===== LIBERDADE E DETERMINISMO ===== Desprezando o [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]] comum favorável à [[lexico:e:existencia:start|existência]] do [[lexico:l:livre-arbitrio:start|livre arbítrio]], muitos sistemas desde a [[lexico:a:antiguidade:start|antiguidade]] atribuíram ao [[lexico:a:ato-humano:start|ato humano]], sob uma [[lexico:f:forma:start|forma]] ou outra, a [[lexico:f:fatalidade:start|fatalidade]] ou o [[lexico:d:determinismo:start|determinismo]]. Encontram-se estas teorias diferentemente fundamentadas. Para uns, o [[lexico:h:homem:start|homem]] [[lexico:n:nao:start|não]] é livre porque submetido ao [[lexico:d:destino:start|destino]], ou porque [[lexico:n:nada:start|nada]] mais é que uma engrenagem de um [[lexico:t:todo:start|todo]] cujo [[lexico:m:movimento:start|movimento]] é, em [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]], [[lexico:n:necessario:start|necessário]]. De um [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista teológico, afirmar-se-ia que a [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] é contrária à [[lexico:p:presciencia:start|presciência]] ou à [[lexico:p:predestinacao:start|predestinação]] divina. Para outros, a liberdade, se existe, seria diretamente contrária ao [[lexico:p:principio-de-causalidade:start|princípio de causalidade]], ou ao [[lexico:p:principio:start|princípio]] de conservação de [[lexico:e:energia:start|energia]], ou então negaria a [[lexico:r:regularidade:start|regularidade]] das leis da [[lexico:n:natureza:start|natureza]]: do ponto de vista da [[lexico:c:ciencia:start|ciência]], impor-se-ia manifestamente um determinismo sem falhas. Não devemos considerar aqui certas concepções que se originam propriamente de uma [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] [[lexico:g:geral:start|geral]] e que só encontram respostas adequadas em [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]]. Interessa-nos aqui uma só forma de determinismo, a que está em [[lexico:r:relacao:start|relação]] mais imediata com a [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]]. Seu exame terá a [[lexico:v:vantagem:start|vantagem]] de valorizar, de maneira nova, a doutrina acima elaborada. O determinismo [[lexico:p:psicologico:start|psicológico]]. Esta doutrina parece [[lexico:t:ter:start|ter]] tido sua [[lexico:e:expressao:start|expressão]] mais acabada em [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]]. este tomou seu ponto de partida na [[lexico:c:critica:start|crítica]] da [[lexico:l:liberdade-de-indiferenca:start|liberdade de indiferença]]. Louvada, ao que parece, por [[lexico:d:descartes:start|Descartes]], esta [[lexico:t:teoria:start|teoria]] consiste em reconduzir a liberdade à indiferença com relação aos diversos [[lexico:m:motivos:start|motivos]] que solicitam a [[lexico:e:escolha:start|escolha]], ou ao [[lexico:e:estado:start|Estado]] de equilíbrio [[lexico:p:perfeito:start|perfeito]] onde se encontra a [[lexico:v:vontade:start|vontade]] com relação aos motivos. Sob o [[lexico:e:efeito:start|efeito]] de uma iniciativa absolutamente pura, esta [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] faria sua escolha e isto seria o [[lexico:a:ato:start|ato]] livre. Leibniz não escondeu que esta assim chamada indiferença face aos diversos motivos do querer era tão-somente uma [[lexico:i:ilusao:start|ilusão]]. Minha vontade, em [[lexico:r:realidade:start|realidade]], é solicitada diferentemente pelos diversos motivos: uns são mais fortes que outros. Definitivamente será o [[lexico:m:motivo:start|motivo]] mais forte que a arrastará. E isto tanto com relação à nossa vontade, como também em relação à vontade divina que só pode querer o melhor. Todavia, merece sempre o qualificativo de livre. Não nos pertence discutir, detalhadamente, esta engenhosa teoria. Oportuno é dizer aqui que, apesar de suas intenções, parece não escapar ao determinismo: é necessariamente o motivo mais forte que se imporá. O [[lexico:p:proprio:start|próprio]] [[lexico:m:mundo:start|mundo]] será o melhor [[lexico:p:possivel:start|possível]]: as possibilidades de outra escolha ou de outros [[lexico:m:mundos:start|mundos]] são assim completamente teóricas. Contra tais alegações é preciso manter, com [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]], que se nossa vontade não se determina sem motivo, não é necessariamente determinada por um motivo que seria o mais forte, surgindo este, aliás, como uma [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]] gratuita. Em nossa psicologia concreta, há, por [[lexico:d:deliberacao:start|deliberação]] preliminar, o exame de diversos motivos de escolha que nos solicitam. Depois, o [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] para em um deles e se decide: a [[lexico:d:decisao:start|decisão]] assim tomada depende [[lexico:b:bem:start|Bem]] do motivo que a fundamenta realmente e que aparece, então, como o melhor, mas só se impõe à minha vontade porque esta se fixa sobre ele e o escolhe. Em última [[lexico:a:analise:start|análise]], tal motivo foi efetivamente o mais forte: mas porque [[lexico:e:eu:start|eu]] o quis. Há, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], determinismo [[lexico:r:racional:start|racional]] e [[lexico:a:autodeterminacao:start|autodeterminação]] espontânea. O ato livre não pode [[lexico:s:ser:start|ser]] salvo e não pode ser justificado de outra maneira. Se na [[lexico:p:psicologia-do-ato:start|psicologia do ato]] livre não se deve reconhecer o motivo mais forte no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] leibniziano, convém distinguir móveis diversos ou condições de escolha. Eis os discernimentos que Tomás de Aquino, a este [[lexico:r:respeito:start|respeito]], nos propõe no De Malo (cf. q. 6, art. [[lexico:u:unico:start|único]]). Considerado como procedente da vontade ou em seu exercício, o ato livre é interiormente condicionado só por [[lexico:d:deus:start|Deus]]. Este ainda, em sua [[lexico:m:mocao:start|moção]] [[lexico:t:transcendente:start|transcendente]], respeita a indiferença fundamental da [[lexico:p:potencia:start|potência]] que conserva assim o senhorio de seu ato. Considerado [[lexico:a:agora:start|agora]] do ponto de vista da [[lexico:e:especificacao:start|especificação]] ou como dependente da [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]], e posto à [[lexico:p:parte:start|parte]] o caso do bem [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] que é absolutamente necessitante, o ato livre pode, de três maneiras, ver-se solicitado, mais em um sentido que em [[lexico:o:outro:start|outro]]: 1. por um motivo que efetivamente o arrasta; 2. pelo [[lexico:f:fato:start|fato]] de que se considera tal circunstância do ato antes que tal outra; 3. em [[lexico:r:razao:start|razão]] das disposições do sujeito que fazem com que tal [[lexico:o:objeto:start|objeto]] apresente maior ou menor [[lexico:i:interesse:start|interesse]]: [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] arrastado por um movimento passional ou levado por um [[lexico:h:habito:start|hábito]], será conduzido naturalmente a julgar segundo este movimento ou em conformidade a este hábito: assim, um mesmo objeto não fará a mesma [[lexico:i:impressao:start|impressão]] ao homem em cólera e ao homem que está calmo, ao virtuoso e ao viciado, ao sadio e ao doente. Toda a [[lexico:q:questao:start|questão]] infinitamente complexa do [[lexico:c:condicionamento:start|condicionamento]] [[lexico:a:afetivo:start|afetivo]] de nossas escolhas deveria ser compreendida sob esta [[lexico:l:luz:start|luz]]. Todavia, fora dos casos onde a [[lexico:v:violencia:start|violência]] das paixões tira à razão toda a [[lexico:p:posse:start|posse]] de si, a vontade, em face dos [[lexico:b:bens:start|bens]] contingentes, conserva seu poder fundamental de se determinar ou de não se determinar. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}