===== INTERROGAÇÃO ===== Ganharíamos [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]] exprimindo o [[lexico:s:sentido|sentido]] sob uma [[lexico:f:forma|forma]] interrogativa, de preferência a uma infinitiva ou participial (“[[lexico:d:deus|Deus]] é?”, de preferência a Deus-ser ou o [[lexico:e:ente|ente]] de Deus)? À primeira vista, o ganho é pequeno. Mas ele é pequeno porque uma interrogação é sempre calcada sobre respostas passíveis de serem dadas, sobre respostas prováveis ou possíveis. Ela própria é, pois, o duplo neutralizado de uma [[lexico:p:proposicao|proposição]] que se supõe preexistente, que pode ou deve servir de resposta. O orador põe toda sua [[lexico:a:arte|arte]] na construção de interrogações que estejam em conformidade com as respostas que ele quer suscitar, isto é, com as proposições de que ele nos quer convencer. E mesmo quando ignoramos a resposta, nós apenas interrogamos supondo-a já dada, preexistindo, de [[lexico:d:direito|direito]], numa outra [[lexico:c:consciencia|consciência]]. Eis por que a interrogação, de [[lexico:a:acordo|acordo]] com sua etimologia, é sempre feita no quadro de uma [[lexico:c:comunidade|comunidade]]: interrogar implica [[lexico:n:nao|não]] só um [[lexico:s:senso-comum|senso comum]], mas um [[lexico:b:bom-senso|bom senso]], uma [[lexico:d:distribuicao|distribuição]] do [[lexico:s:saber|saber]] e do [[lexico:d:dado|dado]] em [[lexico:r:relacao|relação]] às consciências empíricas, de acordo com suas situações, seus pontos de vista, suas funções e suas competências, de tal maneira que uma consciência é tida como já sabendo o que a outra ignora (que horas são — você, que tem ou que está junto de um relógio. Quando nasceu César? — você, que conhece [[lexico:h:historia|história]] romana). Apesar desta imperfeição, a [[lexico:f:formula|fórmula]] interrogativa não deixa de [[lexico:t:ter|ter]] uma [[lexico:v:vantagem|vantagem]]: ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] em que nos convida a considerar a proposição correspondente como uma resposta, ela nos abre uma nova via. Uma proposição concebida como resposta é sempre um caso [[lexico:p:particular|particular]] de solução, considerado por [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] abstratamente, separado da [[lexico:s:sintese|síntese]] [[lexico:s:superior|superior]] que o relacionaria, juntamente com outros casos, a um [[lexico:p:problema|problema]] enquanto problema. A interrogação, por sua vez, exprime, portanto, a maneira pela qual um problema é desmembrado, cunhado, traído na [[lexico:e:experiencia|experiência]] e pela consciência, de acordo com seus casos de solução apreendidos como diversos. Embora nos dê uma [[lexico:i:ideia|ideia]] insuficiente, ela nos inspira, assim, o pressentimento do que ela desmembra. [DeleuzeDR:256-257]