===== MEDITAÇÕES METAFÍSICAS ===== [[lexico:m:meditacoes-metafisicas|MEDITAÇÕES METAFÍSICAS]] (Méditations métaphysiques), por [[lexico:d:descartes|Descartes]] (1641), cujo título completo é: Meditações que tocam a [[lexico:f:filosofia-primeira|filosofia primeira]], onde se demonstra a [[lexico:e:existencia-de-deus|existência de Deus]] e a [[lexico:d:distincao|distinção]] [[lexico:r:real|real]] entre a [[lexico:a:alma|alma]] e o [[lexico:c:corpo|corpo]] do [[lexico:h:homem|homem]] (Méditations touchant la philosophie première, où l’on demontre l’existence de Dieu et la distinction réelle entre l’âme et le corps de l’homme). O [[lexico:f:filosofo|filósofo]] começa por duvidar de tudo, a [[lexico:f:fim|fim]] de [[lexico:n:nao|não]] tomar por [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] senão o que conhece clara e distintamente como tal. Sua primeira [[lexico:c:certeza|certeza]] diz [[lexico:r:respeito|respeito]] ao [[lexico:a:ato|ato]] mesmo de duvidar, que é um [[lexico:f:fato|fato]] de [[lexico:p:pensar|pensar]]. Assim, o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] é o primeiro [[lexico:o:objeto|objeto]] de [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] verdadeiro. Ora, "penso, logo existo". Descartes examina em seguida todas as [[lexico:i:ideias|ideias]] que se encontram em seu [[lexico:e:espirito|espírito]]: ressalta em [[lexico:p:particular|particular]] a [[lexico:i:ideia|ideia]] do [[lexico:i:infinito|infinito]], do qual o [[lexico:s:ser|ser]] [[lexico:h:humano|humano]] não pode ser o autor; essa ideia, que, na [[lexico:v:verdade|verdade]], nos ultrapassa, é o [[lexico:s:sinal|sinal]] [[lexico:t:tangivel|tangível]] de uma [[lexico:r:realidade|realidade]] — ela própria nos ultrapassando —, a realidade de [[lexico:d:deus|Deus]]. A certeza de Deus é então o segundo de nossos conhecimentos verdadeiros. Da ideia mesma de Deus, de sua [[lexico:o:onipotencia|onipotência]] e [[lexico:b:bondade|bondade]], o filósofo deduzirá a [[lexico:v:veracidade|veracidade]] de todos os nossos conhecimentos naturais: sensíveis (percepções do [[lexico:m:mundo|mundo]]) e mesmo sensoriais (percepções de nosso corpo). As Meditações dão, assim, os [[lexico:p:principios|princípios]] de uma [[lexico:f:fisica|física]] e de uma medicina, baseadas no conhecimento da verdade. Partindo do [[lexico:d:discurso-sobre-o-metodo|Discurso sobre o Método]] e demandando o seu [[lexico:o:objetivo|objetivo]] fundamental, que era a busca da verdade, ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] que afastava por uma [[lexico:d:duvida|dúvida]] [[lexico:s:sistematica|sistemática]] tudo que pudesse [[lexico:t:ter|ter]] recebido, sem controle, de outra [[lexico:f:fonte|fonte]] que não fosse de [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]], perguntou-se Descartes que realidade, mãe de todas as outras, se impunha indubitavelmente, e encontrou-a no pensamento, no seu pensamento, no fato de se surpreender em flagrante de pensar e de não poder duvidar, portanto, que ele fosse um [[lexico:e:eu|eu]] que pensa. É o [[lexico:c:cogito|cogito]], ergo sum, o "Penso, logo existo" — [[lexico:n:nada|nada]] de [[lexico:s:silogismo|silogismo]], apesar das aparências, mas uma constatação, uma [[lexico:a:afirmacao|afirmação]], talvez uma identificação: eu penso, eu existo — talvez exista porque penso... Desde o primeiro passo já entramos em cheio no centro e no [[lexico:p:ponto|ponto]] crítico do [[lexico:c:cartesianismo|cartesianismo]]. Numerosas interpretações têm sido dadas ao Cogito que, com o decorrer do tempo, se tem alargado e aprofundado de maneira [[lexico:s:singular|singular]]. Reaparece, e tornaremos a encontrá-lo, com uma [[lexico:e:extensao|extensão]] crescente de registro em [[lexico:f:fichte|Fichte]], em [[lexico:h:heidegger|Heidegger]]. Louis [[lexico:l:lavelle|Lavelle]], em seus cursos admiráveis do Colégio de França, renovou-o com uma tintura de [[lexico:p:platonismo|platonismo]]. Via nele não já uma [[lexico:c:coisa|coisa]] mas um ato, o ato da [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] que se percebe em sua [[lexico:o:operacao|operação]]. Assim marcham as ideias e dão seus frutos. O [[lexico:p:proprio|próprio]] Descartes poderia passar por ter tomado de empréstimo esta. que se encontra em [[lexico:s:santo|santo]] [[lexico:a:agostinho|Agostinho]] e que no fundo é uma ideia do [[lexico:s:senso-comum|senso comum]]. Mas apresentava-a de maneira a assegurar-lhe maravilhosa fecundidade. Da minha realidade como poderei chegar, [[lexico:a:agora|agora]], à realidade dd que não é eu? [[lexico:o:outro|outro]] passo adiante, e não menos decisivo. Descartes vai saltar da [[lexico:r:realidade-do-eu|realidade do eu]] para a realidade do mundo — mas por um golpe de audácia, e passando pela realidade de Deus. Apesar de ter apreendido o seu ser, refletiu consigo que duvidava e que, portanto, não era [[lexico:p:perfeito|perfeito]], uma vez que o conhecimento é [[lexico:s:superior|superior]] à dúvida. Ora, donde lhe vinha essa ideia de [[lexico:p:perfeicao|perfeição]]? Não podia provir dele mesmo, nem do nada. Logo, era preciso afirmar um ser perfeito, isto é, Deus, que o ultrapassasse e ultrapassasse tudo mais, tornando-se assim a fonte e como que a [[lexico:g:garantia|garantia]] de [[lexico:t:todo|todo]] ser, pois que nenhum ser poderia [[lexico:e:existir|existir]] sem ele e sem o seu suporte. Tudo nos engana ou nos pode enganar, particularmente os sentidos, que constituem para o vulgo o [[lexico:c:criterio|critério]] da certeza; mas aqui se impõe uma outra [[lexico:e:evidencia|evidência]], esta de [[lexico:o:ordem|ordem]] [[lexico:l:logica|lógica]]. Diremos [[lexico:a:acaso|acaso]] — e a [[lexico:o:objecao|objeção]] será formulada mais [[lexico:t:tarde|Tarde]] — que essa manobra talvez não passe de um [[lexico:s:sonho|sonho]] e que podemos, nós e o resto, ser [[lexico:s:simples|simples]] fantasmas suscitados por um "espírito maligno", por um deus enganador? Mas um deus enganador seria um deus perfeito, seria Deus? Assim fica fechado o [[lexico:c:circulo|círculo]]. Passamos da nossa realidade à realidade de Deus para tornar em seguida à realidade nossa e do restante. Quanto à [[lexico:n:natureza|natureza]] dessa realidade aprendida em primeiro [[lexico:l:lugar|lugar]], já nos é perfeitamente manifestada pelo seu próprio objeto. É toda espiritual e da ordem do pensamento, única realidade verdadeiramente real, pois o que conheci foi "que eu era uma [[lexico:s:substancia|substância]] cuja [[lexico:e:essencia|essência]] total ou natureza consiste em pensar e que, para existir, não necessita de nenhum vínculo nem depende de coisa material alguma; de [[lexico:s:sorte|sorte]] que o eu, isto é, a alma, pela qual sou o que sou, é inteiramente distinta do corpo, sendo mesmo mais fácil conhecê-la do que a este". Outra concepção, ou concepção derivada, de considerável alcance, e que se tornará temível. Tais são os princípios da [[lexico:m:metafisica|metafísica]] cartesiana desenvolvidos nas Meditações e nas Respostas dadas às objeções que se levantaram contra aquelas. E vemos, no curso da [[lexico:o:obra|obra]], reaparecer as mesmas noções, definidas ou precisadas. O primeiro conhecimento que derivamos da [[lexico:o:observacao|observação]] e da consideração das [[lexico:c:coisas|coisas]] não é o conhecimento delas mas o de nós mesmos, e vem não dos sentidos, mas do simples [[lexico:e:entendimento|entendimento]]: se carrego em mim uma realidade que me supera e que não pode provir de mim mesmo, é forçoso que venha de fora e, por conseguinte, que eu não esteja só e que exista algo fora de mim. Essa ideia de perfeição que seríamos incapazes de [[lexico:c:criar|criar]] sem ser perfeitos, isto é, sem ser Deus, só pode ter sua [[lexico:o:origem|origem]] em Deus. E finalmente encontramos estas [[lexico:p:palavras|palavras]] decisivas: "Ora, se eu, que sou uma coisa que pensa, não reconheço em mim o poder de conservar a mim mesmo, concluo que existo por um outro que, tendo a [[lexico:f:forca|força]] de me conservar, deve, com mais forte [[lexico:r:razao|razão]], conservar-se a si próprio e, por conseguinte, existe [[lexico:p:por-si|por si]]". Tem-se reconhecido aí, e melhor armada, a [[lexico:p:prova-ontologica|prova ontológica]] da [[lexico:e:existencia|existência]] de Deus, o [[lexico:a:argumento|argumento]] de Santo Anselmo e a aplicação do [[lexico:p:principio|princípio]] de perfeição. E é [[lexico:b:bem|Bem]] [[lexico:p:possivel|possível]] que sejam estas as melhores razões que a razão tenha encontrado para justificar o fato de se ultrapassar. Se existe ser, é [[lexico:n:necessario|necessário]] que haja um ser, e um Ser Supremo; se, por outro lado, o [[lexico:p:principio-de-contradicao|princípio de contradição]], isto é, a própria [[lexico:a:atividade|atividade]] da inteligência, detém esta inteligência ao mesmo tempo que ela afirma a [[lexico:n:necessidade|necessidade]] de ir [[lexico:a:alem|além]], é imprescindível que a ideia da perfeição venha em seu socorro. Tal era o fundo mesmo da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] de [[lexico:p:platao|Platão]]. Descartes — um homem de [[lexico:c:ciencia|ciência]] — marcha nesse [[lexico:s:sentido|sentido]] e vai até mais longe; vai até Duns Escoto, para [[lexico:q:quem|quem]] a verdade não era a verdade por ser a verdade, mas porque Deus assim o queria, para quem a [[lexico:s:soma|soma]] dos ângulos de um [[lexico:t:triangulo|triângulo]] era igual a dois ângulos retos unicamente por [[lexico:d:decisao|decisão]] divina. Não disse Descartes, com [[lexico:e:efeito|efeito]], que "o ateu não possui a verdadeira ciência das matemáticas" por lhe faltar o [[lexico:f:fundamento|fundamento]] de Deus, "porque não lhe assiste nenhum [[lexico:m:motivo|motivo]] para crer que não esteja sendo enganado nas coisas que lhe parecem mais evidentes"? Isto patenteia o [[lexico:c:carater|caráter]] profundamente idealista, não de toda a filosofia, mas da metafísica cartesiana. Não é um [[lexico:i:idealismo|Idealismo]] no sentido [[lexico:e:estrito|estrito]] da [[lexico:p:palavra|palavra]], pois que veremos adiante a [[lexico:p:parte|parte]] concedida ao corpo e aos corpos, à "substância extensa" mas como não reconhecer que o [[lexico:p:primado|primado]] da realidade é outorgado ao espírito? [[lexico:f:filosofia-da-essencia|filosofia da essência]] no sentido filosófico desta palavra — e Descartes é, por [[lexico:a:antecipacao|antecipação]], decididamente anti-existencialista. À objeção [[lexico:c:capital|capital]] de [[lexico:h:hobbes|Hobbes]]: "A essência não existe senão pela existência" ele contesta com simplicidade e firmeza: "A essência e a existência são distinguidas por todo mundo." Reintegra-se por este lado, na [[lexico:t:tradicao|tradição]] [[lexico:e:escolastica|escolástica]] tão vilipendiada. Temos portanto aí uma metafísica, isto é, uma construção puramente espiritual. Todavia Descartes não esquece, nessa operação, nem a [[lexico:p:prudencia|prudência]] nem os princípios do seu [[lexico:m:metodo|método]]. Parte da evidência de um [[lexico:e:eu-pensante|eu pensante]] atingida em primeiro lugar e avança pelas vias de uma lógica [[lexico:n:natural|natural]], perfeitamente controlada. Não se deixa arrastar nem pelo acaso, nem pela quimera. Seu itinerário já não é de Deus ao homem mas do homem a Deus, para voltar em seguida ao homem por Deus, o que não deixará de ter as suas consequências. Segue a filiação e não traça a si mesmo limites excessivamente remotos nem concebe desígnios impossíveis. "Em lugar de procurar a [[lexico:c:causa|causa]] final", diz ele, "é preciso ater-se à causa eficiente; do efeito se pode remontar a Deus, mas nunca se deve inquirir com que [[lexico:i:intencao|intenção]] ele o produziu." Revela-se, aqui, mais aristotélico do que platônico. Mas o que permanece um dos [[lexico:c:caracteres|caracteres]] próprios do [[lexico:s:sistema|sistema]] e a sua pedra de tropeço é a cisão entre a realidade [[lexico:i:inteligivel|inteligível]] e a realidade [[lexico:s:sensivel|sensível]], entre a substância pensante e a substância extensa, que desde então nada pôde tornar a unir, nem mesmo o [[lexico:e:esforco|esforço]] engenhoso e genial de [[lexico:l:leibniz|Leibniz]]. É certo que o paralelismo é seguido com todo o rigor e a alma e o corpo, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], continuam tão estreitamente entrosados no curso da [[lexico:v:vida|vida]] terrestre que dão a [[lexico:i:impressao|impressão]] de ser [[lexico:i:impossivel|impossível]] separar uma do outro; não obstante, permanecem radicalmente diversos pela [[lexico:e:especie|espécie]]. Seres de [[lexico:c:carne|carne]], costumamos derivar do sensível a ideia de realidade e não é, em [[lexico:s:suma|suma]], senão por [[lexico:m:meio|meio]] de uma [[lexico:i:imagem|imagem]] que a aplicamos ao inteligível. Com Descartes ocorre o contrário, do mesmo [[lexico:m:modo|modo]] que com Platão. Para eles a realidade principal — entenda-se a realidade de -princípio, a única realidade — é a realidade da ideia, do pensamento, a tal ponto que o mundo sem ela se converte em pura fantasmagoria. Descartes torna a repeti-lo: "Pois pelo entendimento", escreve ele, "eu não afirmo nem nego coisa alguma, mas concebo apenas as ideias das coisas que posso afirmar e negar." Passagem de capital importância: o que o entendimento apreende é com efeito a ideia e não a coisa em si. A existência da coisa, atestada pela observação, garantida por Deus, permitirá evitar um idealismo [[lexico:p:puro|puro]], o idealismo que faz do mundo sensível uma mera [[lexico:i:ilusao|ilusão]]. Mas o fato é que a realidade do espírito será apresentada como primacial e única autêntica e essa justaposição, essa outra [[lexico:o:oposicao|oposição]] do espírito e da [[lexico:m:materia|matéria]] que nada poderá conciliar, vai abrir o pano de boca para um novo ato desse [[lexico:d:drama|drama]] sem desfecho que é o drama da filosofia.