===== MERCADORIA ===== Na quarta [[lexico:p:parte:start|parte]] do capítulo primeiro de [[lexico:o:o-capital:start|O Capital]], que se intitula “O [[lexico:c:carater:start|caráter]] fetichista da mercadoria e o seu segredo”, [[lexico:m:marx:start|Marx]] ocupa-se explicitamente dessa [[lexico:t:transformacao:start|transformação]] dos produtos do [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] [[lexico:h:humano:start|humano]] em “aparências de [[lexico:c:coisas:start|coisas]]”, em uma “fantasmagoria... que recai e ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] [[lexico:n:nao:start|não]] recai sob os sentidos”: *Uma mercadoria - afirma ele - à primeira vista parece algo trivial e perfeitamente compreensível... Como [[lexico:v:valor:start|valor]] de [[lexico:u:uso:start|uso]], nela [[lexico:n:nada:start|nada]] há de misterioso, seja que satisfaça as necessidades humanas com as suas propriedades naturais, seja que tais propriedades tenham sido produzidas pelo trabalho humano. É evidente que a [[lexico:a:atividade:start|atividade]] do [[lexico:h:homem:start|homem]] transforma as matérias-primas fornecidas pela [[lexico:n:natureza:start|natureza]] de [[lexico:m:modo:start|modo]] a torná-las úteis. A [[lexico:f:forma:start|forma]] da madeira, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], muda quando se faz dela uma mesa. Contudo, a mesa continua sendo madeira, ou seja, um [[lexico:o:objeto:start|objeto]] comum que recai sob os sentidos. Mas ao se apresentar como mercadoria, a [[lexico:q:questao:start|questão]] é totalmente diferente. Ao mesmo tempo apreensível e inapreensível, já não lhe basta pousar os pés em [[lexico:t:terra:start|Terra]]; ela se endireita, por assim dizer, sobre sua cabeça de madeira diante das outras mercadorias e se abandona aos caprichos mais estranhos [[lexico:c:como-se:start|como se]] se pusesse a dançar.* [[lexico:e:esse:start|esse]] “caráter [[lexico:m:mistico:start|místico]]”, que o [[lexico:p:produto:start|produto]] do trabalho adquire logo depois que assume a forma de mercadoria, depende, segundo Marx, de um desdobramento [[lexico:e:essencial:start|essencial]] na [[lexico:r:relacao:start|relação]] com o objeto, pelo qual ele já não representa apenas um valor de uso (ou seja, a sua [[lexico:a:aptidao:start|aptidão]] para satisfazer uma determinada [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] humana), mas tal valor de uso é, ao mesmo tempo, o suporte material de algo diferente que é seu valor de troca. Enquanto se apresenta sob essa dupla forma de objeto de uso e de porta-valor, a mercadoria é um [[lexico:b:bem:start|Bem]] essencialmente imaterial e [[lexico:a:abstrato:start|abstrato]], cujo gozo [[lexico:c:concreto:start|concreto]] só é [[lexico:p:possivel:start|possível]] através da acumulação e da troca: *Em um contraste evidente - escreve Marx — com a materialidade do [[lexico:c:corpo:start|corpo]] da mercadoria, não há nela um só [[lexico:a:atomo:start|átomo]] de [[lexico:m:materia:start|matéria]] que penetre no seu valor... Metamorfoseados em sublimados idênticos, mostras de um mesmo trabalho [[lexico:i:indeterminado:start|indeterminado]], todos os objetos já não manifestam mais do que uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]], a [[lexico:s:saber:start|saber]], de que na sua produção foi consumida uma certa [[lexico:f:forca:start|força]] de trabalho. Como cristais dessa [[lexico:s:substancia:start|substância]] [[lexico:s:social:start|social]] comum, eles são considerados valores.* [AgambenE:67-68] Em 1889, por [[lexico:o:ocasiao:start|ocasião]] da quinta [[lexico:e:exposicao:start|Exposição]] [[lexico:u:universal:start|universal]], a construção da Torre Eiffel, cujo perfil elegante parece hoje inseparável de Paris, suscitou os protestos de um significativo [[lexico:n:numero:start|número]] de artistas, entre os quais se achavam personalidades como Zola, Meissonier, Maupassant e Bonnat. Provavelmente eles haviam intuído o que o [[lexico:f:fato:start|fato]] consumado hoje nos impede de perceber, a saber, que a torre, [[lexico:a:alem:start|além]] de desferir um tiro mortal no caráter labiríntico da velha Paris, estabelecendo um [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de [[lexico:r:referencia:start|referência]] visível em todos os [[lexico:l:lugares:start|lugares]], transformava, em um lance de olhos, a [[lexico:c:cidade:start|cidade]] inteira em mercadoria consumível. A mercadoria mais preciosa em mostra na Exposição de 1889 era a própria cidade. [AgambenE:72] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}