===== INVERSÃO COPERNICANA ===== Aqui chegamos àquilo que [[lexico:k:kant|Kant]] chama [[lexico:i:inversao-copernicana|inversão copernicana]], completando a [[lexico:a:analitica-transcendental|analítica transcendental]]. Kant compara sua [[lexico:r:revolucao|revolução]] filosófica com a realizada por Copérnico. Copérnico acha que o conjunto das observações astronômicas [[lexico:n:nao|não]] tem reta [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] [[lexico:p:possivel|possível]] se supomos que o [[lexico:s:sol|sol]] dá voltas ao redor da [[lexico:t:terra|Terra]] e que a terra é o centro do [[lexico:u:universo|universo]]; e se não existe interpretação reta possível com essa [[lexico:h:hipotese|hipótese]], Copérnico propõe-nos que invertamos os termos, que suponhamos que é o sol o centro do universo. Kant diz do mesmo [[lexico:m:modo|modo]]: se as condições elementares da [[lexico:o:objetividade|objetividade]] em [[lexico:g:geral|geral]], do [[lexico:s:ser|ser]] [[lexico:o:objeto|objeto]], não são, não podem ser enviadas a nós pelas [[lexico:c:coisas|coisas]], [[lexico:d:dado|dado]] que as coisas não nos enviam mais do que impressões, não há mais remédio senão agir do mesmo modo que Copérnico e dizer que são as coisas que se ajustam a nossos [[lexico:c:conceitos|conceitos]] e não nossos conceitos que se ajustam às coisas. As [[lexico:c:categorias|categorias]], por conseguinte, são conceitos, mas conceitos puros [[lexico:a:a-priori|a priori]], que não obtemos extraindo-os das coisas, mas que nós pomos, impomos às coisas. O que aqui intenta Kant é também eliminar por completo o resíduo de [[lexico:r:realismo|realismo]] aristotélico, e fixar a [[lexico:c:correlacao|correlação]] fundamental do [[lexico:s:sujeito|sujeito]] e o objeto no [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]]. O qvie ele pretende também aqui é dizer: o objeto do conhecimento não é objeto do conhecimento senão enquanto esta provido das condições do conhecimento. Pois [[lexico:b:bem|Bem]]; essas condições do conhecimento são o sujeito do conhecimento que as dá ao objeto, e torna a [[lexico:c:coisa|coisa]] em si como o objeto do conhecimento. Assim é que tanto o sujeito como o objeto do conhecimento são termos [[lexico:r:relativos|relativos]] que surgem no âmbito do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] [[lexico:h:humano|humano]] quando o [[lexico:h:homem|homem]], não contente em [[lexico:v:viver|viver]] como [[lexico:a:animal|animal]], quer conhecer. Quando o [[lexico:e:eu|eu]] [[lexico:p:psicologico|psicológico]], o eu das vivências, o eu de [[lexico:d:descartes|Descartes]], o eu dos ingleses, resolvem um [[lexico:b:belo|belo]] dia ser sujeito de conhecimento; ou [[lexico:d:dito|dito]] de um modo mais [[lexico:v:vulgar|vulgar]], quando o homem sente a [[lexico:c:curiosidade|curiosidade]] de [[lexico:s:saber|saber]] que são as coisas, no mesmo [[lexico:a:ato|ato]] em que o homem diz: que são as coisas? já este eu não é o eu biológico e [[lexico:n:natural|natural]], antes se torna sujeito de conhecimento, sujeito cognoscente. Que [[lexico:d:diferenca|diferença]] existe entre o sujeito cognoscente e o eu? O eu é a [[lexico:u:unidade|unidade]] vital de nosso ser, de nós mesmos; mas quando o eu se torna sujeito cognoscente, este ato de tornar-se sujeito cognoscente consiste em propor-se um objeto a conhecer. E [[lexico:e:esse|esse]] "propor-se um objeto a conhecer" não consiste em outra coisa senão em emprestar, em imprimir nas coisas por conhecer os [[lexico:c:caracteres|caracteres]] categóricos do ser, da [[lexico:s:substancia|substância]], da [[lexico:c:causalidade|causalidade]] etc. O animal caminha pelo [[lexico:m:mundo|mundo]] numa [[lexico:e:especie|espécie]] de semi-sonho, de [[lexico:c:consciencia|consciência]] obtusa, em que as impressões que recebo do mundo fazem dele e de seus instintos aquilo que uma [[lexico:l:lei|lei]] biológica fez. Mas o homem ergue-se por cima de tudo isto. Essas impressões múltiplas, essas vivências psicológicas, num determinado [[lexico:m:momento|momento]] o homem as tem, sim, mas se detém e diz: Que é? No mesmo momento de dizer: que é? se torna sujeito cognoscente e logo depois suas impressões tornam-se objeto para conhecer. Mas tornar as impressões objetos para conhecer não é outra coisa que as considerar sob a espécie da [[lexico:e:essencia|essência]], da substância etc. Dito de outra maneira: o [[lexico:f:fisico|físico]] é um homem que vive, que dorme, como todos os homens; que se levanta pela manhã e logo bebe uma xícara de chá. Passeia, e de repente, às dez horas, diz: "Vou ao meu laboratório." Nesse momento o eu do físico se torna sujeito cognoscente. Até [[lexico:a:agora|agora]] era um eu [[lexico:v:vivente|vivente]], [[lexico:n:nada|nada]] mais, mas então se torna sujeito cognoscente. Que significa isto? Significa que o físico, que leva no seu bolso a chave do seu laboratório, está de antemão, a priori, convencido, primeiro, de que há objetos: segundo, de que esses objetos têm uma essência, podem ser conhecidos; [[lexico:t:terceiro|terceiro]], de que estão submetidos a [[lexico:c:causa-e-efeito|causa e efeito]]; quarto, de que existem leis na [[lexico:n:natureza|natureza]], precisamente aquelas que vai descobrir no seu laboratório. Se o físico não estivesse previamente convencido disto, que [[lexico:s:sentido|sentido]] teriam os passos que dá rumo ao seu laboratório? Que sentido teria que se pusesse a fazer experimentos em seu laboratório? Logo essa [[lexico:c:conviccao|convicção]] prévia de que há objetos, de que os objetos têm essência, de que essa essência é cognoscível, de que esse conhecimento é por [[lexico:c:causas|causas]] e efeitos e de que há leis etc; essas convicções prévias são de tal natureza que, se o físico não as tivesse previamente, não se preocuparia em fazer [[lexico:f:fisica|física]], e não haveria física. Pois o que quer dizer Kant é que aquilo que o eu é, quando se torna sujeito cognoscente, o é em [[lexico:r:relacao|relação]] ao objeto a conhecer; e aquilo que o objeto a conhecer é quando deixa de ser mera [[lexico:s:sensacao|sensação]], [[lexico:s:simples|simples]] amontoado de impressões, para tornar-se objeto a conhecer, aquilo que o objeto a conhecer é, o é não "em si", mas em relação com o sujeito cognoscente. Então, nem o sujeito cognoscente é "em si", nem o objeto a conhecer é "em si", mas antes o sujeito cognoscente é tal para o objeto na [[lexico:f:funcao|função]] de conhecer, e o objeto a conhecer é tal para o sujeito cognoscente na função de conhecer, porém não "em si e [[lexico:p:por-si|por si]]". A pretensão de todos os anteriores filósofos idealistas foi considerar que, de algum modo, poder-se-ia penetrar no "em si", no eu em si, independentemente de ser sujeito cognoscente; ou na coisa em si, independentemente de ser objeto a conhecer. Examinavam, pois, as coisas os filósofos anteriores e descobriam nelas a objetividade, a essencialidade, a causalidade, a unidade, a [[lexico:p:pluralidade|pluralidade]], a [[lexico:a:acao-reciproca|ação recíproca]], a [[lexico:t:totalidade|totalidade]], todas as categorias. E acreditavam que as categorias eram propriedades das coisas em si mesmas. Todavia, são propriedades das coisas enquanto se tornam objeto a conhecer, mas não em si mesmas. Dirigiam-se depois ao sujeito e diziam: eu existo. Para Kant, o eu se torna unidade, sujeito cognoscente, quando recebe ele também essas categorias de unidade, de pluralidade, de [[lexico:c:causa|causa]] e substância, e entra na relação do conhecimento. Nem o sujeito cognoscente, nem o objeto conhecido ou para conhecer são em si senão fenômenos, no dizer de Kant. Com isso estamos já plenamente no [[lexico:a:autentico|autêntico]] e [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] [[lexico:i:idealismo-transcendental|idealismo transcendental]].