===== INTUIÇÃO DAS ESSÊNCIAS ===== Tal é, nas suas grandes linhas, a doutrina fenomenológica de [[lexico:h:husserl|Husserl]]. Na [[lexico:o:origem|origem]], afirma-se como [[lexico:r:reacao|reação]] categórica contra o [[lexico:n:nominalismo|nominalismo]] saído do [[lexico:k:kantismo|kantismo]] e do [[lexico:p:positivismo|positivismo]] comtista. Procura, com [[lexico:e:efeito|efeito]], [[lexico:p:por|pôr]] a descoberto essa [[lexico:v:verdade|verdade]] fundamental que afirma o [[lexico:c:concreto|concreto]] ( ou, se quisermos, o [[lexico:f:fato|fato]] [[lexico:s:sensivel|sensível]] ) como sendo o [[lexico:u:unico|único]] [[lexico:d:dado|dado]] de fato. A [[lexico:e:essencia|essência]] pode tornar-se [[lexico:o:objeto|objeto]] de um [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] cientifico e fundar a [[lexico:c:ciencia|ciência]] [[lexico:m:metafisica|metafísica]]. Esta ciência terá como [[lexico:p:processo|processo]] a [[lexico:r:reducao-eidetica|redução eidética]], ou seja, a consideração exclusiva da essência dada no [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] [[lexico:e:empirico|empírico]] [[lexico:s:singular|singular]]. Sob este [[lexico:a:aspecto|aspecto]], que é [[lexico:e:essencial|essencial]] à [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]], a doutrina de Husserl opõe-se nitidamente à de [[lexico:b:bergson|Bergson]]. A fenomenologia apresenta-se, indubitavelmente, como ciência da [[lexico:c:consciencia|consciência]], que ela pretende aprofundar até ao seu [[lexico:p:principio|princípio]] [[lexico:a:absoluto|absoluto]], e, por isso, poderíamos [[lexico:s:ser|ser]] levados a [[lexico:p:pensar|pensar]] que a fenomenologia vai assim ao encontro do [[lexico:b:bergsonismo|bergsonismo]]. [[lexico:e:esse|esse]] encontro, porém, é apenas de [[lexico:o:ordem|ordem]] [[lexico:a:aparente|aparente]], porque os processos a seguir são inteiramente diferentes dos dois casos : a [[lexico:i:intuicao|intuição]] concreta do bergsonismo conduz apenas, segundo o [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista husserliano, a um [[lexico:p:psicologismo|psicologismo]] e [[lexico:n:nao|não]] tem [[lexico:n:nada|nada]] de comum com a Wesenschau da fenomenologia. Foi sobretudo com a intuição tomista que se pretendeu [[lexico:c:comparar|comparar]] a [[lexico:i:intuicao-fenomenologica|intuição fenomenológica]]. Ambas são [[lexico:i:intuicao-das-essencias|intuição das essências]], diz-se, por vezes. No entanto, a [[lexico:d:diferenca|diferença]] entre elas é grande. Em primeiro [[lexico:l:lugar|lugar]], a intuição das [[lexico:e:essencias|essências]], no [[lexico:t:tomismo|tomismo]], é sempre imperfeita, porque o [[lexico:c:conceito|conceito]] não é considerado como algo que se baste a si [[lexico:p:proprio|próprio]], nem como [[lexico:c:coisa|coisa]] completa : e o conceito não se basta a si próprio, porque, para S. Tomás, nunca representa uma [[lexico:r:realidade|realidade]] [[lexico:a:atual|atual]] ; como tal, nunca é qualquer coisa acabada ou completa, porque nunca representa o objeto por inteiro, uma vez que abstrai da [[lexico:q:quantidade|quantidade]] (ou da [[lexico:i:individualidade|individualidade]] ) e da [[lexico:e:existencia|existência]]. Assim se exprime a doutrina da [[lexico:a:abstracao|abstração]], e é isto que faz da doutrina tomista mais uma [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] das existências do que uma filosofia das essências. — Na fenomenologia, as [[lexico:c:coisas|coisas]] passam-se de outra maneira : a inclusão parentética [[lexico:t:transcendental|transcendental]], transforma a fenomenologia rigorosamente numa filosofia das essências, que desde logo ficam a bastar-se a si mesmas e são realidades completas, sem [[lexico:r:referencia|referência]] à existência, a qual não intervém, em fenomenologia, senão como fenômeno e dado de consciência e nunca como realidade « em si». A Wesenschau será, portanto, teoricamente, uma intuição completa e exaustiva do objeto, devendo, segundo parece, implicar um [[lexico:i:idealismo|Idealismo]] radical, ao passo que, para S. Tomás — estando a existência necessariamente no ponto de partida e sendo anterior à [[lexico:a:apreensao|apreensão]] de uma dada essência, que, aliás, permanece sempre relacionada com a existência ( Nihil este in intellectu quin prius fuerit in sensu) — a [[lexico:i:intuicao-intelectual|intuição intelectual]] dará origem a um [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] [[lexico:r:realismo|realismo]], que estabelece como [[lexico:t:tese|tese]] essencial a [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] de que a [[lexico:i:inteligibilidade|inteligibilidade]] intrínseca (sob o ponto de vista da essência) [[lexico:p:parte|parte]] da existência, da qual é uma [[lexico:d:determinacao|determinação]], e, simultaneamente, conduz de novo à existência (ou ao [[lexico:s:sujeito|sujeito]]^), que é o próprio [[lexico:t:termo|termo]] do [[lexico:j:juizo|juízo]]. Ponderando [[lexico:b:bem|Bem]] as coisas, a intuição que mais se deverá aproximar da intuição fenomenológica é a cartesiana. De resto, é o próprio Husserl que a tal nos induz explicitamente nas suas Meditações cartesianas. A intuição das Regulae incide, com efeito, sobre as essências puras ou sobre as naturezas singulares congênitas ao [[lexico:e:espirito|espírito]]. O [[lexico:u:universo|universo]] cartesiano não é senão um universo de fenômenos e a existência, em [[lexico:d:descartes|Descartes]], tal como na fenomenologia, só tem [[lexico:v:valor|valor]] como fenômeno, porquanto a [[lexico:r:relacao|relação]] entre as essências, percebidas pelo [[lexico:e:entendimento|entendimento]], e a existência «objetiva » só pode ser extrínseca ou fundada na [[lexico:g:garantia|garantia]] da [[lexico:v:veracidade|veracidade]] divina. Se o [[lexico:m:mundo|mundo]] das essências, de fato, não se basta, pelo menos, de [[lexico:d:direito|direito]], poderia bastar-se. A divergência fundamental entre Descartes e Husserl está em que Descartes se detém no [[lexico:e:eu|eu]] empírico como num absoluto, enquanto que Husserl leva muito mais longe a [[lexico:r:reducao|redução]] fenomenológica, chegando até a um [[lexico:e:ego|ego]] transcendental, princípio de [[lexico:t:todo|todo]] o universo [[lexico:s:subjetivo|subjetivo]] e, indo ainda mais longe, até ao Ego constituinte [[lexico:u:universal|universal]].