===== MÉTODO CARTESIANO ===== Pelo contrário, a partir da [[lexico:r:renascenca|Renascença]], e muito especialmente a partir de [[lexico:d:descartes|Descartes]], o [[lexico:m:metodo|método]] muda completamente de [[lexico:a:aspecto|aspecto]], e o [[lexico:a:acento|acento]] vai recair [[lexico:a:agora|agora]], [[lexico:n:nao|não]] tanto sobre a [[lexico:d:discussao|discussão]] posterior à [[lexico:i:intuicao|intuição]], quando sobre a própria intuição e os métodos de consegui-la. Quer dizer que se o [[lexico:m:metodo-filosofico|método filosófico]], na [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]] e na Idade Média se exercita principalmente depois de obtida a intuição, o método filosófico na Idade [[lexico:m:moderna|moderna]] passa a exercitar-se principalmente antes de obter a intuição e como [[lexico:m:meio|meio]] para obtê-la. Tomemos o [[lexico:d:discurso|discurso]] do Método, de Descartes, e as [[lexico:i:ideias|ideias]] filosóficas deste, e veremos que o que o preocupava era como chegar a uma [[lexico:e:evidencia|evidência]] clara e distinta; quer dizer, como chegar a uma intuição indubitável da [[lexico:v:verdade|verdade]]. Os caminhos que conduzem a esta intuição (não os que depois da intuição a garantem, a provam, a retificam ou a depuram, mas os que conduzem a ela) são os que principalmente Interessam a Descartes. O método é, pois, agora pré-intuitivo, e tem como propósito [[lexico:e:essencial|essencial]] conseguir a intuição. [[lexico:c:como-se|como se]] pode conseguir a intuição? Não se pode consegui-la ruiis que de um [[lexico:m:modo|modo]], que é procurando-a; quer dizer, dividindo em partes [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:o:objeto|objeto]] que se nos ofereça confuso, [[lexico:o:obscuro|obscuro]], não evidente, até que algumas dessas partes se tornem para nós um objeto claro, intuitivo e evidente. Então já temos a intuição. Operou-se aqui uma [[lexico:m:mudanca|mudança]] radical com [[lexico:r:respeito|respeito]] à concepção que tinha [[lexico:p:platao|Platão]] do [[lexico:m:mundo|mundo]] e da verdade. Platão tinha do mundo e da verdade a concepção de que este mundo em que vivemos é o [[lexico:r:reflexo|reflexo]] pálido do mundo em que não vivemos e que é a morada da verdade absoluta. São, pois, dois [[lexico:m:mundos|mundos]]. Tinha-se que ir deste para aquele. Tinha-se que [[lexico:e:estar|estar]] seguro, o mais [[lexico:p:possivel|possível]], de que a intuição que daquele temos é a exata e verdadeira. Pelo contrário, para Descartes este mundo em que vivemos e o mundo da verdade são um só e mesmo mundo. O que acontece é que, quando o olhamos pela primeira vez, o mundo em que vivemos nos aparece revolto, confuso, como um caixão onde há uma [[lexico:m:multidao|multidão]] de [[lexico:c:coisas|coisas]]. Porém, se nessa multidão de coisas, se nessa multidão de [[lexico:c:conceitos|conceitos]] caóticos, se nesse caixão nos preocupamos vagarosamente por colocar uma [[lexico:c:coisa|coisa]] aqui e outra lá e [[lexico:p:por|pôr]] [[lexico:o:ordem|ordem]] nessetotum revolutum, nesse caixão, então [[lexico:e:esse|esse]] mundo tornase- nos de repente [[lexico:i:inteligivel|inteligível]], compreendemo-lo, é para nós evidente. Em que consistiu aqui a consecução dessa evidência? Não consistiu numa [[lexico:f:fuga|fuga]] [[lexico:m:mistica|mística]] deste mundo ao [[lexico:o:outro|outro]] mundo, mas antes consistiu numa [[lexico:a:analise|análise]] [[lexico:m:metodica|metódica]] deste mundo, no fundo do qual está o mundo inteligível das ideias. Não são dois mundos distintos, mas um dentro do outro, os dois constituindo um todo. Se se permite já o [[lexico:u:uso|uso]] de uma [[lexico:p:palavra|palavra]] [[lexico:t:tecnica|técnica]] filosófica, direi que o mundo de Platão é distinto do mundo em que vivemos; o mundo tinha ideias, diferente do mundo [[lexico:r:real|real]] em que vivemos em nossa [[lexico:s:sensacao|sensação]], é um mundo [[lexico:t:transcendente|transcendente]], porque é outro mundo distinto daquele que temos na sensação. A verdade, para Platão, é transcendente às coisas. A [[lexico:i:ideia|ideia]], para Platão, é pois, transcendente ao objeto que vemos e tocamos. Quando queremos definir um dentre os objetos que vemos e tocamos, temos que destacá-lo, e escapar para o mundo transcendente das ideias, completamente distinto, e por isso [[lexico:c:chamado|chamado]] por Platão "transcendente". Mas em Descartes, quando queremos partilhar de um [[lexico:c:conceito|conceito]], não escapamos para fora desse conceito a outro mundo, mas antes, por meio da análise, introduzimos clareza nesse mesmo conceito. É o mesmo conceito que nos era obscuro e que agora se torna para nós claro. Portanto, o mundo inteligível em Descartes é [[lexico:i:imanente|imanente]], [[lexico:f:forma|forma]] [[lexico:p:parte|parte]] do mesmo mundo da sensação e da [[lexico:p:percepcao|percepção]] [[lexico:s:sensivel|sensível]] e não é outro mundo distinto. De modo que o [[lexico:m:metodo-cartesiano|método cartesiano]], e a partir de Descartes o de todos os filósofos, postula a [[lexico:i:imanencia|imanência]] do objeto filosófico. A intuição tem que discernir, através da caótica confusão do mundo, todas essas ideias claras e distintas que constituem sua [[lexico:e:essencia|essência]] e seu miolo. A análise é, pois, o método que conduz Descartes à intuição, e a partir deste [[lexico:m:momento|momento]], em toda a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] posterior a Descartes, acentua-se constantemente este [[lexico:i:instrumento|instrumento]] da intuição. Depois de Descartes, a intuição continua sendo de uma ou de outra forma, segundo os sistemas filosóficos de que se trate, o método por [[lexico:e:excelencia|excelência]] da filosofia.