===== METAFÍSICA DO RACIONALISMO ===== A [[lexico:m:metafisica-do-racionalismo|metafísica do racionalismo]] encontra-se representada em sua [[lexico:f:forma|forma]] mais perfeita por [[lexico:l:leibniz|Leibniz]], cuja [[lexico:t:teoria-do-conhecimento|teoria do conhecimento]] vimos na lição anterior. Essa [[lexico:t:teoria|teoria]] do [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] de Leibniz é o solo, é o território sobre o qual os [[lexico:p:pensamentos|Pensamentos]] filosóficos de Leibniz foram pouco a pouco desenvolvendo-se. A [[lexico:m:metafisica|metafísica]] de Leibniz [[lexico:n:nao|não]] é uma teoria [[lexico:s:sistematica|sistemática]] que tenha sido de um golpe pensada na sua [[lexico:t:totalidade|totalidade]] por ele e exposta numa forma conclusiva e terminante, antes, ao contrário, as [[lexico:i:ideias|ideias]] metafísicas leibnizianas foram-se desenvolvendo a fio, ao longo da [[lexico:v:vida|vida]] deste grande pensador, principalmente canalizadas e estimuladas por seus estudos científicos e metodológicos, tanto na teoria do conhecimento como na [[lexico:f:fisica|física]] e nas matemáticas. Por isso o [[lexico:s:sistema|sistema]] metafísico de Leibniz não foi exposto por seu autor senão nos últimos anos de sua vida, e mesmo a [[lexico:o:obra|obra]] que o contém da maneira mais completa e conclusiva só foi publicada depois de sua [[lexico:m:morte|morte]]. Mas se o álveo em que se foram formando as ideias metafísicas de Leibniz foi a teoria do conhecimento, a [[lexico:m:matematica|matemática]] e a física, cabe dizer que o [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida encontra-se totalmente na metafísica cartesiana. Uma e outra vez comprovamos o [[lexico:f:fato-historico|fato histórico]] de que [[lexico:d:descartes|Descartes]] estabelece suas [[lexico:m:meditacoes-metafisicas|Meditações metafísicas]], em seu [[lexico:d:discurso|discurso]] do [[lexico:m:metodo|método]], em seus [[lexico:p:principios|Princípios]] de [[lexico:f:filosofia|Filosofia]], umas bases sobre as quais havia de especular [[lexico:t:todo|todo]] o [[lexico:p:pensamento-filosofico|pensamento filosófico]] ulterior. A filosofia de Descartes levanta um certo [[lexico:n:numero|número]] de problemas, tanto de [[lexico:l:logica|lógica]] como de metafísica, como também de matemáticas e de física, que constituem os problemas essenciais de todo o século XVII e de grande [[lexico:p:parte|parte]] do século XVIII. De [[lexico:m:modo|modo]] que os filósofos posteriores a Descartes são aquilo que são, ora porque desenvolvem pensamentos cartesianos, ora porque se opõem a estes pensamentos com maior ou menor êxito. Leibniz também. Desde sua mocidade apossa-se de Leibniz o afã de aprofundar nas noções metafísicas de Descartes, e partiu desta metafísica; mas não podia satisfazê-lo a metafísica cartesiana, e não podia satisfazê-lo por algumas razões que vou expor imediatamente. **Ponto de partida no [[lexico:e:eu|eu]].** Que é que Leibniz encontrava em Descartes que pudesse servir-lhe de base? Pois simplesmente o mesmo que os demais filósofos de sua [[lexico:e:epoca|época]], ou seja a [[lexico:d:descoberta|descoberta]] [[lexico:e:essencial|essencial]] cartesiana do [[lexico:c:cogito|cogito]]. O ponto de partida de toda filosofia não pode [[lexico:s:ser|ser]] [[lexico:o:outro|outro]] que a [[lexico:i:intuicao|intuição]] do eu, da [[lexico:a:alma|alma]] como [[lexico:s:substancia|substância]] pensante. Leibniz aceita, pois, este ponto de partida cartesiano e aceita também com o maior [[lexico:e:entusiasmo|entusiasmo]] a [[lexico:d:distincao|distinção]] fundamental que faz Descartes entre as ideias claras e as ideias confusas. Para Leibniz, como para Descartes, as ideias confusas são problemáticas; constituem outras tantas interrogações, outros tantos [[lexico:e:enigmas|enigmas]], cuja solução consiste em esforçar-se para que a [[lexico:r:razao|razão]], mediante as análises conceptuais, transforme essas ideias obscuras em ideias claras. Mas precisamente aqui, e com razão, Leibniz [[lexico:n:nota|nota]] a [[lexico:f:falta|falta]] na filosofia de Descartes, do [[lexico:e:estudo|estudo]] [[lexico:p:profundo|profundo]] do trânsito que vai das ideias confusas às ideias claras. [[lexico:c:como-se|como se]] verifica essa passagem, [[lexico:e:esse|esse]] trânsito de uma [[lexico:i:ideia|ideia]] confusa a uma ideia clara? Se a ideia confusa, mediante o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] [[lexico:r:racional|racional]], chega a ser ideia clara, é, sem [[lexico:d:duvida|dúvida]], porque a ideia confusa continha no seu seio germinativamente a ideia clara. Pois [[lexico:b:bem|Bem]]; já sabemos que em toda a [[lexico:t:terminologia|terminologia]] filosófica deste século "ideia confusa" equivale à [[lexico:s:sensacao|sensação]], [[lexico:p:percepcao|percepção]] [[lexico:s:sensivel|sensível]], [[lexico:e:experiencia|experiência]] sensível. Por conseguinte, a experiência sensível tinha que conter germinativamente em seu seio a conclusão racional, a ideia clara. Relembremos como resolveu Leibniz o [[lexico:p:problema|problema]] do [[lexico:i:inatismo|inatismo]] ou [[lexico:e:empirismo|empirismo]] apresentado por [[lexico:l:locke|Locke]]. No [[lexico:s:sentido|sentido]] de que as [[lexico:v:verdades-de-razao|verdades de razão]], se bem não são inatas na totalidade e no [[lexico:e:exato|exato]] pormenor de sua [[lexico:e:estrutura|estrutura]], são, todavia, inatas enquanto nascem de germes obscuros que estão implícitos em nossa razão. Se, pois, tudo isto podia satisfazer a Leibniz, havia, ao contrário, outros [[lexico:e:elementos|elementos]] na metafísica de Descartes que não o podiam contentar de maneira alguma. O principal [[lexico:e:elemento|elemento]] contra o qual Leibniz se revolta, negando-se inteiramente a admiti-lo, é o que poderíamos chamar o "geometrismo" de Descartes. Como sabemos, Descartes estabelece por intuição direta, a substância pensante, o eu, a [[lexico:a:alma-pensante|alma pensante]]. Estabelece também, por uma intuição direta, a [[lexico:e:existencia|existência]] do [[lexico:d:deus|Deus]], porque descobre que a [[lexico:i:ideia-de-deus|ideia de Deus]] é a única ideia na qual o [[lexico:o:objeto|objeto]], a existência do objeto, está garantida pela ideia mesma. Esta é a [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] que demos do [[lexico:a:argumento-ontologico|argumento ontológico]]. Mas, em troca, a substância material, extensa, aparece a Descartes pura e simplesmente como correlato [[lexico:o:objetivo|objetivo]] de nossas ideias geométricas. De [[lexico:s:sorte|sorte]] que para Descartes a substância material, a [[lexico:m:materia|matéria]] é pura e simplesmente [[lexico:e:extensao|extensão]]. Isto é que perturba a Leibniz e provoca nele uma [[lexico:o:oposicao|oposição]] violenta a Descartes. Como a matéria pode ser pura e simplesmente extensão? A extensão, o [[lexico:p:puro|puro]] [[lexico:e:espaco|espaço]] geométrico é totalmente [[lexico:i:irreal|irreal]]. Não é uma [[lexico:r:realidade|realidade]], não é mais do que as combinações mentais que fazemos com pontos, retas, superfícies, volumes. Certamente, indubitavelmente, a realidade mesma, a realidade em si (seja ela qual for, e que depois pesquisaremos) terá que acomodar-se à forma do espaço, à forma da extensão. As [[lexico:c:coisas|coisas]] materiais haverão de ser também extensas. Porém não exclusivamente extensas. Definir a matéria pela pura extensão é estabelecer uma [[lexico:i:identidade|identidade]] intolerável entre a [[lexico:c:coisa|coisa]] [[lexico:r:real|real]] e a [[lexico:f:figura|figura]] geométrica, e a isso tendia realmente Descartes. Para Descartes, na realidade, as [[lexico:c:coisas-reais|coisas reais]] não são nem mais nem menos que [[lexico:s:simples|simples]] figuras geométricas. Essa [[lexico:t:tendencia|tendência]] cartesiana a reduzir o [[lexico:f:fisico|físico]] simplesmente à espacialidade, à extensão pura geométrica é a dificuldade contra a qual Leibniz vai-se revoltando constantemente.