===== INTELIGÊNCIA E VONTADE ===== A [[lexico:i:inteligencia-e-vontade|inteligência e vontade]], que são duas potências unidas, agem igualmente, uma sobre a outra como veremos. Mas o que antes preocupa [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]] é [[lexico:s:saber|saber]] qual das duas tem a superioridade (cf. Ia Pa, q. 82, a. 3; De Verit q. 22 a. 11). Numa primeira consideração, parece que a [[lexico:v:vontade|vontade]] detém este [[lexico:p:primado|primado]]. Com [[lexico:e:efeito|efeito]]: 1. , a [[lexico:d:dignidade|dignidade]] de uma [[lexico:f:faculdade|faculdade]] depende, ao que parece, da dignidade de seu ([[lexico:o:objeto|objeto]]. Ora, o objeto da vontade, o [[lexico:b:bem|Bem]], que significa o [[lexico:s:ser|ser]] na sua plenitude de [[lexico:p:perfeicao|perfeição]], e concluindo em [[lexico:p:particular|particular]] o [[lexico:a:ato|ato]] [[lexico:u:ultimo|último]] de [[lexico:e:existir|existir]], é mais [[lexico:p:perfeito|perfeito]] que o [[lexico:o:objeto-da-inteligencia|objeto da inteligência]], o [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]], que é mais [[lexico:a:abstrato|abstrato]]; 2. , pondo em [[lexico:m:movimento|movimento]] a [[lexico:i:inteligencia|inteligência]], a vontade parece dominá-la; tem, com efeito, por objeto o bem ou o [[lexico:f:fim|fim]] que é a primeira das [[lexico:c:causas|causas]]; 3. , no [[lexico:p:plano|plano]] [[lexico:s:sobrenatural|sobrenatural]], fundando-nos sobre o [[lexico:t:testemunho|testemunho]] de S. Paulo, devemos dizer que o [[lexico:h:habito|hábito]] mais perfeito, a [[lexico:c:caridade|caridade]], encontra-se na vontade: "maior autem horum est [[lexico:c:caritas|caritas]]..." Ora, convém que haja proporção entre os hábitos e as [[lexico:f:faculdades|faculdades]] que eles determinam. A vontade, [[lexico:s:sujeito|sujeito]] da caridade, [[lexico:n:nao|não]] pode deixar de ser, portanto, a mais perfeita das potências. Todavia, para Tomás de Aquino, absolutamente falando, a inteligência é [[lexico:s:superior|superior]] à vontade (Cf. o comentário de Caetano sobre o art. citado e João de Tomás de Aquino, [[lexico:d:de-anima|De anima]], q. XII a. 5). Sua [[lexico:a:argumentacao|argumentação]] pode ser condensada nestas duas fórmulas: - Uma [[lexico:c:coisa|coisa]] é tanto mais elevada, quanto mais [[lexico:s:simples|simples]] e mais abstrata. . . "quanto autem aliquid est simplicius et abstractius, tanto, secundum se, est nobilius et altius". - Ora, o objeto da inteligência é mais simples e mais [[lexico:a:absoluto|absoluto]] que o da vontade... "Objectum enim intelectus est simplicius et magis [[lexico:a:absolutum|absolutum]] quam objetum voluntatis." A primeira destas fórmulas é apenas uma aplicação da doutrina [[lexico:g:geral|geral]] da [[lexico:i:imaterialidade|imaterialidade]] como [[lexico:f:fundamento|fundamento]] do [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]]: quanto mais imaterial o [[lexico:m:modo|modo]] de um objeto, tanto mais [[lexico:a:atual|atual]] e perfeito, e tanto mais a potencialidade que a ele se relaciona é purificada de potencialidade e perfeita. Ora, segunda [[lexico:f:formula|fórmula]], o objeto da inteligência, que é a "[[lexico:q:quididade|quididade]]", é mais abstrato e mais imaterial e, portanto, mais absoluto e mais elevado que o da ;vontade, o bem, que envolve o ser em toda a sua [[lexico:r:realidade|realidade]] concreta. No De Veritate (q. 22, a. 11) Tomás de Aquino faz valer uma outra [[lexico:r:razao|razão]]. Colocando-se sob o prisma do modo da [[lexico:g:geracao|geração]], de onde resulta para o ato intelectual uma tomada de [[lexico:p:posse|posse]] mais íntima do objeto, conclui pelo primado da faculdade de conhecer. O objeto que conhece, com efeito, torna-se presente na própria faculdade de conhecer, enquanto que o objeto que [[lexico:d:desejo|desejo]] permanece fora de mim. Ora, é mais digno possuir em si algo de eminente que [[lexico:e:estar|estar]] relacionado do [[lexico:e:exterior|exterior]] com a perfeição desta coisa: "perfectius autem est... habere in se nobilitatem alterius rei, quam ad rem nobilem comparari extra se existentem". A [[lexico:a:assimilacao|assimilação]] cognitiva é, pois, mais perfeita que a [[lexico:u:uniao|união]] afetiva. Com uma perfeita [[lexico:l:logica|lógica]], no tratado da [[lexico:f:felicidade|felicidade]] (cf. Ia, IIa, q. 3 a. 4), Tomás de Aquino deduzirá que a felicidade soberana consiste formalmente não em um ato de vontade, ou na [[lexico:f:fruicao|fruição]] afetiva que é só uma [[lexico:c:consequencia|consequência]], mas no conhecimento mesmo ou na [[lexico:v:visao-de-deus|visão de Deus]]. A deleitação da vontade é, todavia, um acompanhamento [[lexico:n:necessario|necessário]] e [[lexico:e:essencial|essencial]] da tomada de posse, pela nossa faculdade de conhecimento, de nosso fim último. Seria por demais longo entrar nas discussões que surgiram em torno desta [[lexico:q:questao|questão]] do primado de uma ou outra de nossas faculdades espirituais. A [[lexico:e:escola|escola]] escotista é pela superioridade da vontade e muitos seguem esta via. Os argumentos dados acima permanecem, contudo, em sua firmeza [[lexico:m:metafisica|metafísica]]. Está fora de [[lexico:d:duvida|dúvida]], por [[lexico:o:outro|outro]] lado, que adotando este modo de [[lexico:v:ver|ver]], Tomás de Aquino foi fiel a [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] que, bem claramente, em seus estudos sobre a felicidade soberana ([[lexico:e:etica|Ética]] a Nic. 1, 10), dá o primado ao conhecimento, sendo o [[lexico:p:prazer|prazer]] um [[lexico:e:elemento|elemento]] de acréscimo que se junta ao ato de [[lexico:c:contemplacao|contemplação]] "como a [[lexico:b:beleza|beleza]] para os que estão na flor da juventude". Há todavia um caso em que a vontade arrebata à inteligência o primado, quando o objeto que atinge é mais elevado do que [[lexico:o:o-que-e|o que é]] captado pela inteligência. Ora, praticamente isto se realiza para todos os objetos que estão acima da [[lexico:a:alma|alma]], especialmente, para [[lexico:d:deus|Deus]]; donde se conclui, para esta [[lexico:v:vida|vida]], pelo primado da caridade. Definitivamente, com Tomás de Aquino, concluir-se-á: "o [[lexico:a:amor|amor]] de Deus é melhor que o conhecimento que dele se tem; pelo contrário, o conhecimento das [[lexico:c:coisas|coisas]] corporais é melhor que seu amor; absolutamente falando, todavia, a inteligência é mais nobre que a vontade". (Cf. [[lexico:t:texto|texto]] XIII. Superioridade da inteligência sobre a vontade, pág. 226).