===== MATERIALISMO HISTÓRICO ===== (in. Historical materialism; fr. Matérialisme historique; al. Historischer Materialismus; it. [[lexico:m:materialismo|materialismo]] storico). Com este [[lexico:n:nome|nome]] [[lexico:e:engels|Engels]] designou o [[lexico:c:canon|cânon]] de [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] histórica proposta por [[lexico:m:marx|Marx]], mais precisamente o que consiste em atribuir aos fatores econômicos (técnicas de [[lexico:t:trabalho|trabalho]] e de produção, [[lexico:r:relacoes|relações]] de trabalho e de produção) [[lexico:p:peso|peso]] preponderante na [[lexico:d:determinacao|determinação]] dos acontecimentos históricos. O [[lexico:p:pressuposto|pressuposto]] desse cânon é o [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista antropológico defendido por Marx, segundo o qual a [[lexico:p:personalidade|personalidade]] humana é constituída intrinsecamente (em sua própria [[lexico:n:natureza|natureza]]) por relações de trabalho e de produção de que o [[lexico:h:homem|homem]] participa para prover às suas necessidades. A "[[lexico:c:consciencia|consciência]]" do homem (suas crenças religiosas, morais, políticas, etc.) é resultado dessas relações, e [[lexico:n:nao|não]] seu pressuposto. [[lexico:e:esse|esse]] ponto de vista foi defendido por Marx sobretudo na [[lexico:o:obra|obra]] [[lexico:i:ideologia|ideologia]] alemã (Deutsche Ideologie, 1845-46). Em vista disso, a [[lexico:t:tese|tese]] do [[lexico:m:materialismo-historico|materialismo histórico]] é de que as formas assumidas pela [[lexico:s:sociedade|sociedade]] ao longo de sua [[lexico:h:historia|história]] dependem das relações econômicas predominantes em certas fases dela. Marx diz: "Em sua [[lexico:v:vida|vida]] produtiva em sociedade, os homens participam de determinadas relações necessárias e independentes de sua [[lexico:v:vontade|vontade]]: relações de produção que correspondem a certa fase de [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] de suas forças produtivas materiais. Esse conjunto de relações de produção constitui a [[lexico:e:estrutura|estrutura]] [[lexico:e:economica|econômica]] da sociedade, que é a base [[lexico:r:real|real]] sobre a qual se erige uma [[lexico:s:superestrutura|superestrutura]] jurídica e [[lexico:p:politica|política]] e à qual correspondem determinadas formas sociais de consciência. (...) Portanto, o [[lexico:m:modo-de-producao|modo de produção]] da vida material em [[lexico:g:geral|geral]] condiciona o [[lexico:p:processo|processo]] da vida [[lexico:s:social|social]], política e espiritual" (Zur Kritik derpolitischen Ökonomie, 1859, Pref.; trad. it., p. 17). Marx elaborou essa [[lexico:t:teoria|teoria]] sobretudo em [[lexico:o:oposicao|oposição]] ao ponto de vista de [[lexico:h:hegel|Hegel]], para [[lexico:q:quem|quem]] é a consciência que determina o [[lexico:s:ser|ser]] social do homem; para Marx, pelo contrário, é o ser social do homem que determina a sua consciência. Contudo, não se deve achar que Marx fosse partidário [[lexico:f:fatalismo|fatalismo]] econômico, segundo o qual as condições econômicas necessariamente levariam o homem a determinadas formas de vida social. Nessas relações econômicas, que dependem de técnicas de trabalho, produção, troca, etc, o homem é [[lexico:e:elemento|elemento]] ativo e condicionante. Portanto, a condicionalidade que a estrutura econômica exerce sobre as superestruturas sociais é — pelo menos em [[lexico:p:parte|parte]] — uma auto-condicionalidade do homem em [[lexico:r:relacao|relação]] a si [[lexico:p:proprio|próprio]] (Deutsche Ideologie, I, C.; trad. it., pp. 69 ss.). Engels falou em seguida da "inversão da práxis histórica", ou seja, de uma [[lexico:r:reacao|reação]] de oposição da consciência humana à [[lexico:a:acao|ação]] das condições materiais sobre ela. Mas do ponto de vista de Marx essa inversão não é necessária, visto não ser a superestrutura que reage à estrutura, mas o homem que, intervindo com suas técnicas para mudar ou para melhorar a estrutura econômica, se autocondiciona por [[lexico:m:meio|meio]] dela. O materialismo [[lexico:h:historico|histórico]] chamou a [[lexico:a:atencao|atenção]] dos historiadores para um cânon interpretativo ao qual muitas vezes é indispensável recorrer para [[lexico:e:explicar|explicar]] acontecimentos e instituições histórico-sociais. A ele de [[lexico:f:fato|fato]] recorrem, em maior ou menor [[lexico:g:grau|grau]], historiadores de todos os campos de [[lexico:a:atividade|atividade]] humana, porquanto algumas vezes o [[lexico:c:caminho|caminho]] [[lexico:a:aberto|aberto]] por esse [[lexico:t:tipo|tipo]] de [[lexico:e:explicacao|explicação]] histórica é o [[lexico:u:unico|único]] [[lexico:p:possivel|possível]]. No entanto, nem sempre é o único possível. Hoje a [[lexico:t:tendencia|tendência]] é interpretar o materialismo histórico como uma [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] explicativa, à qual se recorre em circunstâncias apropriadas, e não como um [[lexico:p:principio|princípio]] dogmático (sobretudo na [[lexico:f:forma|forma]] proposta por Engels). Em outras [[lexico:p:palavras|palavras]], afirmar que acontecimentos ou situações histórico-sociais sempre devem ser explicados pelo [[lexico:d:determinismo|determinismo]] dos fatores econômicos é tese tão dogmática quanto qualquer outra que quisesse excluir absolutamente e em todos os casos o determinismo de tais fatores. O historiador, diante de uma [[lexico:s:situacao|situação]], deve verificar o peso [[lexico:r:relativo|relativo]] dos fatores determinantes, estabelecendo-o caso a caso, considerando as situações particulares, e não decidindo de antemão e em definitivo. Isento dessa postura dogmática, o materialismo histórico representa, para a [[lexico:t:tecnica|técnica]] de explicação historiográfica, uma das possibilidades mais fecundas e um novo grau de [[lexico:l:liberdade|liberdade]] à [[lexico:e:escolha|escolha]] historiográfica (v. [[lexico:h:historiografia|historiografia]]).