===== MALEFICÊNCIA ===== 17. Então, se é assim e assim produz inexoravelmente, produzirá [[lexico:c:coisas|coisas]] tanto mais contrárias, quanto mais as dispersar; e o cosmos [[lexico:s:sensivel|sensível]] será menos [[lexico:u:uno|uno]] do que a [[lexico:r:razao|razão]] do cosmos, de [[lexico:m:modo|modo]] que também será mais [[lexico:m:multiplo|múltiplo]], e sua [[lexico:c:contrariedade|contrariedade]] será maior, e maior será o [[lexico:d:desejo|desejo]] de [[lexico:v:viver|viver]] de cada [[lexico:s:ser|ser]] e maior será o [[lexico:a:amor|amor]] pela [[lexico:p:propensao|propensão]] à [[lexico:u:unidade|unidade]]. Mas mesmos os amantes amiúde destroem seus amados, quando são destrutíveis, ao buscarem seu [[lexico:p:proprio|próprio]] [[lexico:b:bem|Bem]], e o desejo da [[lexico:p:parte|parte]] pelo [[lexico:t:todo|todo]] atrai a ela o que pode. Assim, pois, tanto os bons quanto os maus são como antagonistas que o dançarino representa através da mesma [[lexico:a:arte|arte]]; e diremos que um deles é [[lexico:b:bom|Bom]] e o [[lexico:o:outro|outro]] mau, e assim a dança é bela. Entretanto, já nem existem maus. Ou melhor, [[lexico:n:nao|não]] se negará que os maus existam, mas apenas que não são maus [[lexico:p:por-si|por si]] mesmos. Mas talvez haja uma clemência para os maus, a menos que a razão determine que haja ou não uma clemência; e que determine que sequer sejamos clementes para com tais pessoas. Mas, se uma parte da razão é um [[lexico:h:homem|homem]] bom e outra um vil, e são mais as partes que são o homem vil, assim como nos dramas há certas coisas que o autor ordena aos atores e outras que emprega porque já existem; pois não é ele [[lexico:q:quem|quem]] faz a um ator [[lexico:p:protagonista|protagonista]], a outro coadjuvante e a outro figurante, mas, atribuindo a cada um as falas que lhes cabem, já coloca cada um no [[lexico:l:lugar|lugar]] em que deve [[lexico:e:estar|estar]]; do mesmo modo, há também um lugar [[lexico:a:apropriado|apropriado]] para cada homem, um para o bom, outro para o mau. Cada um, então, de [[lexico:a:acordo|acordo]] com a [[lexico:n:natureza|natureza]] e de acordo com a razão, avança para seu respectivo lugar, ocupando aquele que escolheu. Em seguida, um profere [[lexico:p:palavras|palavras]] ímpias e comete atos vis, enquanto o outro faz o contrário; pois, antes do [[lexico:d:drama|drama]], existiam esses atores que se oferecem à peça. Ora, nos dramas humanos, o autor distribui as falas, mas os atores têm, cada um deles, por si e a partir de si mesmos, sua boa ou má atuação – pois sua [[lexico:f:funcao|função]] é maior do que ler os versos do [[lexico:p:poeta|poeta]]; no entanto, no poema mais [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]], que os homens possuidores de natureza poética imitam parcialmente, é a [[lexico:a:alma|alma]] quem representa, recebendo do poeta os papéis que representa, e assim como os atores daqui recebem as máscaras, os figurinos, as túnicas açafroadas e os andrajos, da mesma [[lexico:f:forma|forma]] a própria alma não recebe suas sortes a esmo: estas também são conformes à razão; e ajustando-as a si, torna-se consoante e coordena a si mesma com o drama e com a razão [[lexico:u:universal|universal]]; então ela canta, por assim dizer, suas [[lexico:a:acoes|ações]] e todas as demais coisas que uma alma pode fazer segundo seu modo de ser, [[lexico:c:como-se|como se]] fosse uma ode. E como a [[lexico:b:beleza|beleza]] ou a fealdade da [[lexico:v:voz|voz]] e da [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] dependem do ator, que ou adiciona um floreio ao poema, como parece, ou, se o que adiciona é a má [[lexico:q:qualidade|qualidade]] de sua voz, não torna o drama diferente daquilo que era, mas revela que o ator mesmo é inadequado, o autor do drama o despede, merecidamente desqualificando-o e fazendo neste caso as vezes de um bom juiz, e a um ator leva a honras mais altas e, se os tem, a dramas mais belos, ao passo que a outro escala em dramas inferiores, se os tem, desse modo também é a alma: introduzindo-se neste poema universal e tornando-se parte do drama, como ela contribui por sua parte com uma boa ou má atuação e, em sua estreia, é coordenada ao [[lexico:g:grupo|grupo]] e recebe todas as outras coisas, exceto ela mesma e seus próprios atos, ela é punida ou reconhecida. Mas há alguma [[lexico:v:vantagem|vantagem]] para esses atores porque atuam em um lugar mais amplo do que a [[lexico:d:dimensao|dimensão]] da cena, porque o poeta lhes faz responsáveis pelo [[lexico:u:universo|universo]], e porque possuem um poder maior para ir até múltiplas espécies de lugar – pois são eles que determinam suas honras e desonras pelo [[lexico:f:fato|fato]] de serem eles mesmo que contribuem com as honras e as desonras, porque cada lugar se ajusta a seus caráteres de modo a consoar com a razão do universo, e cada um se ajusta de acordo com a [[lexico:j:justica|justiça]] às partes que o receberão, assim como cada corda da lira é posta no lugar que lhe é apropriado e conveniente de acordo com a razão sonora que ela pode soar. Pois haverá [[lexico:a:adequacao|adequação]] e beleza no universo se cada um estiver no lugar onde deve ser posto, e se emitem sons ruins, que seja posto na escuridão e no Tártaro: pois aqui é [[lexico:b:belo|belo]] o que soa [[lexico:m:mal|mal]]; e este universo será belo, não se cada um for um Lino 1. 38) e [[lexico:s:socrates|Sócrates]], o homem (cf. n. 5 2.17 e V. 1 4.20, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]]], mas se, trazendo cada um sua própria voz, contribuir para a [[lexico:h:harmonia|harmonia]] una fazendo soar também ele sua própria [[lexico:v:vida|vida]], que no entanto é menor, pior e mais imperfeita: assim como na sirinx não há um [[lexico:u:unico|único]] som, mas há também algum que, embora seja mais fraco e [[lexico:i:indefinido|indefinido]], contribui para a harmonia total da sirinx, pois a harmonia está dividida em partes não iguais, e os sons são todos desiguais, mas o som [[lexico:p:perfeito|perfeito]] é um som uno [[lexico:c:composto|composto]] por todos. E também a razão total é uma só, mas se divide em partes não iguais; por isso as regiões do universo são diferentes, melhores ou piores, e almas não iguais se ajustam assim a regiões não iguais, e assim acontece que também aqui, como as regiões são dessemelhantes e as almas não são as mesmas, mas são desiguais e ocupam regiões dessemelhantes – como a [[lexico:d:dessemelhanca|dessemelhança]] presente na sirinx ou em algum outro [[lexico:i:instrumento|instrumento]] – também as almas estão em regiões que diferem entre si, soando de acordo com a [[lexico:r:regiao|região]] que habitam seus próprios sons de modo consoante tanto com as regiões quanto com o universo. E o som que nelas está mal há de ser belo em [[lexico:r:relacao|relação]] ao universo, e [[lexico:o:o-que-e|o que é]] contra a natureza será conforme à natureza para o universo, sem deixar de ser um som inferior. Entretanto, soando dessa maneira, a alma não toma o universo pior, assim como um carrasco, mesmo sendo perverso, não toma pior uma [[lexico:c:cidade|cidade]] bem governada — sé é preciso empregar ainda outra comparação. Pois também isso é [[lexico:n:necessario|necessário]] em uma cidade – e muitas vezes um homem assim é necessário e também [[lexico:e:esse|esse]] está disposto de modo belo. [Plotino, Enéada III, 2, 17]