===== INTUIÇÃO EM BERGSON ===== Para [[lexico:b:bergson|Bergson]] a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] [[lexico:n:nao|não]] pode [[lexico:t:ter|ter]] [[lexico:o:outro|outro]] [[lexico:m:metodo|método]] que o da [[lexico:i:intuicao|intuição]]. Qualquer outro método que não seja a intuição falsearia radicalmente a [[lexico:a:atitude|atitude]] filosófica. Por quê? Porque Bergson contrapõe (até que [[lexico:p:ponto|ponto]] com [[lexico:v:verdade|verdade]], isso não vou discuti-lo [[lexico:a:agora|agora]]) a [[lexico:a:atividade|atividade]] intelectual e a atividade [[lexico:i:intuitiva|intuitiva]]. Para Bergson a atividade intelectual consiste em fazer o que fazem os [[lexico:c:cientistas|cientistas]]; consiste em fazer o que fazem os homens na [[lexico:v:vida|vida]] ordinária; consiste em tomar as [[lexico:c:coisas|coisas]] como coisas inertes, estáticas, compostas de [[lexico:e:elementos|elementos]] que se podem decompor e recompor, como o relojoeiro decompõe e recompõe um relógio. O cientista, o economista, o banqueiro, o comerciante, o engenheiro, tratam a [[lexico:r:realidade|realidade]] que têm diante de si como um [[lexico:m:mecanismo|mecanismo]] cujas bases se podem desconjuntar e logo tornar [[lexico:a:a-se|a se]] juntar. O cientista, o matemático, considera as coisas que têm diante de si como coisas inertes, que estão aí, esperando que ele chegue para dividi-las em partes e fixar para cada [[lexico:e:elemento|elemento]] suas equações definidoras e logo reconstruir essas equações. Segundo Bergson, este [[lexico:a:aspecto|aspecto]] da realidade que o [[lexico:i:intelecto|intelecto]], a [[lexico:i:inteligencia|inteligência]], estuda desta maneira, é o aspecto superficial e [[lexico:f:falso|falso]] da realidade. Debaixo dessa realidade [[lexico:m:mecanica|mecânica]] que pode se decompor e recompor à [[lexico:v:vontade|vontade]], debaixo dessa realidade que ele chama realidade já feita, está a mais profunda e autêntica realidade, que é uma realidade que se faz, que é uma realidade [[lexico:i:impossivel|impossível]] de decompor em elementos comutáveis, que é uma realidade fluente, que é que é, por conseguinte, uma realidade no fluir do [[lexico:t:tempo|tempo]], que se escapa das [[lexico:m:maos|mãos]] tão logo queremos aprisioná-la; como quando jogamos água numa cesta de vime e ela escapa pelas aberturas. Do mesmo [[lexico:m:modo|modo]], para Bergson o intelecto realiza sobre essa realidade profunda e movediça uma [[lexico:o:operacao|operação]] primária que consiste em solidificá-la, em detê-la, em transformar o fluente em inerte. Deste modo facilita-se a [[lexico:e:explicacao|explicação]], porque, tendo transformado o [[lexico:m:movimento|movimento]] em imobilidade, decompõe-se o movimento em uma [[lexico:s:serie|série]] infinita de pontos imóveis. Por isso, para Bergson, [[lexico:z:zenao|Zenão]] de Eléa, o famoso autor dos argumentos contra o movimento, terá [[lexico:r:razao|razão]] no terreno da intelectualidade, e não terá jamais razão no terreno da intuição [[lexico:v:vivente|vivente]]. A intuição vivente tem por missão abrir passagem através dessas concreções do intelecto, para usar uma [[lexico:m:metafora|metáfora]]. A primeira [[lexico:c:coisa|coisa]] que fez o intelecto foi congelar o rio da realidade, convertê-lo em gelo sólido, para poder entendê-lo e manejá-lo melhor; porém falseia-o ao transformar o líquido em sólido, porque a verdade é que, por baixo, é líquido, e o que tem que fazer a intuição é romper esses artificiais blocos de gelo [[lexico:m:mecanico|mecânico]] para chegar à fluência mesma da vida, que corre sob essa realidade mecânica. A missão da intuição é, pois, essa: opor-se à [[lexico:o:obra|obra]] do intelecto, ou daquilo que Bergson chama o [[lexico:p:pensamento|pensamento]], ia pensée. Por isso, no seu [[lexico:u:ultimo|último]] livro chegou talvez ao máximo refinamento na [[lexico:h:historia-da-filosofia|história da filosofia]], que consiste em ter colocado no titulo mesmo do seu livro a última [[lexico:e:essencia|essência]] do seu pensamento: Intitula-o La pensée et le mouvant: "O pensamento e o movente". Intelectual é o pensamento. Mas o aspecto [[lexico:p:profundo|profundo]] e [[lexico:r:real|real]] é o movimento, a continuidade do fluir do mudar, ao qual só por intuição podemos chegar. Por isso, para Bergson, a metáfora literária é o [[lexico:i:instrumento|instrumento]] mais [[lexico:a:apropriado|apropriado]] para a [[lexico:e:expressao-filosofica|expressão filosófica]]. O [[lexico:f:filosofo|filósofo]] não pode fazer definições porque as definições se referem ao [[lexico:e:estatico|estático]], ao [[lexico:q:quieto|quieto]], ao imóvel, ao mecânico e ao intelectual. Mas a verdade última é o movente e fluente que há debaixo do estático, e a essa verdade não se pode chegar por [[lexico:m:meio|meio]] de definições intelectuais: a única coisa que pode fazer o filósofo é mergulhar nessa realidade profunda; e logo, quando voltar à superfície, tomar a [[lexico:p:pena|pena]] e escrever, procurando, por meio de metáforas e sugestões de [[lexico:c:carater|caráter]] [[lexico:a:artistico|artístico]] e literário, levar o leitor a verificar por sua vez essa mesma intuição que o autor verificou antes dele. A filosofia de Bergson é um constante convite para que o leitor seja também filósofo e faça também ele as mesmas intuições.