorema]], já era [[lexico:m:mal:start|mal]] conhecido do jônio Heródoto; [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] [[lexico:f:fala:start|fala]] dele apenas por ouvir dizer. Não há [[lexico:r:razao:start|razão]] para se duvidar de sua [[lexico:e:existencia:start|existência]] histórica nem de que tenha pertencido ao helenismo. Mas as maiores incertezas cercam sua [[lexico:f:figura:start|figura]] lendária: provavelmente [[lexico:n:nada:start|nada]] escreveu e muito rapidamente tornou-se o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] [[lexico:s:simbolo:start|símbolo]] da [[lexico:s:sabedoria:start|sabedoria]] erudita e da [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]], traços que fazem [[lexico:p:pensar:start|pensar]], antecipadamente, no [[lexico:p:personagem:start|personagem]], sob tantos pontos de vista diferente, de [[lexico:s:socrates:start|Sócrates]]. É, em todo o caso, o primeiro em data dos [[lexico:p:physiologoi:start|physiologoi]], dos que estudam livremente a natureza das. [[lexico:c:coisas:start|coisas]]. Teria predito o [[lexico:e:eclipse:start|eclipse]] total do [[lexico:s:sol:start|sol]], que sobreveio, dizem, em pleno desenrolar de uma batalha entre lídios e medas, o que permite reter como mais [[lexico:p:provavel:start|provável]] a data de 585 a.C. Situa-se, de maneira mais arriscada,, os limites de sua [[lexico:v:vida:start|vida]] em torno dos anos 625 e 545 a.C. Seus conhecimentos astronômicos foram provavelmente superestimados. Em [[lexico:g:geometria:start|geometria]] algumas proposições elementares lhe são atribuídas, aperfeiçoamentos possíveis,, sobretudo sob [[lexico:f:forma:start|forma]] de generalizações, de fórmulas originárias do Egito (país que talvez tenha visitado). Isto não quer dizer que seus interesses de [[lexico:o:ordem:start|ordem]] prática não se tenham harmonizado com uma [[lexico:c:curiosidade:start|curiosidade]] especulativa; não pensamos que se desacreditem mutuamente de maneira absoluta as anedotas que fazem dele ora um [[lexico:e:espirito:start|espírito]] especulativo ([[lexico:p:platao:start|Platão]] refere que Tales, ao olhar para cima, a fim de observar os astros, caíra dentro de um poço), ora um "especulador" (ele teria alugado,, fora da estação e a preços baixos, todos os lagares de Mileto e Quios prevendo uma colheita abundante de azeitonas), pois a [[lexico:o:operacao:start|operação]] financeira repousa aqui sobre um [[lexico:s:saber:start|saber]] [[lexico:s:superior:start|superior]], autorizando uma [[lexico:p:previsao:start|previsão]] inacessível à concorrência. É apresentado ainda como um técnico praticando a [[lexico:m:medida:start|medida]] indireta (no [[lexico:m:momento:start|momento]] em que a sombra de um [[lexico:h:homem:start|homem]] é igual à sua estatura, a sombra de uma pirâmide é igual à sua altura), como um engenheiro militar organizando o [[lexico:d:desvio:start|desvio]] de um curso d’água, um conselheiro militar desejando, contra a ameaça dos persas, uma federação da Jônia. Mas, sobretudo, se ele parece se orientar facilmente para aplicações utilitárias,, o espírito de livre [[lexico:o:observacao:start|observação]] em Tales não se harmoniza menos com a audácia de uma concepção de conjunto da natureza. É o primeiro a imaginar uma [[lexico:r:realidade:start|realidade]] sensível, a água, como o [[lexico:s:substrato:start|substrato]] e a força geradora de todas as coisas. Justifica essa [[lexico:v:visao:start|visão]] poderosamente sintetizadora pela observação, certamente insistindo sobre o papel da água na vida das plantas e dos animais e sobre a importância fundamental dos rios nas civilizações que conhecia. A água é vida e [[lexico:p:principio:start|princípio]] de vida, todas as coisas dela provêm e a ela voltam, de [[lexico:s:sorte:start|sorte]] que tudo é vivo, em [[lexico:t:transformacao:start|transformação]] e [[lexico:m:movimento:start|movimento]] perpétuos, tudo é "animado" e, nesse [[lexico:s:sentido:start|sentido]], dotado de [[lexico:a:alma:start|alma]]. Certamente essa concepção retoma de perto certos conteúdos dos mitos do Oriente [[lexico:p:proximo:start|Próximo]] e do Egito, mas sua [[lexico:i:intencao:start|intenção]] é nova: nada mais [[lexico:n:natural:start|natural]], podemos dizer, que Tales se representasse a [[lexico:t:terra:start|Terra]] boiando sobre uma [[lexico:m:massa:start|massa]] de água e daí tirasse uma explicação dos tremores de terra, fenômenos esses, contudo, bem próprios para suscitar as práticas e as imagens de uma [[lexico:f:fe:start|fé]] mágico-religiosa. Por isso cremos que dizendo que tudo é pleno de divindades e que o mundo é [[lexico:d:divino:start|divino]] em seu conjunto, Tales quis muito mais afirmar a [[lexico:a:autonomia:start|autonomia]] e a [[lexico:h:homogeneidade:start|homogeneidade]] do mundo, contra todas as formas de [[lexico:s:separacao:start|separação]] que implica a ordem do [[lexico:s:sagrado:start|sagrado]], do que manter um [[lexico:t:tema:start|tema]] mítico e teológico. Cerca de quinze anos mais moço, morto mais ou menos na mesma [[lexico:e:epoca:start|época]], Anaximandro aprofunda e torna também mais nuançadas as concepções naturalistas de Tales. A nitidez de suas divergências é suficiente para mostrar em que espírito de [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] se forjam essas novas concepções. Preocupado, como Tales, pelo [[lexico:p:problema:start|problema]] da origem única de todas as coisas, Anaximandro [[lexico:r:recusa:start|recusa]] reconhecer essa origem num [[lexico:e:elemento:start|elemento]] observável; peio [[lexico:f:fato:start|fato]], precisamente, que observamos múltiplas realidades determinadas, água, [[lexico:f:fogo:start|fogo]] etc, pares de opostos que se entredevoram e só se engendram mutuamente no seu conflito permanente, nenhuma pode ser privilegiada como arché, como origem [[lexico:d:dinamica:start|dinâmica]] e [[lexico:s:substancial:start|substancial]]. O princípio deve [[lexico:e:estar:start|estar]] aquém de toda realidade observável e limitada: será [[lexico:c:chamado:start|chamado]], pois, o [[lexico:i:indeterminado:start|indeterminado]], to [[lexico:a:apeiron:start|apeiron]]. [[lexico:i:infinito:start|infinito]] na [[lexico:d:duracao:start|duração]], "imortal e imperecível", em movimento perpétuo, sem ser, provavelmente, infinitamente criador, nem infinito no [[lexico:e:espaco:start|espaço]] (isto suporia um [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de espaço ainda a formar), é uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de enorme massa matriz que engendra em si o mundo (cosmos) e o guia como um "piloto", governando-o divinamente. O cosmos se forma nessa massa por uma [[lexico:a:acao:start|ação]] como que biológica de [[lexico:d:diferenciacao:start|diferenciação]]: os opostos se distinguem em espécie e se dispõem em regiões definidas (em primeiro lugar o quente na periferia e o frio no centro) e começam a reagir uns sobre os outros, donde resultam a diferenciação e a [[lexico:d:disposicao:start|disposição]] dos círculos do [[lexico:c:ceu:start|céu]], tendo ao [[lexico:m:meio:start|meio]], como uma espécie de cilindro, a Terra (que já não carece, como em Tales, de suporte). A vida [[lexico:a:animal:start|animal]] se diferencia em seguida do barro sob a ação da evaporação do Sol. Anaximandro parece ter tido a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de uma [[lexico:e:evolucao:start|evolução]] das espécies, de uma conquista da terra firme por seres vivos, originários de lugares úmidos ou aquáticos, enfim, de uma origem animal do homem, concepções estas que podemos admirar sem que nos consideremos obrigados a aproximá-las das problemáticas modernas com as quais têm apenas [[lexico:r:relacoes:start|relações]] demasiado vagas. A ordem do mundo, uma vez constituída, se mantém através de compensações cíclicas entre os opostos (o [[lexico:r:ritmo:start|ritmo]] das estações notadamente) até a reabsorção no indeterminado. Em seguida recomeçará a [[lexico:g:genese:start|gênese]] de um cosmos. Há, pois, uma infinidade de [[lexico:m:mundos:start|mundos]] sucessivos. Mas verossimilmente um [[lexico:u:unico:start|único]] de cada vez, a [[lexico:q:questao:start|questão]] de uma [[lexico:p:pluralidade:start|pluralidade]] de mundos simultâneos permanecendo muito discutida. Seja como for, as concepções de Anaximandro parecem ser, em [[lexico:p:parte:start|parte]] talvez por estarmos menos pobremente informados sobre ele do que sobre Tales, de uma grande [[lexico:r:riqueza:start|riqueza]] e de uma grande [[lexico:p:precisao:start|precisão]], muito insuficientemente restituídas acima (seria preciso mostrá-lo como viajante, inventor do mapa geográfico, astrônomo ou meteorologista). Encontramos nele as qualidades de [[lexico:o:observador:start|observador]] e a audácia especulativa de Tales, do qual ele toma também, para reforçar suas exigências, o sentido da [[lexico:a:argumentacao:start|argumentação]]. Parece que ele fez de fato progredir a [[lexico:j:justificacao:start|justificação]] [[lexico:l:logica:start|lógica]] das teses defendidas e, ao mesmo tempo, que promoveu um certo [[lexico:r:retorno:start|retorno]] não apenas a conteúdos, mas também ao próprio espírito das cosmogonias míticas. O apeiron, [[lexico:o:oculto:start|oculto]] e parcialmente personificado, assemelha-se muito ao [[lexico:c:caos:start|caos]] do mito, a ordem do cosmos transpõe práticas de reparação instituídas pela [[lexico:j:justica:start|justiça]] dos seres humanos e sua "pilotagem" evoca até mesmo nos termos o papel tradicional das divindades míticas. A [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] do apeiron, organizador imortal, e do cosmos, [[lexico:c:criacao:start|criação]] ou [[lexico:e:emanacao:start|emanação]] perecível, restaura senão uma separação pelo menos uma [[lexico:h:hierarquia:start|hierarquia]] que repercute, parece, nas relações dos [[lexico:e:elementos:start|elementos]] opostos e mais geralmente no [[lexico:e:estatuto:start|estatuto]] das realidades interiores ao cosmos. Não obstante, a [[lexico:o:orientacao:start|orientação]] naturalista persiste, uma vez que Anaximandro já não atribui nenhum lugar às divindades do mito e busca continuamente humanizar seu apeiron, a fim de [[lexico:e:explicar:start|explicar]] a ordem do mundo. Tudo se passa [[lexico:c:como-se:start|como se]] nele o próprio [[lexico:e:esforco:start|esforço]] de clarificação e o [[lexico:p:progresso:start|progresso]] do [[lexico:r:raciocinio:start|raciocínio]] fosse o que provoca um retrocesso: muitas vezes, para começar, só uma retomada mitigada das tradições é capaz de dar — como vemos confirmado por muitos outros exemplos na história do pensamento — uma resposta às questões novas. Esta observação ajuda a [[lexico:c:compreender:start|compreender]] a [[lexico:p:posicao:start|posição]] do [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] dos grandes mestres milesianos, Anaxímenes, discípulo livre de Anaximandro, mais ou menos 25 anos mais jovem que este e morto por volta de 525 a.C. Recusando qualquer [[lexico:e:esquema:start|esquema]] simplista, permanece o fato que seu pensamento se revela a nós como um aprofundamento [[lexico:s:sintetico:start|sintético]] do de seus predecessores. De fato, ele leva em conta as razões pelas quais Anaximandro recusava a solução de Tales e admite, também ele, que a origem de todas as coisas é indeterminada. Recusando, porém, fazer dela uma realidade oculta, volta à inspiração de Tales, localizando-a na [[lexico:e:experiencia:start|experiência]]. O espírito [[lexico:p:positivo:start|positivo]] e naturalista que se desviava em Anaximandro retoma pois em Anaxímenes toda sua [[lexico:r:retidao:start|retidão]] (aliás, ele passava por haver [[lexico:e:escrito:start|escrito]] em [[lexico:p:prosa:start|prosa]] [[lexico:s:simples:start|simples]] e despojada, enquanto Anaximandro, que já tinha [[lexico:c:composto:start|composto]] uma [[lexico:o:obra:start|obra]], conservava em sua prosa o [[lexico:e:estilo:start|estilo]] poético dos mitos). Anaxímenes deve pois mostrar que existe, como origem de tudo, uma realidade, submetida ao [[lexico:j:julgamento:start|julgamento]] da experiência, ainda que num sentido indeterminado. Este princípio será o [[lexico:a:ar:start|ar]], elemento invisível e imponderável, quase inobservável e, no entanto, observável: o ar é a própria vida, a força vital, a divindade que "[[lexico:a:anima:start|anima]]" o mundo, aquilo de que dá [[lexico:t:testemunho:start|testemunho]] à respiração (o [[lexico:s:sopro:start|sopro]] da respiração é a vida e, em [[lexico:c:consequencia:start|consequência]], todo sopro e toda vida são identificados numa [[lexico:i:imaginacao:start|imaginação]] imemorial). O ar é indeterminado, não no sentido [[lexico:o:obscuro:start|obscuro]] de Anaximandro, mas como elemento [[lexico:u:universal:start|universal]], que tendo seu [[lexico:c:carater:start|caráter]] próprio, vai [[lexico:a:alem:start|além]] de qualquer [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] [[lexico:p:particular:start|particular]] e permanece [[lexico:p:por-si:start|por si]] próprio sem forma e delimitação. Anaxímenes explica todas as realidades particulares do cosmos substituindo as manifestações misteriosas das [[lexico:q:qualidades-sensiveis:start|qualidades sensíveis]] fora do apeiron por processos de condensação ou de rarefação, de [[lexico:c:contracao:start|contração]] ou de relaxamento do elemento original (a rarefação do ar produz o calor, a condensação o frio; uma condensação cada vez mais forte produz sucessivamente vento, nuvem, chuva, terra, rocha). Esta concepção tende a uma espécie de clareza redutora onde (em [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] demasiado [[lexico:m:moderna:start|moderna]]) haveria diferenças apenas de grau ou de [[lexico:q:quantidade:start|quantidade]] (de mais ou de menos num mesmo volume). Esta cosmologia parece menos rica que a de Anaximandro. Isto se passa certamente pelo fato de o espírito "positivo" manter a imaginação nos limites da experiência familiar; [[lexico:p:produto:start|produto]] de uma condensação primordial, a Terra é uma espécie de mesa bem plana que repousa sobre o ar e o resto do cosmos é tirado de sua [[lexico:s:substancia:start|substância]] por rarefação; a Lua e o Sol são discos análogos a "quadros pintados", as estrelas "pregos" cravados na [[lexico:e:esfera:start|esfera]] celeste (que já não passa sob a terra como nos mitos egípcios e em Anaximandro). Nascido do ar, o cosmos vive desse [[lexico:m:modo:start|modo]] ao ritmo de uma respiração gigante esperando ser reabsorvido no ar, da mesma maneira que, por um tempo, o sopro que constitui nossa alma nos "anima", nos dá o movimento da vida, caráter [[lexico:e:eterno:start|eterno]] do ar. Em resumo, o mais notável em Anaxímenes é que tenha conseguido conciliar o raciocínio de Anaximandro à experiência sensível, contra a tentação, quase insuperável, em todo o curso do pensamento antigo, de realizar, fora e além do mundo da experiência, as abstrações com que se reforçara cada vez mais o livre pensamento inaugurado pelos milesianos. A expansão do Império Persa resultou em 494 a.C. na [[lexico:d:destruicao:start|destruição]] de Mileto, prelúdio das guerras médicas, sem por isso matar o espírito milesiano. Mas os pensadores que, em outras cidades jônicas, herdaram, tanto antes como depois dessa data, a liberdade de espírito e o [[lexico:g:gosto:start|gosto]] da [[lexico:e:especulacao:start|especulação]] devidos aos milesianos, orientaram-se frequentemente de maneira diferente. Se as fantasias da [[lexico:r:religiao:start|religião]] homérica não satisfazem nem a [[lexico:p:pitagoras:start|Pitágoras]], nem sobretudo a [[lexico:x:xenofanes:start|Xenófanes]], se um e [[lexico:o:outro:start|outro]] são fortemente influenciados pela cosmologia milesiana, a observação da natureza e as explicações naturalistas já não retêm, em primeiro lugar, esses [[lexico:e:espiritos:start|espíritos]] animados de uma religiosidade patente. [J. Bernhardt] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}