===== METAMORFOSE ===== A [[lexico:l:literatura:start|literatura]] clássica das metamorfoses foi pelo menos tão rica quanto a das teogonias e das catábases. [[lexico:q:quem:start|quem]] queira escrever [[lexico:h:historia:start|história]], ressente-se, quanto às três, da lacunaridade da [[lexico:t:tradicao:start|tradição]]. Do [[lexico:g:genero:start|gênero]] [[lexico:a:agora:start|agora]] em destaque, resta ao leitor que pretenda informar-se uma [[lexico:o:obra:start|obra]] em [[lexico:g:grego:start|grego]], do período helenístico, e outra em latim, da Roma imperial. Esta é a mais divulgada. Ovídio a escreveu. «Metamorfoses» é o grego em que se diz «transformações», [[lexico:m:mudanca:start|mudança]] de [[lexico:f:forma:start|forma]] que o mesmo tem em outra que virá a [[lexico:t:ter:start|ter]]. O [[lexico:m:motivo:start|motivo]] se difunde amplamente pelo [[lexico:c:conto:start|conto]] popular, de maneira que [[lexico:n:nao:start|não]] há estória de bruxos ou bruxas em que não se releve a metamorfose. Não só os bruxos ou bruxas más, mas também as boas fadas, com sua varinha de condão, assim como gênios e gênias, bons ou maus, da literatura islâmica, possuem o poder da metamorfose. À feitiçaria se atribui o mesmo. Enfim, só temos de nos queixar da monótona [[lexico:r:repeticao:start|repetição]] do motivo. Se me perguntassem donde provém, não hesitaria na resposta: do genérico [[lexico:m:mito:start|mito]] das «Dema-Gottheiten» (divindades-dema), descoberto por um tão conhecido quão combatido antropólogo alemão: Adolph Ed. Jensen. As objeções e a polêmica não anulam o facto descoberto. Há povos espalhados por toda a [[lexico:t:terra:start|Terra]], ou que desconhecem o [[lexico:d:deus:start|Deus]] que se encaminha para a [[lexico:t:transcendencia:start|transcendência]], ou que, se o conhecem, [[lexico:m:mal:start|mal]] lhe mencionam o [[lexico:n:nome:start|nome]]; o que ocupa o [[lexico:l:lugar:start|lugar]] dele são deidades de [[lexico:n:natureza:start|natureza]] muito peculiar, pois são homens que viveram antes do [[lexico:h:homem:start|homem]] que vive hoje. Parece paradoxal. É, efetivamente, um [[lexico:p:paradoxo:start|paradoxo]]. Homens viveram antes do homem, mas esses não morriam e, por isso, não se reproduziam. E porque não morriam nem se reproduziam, por aí se atenua o paradoxal. Na [[lexico:v:verdade:start|verdade]], não eram homens, seres humanos que morrem e se reproduzem. Se os chamássemos de [[lexico:d:deuses:start|deuses]] erraríamos, em especial, se os comparássemos com os deuses reconhecidos como tais, pois esses deuses não se revestem de algum poder excepcional; procedem exatamente como os homens procedem, só com as ressalvas referidas: não morrem, o que dispensa a [[lexico:r:reproducao:start|reprodução]]; não se reproduzem, pois só a [[lexico:m:morte:start|morte]] de uns exige a gestação de outros. [EudoroMito:80] Que é metamorfose? De que resulta ela? Que se mostra o que seja, prescrutando-a para [[lexico:a:alem:start|além]] do [[lexico:s:sentido:start|sentido]] [[lexico:i:imediato:start|imediato]] da [[lexico:p:palavra:start|palavra]]? E, por [[lexico:f:fim:start|fim]], tem ela algo que [[lexico:v:ver:start|ver]], ou haverá [[lexico:r:razao:start|razão]] plausível para relacioná-la com cosmogonias e catábases? Isto é, qual, precisamente, o lugar em que este [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] ramo da [[lexico:m:mitologia:start|mitologia]] se entronca no [[lexico:i:impulso:start|impulso]] [[lexico:m:mitico:start|mítico]], criador de mitos? Não tentaremos responder a tais perguntas, uma a uma, sucessivamente. Mas, na resposta ainda não pensada, espero que a todas se reconheçam em lugar que ainda não sabemos qual seja. Em primeiro lugar, lembremo-nos de que a metamorfose se encontra [[lexico:b:bem:start|Bem]] ligada ao poema babilónico da [[lexico:c:criacao:start|criação]]: da morte de Tiamat, do [[lexico:c:corpo:start|corpo]] sem [[lexico:v:vida:start|vida]], de Tiamat, Marduk fez o [[lexico:m:mundo:start|mundo]], dividindo-o em [[lexico:c:ceu:start|céu]] e terra. Talvez fosse [[lexico:p:possivel:start|possível]] levar os estágios homólogos das teogonias ou cosmogonias gregas, com mais ou menos vigor de [[lexico:i:imaginacao:start|imaginação]], a dizerem o mesmo. Pelo menos, já se disse que a despotenciação de Úrano por Crono, e a de Crono por [[lexico:z:zeus:start|Zeus]], no poema hesiódico, equivalería à morte. De dinastia em dinastia, o kósmos sofre uma metamorfose. Mas esta aventura é demasiado aventurosa, até para mim, que não me arreceio de aventura. Voltemos a solo mais firme. Mas era preciso lembrar que, manifestamente, o que só é metamorfose do que já existe no mundo, pelo menos uma vez, se tornou metamorfose do mundo, ou metamorfose em mundo. [EudoroMito:82-83] Se bem atentamos no [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]] prototípico, metamorfose é [[lexico:a:alteracao:start|alteração]], passagem do «mesmo» ao «[[lexico:o:outro:start|outro]]», e o liminar do «outro» é a morte. Morte e metamorfose não se separaram, neste mito, nem nos congêneres. Mas, assim, a morte assume estatura incomum. Morte não é término da vida, porque ela esbarrou no [[lexico:l:limite:start|limite]] que, de fora ou de dentro, se lhe impõe; como passagem pelo liminar do «outro» é [[lexico:c:como-se:start|como se]] estivesse na vida, morte é só trânsito ou transe do mesmo ao outro. Trânsito e transe estão etimologicamente ligados (trans-ire). Entrar em transe é ver-se no trânsito. De «transe» reza do dicionário: «[[lexico:m:momento:start|momento]] aflitivo», «[[lexico:a:ato:start|ato]] ou feito arriscado», «[[lexico:o:ocasiao:start|ocasião]] perigosa», «lance», «crise de [[lexico:a:angustia:start|angústia]]», «morte», «combate, [[lexico:l:luta:start|luta]]», «[[lexico:e:estado:start|Estado]] de médium, ao apossar-se dele o [[lexico:e:espirito:start|espírito]]» (A. Buarque de Holanda). Que farta colheita! Que de mais precisamos? Morte é trânsito e o trânsito é transe. Momento aflitivo, angustiante, ao ver-se diante da estreiteza da porta, correndo no [[lexico:r:risco:start|risco]] de cair no entremundos antes de lhe alcançar a soleira, luta contra o «[[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]]», que dificulta o transpô-la, o sentir-se apossado do «outro», quando ainda não se renunciou totalmente ao «mesmo». Momento decisivo da metamorfose é esta morte [[lexico:l:latente:start|latente]] na vida. Latente na vida do homem e latente na vida do mundo, no mundo deste homem e no homem deste mundo e, sobretudo, no deus a que homem e mundo se conformam, ou no que o deus se conforma a homem e mundo. Concomitância da metamorfose-alteração: o deus-projeto [v. projeto] é outro, outros são homem e mundo. Na metamorfose, tudo muda do mesmo para o outro, mas os três outros dispõem-se em [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] triangulação cosmogônica. Outro mensageiro propõe outra [[lexico:m:mensagem:start|mensagem]] diante de outro [[lexico:i:interprete:start|intérprete]]; outro intérprete interpreta outra mensagem de outro mensageiro. Temos outra mensagem que é mundo e homem que dentro do mundo está, e outro intérprete que é homem que está fora, diante do mundo. Mas que é do mensageiro? Mais uma vez, a [[lexico:c:catastrofe:start|catástrofe]] do [[lexico:t:triangulo:start|triângulo]], o [[lexico:a:abatimento:start|abatimento]] dos lados sobre a base; mas agora dizemos que o [[lexico:e:estar:start|estar]] [[lexico:o:oculto:start|oculto]] o deus no homem e no mundo, assume outro sentido; o deus morreu e a sua morte dá vida ao mundo e ao homem. Uma vida. Outro lhes dará outra. Quantas vidas podemos [[lexico:v:viver:start|viver]], na vida que nos foi dada? Quantas mortes morremos e quantas havemos de morrer? Tantas quantas a nossa disponibilidade no-las permita. Morte ou iniciação; iniciação ou morte é só para quem se dispõe, para quem dispõe do «si mesmo», para quem do «si mesmo» dispôs, a [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de rejeitá-lo, em [[lexico:p:parte:start|parte]] ou no [[lexico:t:todo:start|todo]]. Cada vez que rejeito uma parte do «mim mesmo», morro da morte [[lexico:r:ritual:start|ritual]] do iniciando; a iniciação preenche o [[lexico:v:vazio:start|vazio]] e, de novo, «cheio de mim», mas com parte que há pouco não era minha, sou outro, alterei-me, metamorfoseei-me. Mas esta ainda não é a inteira disponibilidade. Disponibilidade inteira é rejeição de tudo o que de «mim mesmo» me enchia. Só a Morte, que por [[lexico:u:ultimo:start|último]] morrerei, desenvolverá, desencobrirá, desocultará o que, em toda a enternidade, «[[lexico:e:eu:start|eu]]» fui, sou e serei: a minha irredutível [[lexico:s:subjetividade:start|subjetividade]]. [EudoroMito:83-84] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}