===== MEDIAÇÃO ===== (in. Mediation; fr. Médiation; al. Vermittelung; it. Mediazionè). [[lexico:f:funcao|Função]] que relaciona dois termos ou dois objetos em [[lexico:g:geral|geral]]. Essa função foi identificada: 1) no [[lexico:t:termo|termo]] médio no [[lexico:s:silogismo|silogismo]]; 2) nas provas na [[lexico:d:demonstracao|demonstração]]; 3) na [[lexico:r:reflexao|reflexão]]; 4) nos demônios na [[lexico:r:religiao|religião]]. 1) Segundo [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], o silogismo é determinado pela função mediadora do termo médio, que contém um termo e é contido pelo [[lexico:o:outro|outro]] termo (An. pr., I, 4, 25 b 35) (v. silogismo). 2) Segundo a [[lexico:l:logica|Lógica]] de [[lexico:p:port-royal|Port-Royal]], a mediação é indispensável em qualquer [[lexico:r:raciocinio|raciocínio]]. "Quando apenas a consideração de duas [[lexico:i:ideias|ideias]] [[lexico:n:nao|não]] é suficiente para se julgar se o que se deve fazer é afirmar ou negar uma [[lexico:i:ideia|ideia]] com a outra, é preciso recorrer a uma terceira ideia, [[lexico:s:simples|simples]] ou complexa, e esta terceira ideia chama-se intermediária" (Arnauld, Log., III, 1). [[lexico:l:locke|Locke]] dizia: "As ideias intermediárias, que servem para demonstrar a concordância entre outras duas, são chamadas de provas; quando, com [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:m:meio|meio]], percebe-se com clareza ou [[lexico:e:evidencia|evidência]] a concordância ou discordância, elas são chamadas de demonstração" (Ensaio, IV, 2, 3). No mesmo [[lexico:s:sentido|sentido]] D’Alembert afirmava: "Toda a lógica se reduz a uma [[lexico:r:regra|regra]] muito simples: para confrontar dois ou mais objetos distantes uns dos outros utilizamos objetos intermediários. O mesmo acontece quando queremos confrontar duas ou mais ideias; a [[lexico:a:arte|arte]] do raciocínio [[lexico:n:nada|nada]] mais é que o [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] desse [[lexico:p:principio|princípio]] e as consequências dele resultantes" (OEuvres, ed. [[lexico:c:condorcet|Condorcet]], 1853, p. 224). 3) Segundo [[lexico:h:hegel|Hegel]], a mediação é a reflexão em geral (Werke, ed. Glockner, II, p. 25; IV, p. 553, etc): "Um conteúdo pode [[lexico:s:ser|ser]] conhecido como [[lexico:v:verdade|verdade]] só quando não é mediado por outro, quando não é [[lexico:f:finito|finito]], quando, portanto, medeia-se consigo mesmo, sendo, assim, o [[lexico:t:todo|todo]] em um, mediação e [[lexico:r:relacao|relação]] imediata consigo mesmo." Em outras [[lexico:p:palavras|palavras]], a reflexão exclui não só a imediação, que é a [[lexico:i:intuicao|intuição]] abstrata, o [[lexico:s:saber|saber]] [[lexico:i:imediato|imediato]], mas também a "relação abstrata", a mediação de um [[lexico:c:conceito|conceito]] com um conceito diferente (as provas de Locke), que Hegel considera [[lexico:t:tipica|típica]] (e com [[lexico:r:razao|razão]]) do século do [[lexico:i:iluminismo|Iluminismo]] (Enc., § 74). 4) Na [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]], aos demônios cabia uma função mediadora entre os [[lexico:d:deuses|deuses]] e os homens. O [[lexico:d:demiurgo|demiurgo]] de [[lexico:p:platao|Platão]] encarrega as divindades inferiores ou demônios de [[lexico:c:criar|criar]] as gerações [[lexico:m:mortais|mortais]] e completar a [[lexico:o:obra|obra]] da [[lexico:c:criacao|criação]] (Tim., 41 a-c). [[lexico:p:plotino|Plotino]] diz que os demônios são eternos, em relação a nós, servindo de "intermediários entre os deuses e nossa [[lexico:e:especie|espécie]]" (Enn., III, 5, 6). Mitra era concebido como [[lexico:m:mediador|mediador]], mais precisamente como mediador entre a divindade inatingível das esferas etéreas e o [[lexico:g:genero|gênero]] [[lexico:h:humano|humano]] (Cumont, The Mysteries of Mithra, pp. 127 ss.). Enfim, segundo a doutrina cristã, "somente a Cristo compete ser mediador de [[lexico:m:modo|modo]] simples e [[lexico:p:perfeito|perfeito]]", enquanto [[lexico:a:anjos|anjos]] e sacerdotes são instrumentos de mediação ([[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]], 5. Th., III, q. 26 a 1). Intermediário. — O [[lexico:p:problema|problema]] da mediação foi identificado, a partir de Hegel, ao problema da [[lexico:h:historia|história]] ou da [[lexico:d:dialetica|dialética]]. Essa dialética é para Hegel — que fez a [[lexico:t:teoria|teoria]] do [[lexico:d:devir|devir]] de nosso [[lexico:p:pensamento|pensamento]] — a da intuição que tem o [[lexico:e:espirito|espírito]] de sua [[lexico:a:atividade|atividade]], ou "[[lexico:i:intuicao-intelectual|intuição intelectual]]". Entre o [[lexico:h:homem|homem]] e o [[lexico:m:mundo|mundo]], a mediação é, segundo [[lexico:m:marx|Marx]], o [[lexico:t:trabalho|trabalho]], e apenas uma dialética do trabalho pode [[lexico:e:explicar|explicar]] a [[lexico:n:natureza|natureza]] da [[lexico:a:acao|ação]] humana. A [[lexico:n:nocao|noção]] de mediação toma então o sentido de "devir". (V. dialética). O conceito de mediação foi usado, explícita ou implicitamente, por vários filósofos antigos quando tiveram [[lexico:n:necessidade|necessidade]] de encontrar um modo de relacionar dois [[lexico:e:elementos|elementos]] distintos. Neste sentido, a mediação foi entendida como a atividade própria de um [[lexico:a:agente|agente]] mediador que era, ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]], uma [[lexico:r:realidade|realidade]] intermédio.. A noção de mediação desempenha um papel importante na lógica clássica e especialmente na aristotélica. O [[lexico:c:chamado|chamado]] “termo médio” no silogismo exerce uma função mediadora no raciocínio, porquanto torna [[lexico:p:possivel|possível]] a conclusão a partir da [[lexico:p:premissa|premissa]]. Em geral, a mediação num raciocínio é o que torna possível esse raciocínio; com [[lexico:e:efeito|efeito]], num [[lexico:p:processo|processo]] [[lexico:d:discursivo|discursivo]], quer dedutivo, quer indutivo, são necessários termos ou juízos que medeiem entre o [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida e a conclusão. A ideia de mediação tem importância no pensamento de Hegel, que estabeleceu uma clara [[lexico:d:diferenca|diferença]] entre o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] imediato e o conhecimento [[lexico:m:mediato|mediato]]. Hegel concebe este [[lexico:u:ultimo|último]] [[lexico:t:tipo|tipo]] de conhecimento em relação com a sua ideia da reflexão. Tal como a [[lexico:l:luz|luz]] é reflectida por um espelho e volta à sua [[lexico:f:fonte|fonte]], o pensamento também é reflectido ao ricochete sobre a realidade ou as [[lexico:c:coisas|coisas]] na sua imediato.. Converte-se então em saber mediato ou reflexivo. Neste sentido, o saber mediato é [[lexico:s:superior|superior]] ao mediato. Mas, noutro sentido, o saber mediato é superior ao imediato, embora então a imediatez de que se trata não seja já a das coisas na sua conexão [[lexico:r:racional|racional]] com o todo. Por isso, em Hegel, aquilo a que se pode chamar imediatez superior não é possível sem a mediatez, isto é, sem mediação. A mediação, entendida metafisicamente, resulta de uma ideia da realidade como processo dialéctico racionalmente articulável e explicável.