===== MÉTODO FENOMENOLÓGICO ===== VIDE [[lexico:m:metodos-filosoficos|métodos filosóficos]] O vocábulo ‘[[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]]’ foi usado, para significar um [[lexico:m:metodo|método]] especial e determinado, pela primeira vez, por Edmund [[lexico:h:husserl|Husserl]], e, com a acepção de método da [[lexico:i:intuicao-intelectual|intuição intelectual]] e da [[lexico:d:descricao|descrição]] do intuído, é usado, consoante informa [[lexico:b:bochenski|Bochenski]], por "quase a metade dos filósofos atuais" (inclusive no presente manual). O [[lexico:m:metodo-fenomenologico|método fenomenológico]] é um procedimento especial de [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]]. Essencialmente consiste numa [[lexico:v:visao|visão]] intelectual do [[lexico:o:objeto|objeto]], baseando-se numa [[lexico:i:intuicao|intuição]]. Esta intuição se refere ao [[lexico:d:dado|dado]]; a [[lexico:r:regra|regra]] principal da fenomenologia diz assim: "[[lexico:a:as-proprias-coisas|às próprias coisas]]", entendendo-se por "[[lexico:c:coisas|coisas]]" o dado, ou seja, o que se acha imediatamente presente à [[lexico:c:consciencia|consciência]] ou o que se acha diante dela, sem [[lexico:e:estar|estar]] envolvido por nenhuma [[lexico:c:categoria|categoria]], antes de qualquer elaboração. Isto requer uma tríplice eliminação ou "[[lexico:r:reducao|redução]]", chamada [[lexico:e:epoche|epoche]]: em primeiro [[lexico:l:lugar|lugar]], deve [[lexico:s:ser|ser]] eliminado [[lexico:t:todo|todo]] o [[lexico:s:subjetivo|subjetivo]] ( a postura ante o objeto deve ser puramente objetiva); em segundo lugar, exclusão de todo o [[lexico:t:teorico|teórico]] ([[lexico:h:hipoteses|hipóteses]], demonstrações ou outra qualquer [[lexico:f:forma|forma]] de [[lexico:s:saber|saber]] já [[lexico:a:adquirido|adquirido]]), de maneira que tão apenas entre em [[lexico:q:questao|questão]] o dado; e, em [[lexico:u:ultimo|último]] lugar, exclusão de toda [[lexico:t:tradicao|tradição]], isto é, de tudo aquilo que veio se ensinando até o presente sobre o objeto. No [[lexico:p:proprio|próprio]] objeto dado é preciso executar uma dupla redução: 1) é preciso deixar de lado a consideração da [[lexico:e:existencia|existência]] da [[lexico:c:coisa|coisa]] e centrar a [[lexico:a:atencao|atenção]] exclusivamente em torno da [[lexico:q:quididade|quididade]], ao que o objeto é; e 2), depois, é preciso separar desta quididade todo o acessório e analisar somente a [[lexico:e:essencia|essência]] da coisa. Em todo este [[lexico:p:processo|processo]] cumpre levar em conta o seguinte: a redução fenomenológica [[lexico:n:nao|não]] significa o mesmo que [[lexico:n:negacao|negação]]. Tão apenas são desatendidos os [[lexico:e:elementos|elementos]] excluídos: faz-se a [[lexico:a:abstracao|abstração]] deles e se considera unicamente o que resta. A [[lexico:r:reducao-eidetica|redução eidética]], da essência, não implica nenhum [[lexico:j:juizo|juízo]] valorativo acerca dos procedimentos que se excluem ou de outros aspectos; aquele que procede de [[lexico:a:acordo|acordo]] com o método fenomenológico não renuncia a posterior emprego de outros métodos e dos aspectos não considerados. À primeira vista a [[lexico:i:intuicao-fenomenologica|intuição fenomenológica]] aparece [[lexico:c:como-se|como se]] fosse [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]] [[lexico:b:bem|Bem]] [[lexico:s:simples|simples]] e que consiste, em última [[lexico:i:instancia|instância]], em [[lexico:t:ter|ter]] abertos os olhos ou a [[lexico:c:capacidade|capacidade]] intelectual de visão, algumas vezes inclusive em valer-se de movimentos exteriores, como viagens, em tomar outra postura mais cômoda que apresente o objeto em melhores condições de visibilidade. Não parece [[lexico:n:necessario|necessário]], à primeira vista, um método especial, que regule o próprio [[lexico:m:movimento|movimento]] do [[lexico:p:pensamento|pensamento]]. Todavia, é necessário e por dupla [[lexico:r:razao|razão]]: 1) o [[lexico:h:homem|homem]] está estruturado de tal maneira que tem uma inclinação quase insuperável para [[lexico:v:ver|ver]] mais do que existe no objeto. Estes elementos estranhos ao objeto o são ou por representações emocionais (assim, um homem covarde considera o inimigo duplamente forte), ou devido a [[lexico:o:outro|outro]] saber adquirido que está unido ao objeto e que faz que projetemos nele nossas hipóteses, teorias, representações etc. Na redução [[lexico:e:eidetica|eidética]] se trata [[lexico:n:nada|nada]] menos que deve ver o objeto como é, nada mais, Para conseguir isto é preciso recorrer a uma método elaborado e posto em prática com esmero; 2) nenhum objeto é simples, porquanto todos são infinitamente complexos, já que constam de muitos componentes e aspectos que não são igualmente importantes. O homem não pode captar simultaneamente todos esses elementos, devendo considerar um após outro. Também isto requer um método pensado e praticado de antemão. Para os fenomenólogos, pois, não só existe um método fenomenológico como é absolutamente necessário seu [[lexico:u:uso|uso]] para proceder corretamente. Husserl propõe-se estabelecer uma base segura, liberta de pressuposições, para todas as ciências e, de [[lexico:m:modo|modo]] especial, para a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]]. A suprema [[lexico:f:fonte|fonte]] legítima de todas as afirmações racionais é a visão, ou também, como ele se exprime, a consciência doadora originária (das originär gebende Bewusstsein). Devemos avançar para as próprias coisas. Esta é a regra primeira e fundamental do método fenomenológico. Por "coisas" entenda-se simplesmente o dado, aquilo que vemos ante nossa consciência. Este dado chama-se [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]], no [[lexico:s:sentido|sentido]] de que phainetai, de que aparece diante da consciência. A [[lexico:p:palavra|palavra]] não significa que algo desconhecido se encontre detrás do fenômeno. A fenomenologia não se ocupa disso, só visa o dado, sem querer decidir se este dado é uma [[lexico:r:realidade|realidade]] ou uma [[lexico:a:aparencia|aparência]]: haja o que houver, a coisa está aí, é dada. O método fenomenológico não é dedutivo nem [[lexico:e:empirico|empírico]]. Consiste em mostrar [[lexico:o:o-que-e|o que é]] dado e em esclarecer este dado. Não explica mediante leis nem deduz a partir de [[lexico:p:principios|princípios]], mas considera imediatamente o que está perante a consciência, o objeto. Consequentemente, tem uma [[lexico:t:tendencia|tendência]] orientada totalmente para o [[lexico:o:objetivo|objetivo]]. Interessa-lhe imediatamente não o [[lexico:c:conceito|conceito]] subjetivo, nem uma [[lexico:a:atividade|atividade]] do [[lexico:s:sujeito|sujeito]] (se bem que esta atividade possa igualmente tornar-se em objeto da [[lexico:i:investigacao|investigação]]), mas aquilo que é sabido, posto em [[lexico:d:duvida|dúvida]], amado, odiado, etc. Mesmo nos casos em que se trata de uma [[lexico:r:representacao|representação]] pura, é preciso distinguir entre o" imaginar e o imaginado: quando, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], nos representamos um centauro, este centauro é um objeto que importa distinguir cuidadosamente de nossos atos psíquicos. De igual modo, o tom musical dó, o [[lexico:n:numero|número]] 2, a [[lexico:f:figura|figura]] [[lexico:c:circulo|círculo]], etc, são objetos, não atos psíquicos. Contudo, Husserl rejeita o [[lexico:p:platonismo|platonismo]]: este só seria [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] no caso de cada objeto ser uma realidade. Husserl qualifica-se a si próprio de "positivista", enquanto funda o saber sobre o dado. Mas os positivistas cometem, segundo ele, erros grosseiros, dos quais importa que nos desembaracemos, se quisermos chegar à verdadeira realidade. Eles confundem o ver em [[lexico:g:geral|geral]] com o ver meramente [[lexico:s:sensivel|sensível]] e [[lexico:e:experimental|experimental]]. Não compreendem que cada objeto sensível e individual possui uma essência. Sendo o individual, enquanto [[lexico:r:real|real]], acidental, ao sentido deste acidental corresponde precisamente uma essência ou, como diz Husseel, um [[lexico:e:eidos|eidos]] que precisa ser captado diretamente. Existem, portanto, duas espécies de ciências: ciências de fatos, ou fáticas (v. [[lexico:f:facticidade|facticidade]]), que estribam na [[lexico:e:experiencia|experiência]] sensível, e ciências de [[lexico:e:essencias|essências]] ou eidéticas, às quais compete a intuição [[lexico:e:essencial|essencial]] (Wesensschau), a visão do eidos. Mas todas as ciências de fatos se baseiam em ciências de essências, porque, em primeiro lugar, todas utilizam a [[lexico:l:logica|lógica]] e em geral também a [[lexico:m:matematica|matemática]] (ciências eidéticas) e, em segundo lugar, cada [[lexico:f:fato|fato]] alberga uma essência permanente. As ciências matemáticas são manifestamente ciências eidéticas. A filosofia fenomenológica pertence à mesma [[lexico:e:especie|espécie]]: seu objeto é constituído não por fatos contingentes, mas por conexões essenciais. É puramente descritiva, e seu método consiste, antes de mais nada, em descrever a essência. Seu processamento é um esclarecimento gradual, que progride de etapa em etapa mediante a intuição intelectual da essência. Ao abordar os fundamentos da [[lexico:c:ciencia|ciência]] ela é "[[lexico:f:filosofia-primeira|filosofia primeira]]" e procede com uma [[lexico:a:ausencia|ausência]] total de preconceitos. Ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]], é ciência exata e [[lexico:a:apoditica|apodítica]]. Seu exercício não é fácil; todavia, Husserl e seus discípulos mostraram que o método fenomenológico abre vasto [[lexico:c:campo|campo]] a investigações extraordinariamente fecundas.