===== INTELECTO ATIVO ===== VIDE [[lexico:i:intelecto-agente:start|intelecto agente]] (gr. [[lexico:n:nous:start|noûs]] [[lexico:p:poietikos:start|poietikos]]; lat. intellectus agens; in. Active intellect; fr. Intellect actif, al. Active Intellekt; it. Intellettoattivó). [[lexico:n:nocao:start|Noção]] de [[lexico:o:origem:start|origem]] aristotélica que deu [[lexico:l:lugar:start|lugar]] a um [[lexico:p:problema:start|problema]] longamente debatido pelos antigos comentadores de [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]], pela [[lexico:e:escolastica:start|escolástica]] árabe, pela escolástica cristã e pelo [[lexico:a:aristotelismo:start|aristotelismo]] renascentista. O problema nasce da [[lexico:d:distincao:start|distinção]] feita entre [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]] potencial e intelecto [[lexico:a:atual:start|atual]]. "Assim como, em toda a [[lexico:n:natureza:start|natureza]]" — diz Aristóteles —, "existe [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]] que serve de [[lexico:m:materia:start|matéria]] a cada [[lexico:g:genero:start|gênero]] e alguma [[lexico:c:coisa:start|coisa]] que é [[lexico:c:causalidade:start|causalidade]] e [[lexico:a:atividade:start|atividade]], também na [[lexico:a:alma:start|alma]] deve necessariamente haver estas duas [[lexico:c:coisas:start|coisas]] diferentes. De [[lexico:f:fato:start|fato]], de um lado está o intelecto que tem a potencialidade de [[lexico:s:ser:start|ser]] todos os objetos e do [[lexico:o:outro:start|outro]] lado está o intelecto que os produz, que se comporta como a [[lexico:l:luz:start|luz]]: esta também permite que passem ao [[lexico:a:ato:start|ato]] as cores que estão apenas em [[lexico:p:potencia:start|potência]]. [[lexico:e:esse:start|esse]] intelecto é isolado, impassível e sem mescla, pois sua [[lexico:s:substancia:start|substância]] é a própria [[lexico:a:acao:start|ação]]" (Dean., III, 5, 430 a 10). Aristóteles acrescenta que só este intelecto atual e ativo é "imortal e [[lexico:e:eterno:start|eterno]]". Donde o problema: ele pertenceria à alma humana ou, graças à sua incorruptibilidade, faria [[lexico:p:parte:start|parte]] da [[lexico:e:eternidade:start|Eternidade]] e da [[lexico:a:atualidade:start|atualidade]] perfeita, da divindade? Foram três as principais soluções para esse problema: 1) [[lexico:s:separacao:start|Separação]] entre [[lexico:i:intelecto-ativo:start|intelecto ativo]] e alma humana. Esta é a solução defendida na [[lexico:a:antiguidade:start|antiguidade]] pelo comentador de Aristóteles, Alexandre de Afrodísia (séc. II), que identificou o intelecto ativo com a [[lexico:c:causa-primeira:start|causa primeira]], com [[lexico:d:deus:start|Deus]]. Assim, pertenceriam à alma humana: a) intelecto [[lexico:f:fisico:start|físico]] ou material (ílico), que é o intelecto potencial, [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] ao [[lexico:h:homem:start|homem]] que é capaz de aprender uma [[lexico:a:arte:start|arte]] mas que ainda [[lexico:n:nao:start|não]] a domina; b) intelecto [[lexico:a:adquirido:start|adquirido]] (epiktetikos, adeptus), que é o aperfeiçoamento ou a completitude do anterior, o conjunto das habilidades próprias no homem educado, semelhante ao [[lexico:a:artista:start|artista]] que chegou a dominar sua arte (Dean., I, ed. Bruns., p. 138-39). Essa solução, negando à alma humana o [[lexico:u:unico:start|único]] intelecto imortal e eterno que é o ativo, por um lado nega a [[lexico:i:imortalidade-da-alma:start|imortalidade da alma]] e por outro acentua a dependência da atividade intelectual humana em [[lexico:r:relacao:start|relação]] aos sentidos. Reaparece com frequência na [[lexico:h:historia-da-filosofia:start|história da filosofia]]. É retomada pelo neo-platonismo árabe, com Al Kindi (séc. IX), Al Farabi (séc. IX) e [[lexico:a:avicena:start|Avicena]] (séc. XI); este [[lexico:u:ultimo:start|último]], todavia, não achava que essa solução contrariasse a [[lexico:i:imortalidade:start|imortalidade]] da alma, pois admitia que a dependência da alma em relação ao intelecto ativo, logo em relação a Deus, se mantivesse mesmo depois da separação entre alma e [[lexico:c:corpo:start|corpo]], bastando isso para conferir a imortalidade à alma (De an., 10). Essa doutrina também era aceita por Ib Bagia (séc. XII), Moisés Ben Maimon ([[lexico:m:maimonides:start|Maimônides]], séc. XII), o mais famoso dos filósofos judaicos da Idade Média (Guide des égarés, I, 50-52) e por Roger [[lexico:b:bacon:start|Bacon]] (Opus maius, ed. Bridges, p. 143). No [[lexico:r:renascimento:start|Renascimento]], essa solução foi defendida por Pietro Pomponazzi, que insistia nas condições sensíveis do funcionamento do intelecto [[lexico:h:humano:start|humano]] e considerava [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] a [[lexico:d:demonstracao:start|demonstração]] da imortalidade (De immortalitate animae, 9). 2) A separação entre intelecto ativo e [[lexico:i:intelecto-passivo:start|intelecto passivo]] na alma humana. Esta foi a solução proposta por Averróis. O intelecto material ou ílico, que os defensores da solução anterior atribuíam ao homem, também é considerado por Averróis separado da alma humana. Na alma humana, o intelecto material [[lexico:n:nada:start|nada]] mais é que uma [[lexico:s:simples:start|simples]] [[lexico:d:disposicao:start|disposição]] transmitida pelo intelecto ativo, e mais exatamente uma disposição a abstrair [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] e verdades [[lexico:u:universais:start|universais]] de imagens sensíveis. Portanto, ao homem só resta o intelecto adquirido, que Averróis denomina também especulativo e que consiste no [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] das verdades universais (Dean., foi. 165a). Essa doutrina é [[lexico:t:tipica:start|típica]] do [[lexico:a:averroismo:start|averroísmo]] medieval: foi defendida por [[lexico:s:siger-de-brabante:start|Siger de Brabante]] (séc. XIII) na [[lexico:o:obra:start|obra]] [[lexico:d:de-anima:start|De anima]] intellectiva (editado em Mandonnet, Siger de Brabant et l’averroisme latin au XIIe siècle, II, Lovaina, 1908). Essa solução teve numerosos seguidores no aristotelismo do Renascimento (cf. [[lexico:b:bruno:start|Bruno]] Nardi, Sigieri di Brabante nel pensiero dei Rinascimento italiano, 1945). 3) [[lexico:u:unidade:start|unidade]] do intelecto ativo e [[lexico:p:passivo:start|passivo]] com a alma humana. Esta [[lexico:t:tese:start|tese]] foi sustentada no séc. IV pelo comentador de Aristóteles Temísio (De an., 103, 6; trad. it. p. 233), em polêmica com Alexandre, e mais [[lexico:t:tarde:start|Tarde]] (séc. IV) pelo outro comentador Simplício, também neoplatônico. Foi retomada no séc. XIII, durante a polêmica contra o averroísmo que se deu na escolástica latina daquele [[lexico:t:tempo:start|tempo]]. [[lexico:a:alberto-magno:start|Alberto Magno]] e [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]] opõem-se à separação entre intelecto de alma, defendida por Averróis e Alexandre. Admitem que, acima da alma humana, está o intelecto separado de Deus, mas acham que o homem participa desse intelecto e que o intelecto ativo faz parte da sua alma como uma luz acesa pelo intelecto [[lexico:d:divino:start|divino]] (Alberto, De intellectu et intelligibili, II, 1-2; Tomás de Aquino, S. Th., I, q. 79, a. 4). Provavelmente foi contra uma obra de Siger que Tomás de Aquino escreveu De unitate intellectus contra averroístas, cuja resposta se encontra em De [[lexico:a:anima:start|anima]] intellectiva, de Siger. A principal [[lexico:o:objecao:start|objeção]] de Tomás de Aquino é que, se o intelecto fosse uma substância separada, [[lexico:q:quem:start|quem]] entenderia não seria o homem, mas essa substância, ao que Siger responde que o intelecto não age no homem como um motor, mas operans in operando, ou seja, como [[lexico:p:principio:start|princípio]] diretivo de sua atividade. No Renascimento, foi sobretudo Marsílio Ficino quem defendeu a unidade do I, com a alma humana ([[lexico:t:theologia:start|theologia]] platonica, XV, 14). O problema do intelecto ativo é específico do aristotelismo e não tem [[lexico:s:sentido:start|sentido]] fora dele. Portanto, deixa de ser debatido quando o aristotelismo deixa de determinar os rumos gerais da [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]]. Já entre o [[lexico:f:fim:start|fim]] do séc. XIII e o início do séc. XIV existem filósofos que negam explicitamente o intelecto ativo e evitam, portanto, propor-se esse problema. Durand de S. Pourçain diz que, assim como não se supõe um "sentido ativo", é inútil supor um intelecto ativo (In Sent., I, d. 3, q. 5 26), e Ockham afirma que a [[lexico:f:funcao:start|função]] de abstrair, atribuída ao intelecto ativo, desenrola-se naturaliter, como [[lexico:e:efeito:start|efeito]] das noções sensíveis e não exige o intelecto ativo, cuja noção, portanto, só tem apoio na [[lexico:a:autoridade:start|autoridade]] de santos e filósofos (In Sent., II, q. 25). Esse [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista prevaleceu desde os primórdios da [[lexico:f:filosofia-moderna:start|filosofia moderna]], que abandona completamente essa [[lexico:q:questao:start|questão]]. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}