===== MEMÓRIA ===== (gr. [[lexico:m:mneme:start|mneme]]; lat. memoria; in. Memory; fr. Mémoire, al. Gedächtnis; it. Memória). [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de dispor dos conhecimentos passados. Por conhecimentos passados é preciso entender os conhecimentos que, de qualquer [[lexico:m:modo:start|modo]], já estiveram disponíveis, e [[lexico:n:nao:start|não]] já simplesmente conhecimentos do passado. O [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] do passado também pode [[lexico:t:ter:start|ter]] [[lexico:f:formacao:start|formação]] nova: p. ex., dispomos [[lexico:a:agora:start|agora]] de informações acerca do passado de nosso planeta ou de nosso [[lexico:u:universo:start|universo]] que não são recordações. Conhecimento passado também não é simplesmente marca, vestígio, pois estas são [[lexico:c:coisas:start|coisas]] presentes, não passadas. A [[lexico:t:tristeza:start|tristeza]] ou a imperfeição [[lexico:f:fisica:start|física]] causadas por um [[lexico:a:acidente:start|acidente]] não são a memória desse acidente, apesar de serem vestígios dele, ao passo que a recordação pode [[lexico:e:estar:start|estar]] disponível e pronta, sem precisar da ajuda de nenhum vestígio, como no caso da [[lexico:f:formula:start|fórmula]] para o matemático e, em [[lexico:g:geral:start|geral]], das lembranças decorrentes da formação ou de hábitos profissionais. A memória parece [[lexico:s:ser:start|ser]] constituída por duas condições ou momentos distintos: 1) conservação ou persistência de conhecimentos passados que, por serem passados, não estão mais à vista: é a retentiva; 2) possibilidade de evocar, quando [[lexico:n:necessario:start|necessário]], o conhecimento passado e de torná-lo [[lexico:a:atual:start|atual]] ou presente: é propriamente a recordação. Esses dois momentos já foram distinguidos por [[lexico:p:platao:start|Platão]], que os chamou respectivamente de "conservação de sensações" e "[[lexico:r:reminiscencia:start|reminiscência]]" (Fil., 34 a-c), e por [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]], que utiliza esses mesmos termos. Aristóteles também propõe claramente o [[lexico:p:problema:start|problema]] decorrente da conservação da [[lexico:r:representacao:start|representação]] como marca ([[lexico:i:impressao:start|impressão]]) de um conhecimento passado: "Se em nós permanecer algo [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] a uma marca ou a uma pintura, como pode a [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] dessa marca ser memória de alguma outra [[lexico:c:coisa:start|coisa]] e não apenas de si? De [[lexico:f:fato:start|fato]], [[lexico:q:quem:start|quem]] lembra vê apenas a marca e só dela tem [[lexico:s:sensacao:start|sensação]]; como pode então lembrar o que não está presente?" (De Mem., 1, 450 b 17). A resposta de Aristóteles a essa [[lexico:q:questao:start|questão]] é que a marca na [[lexico:a:alma:start|alma]] é como um quadro que pode ser considerado [[lexico:p:por-si:start|por si]] ou pelo [[lexico:o:objeto:start|objeto]] que representa. E diz: "Assim como um [[lexico:a:animal:start|animal]] pintado num quadro é animal e [[lexico:i:imagem:start|imagem]], sendo ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] ambas as coisas, ainda que o ser dessas coisas não seja o mesmo, podendo ele ser considerado como animal ou como imagem, também a imagem [[lexico:m:mnemonica:start|mnemônica]] que está em nós deve ser considerada como objeto por [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] e, ao mesmo tempo, como representação de alguma outra coisa" (Ibid., 450 b 21). Segundo Aristóteles, a [[lexico:e:explicacao:start|explicação]] do [[lexico:p:processo:start|processo]] da memória, tanto como retentiva quanto como recordação, é inteiramente física: a retentiva e a produção de impressão decorrem de um [[lexico:m:movimento:start|movimento]], assim como de um movimento decorre a lembrança/recordação. Contudo, a recordação, ao contrário da retentiva, é uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de [[lexico:d:deducao:start|dedução]] ([[lexico:s:silogismo:start|silogismo]]), pois "quem recorda deduz que já escutou ou percebeu aquilo de que se lembra; isso é uma espécie de busca" (Ibid., 453 a 11). Portanto, a recordação é própria apenas dos homens. Com isso, Aristóteles evidenciava outra [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] fundamental da memória como recordação: seu [[lexico:c:carater:start|caráter]] ativo de [[lexico:d:deliberacao:start|deliberação]] ou de [[lexico:e:escolha:start|escolha]]. A [[lexico:a:analise:start|análise]] platônico-aristotélica da memória trouxe à baila os seguintes aspectos: d) [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre retentiva e recordação; b) o [[lexico:r:reconhecimento:start|reconhecimento]] do caráter ativo ou voluntário da recordação, diante do caráter [[lexico:n:natural:start|natural]] ou [[lexico:p:passivo:start|passivo]] da retentiva; c) base física da recordação como conservação de movimento ou movimento conservado. Pode-se dizer que esses aspectos não mudaram ao longo da [[lexico:h:historia:start|história]] desse [[lexico:c:conceito:start|conceito]]. Todavia, as doutrinas posteriores podem ser subdivididas em dois grupos, segundo o [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de partida para a [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] da memória: memória como retentiva ou conservação ou memória como recordação. A) A [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]] antiga ressaltou [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] de memória como conservação, persistência, de conhecimentos adquiridos. O modo [[lexico:m:mistico:start|místico]] como [[lexico:p:plotino:start|Plotino]] trata o assunto, [[lexico:a:alem:start|além]] de negar a base física da memória e considerar o [[lexico:c:corpo:start|corpo]] mais como [[lexico:o:obstaculo:start|obstáculo]] do que como ajuda (Enn., IV, 3, 26), afirma a proporção entre memória e [[lexico:f:forca:start|força]] ou persistência de conservação: "Se a imagem persiste na [[lexico:a:ausencia:start|ausência]] do objeto, já há M, mesmo que persista por pouco; se persiste por pouco, a memória é curta; se dura mais, a memória aumenta porque a força da [[lexico:i:imaginacao:start|imaginação]] é maior; e, se dificilmente falha, a memória é indestrutível" (Ibid., IV, 3, 29). De maneira análoga, a lista feita por S. [[lexico:a:agostinho:start|Agostinho]] dos "milagres" da memória baseia-se no conceito de memória como receptáculo dos conhecimentos ou, segundo sua [[lexico:e:expressao:start|expressão]], "ventre da alma" (Conf., X, 14). [[lexico:e:esse:start|esse]] é também o conceito dos filósofos medievais. [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]] dá-lhe o [[lexico:n:nome:start|nome]] de "tesouro e local de conservação das espécies" (S. Th., I, q. 29, a. 7), repetindo um lugar-comum da [[lexico:f:filosofia-medieval:start|filosofia medieval]]. Isso equivalia a insistir na memória como retentiva. Mas as concepções modernas e contemporâneas também veem a memória como conservação; retomando a concepção agostiniana do tempo como distensio animi ou [[lexico:d:duracao:start|duração]] de [[lexico:c:consciencia:start|consciência]], veem na memória a conservação integral do [[lexico:e:espirito:start|espírito]] por [[lexico:p:parte:start|parte]] de si [[lexico:p:proprio:start|próprio]], ou seja, a persistência nele de todas as suas [[lexico:a:acoes:start|ações]] e afeições, de todas as suas manifestações ou modos de ser. Essa concepção já foi exposta por [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]], que concebia a memória como conservação integral sob [[lexico:f:forma:start|forma]] de [[lexico:v:virtualidade:start|virtualidade]] ou de "[[lexico:p:pequenas-percepcoes:start|pequenas percepções]]" das [[lexico:i:ideias:start|ideias]] que não têm mais forma de [[lexico:p:pensamentos:start|Pensamentos]] ou de "apercepções"; donde observar, em [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] a [[lexico:l:locke:start|Locke]]: "Se as ideias não fossem mais que formas ou modos de pensamentos, cessariam com eles; contudo o Sr. mesmo reconheceu que elas são os objetos internos dos pensamentos e que, como tais, podem [[lexico:s:subsistir:start|subsistir]]. Surpreende-me que possa, então, subestimar essas potências ou [[lexico:f:faculdades:start|faculdades]] puras, deixando-as, ao que parece, sob os cuidados dos filósofos da [[lexico:e:escola:start|escola]]" (Nouv. ess., II, 10, 2). Em virtualidade ou [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] pode e deve conservar-se integralmente [[lexico:t:todo:start|todo]] [[lexico:a:ato:start|ato]] ou [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]] do espírito, já que o espírito é justamente essa [[lexico:a:autoconservacao:start|autoconservação]]. Tal é a concepção de memória por parte da [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] espiritualista ou consciencialista. A melhor [[lexico:e:exposicao:start|exposição]] dessa concepção encontra-se em [[lexico:b:bergson:start|Bergson]] ([[lexico:m:materia-e-memoria:start|Matéria e memória]], 1896), que a contrapôs à concepção de memória baseada na recordação. Bergson disse: "A memória não consiste na [[lexico:r:regressao:start|regressão]] do presente para o passado, mas, ao contrário, no [[lexico:p:progresso:start|progresso]] do passado ao presente. É no passado que nós nos situamos de chofre. Partimos de um [[lexico:e:estado:start|Estado]] [[lexico:v:virtual:start|virtual]], que pouco a pouco, através de uma [[lexico:s:serie:start|série]] de planos de consciência diferentes, vamos conduzindo até o [[lexico:t:termo:start|termo]] em que ele se materializa em [[lexico:a:apercepcao:start|apercepção]] atual, ou seja, até o ponto em que se transforma em estado presente e [[lexico:a:agente:start|agente]], enfim, até o [[lexico:p:plano:start|plano]] [[lexico:e:extremo:start|extremo]] de nossa consciência sobre o qual se desenha nosso corpo. A recordação pura consiste nesse estado virtual" (Matière et mémoire, 1- ed., p. 245). A memória pura (ou recordação pura) é a corrente de consciência em que tudo é conservado no estado de virtualidade. A [[lexico:l:limitacao:start|limitação]] da lembrança efetiva não pertence à memória, mas à recordação atual, que Bergson identifica com a percepção e que é uma escolha realizada na memória pura, para as exigências da [[lexico:a:acao:start|ação]]. Portanto, as lesões cerebrais não afetam a memória propriamente dita, mas apenas a reminiscência das lembranças na percepção, ou seja, o [[lexico:m:mecanismo:start|mecanismo]] pelo qual a memória se insere no corpo e transforma-se em ação. Essa [[lexico:t:teoria:start|teoria]], que Bergson apoiava na análise dos distúrbios das funções mnemônicas, caracteriza-se por dois pontos fundamentais: 1) distinção entre memória pura e recordação, entendendo-se por memória pura a conservação integral, [[lexico:i:independente:start|independente]] de qualquer circunstância, do espírito por parte do espírito; ora, é evidente que essa memória [[lexico:n:nada:start|nada]] tem a [[lexico:v:ver:start|ver]] com a memória observável; 2) [[lexico:n:negacao:start|negação]] de qualquer base fisiológica para a memória pura e limitação da base fisiológica ao [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] da percepção. Essa negação tampouco é confirmada por fatos; seu precedente [[lexico:h:historico:start|histórico]] é a teoria de Plotino. A partir de [[lexico:d:descartes:start|Descartes]] (Princ. phil, IV, 196), a base fisiológica da memória não é negada. A mesma conservação integral do espírito por parte do espírito é a "corrente da consciência", de que [[lexico:f:fala:start|fala]] [[lexico:h:husserl:start|Husserl]], pois ele também recorre ao conceito empregado por Leibniz e Bergson, de virtualidade ou potencialidade como marca da memória Husserl diz: "As coisas podem ser viven-ciadas não só na apercepção, mas também na recordação e nas representações afins à recordação. (...) A [[lexico:e:essencia:start|essência]] dessas vivências pertence a importante modificação que, do modo de [[lexico:a:atualidade:start|atualidade]], transporta a consciência para o modo de inatualidade, e vice-versa. Num caso, a [[lexico:v:vivencia:start|vivência]] é consciência explícita de seu objeto; em [[lexico:o:outro:start|outro]], é consciência implícita, apenas potencial" (Ideen, I, § 35). O [[lexico:p:pressuposto:start|pressuposto]] é sempre o da total conservação do conteúdo da consciência: o fenômeno da recordação é ligado à passagem do conteúdo do estado atual para o potencial, ou vice-versa. B) Pertencem a um segundo [[lexico:g:grupo:start|grupo]] as teorias da memória cujo ponto de partida é o fenômeno da recordação. [[lexico:h:hobbes:start|Hobbes]], p. ex., definiu a memória como "a sensação de já ter [[lexico:s:sentido:start|sentido]]" (De corp., 25, 1), o que significa defini-la em [[lexico:r:relacao:start|relação]] ao ato de se reconhecer, naquilo que se percebe, o que já se percebeu outra vez. A partir desse ponto de vista, [[lexico:w:wolff:start|Wolff]] definiu a memória como "faculdade de reconhecer as ideias reproduzidas e as coisas por elas representadas" (Psychol. rationalis, § 278): conceito que também se encontra em Baumgarten (Met, § 579). Desse ponto de vista, tende-se algumas vezes a reconhecer o caráter ativo da memória, ou seja, a [[lexico:f:funcao:start|função]] da [[lexico:v:vontade:start|vontade]] ou da escolha deliberada ao evocar as recordações. Locke dizia: "Nessa [[lexico:e:evocacao:start|evocação]] das ideias depositadas na memória, o espírito não é puramente passivo porque a representação destes quadros adormecidos às vezes depende da vontade" (Ensaio, II, 10, 7). [[lexico:k:kant:start|Kant]] ressaltava igualmente esse caráter ativo: "A memória difere da [[lexico:s:simples:start|simples]] imaginação reprodutiva porque, podendo reproduzir voluntariamente a representação precedente, a alma não está à mercê dela" (Antr., I, § 34). A esse mesmo grupo de doutrinas pertencem: d) as que interpretam a memória como [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]]; b) as que interpretam a memória como mecanismo associativo. a) [[lexico:h:hegel:start|Hegel]] interpretou a memória como inteligência ou [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] (sempre em seu aspecto de recordação), vendo nela "o modo [[lexico:e:extrinseco:start|extrínseco]], o [[lexico:m:momento:start|momento]] unilateral da [[lexico:e:existencia:start|existência]] do pensamento". E [[lexico:n:nota:start|nota]] que a [[lexico:l:lingua:start|língua]] alemã confere à memória "a elevada [[lexico:p:posicao:start|posição]] de parentesco [[lexico:i:imediato:start|imediato]] com o pensamento" (Enc., § 464). Segundo Hegel, a memória é o pensamento exteriorizado, pensamento que acredita encontrar algo de [[lexico:e:externo:start|externo]], a coisa que é lembrada ou recordada, mas que na [[lexico:r:realidade:start|realidade]] encontra-se a si mesmo, porque a coisa lembrada ou recordada também é pensamento. Por isso, Hegel diz que, "como memória, o espírito torna-se, em si mesmo, algo de externo, de tal modo que [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] seu aparece como algo que é encontrado" (Ibid., § 463). Aqui a memória é interpretada sobretudo como recordação; é evidente o parentesco dessa doutrina com as espiritualistas ou consciencialistas: a identificação da memória com o pensamento tem o mesmo sentido da unificação da memória com a consciência ou com sua duração. b) O conceito de memória como mecanismo associativo foi expresso pela primeira vez por [[lexico:s:spinoza:start|Spinoza]] do seguinte modo: "A memória nada mais é que certa concatenação de ideias que implicam a [[lexico:n:natureza:start|natureza]] das coisas que estão fora do corpo [[lexico:h:humano:start|humano]]; essa concatenação se produz na [[lexico:m:mente:start|mente]] segundo a [[lexico:o:ordem:start|ordem]] e a concatenação das afeições do corpo humano". Spinoza faz a distinção entre a concatenação da memória e a das ideias, "que ocorre segundo a ordem do [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]], igual em todos os homens" (Et, II, 18, schol.). Não há [[lexico:d:duvida:start|dúvida]], portanto, de que Spinoza fazia alusão a um mecanismo associativo semelhante ao que mais [[lexico:t:tarde:start|Tarde]] foi teorizado por [[lexico:h:hume:start|Hume]]: "É evidente que existe um [[lexico:p:principio:start|princípio]] de conexão entre os diversos pensamentos ou ideias do espírito e que, ao surgirem na memória ou na imaginação, apresentam-se sucessivamente com certo [[lexico:g:grau:start|grau]] de [[lexico:m:metodo:start|método]] e [[lexico:r:regularidade:start|regularidade]]" (Inq. Conc. Underst, III). [[lexico:c:como-se:start|como se]] sabe, Hume enunciava três leis de [[lexico:a:associacao:start|associação]]: [[lexico:s:semelhanca:start|semelhança]], contiguidade e [[lexico:c:causalidade:start|causalidade]]; mas só as duas primeiras foram empregadas pela psicologia associacionista para [[lexico:e:explicar:start|explicar]] os fenômenos psíquicos (v. [[lexico:a:associacionismo:start|associacionismo]]). Grande parte da psicologia [[lexico:m:moderna:start|moderna]] baseou-se na [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]] associacionista ao estudar os fenômenos da memória, até que a [[lexico:p:psicanalise:start|psicanálise]], por um lado, e a gestalt, por outro, mostrassem a importância dos interesses e das atitudes volitivas na recordação, [[lexico:b:bem:start|Bem]] como a importância de toda a [[lexico:p:personalidade:start|personalidade]] no reconhecimento do já visto. O [[lexico:e:estudo:start|estudo]] [[lexico:e:experimental:start|experimental]] da memória confirmou as [[lexico:p:palavras:start|palavras]] de [[lexico:n:nietzsche:start|Nietzsche]]: "Fiz isto — diz-me a memória. Não posso ter feito,— sustenta meu [[lexico:o:orgulho:start|orgulho]], que é inexorável. Finalmente, quem cede é a memória" (Jenseit von Gut und Böse, 1886, § 68). Assim, as análises psicológicas modernas continuam girando em torno do fato da recordação, mais do que em torno da retentiva, que continua sendo preferida pelas teorias filosóficas da memória. A persistência do passado. O passado pode persistir sob a forma de simples hábitos; a memória, entretanto, designa mais propriamente a representação do passado. — Os cinco [[lexico:e:elementos:start|elementos]] da memória são: 1.° a fixação das lembranças; 2.° sua conservação; 3.° a revocação; 4.° o reconhecimento; 5.° a [[lexico:l:localizacao:start|localização]]. As perturbações da memória podem ser perturbações a) de fixação ([[lexico:a:amnesia:start|amnésia]] anterógrada, [[lexico:e:emocao:start|emoção]] violenta); de maneira geral, para que uma coisa seja fixada em nossa memória, é necessário que seja "compreendida"; só se recorda bem o que se compreendeu claramente; b) de conservação (quando são atingidas as células do córtex); c) de revocação (amnésia retrógrada dos velhos, descrita por [[lexico:r:ribot:start|Ribot]]); d) do reconhecimento (paramnésia ou sensação de se ter visto o que nunca se viu o déjà vu, que Bergson analisou particularmente); e) da localização (desadaptação [[lexico:s:social:start|social]], viagem, [[lexico:m:mudanca:start|mudança]] de [[lexico:s:sociedade:start|sociedade]]; cf. [[lexico:h:halbwachs:start|Halbwachs]], Os quadros sociais da memória). Em geral, as lembranças ou os acontecimentos esquecidos são aqueles que "repelimos" para o [[lexico:i:inconsciente:start|Inconsciente]] ([[lexico:f:freud:start|Freud]]), seja porque choquem nossa consciência social, seja porque nos forçariam a refletir e a [[lexico:p:pensar:start|pensar]] novamente nossa [[lexico:v:visao:start|visão]] dos homens e das coisas. (V. amnésia, paramnésia.) Por vezes distingue-se entre a recordação e a memória, considerando-se a primeira como ato de recordar ou então como aquilo que é recordado, e a segunda como uma [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]], [[lexico:d:disposicao:start|disposição]], faculdade, função, etc. A recordação é, neste caso, um processo [[lexico:p:psiquico:start|psíquico]] diferente de uma “realidade psíquica”. A mencionada distinção tem raízes antigas. O problema de se a vontade intervém ou não na memória foi durante a [[lexico:a:antiguidade:start|antiguidade]] centro de inúmeras discussões. Todas elas se baseavam na [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] de encontrar um equilíbrio entre as diferentes [[lexico:f:faculdades-da-alma:start|faculdades da alma]], equilíbrio que ficava alterado a partir do momento em que uma das faculdades era sublinhada perante as outras. Durante toda a [[lexico:e:epoca:start|época]] moderna, tratou-se e discutiu-se o problema da sede da memória. Parece terem-se confrontado duas concepções últimas: a que define a memória como vestígio psicofisiológico deixado pelas impressões no cérebro e reprodutível mediante leis de associação, e a que tendeu a considerá-la como um [[lexico:p:puro:start|puro]] fluir psíquico. Descartes já tinha distinguido entre duas formas de memória: a memória corporal, que consiste em vestígios ou pregas deixados nos cérebro, e a memória intelectual, que é espiritual e incorpora.. Dos filósofos que se ocuparam com [[lexico:p:particular:start|particular]] [[lexico:a:atencao:start|atenção]] do problema da memória e suas possíveis formas, pode mencionar-se Bergson e William [[lexico:j:james:start|James]]. Segundo Bergson, a memória pode ser memória-hábito ou memória de [[lexico:r:repeticao:start|repetição]], memória representativa. A primeira é a memória psicofisiológica; a segunda é memória pura, que constitui a própria essência da consciência. Este [[lexico:u:ultimo:start|último]] [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de memória representa a continuidade da [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]], a realidade fundamental, a consciência de duração pura. Por isso se diz que a memória, considerada neste sentido, é o ser [[lexico:e:essencial:start|essencial]] do [[lexico:h:homem:start|homem]] enquanto [[lexico:e:entidade:start|entidade]] espiritual, podendo-se defini-lo, em certo sentido, de um modo diferente de todos os demais seres, como o ser que tem memória, que conserva o seu passado e o atualiza em todo o presente, porque tem, por conseguinte, história e [[lexico:t:tradicao:start|tradição]]. A memória pura seria, pois, [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] da memória propriamente psicológica, isto é, da memória enquanto [[lexico:r:retencao:start|retenção]], repetição e [[lexico:r:reproducao:start|reprodução]] dos conteúdos passados. Mas, ao mesmo tempo, esta memória representaria não só o reconhecimento dos fatos passados, mas também o reviver [[lexico:e:efetivo:start|efetivo]], mesmo sem consciência da sua anterioridade, o “re-cordar” num sentido [[lexico:p:primitivo:start|primitivo]] do vocábulo como reprodução de estados anteriores ou, melhor dizendo, como vivência atual que leva no seu seio todo o passado ou parte do passado. Segundo William James, pode ter-se memória só de certos estados de ânimo que duraram algum tempo - estados que James chama substantivos. A memória é um fenômeno [[lexico:c:consciente:start|consciente]] enquanto consciência de um estado de ânimo passado que, por algum tempo, tinha desaparecido da consciência. Não pode considerar-se propriamente como memória a persistência de um estado de ânimo, mas só o seu reaparecimento. A memória deve referir-se ao passado da pessoa que a possui; além disso, deve vir acompanhada de um processo [[lexico:e:emotivo:start|emotivo]] de [[lexico:c:crenca:start|crença]]. a memória não é uma faculdade especial; não há nada [[lexico:u:unico:start|único]], diz James, no objeto da memória. Este é só um objeto imaginado no passado ao qual adere a emoção da crença. O exercício da memória pressupõe a retenção do fato recordado e a sua reminiscência. [[lexico:c:causa:start|causa]], quer da retenção, quer da reminiscência, é a [[lexico:l:lei:start|lei]] do [[lexico:h:habito:start|hábito]] do [[lexico:s:sistema:start|sistema]] nervoso que trabalha na [[lexico:a:associacao-de-ideias:start|associação de ideias]]. MEMÓRIA em sentido lato já a temos nas associações. Em acepção mais restrita, memória designa as representações reproduzidas, oriundas do inconsciente, quando a vivência anterior é reconhecida. No que tange à memória em sentido lato, cumpre-nos distinguir nela a capacidade de aprender, a firmeza e a [[lexico:f:fidelidade:start|fidelidade]]. A [[lexico:i:investigacao:start|investigação]] dos testemunhos (no exame dos conhecimentos acerca de uma imagem observada durante um minuto) estabeleceu que os erros cometidos por estudantes em suas informações espontâneas oscilavam entre 5 e 10%; no interrogatório, entre 20 e 30%. A [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]], muitas vezes ouvida, de que a testemunha devia ter percebido um processo que presenciou, carece de [[lexico:j:justificacao:start|justificação]]. — Na imagem reproduzida há recordação, reconhecimento, quando aparece como tendo sido anteriormente vivida. A segurança do reconhecimento é particularmente grande para os acontecimentos mais importantes da própria [[lexico:v:vida:start|vida]], amiúde acompanhados de numerosas circunstâncias concomitantes. Entre reprodução e reconhecimento existe, sob muitos aspectos, paralelismo, muito embora a reprodução exija associações mais potentes do que o mero reconhecimento. Por outro lado, dão-se também reproduções espontâneas sem reconhecimento. A reprodução ulterior requer atenção voluntária na recepção do excitante (aprender); o reconhecimento, não. Como critérios de recordação servem: a rapidez com que surge uma representação logo a seguir à que foi oferecida, o caráter exclusivo de uma representação, sua peculiar clareza, a [[lexico:a:abundancia:start|abundância]] de circunstâncias que ocorrem à mente. Quando com o olhai-se percorrem sucessivamente as partes de um objeto extenso, as primeiras percepções suscitam, por vezes, conjecturas sobre o que se segue; quando isto acontece, confirma-se a conjectura. De modo especial, os acontecimentos principais da vida de cada qual manifestam uma clareza, duração e invariabilidade, como nenhuma outra imagem da [[lexico:f:fantasia:start|fantasia]] as possui. Além disso, adaptam-se bem à [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] atual e são corroborados pelos conhecimentos passados. — Na reprodução de representações sensoriais, que também ocorrem nos animais, temos uma [[lexico:m:memoria-sensivel:start|memória sensível]]; nela, a [[lexico:p:participacao:start|participação]] psíquica está sempre ligada a uma excitação corpórea inteiramente determinada, como se verifica também na sensação consciente. Acima dessa memória há, no homem, uma memória [[lexico:s:superior:start|superior]], a memória intelectual, um [[lexico:s:saber:start|saber]] [[lexico:l:latente:start|latente]], [[lexico:r:relativo:start|relativo]], p. ex., a proposições geométricas aprendidas, aos atos espirituais próprios do [[lexico:e:entendimento:start|entendimento]] e da vontade, que se examinam. Não bastam para isso as representações sensoriais simultâneas, das quais os pensamentos dependem só frouxamente. A memória intelectual é mais rápida, mais exata e mais compreensiva. Nem sequer para as palavras recordadas basta a memória [[lexico:s:sensivel:start|sensível]], uma vez que o [[lexico:s:significado:start|significado]] delas deve [[lexico:a:aparecer:start|aparecer]] simultaneamente; portanto, as palavras devem estar associadas aos pensamentos. — Fröbes. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}