===== LEIBNIZ E SPINOZA ===== G. Friedmann escreveu sobre [[lexico:l:leibniz-e-spinoza|Leibniz e Spinoza]] um livro precioso em que se esforça por demonstrar que [[lexico:l:leibniz|Leibniz]] quis aproximar-se de [[lexico:s:spinoza|Spinoza]] e conhecê-lo, sobretudo para [[lexico:b:bem|Bem]] determinar em que diferia dele. E é [[lexico:v:verdade|verdade]] que a aproximação destes dois filósofos, como também o [[lexico:f:fato|fato]] de pô-los em contraste, permite conhecer melhor tanto um como o [[lexico:o:outro|outro]]. Friedmann define a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] de Leibniz como "urna filosofia para a qual a [[lexico:s:substancia|substância]], longe de [[lexico:s:ser|ser]] uma [[lexico:a:abstracao|abstração]], possui qualidades, uma [[lexico:e:energia|energia]] sempre pronta a impelir ao [[lexico:a:ato|ato]], e encerra em si todos os seus desenvolvimentos". Esta [[lexico:d:definicao|definição]] [[lexico:n:nao|não]] se aplica apenas à filosofia de Leibniz, pois não há verdadeiros pensadores que, sendo exclusivamente lógicos, tenham feito da substância uma pura abstração — nem sequer os escolásticos. Em nenhum deles é a substância o que resta de uma [[lexico:c:coisa|coisa]] depois que tudo foi eliminado desta, mas aquilo que faz com que essa coisa seja essa coisa e não outra, isto é, o [[lexico:e:elemento|elemento]] primeiro, plasmador e formador, em última [[lexico:a:analise|análise]] [[lexico:d:divino|divino]], única [[lexico:r:realidade|realidade]] permanente sob as aparências suscitadas. Tais eram os Inteligíveis de [[lexico:p:platao|Platão]], tais são as mônades leibnizianas e o [[lexico:t:todo|todo]] de Spinoza, potências de [[lexico:o:ordem|ordem]] espiritual, não apenas subsistentes [[lexico:p:por-si|por si]] mesmas ou por um [[lexico:p:principio|princípio]] da mesma ordem, mas ainda geradoras e criadoras. Tanto para Leibniz como para Spinoza, tudo se resume à substância pensante, com a única [[lexico:d:diferenca|diferença]] de que um a divide — se é [[lexico:p:possivel|possível]] [[lexico:f:falar|falar]] em [[lexico:d:divisao|divisão]] onde não há [[lexico:q:quantidade|quantidade]] — enquanto o outro a conserva una e contínua. É o que permite ao primeiro afastar o perigo em que incorre o segundo e escapar ao [[lexico:p:panteismo|panteísmo]]. Ou pelo menos, se o acusarem de cair nele, poder-se-á responder que o seu panteísmo já não é "imanentista" como o de Spinoza, mas causal. Ora, é evidente que um panteísmo causal introduz a [[lexico:d:dualidade|dualidade]] de [[lexico:c:causa-e-efeito|causa e efeito]], deixando portanto de ser um panteísmo. Com Spinoza, podemos dizer, talvez forçando um pouco, [[lexico:d:deus|Deus]] não é a [[lexico:c:causa|causa]] do [[lexico:m:mundo|mundo]], ele é o Mundo. [[lexico:n:nota|nota]] Friedmann entre os dois filósofos uma outra diferença que bem poderia ser fundamental e decisiva. Em Leibniz, diz ele, Deus está submetido ou se submete, na [[lexico:c:criacao|criação]], à [[lexico:i:ideia|ideia]] ou à [[lexico:r:razao|razão]] do bem — [[lexico:r:ratio|ratio]] boni; em Spinoza, à ideia de [[lexico:p:perfeicao|perfeição]] — ratio perfecti. É digno de [[lexico:a:admiracao|admiração]], acrescentemos de nossa [[lexico:p:parte|parte]], o fato de tornarmos a encontrar aqui a [[lexico:o:oposicao|oposição]] entre [[lexico:s:santo|santo]] Tomás e Duns Escoto, tanto é verdade que os escolásticos já haviam [[lexico:d:dito|dito]] tudo. Numa destas concepções uma coisa é verdadeira, bela e boa em si mesma, senão por si mesma, e conserva o seu [[lexico:v:valor|valor]] mesmo fora da soberana [[lexico:p:potencia|Potência]] que a produziu; na outra, ela não assume [[lexico:e:esse|esse]] valor senão porque foi produzida por essa mesma Potência, e como que em [[lexico:v:virtude|virtude]] de uma [[lexico:e:especie|espécie]] de decreto. A coisa, aqui, não é verdadeira porque é verdadeira, mas porque vem de Deus, de um Deus [[lexico:p:perfeito|perfeito]]. O [[lexico:f:falso|falso]] poderia [[lexico:t:ter|ter]] sido [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]], se Deus assim o quisesse. Percebe-se logo o excesso ou o [[lexico:s:sofisma|sofisma]] que a concepção mais sábia ou mais prudente de Leibniz permite evitar. Do mesmo [[lexico:m:modo|modo]], e por um [[lexico:r:raciocinio|raciocínio]] [[lexico:s:semelhante|semelhante]], quanto à ideia de causa. Um panteísmo integral a enfraquece singularmente, quando não a suprime de vez, e tende a substituir a [[lexico:r:relacao|relação]] causal por puras engrenagens mecânicas. Se Deus é o mundo e se o mundo é Deus, poderemos descobrir nele certas entrosagens ou uma corta [[lexico:s:sucessao|sucessão]], mas esta sucessão não passará de uma concepção do [[lexico:e:espirito|espírito]] e, como tudo se passa na [[lexico:e:eternidade|Eternidade]], é em vão que a fragmentamos e a encadeamos por [[lexico:m:meio|meio]] de elos ligados uns aos outros. Num tal [[lexico:s:sistema|sistema]] toda ideia de [[lexico:f:finalidade|finalidade]] será logicamente suprimida, visto que já temos aí essa finalidade, ativa e presente; da mesma [[lexico:f:forma|forma]] toda ideia de meio, isto é, de construção por sucessão, comportando uma causa e um [[lexico:e:efeito|efeito]]. Depreende-se daí que o [[lexico:m:mecanicismo|mecanicismo]] dos modernos, repudiando toda finalidade, reduzindo toda [[lexico:a:atualidade|atualidade]] a um [[lexico:d:determinismo|determinismo]] sem [[lexico:c:consciencia|consciência]] necessária e, como diziam eles, a um "[[lexico:c:comportamento|comportamento]]", deriva antes de Spinoza que de Leibniz. Este mantém tanto as [[lexico:c:causas|causas]] eficientes como as causas finais, inclusive a causa última, até mesmo onde parece que a [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] deva suspender a sua [[lexico:a:atividade|atividade]]: "O [[lexico:i:irracional|irracional]] afigura-se por vezes em Leibniz", escreve Friedmann, "uma [[lexico:e:expressao|expressão]] secreta e [[lexico:s:superior|superior]] do [[lexico:r:racional|racional]], da mesma forma que para ele o racional sobreleva e prolonga as leis naturais sem contradizê-las." Enfim, conforme o mesmo crítico — e a [[lexico:o:observacao|observação]] é tão engenhosa quanto profunda — Leibniz permanece [[lexico:h:humano|humano]] em sua filosofia, isto é, atento às consequências que o seu [[lexico:p:pensamento|pensamento]] poderia acarretar para a espécie humana, ao passo que Spinoza se mantém puramente, serenamente e, se for preciso, cruelmente especulativo. "Ele não pensa para o [[lexico:h:homem|homem]]...", conclui Friedmann; "pensa, [[lexico:n:nada|nada]] maisls." Isto quer dizer que Spinoza conduz o seu pensamento sem se preocupar no mínimo com os frutos desse pensamento, zeloso apenas de levá-lo ao seu [[lexico:t:termo|termo]] [[lexico:l:logico|lógico]] e de colocar neste termo a soberana realidade, seja ela qual for e por mais misteriosa, obscura e dura que nos possa parecer. Dá, numa [[lexico:p:palavra|palavra]], a [[lexico:i:impressao|impressão]] de consentir que o seu Deus apareça, a certos respeitos e na ordem dos sentimentos, como um Deus inumano. Leibniz fica mais perto de nós e pensa também em nós; destaca mais em seu sistema a [[lexico:n:nocao|noção]] de [[lexico:q:qualidade|qualidade]]. Embora não descambe absolutamente para um [[lexico:o:otimismo|otimismo]] beato, cumpre reconhecer que manifesta o que se pode chamar um otimismo superior. O mundo criado pelo seu Deus é o melhor dos [[lexico:m:mundos|mundos]] possíveis, e isto decorre da própria perfeição de Deus; decorre também do seu [[lexico:a:amor|amor]], e quiçá o cristão se revele aqui mais uma vez. Resumindo: Spinoza deduz de Deus a criação, enquanto Leibniz, cartesiano mais fiel pelo [[lexico:m:metodo|método]], remonta até Deus pela criação. Daí, [[lexico:a:alem|além]] da diferença fundamental, uma [[lexico:s:singular|singular]] [[lexico:d:diversidade|diversidade]] de tom entre os dois sistemas. Perguntamos de onde pôde vir a Leibniz a ideia desse [[lexico:p:pluralismo|pluralismo]] idealista e acode-nos logo ao espírito a lembrança de que: ele foi matemático e inventor do [[lexico:c:calculo-infinitesimal|cálculo infinitesimal]]. Mas antes dele se havia falado em mônades e mesmo em mônades espirituais, como no caso de Giordano [[lexico:b:bruno|Bruno]]. Friedmann assim se expressa a [[lexico:r:respeito|respeito]]: "Quando a mônade voita para o [[lexico:e:exterior|exterior]] a sua lôrça de expansão [[lexico:e:essencial|essencial]], manifesta-se sob a [[lexico:f:forma-de-corporeidade|forma de corporeidade]]. Quando essa [[lexico:f:forca|força]] se dobra sobre si e se reflete, então a mônade é pensamento"Eis um [[lexico:t:texto|texto]] bem sugestivo para o [[lexico:e:estudo|estudo]] de Leibniz. Conduziu-nos bem longe e, embora houvesse partido de [[lexico:d:descartes|Descartes]] e trilhasse caminhos análogos aos de Descartes, pretendeu [[lexico:s:superar|superar]] ou contornar o impasse a que haviam chegado estes e restituir a [[lexico:u:unidade|unidade]] ao mundo restabelecendo-o na unidade ou realidade exclusiva do espírito. A espécie de altura a que se elevou assim, com audácia genial, era capaz de amedrontar inteligências comuns. Com o seu grande contemporâneo de que trataremos [[lexico:a:agora|agora]], essa altura vai se tornar simplesmente vertiginosa.