===== LAR ===== Embora a [[lexico:t:tese:start|tese]] principal de Fustel de Coulanges, segundo a introdução de A [[lexico:c:cidade:start|cidade]] antiga (Anchor, 1956), consista em demonstrar que “a mesma [[lexico:r:religiao:start|religião]]” moldou a antiga organização da [[lexico:f:familia:start|família]] e a antiga cidade-Estado, o autor fornece numerosas referências ao [[lexico:f:fato:start|fato]] de que o [[lexico:r:regime:start|regime]] da gens, baseado na religião da família, e o regime da cidade “eram, na [[lexico:v:verdade:start|verdade]], duas formas antagônicas de [[lexico:g:governo:start|governo]] (...). Ou a cidade desagregava a família, com o [[lexico:t:tempo:start|tempo]], ou [[lexico:n:nao:start|não]] poderia perdurar” (p. 252). A [[lexico:c:contradicao:start|contradição]] dessa grande [[lexico:o:obra:start|obra]] deve-se aparentemente à tentativa de Coulanges de tratar, em um mesmo conjunto, Roma e as cidades-Estado gregas; para suas evidências e [[lexico:c:categorias:start|categorias]] ele se apoia principalmente no [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]] institucional e [[lexico:p:politico:start|político]] de Roma, embora reconheça que o [[lexico:c:culto:start|culto]] de Vesta “já perdera o seu vigor na [[lexico:g:grecia:start|Grécia]] em tempos muito remotos (...), mas nunca o perdeu em Roma” (p. 146). Não só o [[lexico:a:abismo:start|abismo]] entre o lar e a cidade era muito mais [[lexico:p:profundo:start|profundo]] na Grécia do que em Roma, mas somente na Grécia a religião olímpica, que era a religião de Homero e da cidade-Estado, era separada da religião mais antiga da família e do lar, e [[lexico:s:superior:start|superior]] a esta. Enquanto Vesta, a deusa da lareira, passou a [[lexico:s:ser:start|ser]] a protetora de uma “lareira da cidade” e tornou-se [[lexico:p:parte:start|parte]] do culto político oficial após a unificação e segunda fundação de Roma, sua equivalente grega, Héstia, é mencionada pela primeira vez em [[lexico:h:hesiodo:start|Hesíodo]], o [[lexico:u:unico:start|único]] [[lexico:p:poeta:start|poeta]] [[lexico:g:grego:start|grego]] que, em [[lexico:c:consciente:start|consciente]] [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] a Homero, louva a [[lexico:v:vida:start|vida]] do lar e da família; na religião oficial da pólis, Héstia teve de ceder a Dionísio seu [[lexico:l:lugar:start|lugar]] na assembleia dos 12 [[lexico:d:deuses:start|deuses]] olímpicos (cf. Mommsen, Römische [[lexico:g:geschichte:start|Geschichte]] (5. ed.), Livro I, Capítulo 12, e Robert Graves, The greek myths (1955), 27. k). [ArendtCH, 4, nota] O traço distintivo da [[lexico:e:esfera:start|esfera]] do lar era que o fato de que nela os homens viviam juntos por serem a isso compelidos por suas necessidades e carências. A [[lexico:f:forca:start|força]] compulsiva era a própria vida – os penates, os deuses do lar, eram, segundo Plutarco, “os deuses que nos fazem [[lexico:v:viver:start|viver]] e alimentar o nosso [[lexico:c:corpo:start|corpo]]” –, que, para sua manutenção e [[lexico:s:sobrevivencia:start|sobrevivência]] individual, assim como a vida da [[lexico:e:especie:start|espécie]], requer a companhia dos outros. O fato de que a manutenção individual devesse ser a [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]] do [[lexico:h:homem:start|homem]] e a sobrevivência da espécie a tarefa da mulher era tido como óbvio, e ambas as funções naturais, o [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] do homem para fornecer o sustento e o trabalho da mulher no parto, eram sujeitas à mesma premência da vida. Portanto, a [[lexico:c:comunidade:start|comunidade]] [[lexico:n:natural:start|natural]] do lar nascia da [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]], e a necessidade governava todas as [[lexico:a:atividades:start|atividades]] realizadas nela. [ArendtCH, 5] “Toda esta religião era confinada pelas paredes de cada casa (...). Todos esses deuses, a Lareira, os Lares e os Manes, eram chamados de deuses ocultos, ou deuses do interior. Em todos os atos dessa religião, o sigilo era [[lexico:n:necessario:start|necessário]], sacrificia occulta, como disse Cícero (De arusp. respl. 17)” (Coulanges, A cidade antiga, Anchor, 1956, p. 37). [ArendtCH, 8, Nota] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}