===== MARGINALIZADO ===== Há tipos de heroicidade de que a epopeia desdenhou. De nenhum poema épico consta a heroica [[lexico:r:renuncia:start|renúncia]] ao [[lexico:m:mundo:start|mundo]] das «[[lexico:c:coisas:start|coisas]]». Isso [[lexico:n:nao:start|não]] se encontra senão na [[lexico:v:vida:start|vida]] dos Santos, como Francisco de Assis. Que é da epopeia dos marginalizados, dos que se puseram à obscura margem do [[lexico:c:caminho:start|caminho]] em que vive a maioria das gentes, nele progredindo até as alturas do renome [[lexico:u:universal:start|universal]], ou regredindo até a fossa «imunda» de uma completa [[lexico:a:absorcao:start|absorção]] pelo sem [[lexico:n:nome:start|nome]]? O marginalizado só pode [[lexico:v:viver:start|viver]] no anonimato. E, no entanto, só [[lexico:e:esse:start|esse]], ou alguns desses, possuem os pré-requisitos para atingir o [[lexico:g:grau:start|grau]] heroico a que acederíam se do não querer seguir o caminho que os outros percorrem por [[lexico:v:vontade:start|vontade]] indômita ou mera [[lexico:o:obediencia:start|obediência]] à rotina, fizeram um crer, em [[lexico:r:regime:start|regime]] de total [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] de crer ou não crer no que os outros nem creem, por serem completamente destituídos do que possa chamar-se de liberdade. No limite-liminar da [[lexico:o:objetividade:start|objetividade]] coisística é que o marginalizado se decide ou não. Decide-se? Então seus passos desenham, às margens de uma voie royale, veredas que começam a sulcar o grande sertão, [[lexico:d:direito:start|direito]] ao rio da terceira margem. E terceira é a margem do [[lexico:t:trans-objetivo:start|trans-objetivo]]. Na [[lexico:r:religiao:start|religião]] e na [[lexico:a:arte:start|arte]] ou pela religião e a arte, o marginalizado — aquele que a «pessoa-sujeito» do Mundo dos objetos-coisa expulsou de sua [[lexico:c:comunidade:start|comunidade]] por não-colaboração, por [[lexico:f:falta:start|falta]] de representatividade no [[lexico:d:drama:start|drama]] [[lexico:d:diabolico:start|diabólico]] da fragmentação objetivante e coisífica — pode aceder a qualquer mundo trans-objetivo, precisamente àqueles em que se representam os primeiros dramas de transcendentização do [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]]. [EudoroMito:125-126] 76. Ai dos que se desinteressam pela competição! Ai do que não queira fazer mais do que o [[lexico:o:outro:start|outro]] faz! Começará por fazer um pouco menos, e quando dá [[lexico:p:por-si:start|por si]], [[lexico:n:nada:start|nada]] fazendo, está irremediavelmente marginalizado. Marginalizados, porém, há-os de várias espécies. Dos de uma, todos sofrem os efeitos da marginalização; até os das outras espécies de marginalização. São os que se vingam, mediante o crime, do fracasso por própria inépcia. Só merecem a consideração que seres humanos merecem, pois deixaram de competir no [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]], para competir no [[lexico:j:jogo:start|jogo]] que passam a [[lexico:j:jogar:start|jogar]] com os agentes sociais da [[lexico:r:repressao:start|repressão]] e, por isso, merecem os forçados trabalhos a que os condenaram. A [[lexico:p:preguica:start|preguiça]] também marginaliza; mas a preguiça é equívoca: pode [[lexico:s:ser:start|ser]] apenas a [[lexico:r:recusa:start|recusa]] de um trabalho que se trabalha a contragosto, sem que se saiba se ela se manteria em trabalho que se trabalhasse por [[lexico:g:gosto:start|gosto]]. Também há (e quantos!) os marginalizados pela miséria dos que trabalham sem a remuneração mínima para a mais miserável das sobrevivências. Mas como esses trabalham ou trabalharam em circunstâncias e oportunidades que lhes foram dadas, pouco ou nada interessam a seus semelhantes, a não ser como «objetos» de comiseração, que é luxo a que se dá, por vezes, o [[lexico:h:homem:start|homem]] da objetividade, quando nada tem que fazer: ou então servem de pretexto para que outros trabalhem no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] de substituir um [[lexico:s:sistema:start|sistema]] por outro sistema de trabalho, que talvez acabe, de uma vez, com a [[lexico:e:especie:start|espécie]] de marginalizados que mais nos interessa considerar [[lexico:a:agora:start|agora]]: os que a si mesmos se marginalizaram por descrença nas benesses de qualquer [[lexico:g:genero:start|gênero]] de trabalho. Escusaríamos de repetir, se a [[lexico:m:memoria:start|memória]] não fosse fraca, que «trabalho», aqui, apenas significa [[lexico:e:esforco:start|esforço]] exercido só pela [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] de [[lexico:s:sobrevivencia:start|sobrevivência]], o que se faz para comer o pão amassado pelo suor do [[lexico:p:proprio:start|próprio]] rosto. Levo muito a sério a maldição bíblica por [[lexico:d:deus:start|Deus]] lançada sobre o homem que vendeu sua [[lexico:a:alma:start|alma]] ao [[lexico:d:diabo:start|diabo]], sobre aquele que os [[lexico:a:anjos:start|anjos]], empunhando espadas de [[lexico:f:fogo:start|fogo]], impedem o [[lexico:r:regresso:start|regresso]] ao Paraíso. Esses têm de inventar outro, de sua lavra. Que lhes preste! Não o quero para mim, ao preço que por ele me exigem. Prefiro a marginalização em que me marginalizei, para, seguindo pela margem e à margem do caminho dos outros, chegar à [[lexico:t:trans-objetividade:start|trans-objetividade]] dos ociosos que o devem ser, e não dos que o podem ser, só nos instantes em que o podem, mas não querem. [EudoroMito:164-165] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}