===== LAR E PÓLIS ===== VIDE [[lexico:p:privado-e-publico:start|privado e público]] Contudo, termina aqui a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de descrever, em termos de uma nítida [[lexico:o:oposicao:start|oposição]], a profunda [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] entre as compreensões [[lexico:m:moderna:start|moderna]] e antiga de [[lexico:p:politica:start|política]]. No [[lexico:m:mundo:start|mundo]] [[lexico:m:moderno:start|moderno]], os domínios [[lexico:s:social:start|social]] e [[lexico:p:politico:start|político]] diferem muito menos entre si. O [[lexico:f:fato:start|fato]] de que a política é apenas uma [[lexico:f:funcao:start|função]] da [[lexico:s:sociedade:start|sociedade]] – de que a [[lexico:a:acao:start|ação]], o [[lexico:d:discurso:start|discurso]] e o [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] são, fundamentalmente, superestruturas assentadas no [[lexico:i:interesse:start|interesse]] social – [[lexico:n:nao:start|não]] foi descoberto por Karl [[lexico:m:marx:start|Marx]]; pelo contrário, foi uma das premissas axiomáticas que Marx recebeu acriticamente dos economistas políticos da era moderna. Essa funcionalização torna [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] perceber qualquer [[lexico:a:abismo:start|abismo]] [[lexico:r:relevante:start|relevante]] entre as duas esferas; e não se trata de uma [[lexico:q:questao:start|questão]] de [[lexico:t:teoria:start|teoria]] ou de [[lexico:i:ideologia:start|ideologia]], pois, com a ascendência da sociedade, isto é, do “[[lexico:l:lar:start|lar]]” ([[lexico:o:oikia:start|oikia]]) ou das [[lexico:a:atividades:start|atividades]] econômicas ao domínio [[lexico:p:publico:start|público]], a administração doméstica e todas as questões antes pertinentes à [[lexico:e:esfera:start|esfera]] privada da [[lexico:f:familia:start|família]] transformaram-se em [[lexico:p:preocupacao:start|preocupação]] “coletiva” [v. economia social]. No mundo moderno, os dois domínios constantemente recobrem um ao [[lexico:o:outro:start|outro]], como ondas no perene fluir do [[lexico:p:processo:start|processo]] da [[lexico:v:vida:start|vida]]. [...] Deixar o lar, originalmente para abraçar alguma empresa aventureira e gloriosa, e mais [[lexico:t:tarde:start|Tarde]] simplesmente para dedicar a vida aos assuntos da [[lexico:c:cidade:start|cidade]], exigia [[lexico:c:coragem:start|coragem]], pois era só no lar que os indivíduos se preocupavam basicamente em defender a vida e a [[lexico:s:sobrevivencia:start|sobrevivência]] próprias. [[lexico:q:quem:start|quem]] ingressasse no domínio político deveria, em primeiro [[lexico:l:lugar:start|lugar]], [[lexico:e:estar:start|estar]] disposto a arriscar a própria vida; o excessivo [[lexico:a:amor:start|amor]] à vida era um [[lexico:o:obstaculo:start|obstáculo]] à [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] e [[lexico:s:sinal:start|sinal]] inconfundível de servilismo. [v. escravo] A coragem, portanto, tornou-se a [[lexico:v:virtude:start|virtude]] política por [[lexico:e:excelencia:start|excelência]], e só aqueles que a possuíam podiam [[lexico:s:ser:start|ser]] admitidos em uma [[lexico:a:associacao:start|associação]] que era política em conteúdo e propósito e que por isso mesmo transcendia o mero estar junto imposto igualmente a todos – [[lexico:e:escravos:start|escravos]], bárbaros e gregos – pelas premências da vida. [v. escravo] A “vida boa” como [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] nomeava a vida do cidadão, era, portanto, não apenas melhor, mas livre de cuidados e mais nobre que a vida ordinária, mas possuía [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] inteiramente diferente. Era “boa” exatamente porque, tendo dominado as necessidades do mero [[lexico:v:viver:start|viver]], tendo se libertado do [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] e da [[lexico:o:obra:start|obra]] e superado o anseio [[lexico:i:inato:start|inato]] de sobrevivência comum a todas as criaturas vivas, deixava de ser limitada ao processo biológico da vida. Na [[lexico:r:raiz:start|raiz]] da [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] política grega encontramos uma clareza e uma [[lexico:p:precisao:start|precisão]] sem-par na [[lexico:d:definicao:start|definição]] dessa diferença. Nenhuma [[lexico:a:atividade:start|atividade]] que servisse à mera [[lexico:f:finalidade:start|finalidade]] de garantir o sustento do [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]], de somente alimentar o processo vital, era autorizada a adentrar o domínio político – e isso sob o grave [[lexico:r:risco:start|risco]] de abandonarem-se o comércio e a manufatura ao [[lexico:e:engenho:start|engenho]] de escravos e de estrangeiros, de [[lexico:s:sorte:start|sorte]] que Atenas se transformou realmente na “pensionópolis” com um “proletariado de consumidores” que Max [[lexico:w:weber:start|Weber]] tão vividamente descreveu. O [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] [[lexico:c:carater:start|caráter]] dessa pólis é ainda bastante evidente nas filosofias políticas de [[lexico:p:platao:start|Platão]] e Aristóteles, mesmo que a linha divisória entre a família e a pólis seja ocasionalmente toldada, especialmente em Platão, que, provavelmente seguindo [[lexico:s:socrates:start|Sócrates]], passou a colher os seus exemplos e ilustrações da pólis das experiências cotidianas na vida privada, mas também em Aristóteles, quando este, seguindo Platão, presumiu hipoteticamente que pelo menos a [[lexico:o:origem:start|origem]] histórica da pólis deveria estar ligada às [[lexico:n:necessidades-da-vida:start|necessidades da vida]], e que somente o seu conteúdo ou finalidade inerente ([[lexico:t:telos:start|telos]]) transcende a vida na “boa vida” Esses aspectos dos ensinamentos da [[lexico:e:escola:start|escola]] socrática, que logo se tornariam axiomáticos, no nível da banalidade, eram, na [[lexico:e:epoca:start|época]], os mais novos e mais revolucionários; resultavam não da [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] efetiva na vida política, mas do [[lexico:d:desejo:start|desejo]] de libertar-se do seu [[lexico:o:onus:start|ônus]], um desejo que os filósofos, em sua própria [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]], só podiam justificar mediante a [[lexico:d:demonstracao:start|demonstração]] de que até mesmo [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:m:modo:start|modo]] de vida, o mais livre de todos, estava ainda ligado à [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] e [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] a ela. Não obstante, o pano de fundo da experiência política efetiva, pelo menos em Platão e Aristóteles, continuava tão forte que jamais foi posta em [[lexico:d:duvida:start|dúvida]] a [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre as esferas do lar e da vida política. Sem a vitória, no lar, sobre as necessidades da vida, nem a vida nem a “vida boa” é [[lexico:p:possivel:start|possível]], mas a política jamais existe em função da vida. No que tange aos membros da pólis, a vida no lar existe em função da “vida boa” na pólis. [ArendtCH, 5] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}