===== INVESTIGAÇÕES LÓGICAS ===== Nos seus traços fundamentais a [[lexico:f:fenomenologia:start|fenomenologia]] de [[lexico:h:husserl:start|Husserl]] pode caracterizar-se como uma [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]], ou seja, uma filosofia que regressa à [[lexico:s:subjetividade:start|subjetividade]], considerada base última de todas as formações objetivas de [[lexico:s:sentido:start|sentido]] e de todos os valores de [[lexico:s:ser:start|ser]]. A subjetividade deve, por isso, ser captada como um [[lexico:p:plano:start|plano]] absolutamente [[lexico:r:racional:start|racional]], que permite clarificar correta e diretamente todos os problemas de [[lexico:v:validade:start|validade]]. Explicitável ao [[lexico:i:infinito:start|infinito]], essa infinidade abrange tudo o que pode ser válido. A via de [[lexico:a:acesso:start|acesso]] a [[lexico:e:esse:start|esse]] domínio é a [[lexico:r:reducao:start|redução]] fenomenológica. E esta que, conduzindo à subjetividade, possibilita alcançar um [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de partida absolutamente seguro e um proceder rigoroso, elevando a filosofia, dentro da sua [[lexico:e:esfera:start|esfera]] própria, a uma [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] de rigor. Para melhor [[lexico:c:compreender:start|compreender]] a [[lexico:i:intencao:start|intenção]] da [[lexico:f:fenomenologia-husserliana:start|fenomenologia husserliana]] convém reportarmo-nos à [[lexico:t:tese:start|tese]] de habilitação à docência, de 1878, Sobre o [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de [[lexico:n:numero:start|número]]. Análises psicológicas tentativa de basear as investigações sobre o conceito de número em certas [[lexico:i:ideias:start|ideias]] lógicas e psicológicas da [[lexico:e:epoca:start|época]]. Os comentadores e críticos de Husserl veem, com [[lexico:r:razao:start|razão]], já preludiados neste primeiro [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] alguns dos temas e processos de [[lexico:i:investigacao:start|investigação]] fenomenológica. Nele há [[lexico:r:referencia:start|referência]] contínua à [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] e ao [[lexico:m:metodo:start|método]] de [[lexico:r:revelacao:start|revelação]] das [[lexico:e:essencias:start|essências]] das [[lexico:c:coisas:start|coisas]], regressando-se, para isso, à [[lexico:o:origem:start|origem]] do [[lexico:s:significado:start|significado]] delas na [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] e descrevendo essa origem, o que pode ser considerado como primeira [[lexico:e:expressao:start|expressão]] de ideias, posteriormente desenvolvidas, acerca da [[lexico:c:constituicao:start|constituição]], redução, [[lexico:a:analise:start|análise]] [[lexico:i:intencional:start|intencional]] e [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] [[lexico:e:eidetica:start|eidética]]. Por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, contudo, tanto Sobre o conceito de número como Filosofia da [[lexico:a:aritmetica:start|Aritmética]] que o re-elabora e desenvolve, permanecem fechados no [[lexico:h:horizonte:start|horizonte]] do [[lexico:p:psicologismo:start|psicologismo]], pois tentam derivar de certos atos psíquicos os [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] fundamentais da aritmética e ainda da [[lexico:g:geometria:start|geometria]] euclideana. As críticas a esse psicologismo, vindas de Stumpf, [[lexico:n:natorp:start|Natorp]] e Frege, conduziriam Husserl a uma reflexão sobre as [[lexico:r:relacoes:start|relações]] entre [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]] e [[lexico:l:logica:start|lógica]], acabando por considerar o psicologismo insustentável. A fazer essa [[lexico:d:demonstracao:start|demonstração]] dedicou o primeiro volume — [[lexico:p:prolegomenos:start|Prolegômenos]] a uma Lógica Pura — das suas [[lexico:i:investigacoes-logicas:start|Investigações Lógicas]]. Husserl defende aí a independência do domínio matemático e [[lexico:l:logico:start|lógico]] no sentido de uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de [[lexico:p:platonismo:start|platonismo]]. Explica que os [[lexico:p:principios-logicos:start|princípios lógicos]] são verdadeiros, independentemente de serem ou [[lexico:n:nao:start|não]] pensados por alguém. Devem possuir uma «[[lexico:e:existencia:start|existência]]» [[lexico:i:independente:start|independente]] do funcionamento do [[lexico:f:fato:start|fato]] de consciência. A validade do pensado no [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] não se encontra vinculada a qualquer [[lexico:a:atividade:start|atividade]] psíquica do [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]]. Daí, pensamento lógico e pensamento matemático serem verdadeiros, independentemente da sua formulação pela [[lexico:f:funcao:start|função]] pensante. De onde se conclui que [[lexico:m:matematica:start|matemática]] e lógica são puras, se independentes de um pensamento factual. A validade do pensado no pensamento não se encontra vinculada a qualquer atividade psíquica do sujeito. O [[lexico:e:erro:start|erro]] básico do psicologismo reside em [[lexico:t:ter:start|ter]] naturalizado as nossas ideias e também em ter naturalizado a consciência. Por isso se impõe uma [[lexico:d:discriminacao:start|discriminação]] rigorosa entre o [[lexico:m:mundo:start|mundo]] da consciência e o mundo dos aconteceres factuais. É no segundo volume das Investigações Lógicas que essa discriminação é estabelecida. À primeira vista parece tratar-se mais de psicologia do que lógica pura, onde se explicita a [[lexico:c:correlacao:start|correlação]] [[lexico:t:tipica:start|típica]] entre os objetos ideais, pertencente à esfera lógica, possuidores de uma existência em si próprios, e as nossas existências vividas, psíquicas, subjetivas, como [[lexico:a:atividades:start|atividades]] em que se dão esses objetos. Husserl designa-a por fenomenologia, considerando esta uma psicologia descritiva, embora não psicologista, que procura [[lexico:v:ver:start|ver]] os diferentes objetos lógicos nos correspondentes atos da consciência. Na introdução a este segundo volume, sobre a função de uma [[lexico:t:teoria-do-conhecimento:start|teoria do conhecimento]], afirma Husserl: «esforça-se por elevar à [[lexico:c:clareza-e-distincao:start|clareza e distinção]] as formas e leis puras do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] pelo [[lexico:r:regresso:start|regresso]] à intuição adequadamente doadora. Este esclarecimento exige uma fenomenologia que vise [[lexico:s:simples:start|simples]] análises descritivas das vivências segundo a sua componente [[lexico:r:real:start|real]]». Assim, segundo a primeira edição das Investigações Lógicas, apenas são fenomenologicamente dados os momentos «reais», efetivos, aqueles que, como veremos oportunamente, são designados no primeiro volume das Ideias para uma Fenomenologia Pura e uma Filosofia Fenomenológica por momentos hiléticos e noéticos e não os momentos realmente «transcendentes» e, neste sentido, os momentos «intencionais». Surge-nos deste [[lexico:m:modo:start|modo]] uma esfera fenomenológica limitada, domínio [[lexico:e:estrito:start|estrito]] de doações em que a fenomenologia se deve apoiar para fundamentação de uma [[lexico:t:teoria:start|teoria]] do conhecimento baseada ho [[lexico:p:principio:start|princípio]] da [[lexico:a:ausencia:start|ausência]] de pressupostos. Como Husserl afirma no §7 da introdução do segundo volume das Investigações Lógicas: «Uma investigação gnoseológica, que tenha [[lexico:a:aspiracao:start|aspiração]] séria a científica, deve necessariamente, como muitas vezes já se tem sublinhado, satisfazer ao principio da ausência de pressupostos. Porém, em nosso entender, o princípio não pode querer dizer mais do que a exclusão de todas as [[lexico:h:hipoteses:start|hipóteses]] que não podem ser, fenomenologicamente, completamente realizadas. Toda a investigação gnoseológica deve realizar-se com base puramente fenomenológica». Originariamente, a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de redução fenomenológica é a de uma [[lexico:l:limitacao:start|limitação]] de uma esfera fundamental de [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]], no sentido de uma [[lexico:r:restricao:start|restrição]] exigida pelo princípio da ausência de pressupostos das investigações gnoseológicas É neste domínio de análises e descrições que tem [[lexico:l:lugar:start|lugar]] [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] adequadamente percepcionado, ou seja, de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com as investigações Lógicas, as vivências nas suas componentes ou momentos reais. Tudo se passa num plano em que a fenomenologia é considerada uma psicologia descritiva, embora não psicologista, que procura ver os diferentes objetos lógicos nos correspondentes atos de consciência. O que se apresenta de novo neste método é ser «uma tentativa de regressar radical e consequentemente das [[lexico:c:categorias:start|categorias]] respectivas das objetividades aos modos de consciência que lhes pertencem, aos atos subjetivos, estruturas de atos, fundamentos de [[lexico:v:vivencia:start|vivência]], em que essas objetividades são conscientes e chegam a alcançar uma doação evidente». Por volta de 1904 Husserl começa a ver a [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] de [[lexico:s:superar:start|superar]] os exercícios de psicologia descritiva da segunda [[lexico:p:parte:start|parte]] das Investigações Lógicas. A [[lexico:q:questao:start|questão]] que [[lexico:a:agora:start|agora]] se apresenta é o da [[lexico:e:extensao:start|extensão]] da [[lexico:p:problematica:start|problemática]] gerada pelas idealidades matemáticas e lógicas a todas as objetividades em [[lexico:g:geral:start|geral]], incluindo as objetividades que o conhecimento considera como reais. [Morujão] Husserl, em suas Investigações Lógicas, submeteu à [[lexico:c:critica:start|crítica]] demolidora o [[lexico:n:nominalismo:start|nominalismo]] que, sob o [[lexico:n:nome:start|nome]] de [[lexico:e:empirismo:start|empirismo]], de psicologismo, etc, invadia, desde [[lexico:l:locke:start|Locke]] e [[lexico:h:hume:start|Hume]], quase toda a filosofia. Segundo os nominalistas, as leis lógicas seriam generalizações empíricas e indutivas, comparáveis às leis das ciências da [[lexico:n:natureza:start|natureza]], e o [[lexico:u:universal:start|universal]] seria somente uma [[lexico:r:representacao:start|representação]] esquemática. Husserl mostra que as leis lógicas não são, em si, por [[lexico:f:forma:start|forma]] alguma, regras, que a lógica tampouco é ciência normativa, embora — como aliás todas as ciências teóricas — sirva de base a uma [[lexico:d:disciplina:start|disciplina]] normativa. De fato, a [[lexico:l:lei:start|lei]] lógica [[lexico:n:nada:start|nada]] diz sobre o "[[lexico:d:dever:start|dever]]", mas diz [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]] sobre o "ser". O [[lexico:p:principio-de-contradicao:start|princípio de contradição]], por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], não diz que não seja [[lexico:p:possivel:start|possível]] enunciar duas proposições contraditórias, mas única e simplesmente que uma e a mesma [[lexico:c:coisa:start|coisa]] não pode possuir [[lexico:p:predicados:start|predicados]] que se contradigam. Assentes estes [[lexico:p:principios:start|princípios]], Husserl ataca o psicologismo, segundo o qual a lógica seria um ramo da psicologia. O psicologismo está em erro, sob duplo [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]]: se ele fosse [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]], as leis lógicas teriam o mesmo [[lexico:c:carater:start|caráter]] [[lexico:v:vago:start|vago]] que as leis psicológicas, seriam, quando muito, prováveis e pressuporiam a existência de fenômenos psíquicos — o que é [[lexico:a:absurdo:start|absurdo]]. Pelo que, as leis lógicas pertencem a uma [[lexico:o:ordem:start|ordem]] inteiramente diferente: são leis ideais, apriorísticas. Em segundo lugar, o psicologismo falseia completamente o sentido das leis lógicas. Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], estas nada têm que ver com o pensamento, o [[lexico:j:juizo:start|juízo]], etc, mas referem-se a algo [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]]. O [[lexico:o:objeto:start|objeto]] da lógica não é o juízo [[lexico:c:concreto:start|concreto]] de um [[lexico:h:homem:start|homem]], mas o conteúdo deste juízo, sua [[lexico:s:significacao:start|significação]], que pertence a uma ordem [[lexico:i:ideal:start|ideal]]. Finalmente, o fundador da fenomenologia entra também em conflito com o nominalismo em sua teoria da [[lexico:a:abstracao:start|abstração]]. Mostra ele que o universal nada tem que ver com uma representação generalizada. O que podemos nos [[lexico:r:representar:start|representar]], quando apreendemos um [[lexico:t:termo:start|termo]] matemático por exemplo, quase não tem importância. Locke, Hume e seus sucessores, incapazes de compreender objetos ideais, hipostasiaram o universal, convertendo-o falsamente em mera [[lexico:i:imagem:start|imagem]]. Mas não existe tal coisa. O universal é, na [[lexico:r:realidade:start|realidade]], um objeto de natureza muito peculiar, um conteúdo ideal universal. **A doutrina da significação.** A crítica precedente — um dos maiores enriquecimentos da filosofia do século XX e, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], um [[lexico:r:retorno:start|retorno]] aos grandes [[lexico:p:pensamentos:start|Pensamentos]] ontológicos da [[lexico:a:antiguidade:start|antiguidade]] e da Idade Média — serve de [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] à tese de que a lógica possui domínio [[lexico:p:proprio:start|próprio]], a [[lexico:s:saber:start|saber]], o domínio das [[lexico:s:significacoes:start|significações]]. Quando compreendemos um nome ou uma [[lexico:p:proposicao:start|proposição]], o que uma ou outra expressão enuncia não é propriamente o equivalente de uma parte do [[lexico:a:ato:start|ato]] intelectual correspondente. é, antes, a significação. Diante da [[lexico:d:diversidade:start|diversidade]] infinita das experiências individuais, há sempre o que nestas é expresso, um "[[lexico:i:identico:start|idêntico]]" no sentido estrito da [[lexico:p:palavra:start|palavra]]. Mas o termo "exprimir" é [[lexico:e:equivoco:start|equívoco]]. Podemos distinguir nele pelo menos três funções diferentes: 1) o que a expressão "põe de manifesto" (a saber, o [[lexico:p:psiquico:start|psíquico]], as vivências psíquicas); 2) o que "significa", com uma nova [[lexico:d:distincao:start|distinção]]: a) o sentido, o conteúdo do conceito, e b) o que o termo designa. Por [[lexico:u:ultimo:start|último]], Husserl distingue entre os atos que atribuem a significação (bedeutungsverleihende Akte) e os atos que a preenchem (bedeutungserfullende Akte). Estes últimos conferem ao ato a plenitude [[lexico:i:intuitiva:start|intuitiva]]; os primeiros contêm unicamente o [[lexico:e:essencial:start|essencial]] da expressão, mas não subministram o "preenchimento" intuitivo da intenção de significação. Com a [[lexico:t:teoria-da-significacao:start|teoria da significação]] prende-se uma [[lexico:g:gramatica:start|gramática]] pura, a teoria filosófica da gramática. Neste como em muitos outros domínios, introduziu Husserl valiosos enriquecimentos que a [[lexico:l:logica-matematica:start|lógica matemática]] permite hoje apreciar. Esta deve-lhe, entre outras coisas, a [[lexico:n:nocao:start|noção]] da [[lexico:c:categoria-semantica:start|categoria semântica]] (Bedeutungskategorie). Outro aspecto importante e [[lexico:i:interessante:start|interessante]] das Investigações Lógicas é a doutrina do [[lexico:t:todo:start|todo]] e das partes. É [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] entrar aqui nos pormenores destas teorias, pois, embora elas devessem pertencer ao que há de mais valioso na filosofia contemporânea, são demasiado abstratas e, por outro lado, não tiveram a mesma repercussão que as demais doutrinas de Husserl. A fenomenologia tomava pois o sentido de uma [[lexico:p:propedeutica:start|propedêutica]] às "[[lexico:c:ciencias-do-espirito:start|ciências do espírito]]". Mas, a partir do segundo tomo das Investigações Lógicas esboça-se um [[lexico:s:salto:start|salto]] que nos vai fazer entrar na filosofia propriamente dita. A "problemática da correlação", isto é, o conjunto dos problemas demonstrados pela [[lexico:r:relacao:start|relação]] do pensamento com seu objeto, uma vez aprofundada, deixa emergir a questão que constitui o seu núcleo: a subjetividade. É aqui provavelmente que a [[lexico:i:influencia:start|influência]] exercida por [[lexico:b:brentano:start|Brentano]] sobre Husserl (do qual havia sido aluno) se faz sentir; a [[lexico:o:observacao:start|observação]] chave da psicologia brentaniana era que a consciência é sempre consciência de alguma coisa, em outros termos que a consciência é [[lexico:i:intencionalidade:start|intencionalidade]]. Se transferimos esse [[lexico:t:tema:start|tema]] para o nível da eidética, isto significa que todo objeto em geral, o próprio [[lexico:e:eidos:start|eidos]], coisa, conceito etc, é objeto para uma consciência, de tal modo que é [[lexico:n:necessario:start|necessário]] descrever presentemente a maneira pela qual [[lexico:e:eu:start|eu]] conheço o objeto e segunda a qual o objeto é para mim. Poder-se-ia dizer que voltamos ao psicologismo? Chegou-se erroneamente a acreditar nisso. A [[lexico:p:preocupacao:start|preocupação]] de fundar radicalmente o saber havia levado Husserl à eidética [[lexico:f:formal:start|formal]], isto é, a uma espécie de [[lexico:l:logicismo:start|logicismo]]. Mas, a partir do [[lexico:s:sistema:start|sistema]] das essências, duas orientações se abrem: ou desenvolver a ciência lógica em [[lexico:m:mathesis-universalis:start|mathesis universalis]], quer dizer, constituir do lado do objeto uma ciência das ciências; ou então, em [[lexico:o:oposicao:start|oposição]], passar à análise do sentido para o sujeito dos conceitos lógicos utilizados por esta ciência, do sentido das relações que ela estabelece entre esses conceitos, do sentido das verdades que ela quer estabilizar, isto é, em resumo, [[lexico:p:por:start|pôr]] em [[lexico:d:discussao:start|discussão]] o próprio conhecimento, não para dele construir uma "teoria" mas para fundamentar com raízes mais profundas o saber [[lexico:e:eidetico:start|eidético]] radical. Tomando consciência de que já na simples doação do objeto havia implicitamente uma correlação do eu e do objeto que devia remeter à análise do eu, Husserl escolheu uma segunda [[lexico:o:orientacao:start|orientação]]. A radicalidade do eidos pressupõe uma radicalidade mais fundamental. Por quê? Porque o próprio objeto lógico me pode ser [[lexico:d:dado:start|dado]] confusa ou obscuramente, porque eu posso ter de tais leis, de tais relações lógicas "uma simples representação", vazia, formal, operatória. Na sexta Recherche logique Husserl mostra que a intuição lógica (ou [[lexico:c:categorial:start|categorial]]) não escapa a essa [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] simplesmente [[lexico:s:simbolica:start|simbólica]] a não ser quando é "fundada" na [[lexico:i:intuicao-sensivel:start|intuição sensível]]; trata-se de um retorno à tese kantiana segundo a qual o conceito sem intuição é [[lexico:v:vazio:start|vazio]]? Assim o creram os neokantianos. Deste modo no segundo tomo das Investigações Lógicas distinguimos dois movimentos entrelaçados, um dos quais, introduzindo a análise do [[lexico:v:vivido:start|vivido]] como fundamento de todo conhecimento, parece conduzir-nos ao psicologismo; o outro, perfilando a compreensão evidente do objeto ideal sobre o fundo da inluição da coisa [[lexico:s:sensivel:start|sensível]], parece dobrar a fenomenologia sobre as posições do [[lexico:k:kantismo:start|kantismo]]. Por outro lado, entre as duas vias definidas a cima, Husserl ingressa na segunda, e do "[[lexico:r:realismo:start|realismo]]" das essências parece deslizar para o [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]] do sujeito: "A análise do [[lexico:v:valor:start|valor]] dos princípios lógicos conduz às investigações centradas no sujeito" ([[lexico:l:logica-formal:start|Lógica Formal]] e Transcendental, 203). Parece, portanto, que nesse estágio teremos de escolher entre um idealismo concentrado sobre o eu [[lexico:e:empirico:start|empírico]] e um [[lexico:i:idealismo-transcendental:start|idealismo transcendental]] à maneira kantiana: mas nem um outro podia satisfazer a Husserl, o primeiro porque torna incompreensíveis proposições verdadeiras, reduzidas pelo psicologismo a estados de consciência não privilegiados e porque derrama no próprio fluxo dessa consciência, tudo junto, aquilo que vale e aquilo que não vale, destruindo assim a ciência e destruindo-se a [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] enquanto teoria universal; o segundo porque explica somente as condições [[lexico:a:a-priori:start|a priori]] do conhecimento [[lexico:p:puro:start|puro]] (matemática ou [[lexico:f:fisica:start|física]] puras) mas não as condições reais do conhecimento concreto: a "subjetividade" transcendental kantiana é simplesmente o conjunto das condições que regulam o conhecimento de iodo objeto possível em geral, o eu concreto é remetido ao nível do sensível como objeto ([[lexico:m:motivo:start|motivo]] pelo qual Husserl acusa [[lexico:k:kant:start|Kant]] de psicologismo) e o [[lexico:p:problema:start|problema]] de saber como a [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] real entra efetivamente no quadro apriorístico de todo conhecimento possível para permitir a elaboração das leis científicas particulares permanece sem resposta, pelos mesmos [[lexico:m:motivos:start|motivos]] que na [[lexico:c:critica-da-razao-pratica:start|Crítica da Razão Prática]] a [[lexico:i:integracao:start|integração]] da experiência [[lexico:m:moral:start|moral]] real nas condições a priori da [[lexico:m:moralidade:start|moralidade]] pura permanece insolúvel, segundo confissão do próprio Kant. Husserl conserva, portanto, o princípio de uma [[lexico:v:verdade:start|verdade]] fundada no objeto do conhecimento, mas rejeita a [[lexico:s:separacao:start|separação]] deste e do sujeito concreto; é nesta etapa que se liga a [[lexico:d:descartes:start|Descartes]]. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}