===== LYPE ===== λύπη, [[lexico:s:sofrimento|sofrimento]], [[lexico:d:depressao|depressão]], [[lexico:t:tristeza|tristeza]] Quando a [[lexico:r:ruptura|ruptura]] da [[lexico:h:harmonia|harmonia]] decorrente da [[lexico:u:uniao|união]] entre o limitado e o [[lexico:i:ilimitado|ilimitado]] assim como a dissociação dos [[lexico:e:elementos|elementos]] compondo o [[lexico:o:organismo|organismo]] se produzem, a [[lexico:d:dor|dor]] surge; do [[lexico:m:momento|momento]] que uma ou outra se recompõem e se restauram, o [[lexico:p:prazer|prazer]] aparece, o que corresponde à retomada do [[lexico:m:modelo|modelo]] médico e a sua aplicação a um [[lexico:d:dado|dado]] da [[lexico:e:experiencia|experiência]]. O [[lexico:a:acontecimento|acontecimento]] do sofrimento (λύπη) e os modos como nos podemos comportar relativamente à [[lexico:s:situacao|situação]] que cria: o [[lexico:p:patologico|patológico]] (μίμησις ) e o que procura pelo [[lexico:s:sentido|sentido]] (λόγος ) dessa situação (πρᾶξις ). Para percebermos a [[lexico:d:diferenca|diferença]] radical que há entre o [[lexico:m:modo|modo]] como um acontecimento se processa na [[lexico:v:vida|vida]] e o modo como [[lexico:e:esse|esse]] acontecimento é «visto» pela [[lexico:r:reproducao|reprodução]] imitadora (μίμησις), consideremos primeiramente uma situação que nos afecte, deprimindo-nos. Quando passamos por uma situação que é qualificada como sendo deprimente (λύπη), produz-se uma dependência do [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]] da vida desse [[lexico:p:pathos|pathos]] (πάθος) presente. Deixamo-nos arrastar e dominar pela situação criada. Ficamos sem qualquer distanciamento ou domínio sobre ela, como que mergulhados na mais profunda das depressões, sem poder emergir de novo à tona da vida. Ao gerar-se um [[lexico:e:estado|Estado]] de aflição [Rep., 603c3] dá-se o impedimento à [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de resolver de um modo deliberado a situação em que nos encontramos [Rep., 603c5]. O [[lexico:c:comportamento|comportamento]] que sucumbe à depressão (λύπη) faz que sejamos levados constantemente «para as lembranças que nos recordam o que nos afetou e para lamentações» [Rep., 604d8] que, por mais intensas e repetidas que sejam, são sempre poucas [Rep., 603d9]. A depressão que nos assola aloja-se na [[lexico:e:existencia|existência]], infectando-a em todas as dimensões temporais e espaciais pelas quais ela se propaga. Os outros, o [[lexico:m:mundo|mundo]], o [[lexico:t:tempo|tempo]] passado e o [[lexico:f:futuro|futuro]], o [[lexico:e:espaco|espaço]] em que somos e aquele em que [[lexico:n:nao|não]] habitamos, tudo é mergulhado nesse estado presente que tudo afeta. Este comportamento relativamente à depressão (λύπη), um comportamento que enraíza na [[lexico:n:natureza-humana|natureza humana]], pode, no entanto, [[lexico:s:ser|ser]] visto como «não tendo sentido e ser resultante de uma [[lexico:f:forma|forma]] de inatividade com a [[lexico:t:tendencia|tendência]] para a [[lexico:f:falta|falta]] de perseverança inconstante» [[lexico:p:preguica|Ibid. Um pouco mais acima, ο λογιστικός tinha sido apresentado como um ἔργον na [[lexico:l:lucidez|lucidez]] (Rep., 602e1). [[lexico:a:agora|agora]], o não dar sentido (ἄλογον ) corresponde a uma «[preguiça]]», a uma forma de «inação», a uma tendência para a paralisia e, portanto, para a covardia. Não se vê para e por onde ir.]. Fica-se de tal forma tolhido que não se consegue «ir em frente» [Rep., 604b 11] para um futuro que permanece aparentemente paralisado pelo presente. Quando nos encontramos em situações adversas [Rep., 604b10] que nos afligem e que suportamos com dificuldade [Rep., 604b12], ficamos no adiamento aparentemente [[lexico:e:eterno|eterno]] de uma nova [[lexico:q:qualidade|qualidade]] do [[lexico:i:instante|instante]] que nos rasgue um novo e melhor futuro sem aflição, aflição que não nos permite nenhuma [[lexico:e:especie|espécie]] de abertura para deliberarmos acerca do que se constitui. Não se acha sentido para o que nos está a acontecer, nem se encontra nenhuma [[lexico:o:orientacao|orientação]] que nos permita esboçar uma [[lexico:r:reacao|reação]], qualquer que ela seja. Neste estado de [[lexico:c:coisas|coisas]] ficamos sem uma dilucidação do que está a acontecer, ou do que aconteceu [Rep., 604c5. Platão estabelece uma comparação entre esta situação adversa e o jogo de dados. Quando os dados caem, não podemos desfazer o sucedido. A perturbação causada pela má sorte pode impedir-nos de encontrar uma saída que a supere. Ou seja, importa não ficar afetado pelo resultado da jogada, porquanto é inanulável, como também esse estado de perturbação nos impede de ver o que sucederá na próxima jogada (Rep., 604c).]. É a partir da tematização de esta forma de [[lexico:a:afetacao|afetação]] nos acontecer, em [[lexico:c:contraposicao|contraposição]] ao modo como por [[lexico:n:natureza|natureza]] nos comportamos relativamente a ela , que se levanta a [[lexico:h:hipotese|hipótese]] de haver uma possibilidade de «reação» a toda e qualquer forma de afetação patológica em [[lexico:g:geral|geral]], e, neste caso especial, a toda e qualquer forma de sofrimento. A tematização do sofrimento constitui uma forma de olhar que não se encontra no estado patológico. É já uma reação que procura oferecer resistência à situação aflitiva em que nos encontramos, para que não nos deixemos sucumbir ao sofrimento que nos tolhe. O [[lexico:t:ter|ter]] em vista o pathos (πάθος) não implica necessariamente uma [[lexico:a:alteracao|alteração]] do [[lexico:a:aspecto|aspecto]] [[lexico:e:essencial|essencial]] do sofrimento (είδος λύπη ) ou afetação (πάθος), mas altera, de [[lexico:t:todo|todo]] em todo, o modo com se dá o contacto entre esses acontecimentos e a nossa vida. O ter em vista teoricamente a afetação (πάθος) é uma forma de anular o [[lexico:e:efeito|efeito]] que ele surte espontaneamente sobre nós e abre uma possibilidade à [[lexico:t:transformacao|transformação]] do modo como o acolhemos. [CaeiroArete:87-88] A «adversidade» (συμφορά ), o «luto» (πένθος ), o «lamento» (ὀδυρμός ), a «[[lexico:c:compaixao|compaixão]]» (ἔλεος ), a «vergonha» (αἰδώς ), manifestam-se como matizes da forma fenomênica caracterizada pelo sofrimento (λύπη). Enquanto fenômenos patológicos, afetam-nos de uma forma completamente ambígua, distanciados da [[lexico:v:verdade|verdade]] em que se dão, sem que os possamos desocultar ou [[lexico:p:por|pôr]] a descoberto na sua eficácia. Podem, por isso, ser distorcidos e pervertidos pela [[lexico:p:perspectiva|perspectiva]] que abrem sobre eles, oferecendo-se a interpretações contraditórias. [CaeiroArete:96-97]