===== ISSO PENSA ===== A [[lexico:s:substituicao|substituição]] do “[[lexico:e:eu|eu]] penso” pelo “[[lexico:i:isso-pensa|isso pensa]]” data, [[lexico:c:como-se|como se]] sabe, da célebre [[lexico:f:frase|frase]] dos Sudelbücher. “Wir werden uns gewisser Vorstellungen bewußt, die nicht von uns abhängen; andere glauben, wir wenigstens hingen von uns ab; wo ist die Grenze? Wie kennen nur allein die Existenz unserer Empfindungen, Vorstellungen und Gedanken. Es denkt, sollte [[lexico:m:man|Man]] sagen, so wie man sagt: es blizt. Zu sagen [[lexico:c:cogito|cogito]], ist schon zu viel, so bald man es durch [[lexico:i:ich|Ich]] denke übersetzt. Das Ich anzunehmen, zu postulieren, ist praktisches Bedürfnis” (Heft K. Aphorismus 76, em Georg Christoph Lichtenberg, Sudelbücher, Schrifien und Briefe, p. 412). Sobre o [[lexico:i:interesse|interesse]] de [[lexico:w:wittgenstein|Wittgenstein]] pela [[lexico:c:critica|crítica]] de Lichtenberg, [[lexico:v:ver|ver]] G. E. Moore, “Wittgensteins Lectures in 1930-33”, em Philosophical Papers, pp. 306-310. É, de [[lexico:f:fato|fato]], nos Münchener Vorlesungen de 1833-1834, Zur [[lexico:g:geschichte|Geschichte]] der neueren Philosophie (Contribution à l’histoire de la philosophie moderne, trad. fr. J.-E Marquet), que surge pela primeira vez, ao que parece, no [[lexico:i:idealismo-alemao|idealismo alemão]], a [[lexico:f:formula|fórmula]] [[lexico:i:impessoal|impessoal]] extrapolada da reformulação kantiana “do” cogito cartesiano – o Ich-denke que se torna na [[lexico:e:escrita|escrita]] de [[lexico:s:schelling|Schelling]]: “isso pensa em mim” (es denkt in mir), “há [[lexico:p:pensamento|pensamento]] em mim” (es wird in mir gedacht), sobre o [[lexico:m:modelo|modelo]] conscientemente assumido da locução: “es träumte mir” (“ocorreu-me um [[lexico:s:sonho|sonho]]”). [LiberaAS:41-42 Notas] Em Para [[lexico:a:alem|além]] do [[lexico:b:bem|Bem]] e do [[lexico:m:mal|mal]], I, § 17, [[lexico:n:nietzsche|Nietzsche]] escreve: *«No que se refere à [[lexico:s:supersticao|superstição]] dos lógicos, eu [[lexico:n:nao|não]] deixaria jamais de assinalar um pequeno fato que esses [[lexico:e:espiritos|espíritos]] supersticiosos não reconhecem facilmente, a [[lexico:s:saber|saber]], que um pensamento se apresenta quando “ele” quer, e não quando “eu” quero; de [[lexico:s:sorte|sorte]] que é falsificar a [[lexico:r:realidade|realidade]] dizer: O [[lexico:s:sujeito|sujeito]] “eu” é a [[lexico:c:condicao|condição]] do “[[lexico:p:predicado|predicado]]”penso. [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]] pensa, mas que essa alguma [[lexico:c:coisa|coisa]] seja justamente o antigo e famoso “eu”, eis, para nos exprimir com moderação, uma [[lexico:s:simples|simples]] [[lexico:h:hipotese|hipótese]], uma [[lexico:a:assercao|asserção]], e em [[lexico:t:todo|todo]] caso não uma “[[lexico:c:certeza|certeza]] imediata”. Em última [[lexico:a:analise|análise]], [[lexico:e:esse|esse]] “alguma coisa pensa já afirma demais; esse “alguma coisa” já contém uma [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] do [[lexico:p:processo|processo]] e não pertence ao [[lexico:p:proprio|próprio]] processo. Nessa [[lexico:m:materia|matéria]], raciocinamos conforme a rotina gramatical: “[[lexico:p:pensar|pensar]] é uma [[lexico:a:acao|ação]], toda ação supõe um sujeito que a realiza, consequentemente...” Foi se conformando mais ou menos ao mesmo [[lexico:e:esquema|esquema]] que o [[lexico:a:atomismo|atomismo]] antigo tentou ligar à “[[lexico:e:energia|energia]]” que age uma partícula de matéria que considerava como seu centro de ação e sua [[lexico:o:origem|origem]], o [[lexico:a:atomo|átomo]]. Espíritos mais rigorosos nos ensinaram enfim a passar sem esse resto de matéria, e talvez um dia os lógicos também se habituem a passar sem esse “alguma coisa” a que se reduziu o respeitável “eu” do passado.» (NT)*. Esse [[lexico:t:texto|texto]] notável contém dois pontos: a. contra a superstition des logiciens (superstição dos lógicos), que faz do je (Ich, eu), ao invés do ça (Es, isso), o sujeito do processo do pensamento (ou que faz do ça um sujeito distinto [[lexico:e:exterior|exterior]], também ele, ao processo [[lexico:d:designado|designado]] pelo predicado, o que dá no mesmo). Esse ataque podería [[lexico:s:ser|ser]] endossado por Lichtenberg, Wittgenstein ou Descombes, para não dizer pelo conjunto da(s) modernidade(s), engajada(s) na crítica da “[[lexico:t:teoria|teoria]] clássica do sujeito”, sejam elas estruturalistas, pós- ou antiestruturalistas. Chama a [[lexico:a:atencao|atenção]] do arqueólogo um deslize que vai de es a quelque chose (alguma coisa), e depois a “one”. Ainda que mascare a [[lexico:t:tradicao|tradição]] do isso, ele tem pouca [[lexico:c:consequencia|consequência]] em comparação com esse [[lexico:o:outro|outro]], que interfere na tra-dução de b., a grammatische Gewohnheit (isto é, a suposta “rotina gramatical”: “the usual grammatical formula”). Do que, se é que se atreve a dizer, se trata? Do [[lexico:r:raciocinio|raciocínio]] que fundamenta a suposta “certeza imediata” do Ich-Satz cartesiano. Esse raciocínio gramatical (ou: de gramático) tem a [[lexico:f:forma|forma]] de um [[lexico:s:silogismo|silogismo]], do qual se pode supor legitimamente que a conclusão, não expressada, não é outra senão o [[lexico:t:teorema|teorema]] que articula a “superstição dos lógicos”, a [[lexico:d:determinacao|determinação]] do “eu” como [[lexico:a:agente|agente]] do pensamento, a [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] que “o pensamento vem quando eu quero”, em [[lexico:s:suma|suma]], que o sujeito “eu” é a condição do predicado “penso”. [LiberaAS:48-52]