===== KINOUN ===== kinoún: motor, [[lexico:a:agente|agente]], [[lexico:c:causa|causa]] eficiente 1. O [[lexico:p:problema|problema]] de um agente [[lexico:e:externo|externo]] ou [[lexico:a:arche|arche]] para o [[lexico:m:movimento|movimento]] [[lexico:n:nao|não]] o é para os primeiros physikoi, [[lexico:d:dado|dado]] que no seu [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista vitalístico a [[lexico:k:kinesis|kinesis]] era inerente às [[lexico:c:coisas|coisas]] ([[lexico:v:ver|ver]] kinesis 1). Mas uma vez que [[lexico:p:parmenides|Parmênides]] negara que a kinesis fosse um [[lexico:a:atributo|atributo]] do [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] [[lexico:s:ser|ser]], o [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] óbvio do movimento no [[lexico:m:mundo|mundo]] [[lexico:f:fisico|físico]] tinha de ser explicado pelo recurso a um motor externo que daria, pelo menos, o ímpeto inicial para a kinesis. 2. A primeira tentativa neste [[lexico:s:sentido|sentido]] é o «[[lexico:a:amor|amor]]» e o «Ódio» de [[lexico:e:empedocles|Empédocles]] (frg. 17, versos 19-20; confrontar Diels 31A28), extraída de uma [[lexico:a:analogia|analogia]] com as forças motoras que operam no [[lexico:h:homem|homem]] (ibid., versos 22-24; confrontar [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], [[lexico:m:metafisica|Metafísica]] 985a, que salienta o [[lexico:a:aspecto|aspecto]] [[lexico:m:moral|moral]] destas forças e as vê como uma [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] do [[lexico:d:dualismo|dualismo]] moral: ver [[lexico:k:kakon|kakon]] 3). Pouco depois há um afastamento, que faz [[lexico:e:epoca|época]], da [[lexico:e:esfera|esfera]] moral para a intelectual: a [[lexico:f:fonte|fonte]] de movimento para [[lexico:a:anaxagoras|Anaxágoras]] é a [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] ([[lexico:n:nous|noûs]]), que não é só a iniciadora do movimento mas também uma [[lexico:f:forca|força]] orientadora (ver noûs 3; [[lexico:n:noesis|noesis]] 4). O delineamento do [[lexico:d:deus|Deus]] de Aristóteles está já presente: noesis, kinesis, [[lexico:t:telos|telos]]. 3. A primitiva [[lexico:p:preocupacao|preocupação]] de [[lexico:p:platao|Platão]] com os eide imutáveis excluía ao que parece qualquer consideração séria da kinesis. Mas nos [[lexico:d:dialogos|diálogos]] posteriores, particularmente no [[lexico:s:sofista|sofista]], [[lexico:f:filebo|Filebo]], [[lexico:t:timeu|Timeu]] e Leis, há uma [[lexico:t:teoria|teoria]] completamente desenvolvida da kinesis (q. v. 6) com dois pontos-chave correlatos: a [[lexico:a:atribuicao|atribuição]] do [[lexico:p:principio|princípio]] do [[lexico:a:automovimento|automovimento]] à [[lexico:a:alma|alma]] (ver [[lexico:p:psyche|psyche]] 19) e a [[lexico:a:admissao|admissão]] da kinesis, por ser uma [[lexico:f:funcao|função]] da alma, no domínio do «completamente [[lexico:r:real|real]]» (pantelos on; Soph. 248e-249b). Há, [[lexico:a:alem|além]] disso, um [[lexico:e:eidos|eidos]] da kinesis (ibid. 254e) e, na [[lexico:v:verdade|verdade]], ela é um dos megista gene (ver eidos 13). 4. O movimento, assim, ocorre a três níveis em Platão: como o eidos [[lexico:t:transcendental|transcendental]] do movimento, como automovimento da alma, que tem uma [[lexico:p:posicao|posição]] intermediária entre os eide e os particulares sensíveis e que é a arche do movimento descrito nas Leis X, 895b; e finalmente como os vários tipos de movimentos secundários no [[lexico:k:kosmos|kosmos]] descritos nas Leis X, 893b-894c. 5. Nos termos desta [[lexico:a:analise|análise]] o proton kinoun de Platão ou [[lexico:p:primeiro-motor|primeiro motor]] é a [[lexico:p:parte|parte]] [[lexico:n:noetica|noética]] do semi-transcendente ou [[lexico:a:alma-do-mundo|alma do mundo]] (ver [[lexico:p:psyche-tou-pantos|psyche tou pantos]]). Parece haver, além disso, razões para identificar o noûs do Filebo e do Timeu com esta mesma alma do mundo, se [[lexico:b:bem|Bem]] que seja misticamente descrito como criando a Alma do Mundo (ver noûs 6). Temos, pois, não apenas um kinoun mas também uma causa final e [[lexico:e:exemplar|exemplar]]. O [[lexico:d:demiourgos|demiourgos]] é [[lexico:b:bom|Bom]] e faz com que o mundo seja tão [[lexico:s:semelhante|semelhante]] a ele quanto [[lexico:p:possivel|possível]] (Timeu 29e-30a) e, segundo nos dizem, a alma humana é feita da mesma «[[lexico:s:substancia|substância]]» que a Alma do Mundo (ibid. 41d). Mas não só o kosmos é relacionado com o kinoun como o [[lexico:e:eikon|eikon]] com o [[lexico:p:paradeigma|paradeigma]], movimento conhecido como «[[lexico:p:processao|processão]]» ([[lexico:p:proodos|proodos]]) no [[lexico:p:platonismo|platonismo]] tardio; há, também, uma «volta» ([[lexico:e:epistrophe|epistrophe]]). O resultado [[lexico:i:imediato|imediato]] do movimento automotor da Alma do Mundo é o movimento circular [[lexico:p:perfeito|perfeito]] do seu [[lexico:p:proprio|próprio]] [[lexico:c:corpo|corpo]], o [[lexico:u:universo|universo]] visível (ibid. 34a, 36e; 40a-b). Este movimento regular, vísivel e [[lexico:e:eterno|eterno]] dos céus, fornece, por seu turno, um [[lexico:m:modelo|modelo]] pelo qual os homens deviam regular a [[lexico:h:harmonia|harmonia]] nas suas próprias almas (ibid. 47b-c); a [[lexico:a:astronomia|astronomia]] é, evidentemente, apenas um preliminar para mais altos impulsos da «volta» efetuada pelo [[lexico:e:eros|Eros]] e pela [[lexico:d:dialektike|dialektike]]; ver [[lexico:o:ouranos|ouranos]] 2). 6. Os mesmos passos do Timeu introduzem outra consideração: os corpos celestes são também «uma [[lexico:r:raca|raça]] de [[lexico:d:deuses|deuses]]». Cada um é dotado de inteligência e é esta que explica a rotação axial das estrelas, rotativas porque «cada um pensa sempre os mesmos [[lexico:p:pensamentos|Pensamentos]] acerca das mesmas coisas» (ibid. 39e-40a; sobre este movimento rotativo confrontar Republica 436b e Leis X, 898a). Platão parece [[lexico:t:ter|ter]] certas dúvidas sobre o [[lexico:m:modo|modo]] de conexão entre estes corpos celestes e as suas inteligências condutoras. Fazem-se sugestões nas Leis X, 898e, mas Platão não tem a [[lexico:c:certeza|certeza]] se a sua alma é um motor [[lexico:i:imanente|imanente]], como a nossa alma, ou uma força extrínseca que tanto pode ser corpórea (possivelmente a teoria de Eudóxio de que as estrelas são transportadas pela esfera corpórea em que estão integradas, teoria adotada por Aristóteles; ver 7, 11, infra) como incorpórea (o «[[lexico:o:objeto|objeto]] de amor» aristotélico?). Mas qualquer que seja o relacionamento [[lexico:e:exato|exato]], a [[lexico:t:tradicao|tradição]] platônica conserva até ao [[lexico:f:fim|fim]] a sua [[lexico:c:crenca|crença]] nestes motores planetários (ver ouranioi). 7. Entre as várias [[lexico:c:causas|causas]] envolvidas na [[lexico:g:genesis|genesis]] Aristóteles especifica kinoun ou o agente que inicia a [[lexico:m:mudanca|mudança]] ([[lexico:p:physica|Physica]] u, 194b). O que entra aqui em causa são as noções de [[lexico:p:physis|physis]] revistas por Aristóteles (q. v. 3). A physis desalojou a psyche de grande parte do terreno ocupado pela alma platônica e muito em especial da sua posição como fonte da [[lexico:f:finalidade|finalidade]] (telos; Physica II, 194a) e do movimento (ibid. VIII, 250b-253a) e, dada a [[lexico:e:existencia|existência]] de coisas em movimento, deve haver uma única causa do movimento, um «primeiro motor» (proton kinoun) que é em si imóvel (ibid. 256a-258b): tudo [[lexico:o:o-que-e|o que é]] movido é movido por [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]] e não pode haver um [[lexico:r:retorno|retorno]] [[lexico:i:infinito|infinito]] de tais motores (ibid. 256a e vil, 242a-243a). Por isso há um Primeiro Motor eterno e um primeiro movido eterno, este [[lexico:u:ultimo|último]] a esfera em que estão incorporadas as estrelas fixas (VIII, 260a-266a), movendo-se num movimento eterno e circular (movimento que é anterior a todas as outras formas de mudança, mesmo a genesis; ibid. 260a-b e ver genesis 15). 8. Mas Aristóteles, ao que parece, nem sempre defendeu este ponto de vista. A linha de [[lexico:r:raciocinio|raciocínio]] supracitada, extraída da [[lexico:f:fisica|Física]], é fundamentalmente um [[lexico:a:argumento|argumento]] tirado da [[lexico:e:energeia|energeia]]/[[lexico:d:dynamis|dynamis]] o qual assenta na [[lexico:p:premissa|premissa]] de que a passagem da [[lexico:p:potencia|potência]] ao [[lexico:a:ato|ato]] requer a [[lexico:p:presenca|presença]] prévia de um agente já em ato que conduz, através da [[lexico:n:negacao|negação]] do infinito retorno, a uma energeia eterna que não pode ser diferente. Mas há também o «movimento platônico» em que a alma é a fonte do movimento. Deste modo Platão explicou a rotação axial das estrelas e foi nesta [[lexico:e:explicacao|explicação]] em que Aristóteles se apoiou ao atribuir almas às estrelas no seu [[lexico:d:dialogo|diálogo]] platonizante da primeira fase Sobre a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] (frg. 24 = Cícero, De nat. deor. II, 44; aqui o movimento é [[lexico:c:chamado|chamado]] «voluntário»). Mas não podem os corpos celestes ser também movidos pela sua physis, que Aristóteles substituiu pela psyche como fonte interna do movimento? Esta parece ser a teoria sustentada no De coelo onde o movimento do «primeiro corpo», i. é, a esfera das estrelas fixas, é o movimento circular, eterno e «[[lexico:n:natural|natural]]» do quinto [[lexico:e:elemento|elemento]], [[lexico:a:aither|aither]] (De coelo I, 268a-270b; ver [[lexico:s:stoicheion|stoicheion]] 17). As próprias estrelas fixas movem-se porque estão incorporadas nesta esfera (ibid. II, 298b-290b). Mas, embora seja capaz de dar esta explicação do movimento das estrelas em termos de physis da esfera, Aristóteles vê-se um pouco embaraçado quanto ao que há de fazer com o [[lexico:l:legado|legado]] platônico das [[lexico:a:almas-das-estrelas|almas das estrelas]] (confrontar ibid. 11, 291 e 292a). 9. Este parecia ser um ponto de vista diferente do motor [[lexico:t:transcendente|transcendente]] da Física (embora haja uma [[lexico:s:serie|série]] de referências dúbias e/ou obscuras precisamente a este motor transcendente no De coelo, v. g. 279a-b). Mas é, não obstante, o kinoun da Física viu que é adotado e elaborado na Metafísica. No fim da primeira [[lexico:o:obra|obra]] afirma-se que o proton kinoun não tem [[lexico:g:grandeza|grandeza]] ([[lexico:m:megethos|megethos]]). Isto leva a uma dificuldade imediata dado que, no [[lexico:s:sistema|sistema]] aristotélico, toda a kinesis se efetua por contato ([[lexico:h:haphe|haphe]]; ver [[lexico:s:sympatheia|sympatheia]] 7). Para obviar a esta dificuldade, Aristóteles recorre a um princípio fornecido pela [[lexico:n:natureza|natureza]]. A [[lexico:p:percepcao|percepção]] do bem dá [[lexico:o:origem|origem]] ao [[lexico:a:apetite|apetite]] ([[lexico:o:orexis|orexis]]) desse bem, em seres racionais o objeto do [[lexico:d:desejo|desejo]] [[lexico:r:racional|racional]] ([[lexico:b:boulesis|boulesis]]; ver [[lexico:d:de-anima|De anima]] III, 433a e [[lexico:p:proairesis|proairesis]]), e na natureza [[lexico:i:irracional|irracional]] pela sua [[lexico:i:imitacao|imitação]] do movimento dos corpos celestes expressa pela passagem constante dos [[lexico:e:elementos|elementos]] de um para [[lexico:o:outro|outro]] (ver Metafísica 1050b; De gen. et corr. II, 337a; e genesis 15). Deste modo o proton kinoun é o bem de [[lexico:t:todo|todo]] o universo «como objeto amado» (Metafísica 1072b), e o kosmos e todas as suas partes «movem-se para ele» pela [[lexico:m:mimesis|mimesis]] da sua energeia traduzida em termos físicos: os corpos celestes pelas suas revoluções circulares perfeitas e os corpos corruptíveis pela sua genesis-phthora cíclica. A mimesis do homem é um tanto ou quanto mais directa. Ele é capaz da mesma [[lexico:e:especie|espécie]] de energeia que o proton kinoun, i. é, noesis, mas realiza-o só intermitentemente porque ela implica uma passagem da potência ao ato e assim é fatigante (Metafísica 1050b, 1072b; ver noesis 21, noûs 10). 10. Dentro das [[lexico:c:categorias|categorias]] do ato e da potência o Primeiro Motor deve ser uma substância imaterial eternamente atualizada (Metafísica 1071b). O que é esta energeia? É neste ponto que todo o mundo platônico dos eide é afastado. Aristóteles já não necessita dos eide para [[lexico:e:explicar|explicar]] a predicação [[lexico:u:universal|universal]] (ver [[lexico:k:katholou|katholou]]), e as qualidades estáticas destes não estão em consonância com a sua própria busca de uma arche do movimento (particularmente se ele pensa nos eide como números; ver Metafísica 992a e [[lexico:a:arithmos|arithmos]] 3). O que resta, com [[lexico:e:efeito|efeito]], é a Alma do Mundo de Platão dos Sofista - Filebo – Timeu: uma substância transcendente, um noûs vivo que dá movimento ao kosmos. E é precisamente nestes termos que é descrito o proton kinoun aristotélico: [[lexico:o:ousia|ousia]] [[lexico:a:aidios|aidios]], noûs, [[lexico:z:zoe|zoe]] (Metafísica 1072b-1073a; para a carreira subsequente deste ilustre trio, ver [[lexico:t:trias|trias]]). Há, evidentemente, correções. A Alma do Mundo platônica tem um Corpo do Mundo, o kosmos aisthetos; este seria a dynamis e a [[lexico:l:limitacao|limitação]] no sistema aristotélico. A psyche de Platão implicara a kinesis; o noûs de Aristóteles desfruta da estranha «[[lexico:a:atividade|atividade]] da imobilidade» (energeia akinesias; [[lexico:e:ethica-nichomacos|Ethica Nichomacos]] VII, 1154b): a sua energeia é a noesis (ver noûs 9). 11. Mas o capítulo viu do Livro Lambda da Metafísica introduz uma nova dificuldade na cinética do sistema. Um motor imóvel fora [[lexico:p:postulado|postulado]] anteriormente para explicar o eterno movimento circular da esfera das estrelas fixas. Mas há outros movimentos eternos e circulares no kosmos e assim deveria haver tantos motores imóveis quantos os necessários para explicar os complicados movimentos das esferas, cujo [[lexico:n:numero|número]] exato devia ser calculado pelos astrônomos (Metafísica 1073a-b; os números oferecidos por Aristóteles nos passos que se seguem são quarenta e sete e cinquenta e cinco). Também eles devem ser [[lexico:s:substancias|substâncias]] intelectuais que movem as esferas como causa final (ver Metafísica 1074a). 12. Qual é a [[lexico:r:relacao|relação]] destes motores imóveis com as esferas e com o proton kinoun do resto do argumento? Aristóteles não o explica em parte alguma. Fazer deles as almas das esferas era regressar ao «movimento platônico» de Sobre a Filosofia e tornar [[lexico:i:impossivel|impossível]] a explicação de como estão sempre em ato; fazer deles forças imateriais externas ao corpo da esfera (teria neste caso a esfera adicionada uma alma imanente?) é levantar o problema da sua [[lexico:i:individuacao|individuação]]. Se não estão unidos a um corpo como é que diferem uns dos outros uma vez que a [[lexico:m:materia|matéria]] é o princípio da individuação (ver [[lexico:h:hyle|hyle]] 2 e confrontar [[lexico:d:diaphora|diaphora]] 4 onde se diz que o [[lexico:g:genero|gênero]] fornece uma «matéria [[lexico:i:inteligivel|inteligível]]» para as espécies)? De uma maneira [[lexico:g:geral|geral]] aceitou-se que eles estão de certo modo subordinados ao proton kinoun descrito como governando todo o universo (Metafísica 1070b, 1072b, 1076a e ver 9 supra), e isto a despeito do [[lexico:f:fato|fato]] de serem imóveis. Na verdade, o argumento em cuja base eles são postulados em primeiro [[lexico:l:lugar|lugar]] necessita que também eles sejam ousiai intelectuais perfeitamente atualizados, [[lexico:i:ideia|ideia]] que parecia eliminar o terem qualquer desejo (orexis), e consequentemente uma [[lexico:f:falta|falta]] de realização, em relação ao proton kinoun. 13. Então, Aristóteles admite uma variedade de motores. Há o princípio imanente do movimento natural das coisas, physis. Há também, como princípio imanente, a psyche, não o modelo platônico que o próprio Aristóteles antes sustentara, mas o eidos imanente que move a substância à qual herda «por [[lexico:p:pensamento|pensamento]] ou [[lexico:e:escolha|escolha]]» (ver psyche 20). Está presente em todas as coisas animadas mas não satisfaz (tal como a physis) o requisito geral da teoria da energeia/dynamis que exige uma causa externa e prévia do movimento. Por isso deve haver, pelo menos, um motor transcendente que é uma substância intelectual completa (sobre a «[[lexico:s:separacao|separação]]» do [[lexico:i:intelecto|intelecto]] ver noûs). Quanto ao problema de haver mais do que um, pelo menos a certa altura da sua carreira, no Lambda viu da Metafísica (que não foi necessariamente [[lexico:e:escrito|escrito]] na mesma altura que o VII e o IX) Aristóteles sustentou que havia mais do que um, posição que continuou a seguir a tradição peripatética e provocou a [[lexico:r:refutacao|refutação]] de [[lexico:p:plotino|Plotino]] ([[lexico:e:eneadas|Eneadas]] V, 1, 9). 14. Depois de Aristóteles o problema de uma causa transcendente do movimento recua a pano de fundo. A função noética da causa cósmica permanece, tal como a [[lexico:p:pluralidade|pluralidade]] das inteligências intermediárias (ver noûs, [[lexico:d:daimon|daimon]]), mas a sua atividade causai é vista mais como fautora do que motora. As razões são duas. Há, em primeiro lugar, o [[lexico:c:conceito|conceito]] estoico de Deus, radicalmente diferente, que se torna imanente e operativo na matéria, muito à maneira da physis aristotélica (ver physis 3, [[lexico:l:logos|Logos]] 4 e [[lexico:p:pneuma|pneuma]] 4). Em segundo lugar, há o [[lexico:r:renascimento|Renascimento]] geral do platonismo e, com ele, a restauração da [[lexico:i:imagem|imagem]] do demiourgos. Foi indubitavelmente sob a [[lexico:i:influencia|influência]] desta imagem que o objeto do pensamento [[lexico:d:divino|divino]], simplesmente noesis em Aristóteles, se transforma nos noeta como causas exemplares das coisas (ver [[lexico:n:noeton|noeton]] 2). kinoûn (tó): motor, o ser que move. Latim: movens. Esses [[lexico:q:quatro|Quatro]] termos derivam do [[lexico:v:verbo|verbo]] kinô (= kineo): movo. Kinetón é o [[lexico:a:adjetivo|adjetivo]] verbal, kinoúmenon, o participio [[lexico:p:passivo|passivo]], e kinoün, o participio ativo (neutro). A [[lexico:p:palavra|palavra]] kinesis tem como primeiro sentido movimento; com Platão, ganha o sentido metafísico de mudança; os dois sentidos depois passam a coexistir. Mas os tradutores, na esteira dos latinos, conservam o mesmo [[lexico:t:termo|termo]] para os dois sentidos. Diferentes espécies. Aristóteles esforçou-se por distinguir as diferentes espécies de movimento, mas se contradiz em diversos textos. Nas Categorias (XIV), onde dedica uma [[lexico:n:nota|nota]] ao movimento, que toma então no sentido de mudança, enumera seis: - [[lexico:g:geracao|geração]]: génesis / genesis - [[lexico:c:corrupcao|corrupção]]: phthorá / [[lexico:p:phthora|phthora]] - [[lexico:a:aumento|aumento]]: aúxesis / auxesis - [[lexico:d:diminuicao|diminuição]]: phthísis / [[lexico:p:phthisis|phthisis]] - [[lexico:a:alteracao|alteração]]: alloíosis / [[lexico:a:alloiosis|alloiosis]] - mudança de local: phorá / [[lexico:p:phora|phora]] Em De [[lexico:a:anima|anima]] (I, 3), são enumeradas apenas quatro espécies: o aumento e a diminuição foram eliminados. Por fim, em Física (V, 1-2), ele faz uma nova [[lexico:c:classificacao|classificação]] em quatro categorias: substância, [[lexico:q:quantidade|quantidade]], [[lexico:q:qualidade|qualidade]] e lugar; distingue então, por um lado, o movimento que afeta a substância (ousia), que é de [[lexico:o:ordem|ordem]] metafísica (geração e corrupção), que ele prefere chamar de mudança ([[lexico:m:metabole|metabole]]), e outras três, que são mais propriamente físicas: - segundo a qualidade: alteração: alloiosis - segundo a quantidade: aumento e diminuição - segundo o lugar: translação: phora Na verdade, é preciso reduzir o movimento a duas grandes formas: movimento propriamente [[lexico:d:dito|dito]], físico; e mudança, modificação metafísica. - Sentido físico. a. [[lexico:m:mecanico|mecânico]]: a ordem do mundo. Filolau distingue duas espécies de ser: os eternamente imutáveis e os eternamente mutáveis; estes estão submetidos ao princípio do movimento, que se efetua eternamente segundo uma [[lexico:r:revolucao|revolução]] circular. Os primeiros são motores dos outros (Estobeu, Écl, XX, 2). Platão constata que não há [[lexico:m:movel|móvel]] sem motor, nem motor sem móvel (Timeu, 57c), mas a [[lexico:t:terminologia|terminologia]] que emprega é diferente da de Aristóteles e depois se tornará clássica; para ele, o móvel é kinesómenon e o motor é kinêson. Aristóteles, na Física, demora-se nos problemas do movimento. No livro III, apresenta uma [[lexico:d:definicao|definição]]: "O movimento é a passagem ao ato (entelekheia) daquilo que está em [[lexico:e:estado|Estado]] de potência (dynamis)" (III, 1, 201a); de outro modo, ele é "o ato do motor sobre um móvel" (ibid., III, 2-3). No livro VIII, ele se dedica à análise do movimento e neles identifica cinco elementos: o que move na origem, o primeiro motor (tò kinoün prôton); o móvel (kinoúmenon), o [[lexico:t:tempo|tempo]] no qual se realiza o movimento; o termo inicial (o "a partir do quê": ex hoû) e o termo final ("aquilo em direção a quê": eis hó) (V, 1). [[lexico:e:epicuro|Epicuro]] emprega muito a palavra kínesis, especialmente para tentar explicar os movimentos da [[lexico:t:terra|Terra]] e dos outros astros (D.L., X, 106,111,113, 115...). Plotino dedicou um tratado ao Movimento circular (II, II), que é ao mesmo tempo o movimento das realidades sensíveis e o movimento da alma que as anima. b. biológico. Em De anima (III, 9-10), Aristóteles analisa a [[lexico:f:faculdade-motora|faculdade motora]], especialmente a [[lexico:a:acao|ação]] da [[lexico:a:alma-sensitiva|alma sensitiva]] sobre o movimento do corpo. - Sentido metafísico. Parece que é [[lexico:e:esse|esse]] o sentido que [[lexico:p:pitagoras|Pitágoras]] dava a kínesis, quando a definia como "[[lexico:d:diferenca|diferença]] ou [[lexico:d:dessemelhanca|dessemelhança]] na matéria enquanto matéria" (Aécio, I, XXIII, 1); aliás, ele arrolava o movimento na [[lexico:c:categoria|categoria]] do inacabado ([[lexico:a:apeiron|apeiron]]), portanto da imperfeição, ao contrário do repouso, que pertence à do acabado ou perfeito (Aristóteles, Met., I, 5). Platão retoma esses dois [[lexico:p:principios|princípios]] no Sofista (254b-255b), para fazer deles dois dos cinco "gêneros supremos" que permitiam afirmar que há um [[lexico:n:nao-ser|não-ser]] (de [[lexico:a:alteridade|alteridade]]) que se opõe ao Ser. Ele afirma a [[lexico:i:imortalidade-da-alma|imortalidade da alma]], mostrando que ela é automotora (autokíneton). Aristóteles, na Metafísica, volta à análise do movimento. Retoma a definição do movimento como atualização da potência (K, 9) e prefere, em seguida, para [[lexico:f:falar|falar]] dos movimentos realizados nos corpos, empregar o termo metabolé (K, 11). - Existência do movimento. [[lexico:s:sexto-empirico|Sexto Empírico]] resume as doutrinas em algumas [[lexico:p:palavras|palavras]]: o vulgo e alguns filósofos afirmam essa existência. Parmênides, [[lexico:m:melisso|Melisso]] e alguns outros o negam. Os céticos afirmam que nenhuma dessas posições é mais verdadeira do que a outra (Hipot., III, X, 65).