===== MECANISMO VITAL ===== Esta eliminação do [[lexico:s:sentido|sentido]] e dos fins da [[lexico:v:vida|vida]] se faz pela [[lexico:r:reducao|redução]] de toda [[lexico:r:realidade|realidade]] a supostos fatos e séries de fatos e pela [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] [[lexico:m:mecanica|mecânica]] e puramente fisiológica do [[lexico:t:todo|todo]] vital. A [[lexico:e:explicacao|explicação]] do [[lexico:p:psiquico|psíquico]] pelo fisiológico e a redução da [[lexico:p:psicologia|psicologia]] à [[lexico:f:fisiologia|fisiologia]] é [[lexico:c:caracteristica|característica]] marcante do [[lexico:p:pavlovismo|pavlovismo]]. É certo que o sentido da [[lexico:d:dignidade|dignidade]] da vida em [[lexico:g:geral|geral]] e da vida humana em [[lexico:p:particular|particular]] decaiu na [[lexico:m:medida|medida]] em que prosperaram o [[lexico:d:determinismo|determinismo]] e o [[lexico:m:mecanicismo|mecanicismo]] com sua [[lexico:n:nocao|noção]] do [[lexico:s:ser|ser]] vivo, concebido à [[lexico:i:imagem|imagem]] e [[lexico:s:semelhanca|semelhança]] da [[lexico:m:maquina|máquina]] e quando a fisiologia foi vista como a [[lexico:c:ciencia|ciência]] do funcionamento das engrenagens, das cargas e descargas, das polias e das válvulas do aparelho [[lexico:o:organico|orgânico]]. Tal noção da vida, onde a [[lexico:p:preocupacao|preocupação]] com o funcionamento das partes ocupa o [[lexico:l:lugar|lugar]] conferido outrora às finalidades do funcionamento do todo, está intimamente ligada à degradação da [[lexico:i:ideia|ideia]] de [[lexico:h:homem|homem]]: a [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] das finalidades últimas da vida [[lexico:n:nao|não]] era compatível com a [[lexico:t:transformacao|transformação]] do homem num [[lexico:o:objeto|objeto]] qualquer da [[lexico:n:natureza|natureza]], manipulável pela [[lexico:t:tecnica|técnica]] científica como qualquer [[lexico:o:outro|outro]]. Para que o homem se tornasse objeto das manipulações científicas, era preciso concebê-lo previamente como um [[lexico:a:acidente|acidente]] qualquer da natureza, pura [[lexico:q:quantidade|quantidade]] corporal, [[lexico:m:mecanismo|mecanismo]] [[lexico:c:complexo|complexo]], [[lexico:v:vazio|vazio]] de toda [[lexico:i:interioridade|interioridade]]. [[lexico:p:pavlov|Pavlov]], como representante do "[[lexico:n:naturalismo|naturalismo]]" é apenas o resultado dessa concepção. Pavlov nasceu no século XIX, quando o homem se tornou realmente o "homo oeconomicus" e foi claramente concebido como [[lexico:i:instrumento|instrumento]] da produção; era pois inevitável que uma ciência como a [[lexico:r:reflexologia|reflexologia]] lançasse as bases de uma nova mecânica do [[lexico:c:comportamento|comportamento]]. Dizemos mecânica do comportamento. Há discípulos de Pavlov que pretendem não ser o pavlovismo uma interpretação mecânica do [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] vital. Repelem como inadequadas as expressões [[lexico:m:mecanico|mecânico]] e mecanismo; negam por [[lexico:e:exemplo|exemplo]] que o [[lexico:s:sistema|sistema]] nervoso seja um mecanismo; negam a [[lexico:l:localizacao|localização]] mecânica da [[lexico:s:sensacao|sensação]] dolorosa; mas negam apenas verbalmente, porque na realidade quando explicam tais fenômenos não conseguem ultrapassar o mecanicismo; veja-se por exemplo o [[lexico:n:numero|número]] da revista La Raison, dedicado ao pavlovismo pelos seus discípulos franceses; na pág. 4 nega-se que o sistema nervoso seja mecanismo; mas em seguida o sistema nervoso é explicado de maneira visivelmente mecânica. Nega-se que o [[lexico:r:reflexo|reflexo]] seja um mecanismo; mas, por toda [[lexico:p:parte|parte]] e particularmente nas págs. 29, 34, 39, 132, 136, 206 e 215, o reflexo aparece claramente como [[lexico:f:funcao|função]] mecânica; negam que a [[lexico:m:memoria|memória]] seja mecânica; mas dão da memória explicações acintosamente mecânicas, cujo [[lexico:m:modelo|modelo]] é o que se encontra à pág. 107 da mesma publicação. São exemplos que se poderiam multiplicar indefinidamente percorrendo a [[lexico:o:obra|obra]] de Pavlov (como, por ex.: Lectures on Conditioned Reflexes, de I. P. Pavlov, trad. inglesa, International Publishers, N. York, 2 vols.) e os inúmeros livros de seus discípulos. O [[lexico:f:fato|fato]] é que o pavlovismo confunde a sensação com a excitação, reduz todo psíquico ao [[lexico:f:fisico|físico]], usa a [[lexico:l:linguagem|linguagem]] do "[[lexico:r:receptor|receptor]] especializado", da "estimulação direta", do "[[lexico:c:canal|canal]] condutor", etc. Não é privilégio do pavlovismo [[lexico:p:pensar|pensar]] que procura inutilmente uma linguagem científica que não incorra na mecanização do vital; segundo [[lexico:b:bergson|Bergson]], toda explicação científica é necessariamente mecânica e o pavlovismo não difere de outras teorias quando confunde o [[lexico:m:movimento|movimento]] com a mobilidade, quando se vê incapaz de [[lexico:a:apreender|apreender]] o [[lexico:t:tempo|tempo]] sob outra [[lexico:f:forma|forma]] que não seja a de um [[lexico:e:espaco|espaço]] de tempo; quando em [[lexico:s:suma|suma]] considera o [[lexico:o:organismo|organismo]] e a vida, o tempo e o espaço como puras quantidades. Segundo [[lexico:m:meyerson|Meyerson]], a ciência não pode [[lexico:e:explicar|explicar]] [[lexico:n:nada|nada]], porque não capta o heterogêneo, não sabe o que a realidade é, desde que só consegue explicar o mesmo pelo mesmo, o [[lexico:i:identico|idêntico]] pelo idêntico, não explicando cousa alguma. Não se julgue porém que o pavlovismo interprete mecanicamente a vida por deficiência de linguagem, por não encontrar [[lexico:p:palavras|palavras]] que traduzam o [[lexico:i:inefavel|inefável]] do fluxo vital. Ao contrário, o pavlovismo não vê nada de inefável no fluxo vital e tem uma linguagem perfeitamente adequada ao que quer dizer; não é por [[lexico:f:falta|falta]] de palavras, mas por natureza, que o pavlovismo interpreta mecanicamente a vida em linguagem científica; o pavlovismo, por sua natureza, não pode dar da vida outra explicação que não seja a mecânica; sua linguagem não poderia ser outra senão a que é; por isso, há uma [[lexico:c:contradicao|contradição]] nos discípulos de Pavlov que negam a mecanicidade do reflexo ou da [[lexico:e:evolucao|evolução]] e depois explicam mecanicamente a evolução e o reflexo; esta contradição porém não se encontra no [[lexico:p:proprio|próprio]] Pavlov, que é declaradamente mecanicista. O pavlovismo se sente tão [[lexico:b:bem|Bem]] no [[lexico:r:reino|reino]] das palavras, que pensa que as palavras são o reino da [[lexico:c:cultura|cultura]], e se dissermos, por exemplo, que as palavras em si não são nada, que apenas exprimem e revestem outras realidades metafísicas e culturais mais fundas que elas, os pavlovistas não desconfiarão de nada. Uma [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] cultural das palavras, ou a ideia de um [[lexico:e:espirito|espírito]] [[lexico:o:objetivo|objetivo]], qual foi concebido por Nikolai [[lexico:h:hartmann|Hartmann]], apareceria aos pavlovistas como algo completamente estranho, anti-científico e inteiramente fora de propósito. Porque há no pavlovismo certa inocência retardatária, que lembra o [[lexico:e:entusiasmo|entusiasmo]] do século XVIII, quando descobriu a imagem do homme-machine e se admirou de que nunca antes tivesse ocorrido a ninguém uma [[lexico:d:descoberta|descoberta]] tão elementar.