===== METAFÍSICA HEIDEGGERIANA ===== Ao falarmos de [[lexico:m:metafisica|metafísica]], geralmente visamos certa [[lexico:p:parte|parte]] da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] ocupando-se dos fundamentos da [[lexico:r:realidade|realidade]] ou, o que dá no mesmo, da realidade em seus aspectos mais fundamentais. [[lexico:h:heidegger|Heidegger]] toma o [[lexico:t:termo|termo]] "metafísica" num [[lexico:s:sentido|sentido]] bastante [[lexico:p:particular|particular]] e determinado, só se esclarecendo totalmente por [[lexico:t:todo|todo]] o contexto de sua filosofia. Em termos bastante simplificados, a metafísica é, para ele, uma certa maneira de determinar o [[lexico:e:ente|ente]]. E o que ele chama de "ente", em conformidade com toda a [[lexico:t:tradicao|tradição]] filosófica ocidental, é tudo aquilo que, de uma maneira ou de outra, pode servir de [[lexico:s:sujeito|sujeito]] ao [[lexico:v:verbo|verbo]] "[[lexico:s:ser|ser]]" na terceira [[lexico:p:pessoa|pessoa]] do [[lexico:s:singular|singular]]; por conseguinte, tudo aquilo que, a qualquer título, pode ingressar no [[lexico:c:campo|campo]] da [[lexico:e:experiencia|experiência]], quer se trate de [[lexico:p:percepcao|percepção]], da [[lexico:i:imaginacao|imaginação]], do [[lexico:s:sentimento|sentimento]], do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] especulativo, da experiência poética ou da experiência [[lexico:m:mistica|mística]]. Trata-se de tudo aquilo que, de um [[lexico:m:modo|modo]] ou de [[lexico:o:outro|outro]], é; de tudo aquilo que, de uma maneira ou de outra, possui uma [[lexico:f:forma|forma]] qualquer de realidade. Ao considerarmos um [[lexico:e:elemento|elemento]] da realidade como ente, nós o consideramos apenas na [[lexico:m:medida|medida]] em que podemos aplicar-lhe este termo [[lexico:s:simples|simples]] e misterioso, eminentemente filosófico: ser. Trata-se de um termo absolutamente [[lexico:i:indeterminado|indeterminado]] e neutro; e que vale por sua generalidade mesma. Portanto, segundo Heidegger, a "metafísica" é um modo de determinar o ente, de interpretá-lo, de caracterizá-lo e de compreendê-lo. [[lexico:n:nao|Não]] se trata, necessariamente, de uma [[lexico:e:especie|espécie]] de [[lexico:v:visao|visão]] intelectual, de uma concepção explicitamente formulada ou de um [[lexico:d:discurso|discurso]] [[lexico:s:sistematico|sistemático]] sobre o ente. Sem [[lexico:d:duvida|dúvida]], a [[lexico:c:compreensao|compreensão]] do ente pode se exprimir num discurso. Mas ela é, antes de tudo, implícita, vivida. A [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] do ente é, primordialmente, uma [[lexico:a:atitude|atitude]] prática e efetiva em [[lexico:r:relacao|relação]] a ele, um modo de nos situarmos diante dele, de nos relacionarmos com ele. Portanto, no sentido heideggeriano, a metafísica é, primordialmente, uma [[lexico:d:determinacao|determinação]] fundamental do ente que se constitui no [[lexico:i:implicito|implícito]] e que só é tematizada no discurso de modo secundário. A segunda [[lexico:t:tese|tese]] de Heidegger é a de que cada [[lexico:e:epoca|época]] da [[lexico:h:historia|história]] ocidental se caracteriza por certa forma de metafísica. Por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], esta grande [[lexico:u:unidade|unidade]] histórica, que denominamos a [[lexico:c:cultura|cultura]] grega, caracterizou-se por certa metafísica, por certa maneira fundamental de comportar-se em relação ao ente. Talvez o termo que melhor exprime a atitude [[lexico:t:tipica|típica]] da metafísica grega seja (sempre segundo Heidegger) o de "[[lexico:p:poiesis|poiesis]]". Este termo [[lexico:g:grego|grego]] tornou-se, na [[lexico:l:lingua|língua]] francesa, o termo "[[lexico:p:poesia|poesia]]", designando certo [[lexico:g:genero|gênero]] literário. Mas precisamos considerá-lo, aqui, em seu sentido primeiro: a "poiesis" é [[lexico:o:o-que-e|o que é]] [[lexico:r:relativo|relativo]] ao "[[lexico:p:poiein|poiein]]", ao "fazer", entendido no sentido do "fazer" [[lexico:a:artistico|artístico]], por conseguinte, no sentido da [[lexico:c:criacao|criação]]. Assim, considerada como uma forma de metafísica, a "poiesis" constituiu um [[lexico:t:tipo|tipo]] de relação com o ente, na qual ele é interpretado na [[lexico:p:perspectiva|perspectiva]] da [[lexico:a:atividade|atividade]] criadora do [[lexico:a:artista|artista]]. Poderíamos evocar aqui o [[lexico:t:timeu|Timeu]], no qual [[lexico:p:platao|Platão]] põe em cena, tendo em vista descrever a [[lexico:e:estrutura|estrutura]] do cosmos, um "[[lexico:d:demiurgo|demiurgo]]", vale dizer, um grande artista que modela o [[lexico:m:mundo|mundo]] conforme um [[lexico:m:modelo|modelo]] [[lexico:i:ideal|ideal]]. O que vai nos interessar mais especialmente aqui é a forma de metafísica que domina os tempos modernos, isto é, a época da [[lexico:c:ciencia|ciência]], época que ainda é a nossa e da qual poderíamos dizer que começou com a filosofia de [[lexico:d:descartes|Descartes]]; portanto, no início do século XVII. Segundo Heidegger, teria havido, em relação ao ente, uma atitude inteiramente [[lexico:c:caracteristica|característica]] dessa época, enquanto distinta da metafísica típica da Idade Média e da metafísica da [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]] grega. Ele a chama de a "metafísica da [[lexico:r:representacao|representação]]". (...) Encontramos aí um traço eminentemente fundamental da concepção científica [[lexico:m:moderna|moderna]]: o [[lexico:c:conhecimento-cientifico|conhecimento científico]] se move no domínio da representação; contudo, o [[lexico:m:meio|meio]] por [[lexico:e:excelencia|excelência]] dessa representação é a [[lexico:m:matematica|matemática]]. O [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] [[lexico:p:paradigma|paradigma]] de todo [[lexico:o:objeto|objeto]] é o objeto matemático. O que não deixa de ser bastante paradoxal, porque, no final das contas, o objeto matemático é [[lexico:c:construido|construído]]: não nos é [[lexico:d:dado|dado]] à maneira dos objetos naturais. É muito difícil a [[lexico:q:questao|questão]] de sabermos como exatamente ele é construído. Sobre essa questão, não possuímos ainda, no [[lexico:m:momento|momento]] [[lexico:a:atual|atual]], uma clareza satisfatória. Em todo caso, é certo que não descobrimos o objeto matemático na percepção: ele é elaborado passo a passo, por atos específicos de [[lexico:a:abstracao|abstração]] e de tematização. Por outro lado, porém, uma vez construído, impõe-se a nós como o objeto que existe nele e por ele mesmo. Foi isto que levou alguns grandes matemáticos a considerar que a realidade matemática existe em si, fora do [[lexico:e:espirito|espírito]] [[lexico:h:humano|humano]] e a [[lexico:p:pensar|pensar]] que, ao construirmos um objeto matemático, [[lexico:n:nada|nada]] mais fazemos, de [[lexico:f:fato|fato]], senão descrever uma realidade que existe fora de nós e independentemente de nós. Esta realidade não é nem a realidade [[lexico:f:fisica|física]] nem um [[lexico:a:aspecto|aspecto]] da realidade humana: é uma realidade [[lexico:s:sui-generis|sui generis]], cujo [[lexico:e:estatuto|estatuto]] constitui o objeto da [[lexico:o:ontologia|ontologia]] das matemáticas. Donde ser compreensível (posto que o objeto matemático vale nele e por ele mesmo) que Descartes (neste aspecto, seguido por toda a tradição moderna) tenha feito do objeto matemático o paradigma, o modelo segundo o qual a ciência deve reconstruir a realidade; não somente a realidade física, mas também, pelo menos programaticamente, a realidade humana. O [[lexico:s:significado|significado]] de tudo isso é que a metafísica da representação leva a uma [[lexico:s:separacao|separação]] radical entre o [[lexico:c:campo-transcendental|campo transcendental]] e o campo [[lexico:e:empirico|empírico]]. [Ladrière]