===== INTELECTO AGENTE ===== A [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] humana, [[lexico:p:potencia:start|potência]] espiritual, tem por [[lexico:o:objeto:start|objeto]] a [[lexico:q:quididade:start|quididade]] das [[lexico:c:coisas:start|coisas]] sensíveis. Entre esses dois termos há clara [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] de nível noético, o que pode levar, no funcionamento de nossa [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] [[lexico:s:superior:start|superior]], a uma certa [[lexico:c:complicacao:start|complicação]]. Para proceder com [[lexico:o:ordem:start|ordem]] consideraremos sucessivamente: - O [[lexico:i:intelecto-agente:start|intelecto agente]] e a [[lexico:a:abstracao:start|abstração]] do [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]]. - O [[lexico:i:intelecto-possivel:start|intelecto possível]] e a recepção da "[[lexico:s:species:start|species]]". **Papel da "species" no [[lexico:a:ato:start|ato]] intelectual.** Portanto, uma vez informado, o [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]] [[lexico:p:possivel:start|possível]] encontra-se pronto para passar a seu ato. Como vai este se produzir? Pela [[lexico:a:atividade:start|atividade]] da faculdade enquanto está objetivamente determinada pela "species". Toda [[lexico:a:acao:start|ação]] em seu [[lexico:p:principio:start|princípio]] supõe, com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], uma potência e uma [[lexico:f:forma:start|forma]]; a potência já está dada e a forma outra [[lexico:c:coisa:start|coisa]] [[lexico:n:nao:start|não]] é que a "species" recebida: estão assim realizadas as condições da atividade cognitiva. Do que acaba de [[lexico:s:ser:start|ser]] [[lexico:d:dito:start|dito]] segue-se que a "species", ou a forma do objeto recebida na inteligência, não é de [[lexico:m:modo:start|modo]] algum "o que" é conhecido, [[lexico:q:quod:start|quod]] cognoscitur, mas somente "o que por [[lexico:m:meio:start|meio]] do qual" se conhece, [[lexico:q:quo:start|quo]] cognoscitur (cf. Ia Pa, q. 85, a. 2). [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] diretamente atingido é o objeto ou a coisa mesma; a "species" só por uma atividade reflexiva é captada no princípio do ato. Voltaremos a isso. A "species" não é, pois, o objeto que efetivamente conhecemos. Segue-se daí que não tenha com ele nenhuma [[lexico:r:relacao:start|relação]]? Pelo contrário. Sua [[lexico:f:funcao:start|função]] mesma é unir o objeto à inteligência ou tornar-lhe presente. Consegue isto porque é uma [[lexico:s:semelhanca:start|semelhança]] dele sendo-lhe [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]], pode substituí-lo em nosso [[lexico:e:espirito:start|espírito]]. [[lexico:e:empedocles:start|Empédocles]], com o seu [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] do semelhante pelo semelhante, está na [[lexico:o:origem:start|origem]] desta concepção. Todavia, contrariamente ao que ele pensava, a semelhança em [[lexico:q:questao:start|questão]] não deve ser entendida como uma [[lexico:r:reduplicacao:start|reduplicação]] material, mas como uma [[lexico:r:reproducao:start|reprodução]] de ordem objetiva, pois o modo de ser no espírito é diferente do modo de ser na [[lexico:r:realidade:start|realidade]]. É igualmente muito importante notar que a semelhança da coisa pode representá-la de modo mais ou menos [[lexico:p:perfeito:start|perfeito]]. A inteligência humana, teremos [[lexico:o:ocasiao:start|ocasião]] de o repetir, não tem de início a [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] clara das [[lexico:e:essencias:start|essências]]. Inicialmente as apreendemos só de modo confuso e através de [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] completamente gerais. As semelhanças ou "species" primitivas apenas representam o objeto sob seus mais comuns aspectos. Será este precisamente o [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] do espírito, o de determinar progressivamente este primeiro [[lexico:d:dado:start|dado]] ainda muito [[lexico:i:indistinto:start|indistinto]]. **O intelecto [[lexico:a:agente:start|agente]] e a abstração do inteligível. [[lexico:p:posicao-filosofica:start|Posição filosófica]] do [[lexico:p:problema:start|problema]].** O intelecto [[lexico:h:humano:start|humano]], no [[lexico:a:aristotelismo:start|aristotelismo]], é originariamente uma pura potência passiva frente aos inteligíveis. Não há formas ou [[lexico:i:ideias-inatas:start|ideias inatas]]. É preciso, pois, para que entre em atividade, receber seu objeto. Donde este poderá vir? Não pode ser de um Inundo [[lexico:t:transcendente:start|transcendente]], de [[lexico:i:ideias:start|ideias]] separadas ou de inteligências superiores: uma tal [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]] não é verdadeiramente fundada e vai contra a [[lexico:e:experiencia:start|experiência]]. Resta que nossas ideias procedam do [[lexico:c:conhecimento-sensivel:start|conhecimento sensível]]. Mas aqui surge a dificuldade precedentemente evocada: como objetos materiais poderão imprimir-se em uma faculdade puramente espiritual? No caso da [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] [[lexico:s:sensivel:start|sensível]], explica-se que tais objetos pudessem ser recebidos pois que os sentidos, pelos seus órgãos, estão em continuidade com o [[lexico:m:mundo:start|mundo]] dos corpos. Mas, para a inteligência, uma tal dependência, face a realidades de um [[lexico:g:grau:start|grau]] inferior, parece inaceitável. Em poucas [[lexico:p:palavras:start|palavras]], as coisas materiais são inteligíveis só em potência; ora é-nos [[lexico:n:necessario:start|necessário]] chegar a uma inteligência e, portanto, ao inteligível em ato. A solução deste problema já se deixa entrever. A atuação do inteligível não poderia ser, no sensível, realização do [[lexico:p:proprio:start|próprio]] espírito? Suponha-se nele uma potência ativa cuja função seria elevar ao nível inteligível o objeto que, no dado sensível, não se encontra no conveniente grau de [[lexico:i:imaterialidade:start|imaterialidade]], e a dificuldade assim se esvai. [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]] na Summa não raciocina diferentemente (cf. Ia Pa, q. 79, a. 3 ). "Não admitindo [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] (ao contrário de [[lexico:p:platao:start|Platão]]) que as formas das realidades materiais possam [[lexico:s:subsistir:start|subsistir]] sem [[lexico:m:materia:start|matéria]] e não sendo estas formas, na sua [[lexico:c:condicao:start|condição]] material, inteligíveis em ato, segue-se que as naturezas ou as formas das coisas sensíveis, atingidas pela nossa inteligência, não são inteligíveis em ato . . . Impõe-se, portanto, que se admita a [[lexico:e:existencia:start|existência]], ao lado da inteligência, de uma certa potência cuja função seja atuar os inteligíveis, abstraindo as "species" de suas condições materiais. Eis o que obriga a admitir um intelecto agente... Oportebat igitur ponere aliquam virtutem ex [[lexico:p:parte:start|parte]] intellectus, quae faceret intelligibilia in [[lexico:a:actu:start|actu]] per abstractionem specierum a conditionibus materialibus. Et haec est necessitas ponendi intellectum agentem". **O problema [[lexico:h:historico:start|histórico]] do intelecto agente.** Se a [[lexico:p:posicao:start|posição]] ideológica do problema do intelecto agente é relativamente [[lexico:s:simples:start|simples]], sua solução devia complicar-se extremamente. Isto porque os textos de Aristóteles, onde se haure esta doutrina, apresentam ambiguidades que foram assunto de intermináveis controvérsias. Como Tomás de Aquino alude a isso continuamente, não podemos deixar de dar uma [[lexico:i:ideia:start|ideia]]. É no capítulo IV do livro III do [[lexico:d:de-anima:start|De anima]] que Aristóteles aborda a questão da inteligência que considera antes como uma potência passiva. No capítulo seguinte, sem outra preparação e por simples comparação com o que se passa no mundo [[lexico:f:fisico:start|físico]], põe-se a distinguir dois intelectos na [[lexico:a:alma:start|alma]]: "visto que na [[lexico:n:natureza:start|natureza]] inteira distingue-se primeiro algo que serve de matéria a cada [[lexico:g:genero:start|gênero]] . . . e em seguida uma outra coisa que é a [[lexico:c:causa:start|causa]] do agente . . . assim, na alma, distingue-se, de uma parte, um intelecto que é [[lexico:a:analogo:start|análogo]] à matéria, porque torna-se todos os inteligíveis e, de outra parte, o intelecto que produz tudo...". E Aristóteles compara este [[lexico:u:ultimo:start|último]] intelecto à [[lexico:l:luz:start|luz]] cuja função é atuar as cores que no objeto são visíveis apenas em potência. Vem a seguir uma [[lexico:e:enumeracao:start|enumeração]] das propriedades deste [[lexico:i:intelecto-ativo:start|intelecto ativo]]; é: "separado, impassível e sem [[lexico:m:mistura:start|mistura]], estando por [[lexico:e:essencia:start|essência]] em ato". Por [[lexico:f:fim:start|fim]], em um [[lexico:t:texto:start|texto]] particularmente [[lexico:o:obscuro:start|obscuro]], parece afirmar que só o intelecto ativo é imortal e [[lexico:e:eterno:start|eterno]], enquanto o [[lexico:i:intelecto-passivo:start|intelecto passivo]] é corruptível, de modo que depois da [[lexico:m:morte:start|morte]] não poderia subsistir nenhuma lembrança relativa a esta [[lexico:v:vida:start|vida]]. Sobretudo dois pontos neste texto levariam a controvérsias - Em que [[lexico:s:sentido:start|sentido]] o intelecto agente pode ser [[lexico:c:chamado:start|chamado]] separado? Somente como uma potência espiritual multiplicada segundo os indivíduos e subsistente em cada um deles? (solução de Tomás de Aquino). Ou, então, não seria antes como um princípio transcendente e autônomo, [[lexico:u:unico:start|único]] para todos os indivíduos? (solução mais comum). - O que concluir para a [[lexico:i:imortalidade-da-alma:start|imortalidade da alma]]? Se o intelecto [[lexico:p:passivo:start|passivo]], em [[lexico:p:particular:start|particular]], é corruptível e o intelecto agente, transcendente e único, não se deverá reconhecer que não há [[lexico:i:imortalidade-individual:start|imortalidade individual]]? (solução de Alexandre de Afrodíseas e de Averróis). Acrescentemos que o problema complica-se mais ainda pela concepção que se tinha do intelecto possível, corruptível para uns, incorruptível para outros e, nesta última hipótese, separado ou não separado. A [[lexico:t:tese:start|tese]] do intelecto agente separado aparece, entre os comentadores antigos de Aristóteles, com Alexandre de Afrodíseas (II. séc.), que distinguia um intelecto material, provavelmente corruptível, um intelecto como "habitus", determinando o precedente e um intelecto agente imaterial, separado, apresentando todos os [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]] da divindade. Os peripatéticos árabes, Alfarabi, [[lexico:a:avicena:start|Avicena]], Averróis, com os quais Tomás de Aquino tratará particularmente, são, em seu conjunto, pela [[lexico:s:separacao:start|separação]] [[lexico:r:real:start|real]] do intelecto agente e por sua [[lexico:t:transcendencia:start|transcendência]] face aos indivíduos. Em Avicena, este intelecto aparecerá, na concepção hierárquica que ele tem das inteligências, como a inteligência inferior do [[lexico:s:sistema:start|sistema]], da qual emanam ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] as formas das coisas materiais, e, nas almas, os [[lexico:p:principios-do-conhecimento:start|princípios do conhecimento]] que estas têm das coisas materiais. Notemos que Tomás de Aquino se baterá principalmente contra o [[lexico:a:averroismo:start|averroísmo]] que, por sua concepção de um intelecto possível separado, comprometia ao máximo a [[lexico:i:imortalidade:start|imortalidade]] da alma. **Natureza do intelecto agente.** Em [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] à maioria destes comentadores, Tomás de Aquino afirma claramente que o intelecto agente é em cada alma humana algo de real: "est aliquid animae" (Ia Pa, q. 79, a. 4). As razões sobre as quais se funda para [[lexico:f:falar:start|falar]] assim são, ao mesmo tempo, muito simples e perfeitamente pertinentes. Com efeito, conforme uma [[lexico:l:lei:start|lei]] bastante [[lexico:g:geral:start|geral]], as [[lexico:c:causas:start|causas]] [[lexico:u:universais:start|universais]] e transcendentes só agem com o concurso de [[lexico:p:principios:start|princípios]] próprios aos seres particulares. O intelecto agente transcendente, se [[lexico:e:existir:start|existir]] um, requererá, portanto, a cooperação de uma potência derivada pertencendo a cada alma. Por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, e esta [[lexico:r:razao:start|razão]] parece decisiva, é claro que somos nós que abstraímos as "species" de onde procede a [[lexico:i:inteleccao:start|intelecção]]. Ora, não se pode dizer que uma ação se relacione a um [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] se não procede dele segundo uma forma que lhe é inerente: "et hoc [[lexico:e:experimento:start|experimento]] cognoscimus, dum percipimus nos abstrahere formas universales a conditionibus particularibus, quod est facere actu intelligibilia. Nulla autem actio convenit alicui rei, nisi per aliquod principium formaliter ei inhaerens". É ainda possível, nesta concepção, falar de um intelecto agente separado? Sim, mas sob a condição de só se [[lexico:v:ver:start|ver]], neste intelecto, [[lexico:d:deus:start|Deus]] criador e iluminador de nossa alma: "sed intellectus separatus, secundum nostrae fidei documenta est ipse Deus qui est creator animae... Unde ab ipso ipsa [[lexico:a:anima:start|anima]] humana lumen intelectuale participat, secundum illud Psalmi: "Signatum est super nos lumen vultus tui, Domine" (S. 4)". Quanto ao [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] intelecto agente, este permanece na alma, da qual é uma potência particular, distinta realmente do intelecto considerado em sua função receptora, ou do intelecto passivo. Um [[lexico:p:ponto:start|ponto]] reclama [[lexico:p:precisao:start|precisão]]. Em que sentido deve-se dizer que o intelecto agente é uma potência sempre em ato? Não se vê [[lexico:b:bem:start|Bem]], com efeito, numa primeira consideração, como, em uma mesma inteligência, possa existir, ao mesmo tempo, face aos inteligíveis, uma faculdade em potência e uma faculdade em ato. Tomás de Aquino (cf. De Anima, III, I. 10, n. 737; Ia Pa, q. 79, a. 4, ad 4) responde fazendo observar que a passividade de uma destas [[lexico:f:faculdades:start|faculdades]] e a [[lexico:a:atualidade:start|atualidade]] da outra não devem ser consideradas em uma mesma linha. O intelecto passivo está em potência face às determinações dos seres exteriores a conhecer. O intelecto agente, por sua vez, é dito [[lexico:e:estar:start|estar]] em ato enquanto é imaterial e, portanto, apto a tornar imaterial o objeto que era inteligível só em potência: "Comparatur igitur ut actus respectu intelligibilium, in quantum est quaedam virtus immaterialis activa, poteris alie similia sibi facere, scilicet immaterialia. Et per hunc modum ea quae sunt intelligibilia in potentia facit intelligibilia in actu" n. 739 **Fase preparatória sensível da abstração.** Tomás de Aquino designa habitualmente pela [[lexico:e:expressao:start|expressão]] “phantasmata" o [[lexico:e:elemento:start|elemento]] de conhecimento sensível a partir do qual a intelecção se processa. A que corresponde exatamente este [[lexico:t:termo:start|termo]]? Psicologicamente, os "phantasmata" podem ser considerados como imagens, mas sob a condição de se precisar que o conjunto dos [[lexico:s:sentidos-externos:start|sentidos externos]] e internos contribui para a sua [[lexico:f:formacao:start|formação]]. Também não devem ser considerados como simples reproduções das sensações, mas como a resultante de toda uma elaboração muito complexa. Tomás de Aquino (Metaph. 1, lect. 1; II Anal. II, lect. 20) parece reconhecer que antes da intelecção devem-se formar, no nível do conhecimento sensível, esquemas tendo já um certo [[lexico:c:carater:start|caráter]] de generalidade, os quais constituem uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de intermediário entre o [[lexico:s:singular:start|singular]], diretamente percebido pelos sentidos, e o verdadeiro [[lexico:u:universal:start|universal]] que só a inteligência atingirá. As simplificações das fórmulas, muitas vezes empregadas no [[lexico:t:tomismo:start|tomismo]] para [[lexico:e:explicar:start|explicar]] o conhecimento, não devem fazer-nos perder de vista toda a complexidade da atividade concreta do espírito de modo algum ignorada por esta [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]]. Do ponto de vista [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]], diz-se que os "phantasmata" são inteligíveis em potência ou contêm em potência o inteligível. Não se deveria isto ao [[lexico:f:fato:start|fato]] de que a forma do objeto [[lexico:e:exterior:start|exterior]] que eles representam não se encontra neles de modo determinado? De modo algum. Os "phantasmata" contêm atualmente a essência da coisa que devem fazer conhecer, pois sem isso não se vê como poderiam transmiti-Ia à inteligência; mas são ditos em potência em relação ao ser inteligível ou "[[lexico:i:intencional:start|intencional]]" que esta essência deverá revestir para ser efetivamente conhecida. A atuação do inteligível, de que deveremos falar, concerne portanto não à [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] [[lexico:f:formal:start|formal]] do objeto, que vem do exterior, mas a seu ser objetivo ou de [[lexico:r:representacao:start|representação]] no espírito. **A ação do intelecto agente.** Como [[lexico:c:compreender:start|compreender]] esta ação pela qual o intelecto agente vai tornar inteligível em ato o inteligível em potência das imagens e permitir assim a recepção da semelhança espiritual do objeto? Diversas analogias, tradicionalmente usadas, podem ajudar nesta [[lexico:e:explicacao:start|explicação]]. A [[lexico:a:analogia:start|analogia]] da luz é a comparação empregada por Aristóteles: assim como as cores, objeto da vista, tornam-se visíveis só graças à [[lexico:i:iluminacao:start|iluminação]] devida à luz, assim o inteligível, contido em potência nas imagens, torna-se [[lexico:a:atual:start|atual]] se for semelhantemente iluminado pelo intelecto agente. Esta comparação põe felizmente em [[lexico:e:evidencia:start|evidência]] a [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] de um [[lexico:p:principio-ativo:start|princípio ativo]], diferente do objeto, para tornar possível a intelecção. Sugere ainda certos caracteres da atividade deste princípio: a não coloração da luz evoca a [[lexico:a:ausencia:start|ausência]] de determinação formal do intelecto agente; sua espiritualidade relativa, a espiritualidade efetiva da atividade desta faculdade. Por outro lado, com esta analogia não se vê bem como o intelecto possível será atuado, e, [[lexico:a:alem:start|além]] disso, é-se orientado para a concepção falsa de um inteligível existindo em face da inteligência como um objeto a contemplar, quando na realidade só se pode falar em inteligível em ato na própria faculdade receptora. No aristotelismo, a atividade do intelecto agente é também frequentemente designada pelo termo "abstração". Diz-se que esta faculdade abstrai o objeto inteligível ou a "species" dos "phantasmata", ou ainda que despoja a "species" das condições da matéria que a singularizam. Aqui é o resultado da atividade do intelecto agente que é colocado em evidência, devendo-se evidentemente tomar em sentido metafórico as expressões de abstração ou de despojamento. Como a precedente, esta analogia tem o inconveniente de não salientar o [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] de informação do intelecto passivo, aspecto este implicado nesta [[lexico:o:operacao:start|operação]]. O objeto inteligível aparece sempre como uma coisa inerte colocada em face da faculdade, quando efetivamente age sobre ela. Como pois conceber esta [[lexico:c:causalidade:start|causalidade]]? Antes de tudo, é manifesto que, isoladamente considerados, nem o intelecto agente, que é formalmente [[lexico:i:indeterminado:start|indeterminado]], nem o "[[lexico:p:phantasma:start|phantasma]]" que na ordem inteligível existe somente em potência, podem agir sobre o intelecto possível. É requerido o concurso dos dois [[lexico:e:elementos:start|elementos]]. A este [[lexico:r:respeito:start|respeito]], foram propostas duas explicações. O "phantasmata" interviria na [[lexico:i:impressao:start|impressão]] da "species" a título de causa material e o intelecto agente exerceria uma espécie de causalidade formal. Este modo de [[lexico:r:representar:start|representar]] as coisas tem, entre outros inconvenientes, o de sugerir sem razão que o "phantasma" é, nesta atividade, o sujeito, quando na realidade é antes o intelecto possível que desempenha este papel. Parece preferível considerar aqui o "phantasma", como o faz João de Tomás de Aquino, como uma [[lexico:c:causa-instrumental:start|causa instrumental]] elevada pela ação do intelecto agente, causa principal (Cursus phil. De Anima, q. 10, a. 2, sec. diffic.: Dicendum nihilominus). Um e outro fatores agindo, cada um guarda em sua linha, sua ação determinadora: o "phantasma", na ordem da essência, o intelecto agente, na ordem do ser inteligível, sendo as duas [[lexico:a:acoes:start|ações]] hierarquicamente organizadas. Tomás de Aquino sugere esta [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] (cf. De Veritate, q. 10, a. 6, ad 1, 7, 8; I, q. 85, a. I, ad 3, 4). Eis o texto mais formal: "Na recepção, pelo intelecto possível, das "species" das coisas tiradas dos "phantasmata, estes desempenham o papel de agente instrumental e secundário, enquanto o intelecto agente é o agente principal e primeiro; o resultado desta atividade no intelecto possível leva, em [[lexico:c:consequencia:start|consequência]], a marca de um e de outro e não a de um dos dois elementos somente; o intelecto possível recebe, pois, as formas como inteligíveis em ato em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] do intelecto agente, e como semelhanças determinadas das coisas, em razão do conhecimento dos fantasmas; e assim as formas inteligíveis em ato não existem [[lexico:p:por-si:start|por si]], nem na [[lexico:i:imaginacao:start|imaginação]], nem no intelecto agente, mas somente no intelecto possível" De Veritate, loc. cit., ad 7 Notar-se-á que o precedente [[lexico:p:processo:start|processo]] não é, em seu [[lexico:m:momento:start|momento]] [[lexico:e:essencial:start|essencial]], de modo algum [[lexico:c:consciente:start|consciente]]. Percebemos as imagens e, no fim, captamos o inteligível, mas a explicação da passagem da primeira para a segunda dá-se somente [[lexico:a:a-posteriori:start|a posteriori]], perfeitamente legítima aliás. Comparado ao processo semelhante da formação da representação sensível, aparece a abstração intelectual como mais ativa do lado do espírito, pois a elevação ao nível do ser inteligível é [[lexico:o:obra:start|obra]] do espírito. Nos dois casos, todavia, a determinação formal do objeto percebido resulta da ação da coisa exterior. **O intelecto possível e a recepção da "species"** Estritamente falando, o intelecto agente não é uma potência de conhecimento. Esta função pertence ao intelecto possível ou passivo. Veremos, sucessivamente, que esta faculdade está em pura potência face aos inteligíveis (a), que para passar a ato deve preliminarmente ser informada pela "species" (b). Em seguida, será precisado o papel [[lexico:e:exato:start|exato]] que esta última [[lexico:e:entidade:start|entidade]] desempenha no ato intelectual (c) e a relação que tem com a coisa exterior (d) . **O intelecto possível é uma potência passiva.** Esta [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] da passividade de nossas potências de conhecer dirige toda a [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]] aristotélica. Devemos aqui, com Tomás de Aquino, precisar seu exato [[lexico:s:significado:start|significado]] (cf. Ia Pa, q. 79, a. 2). Antes de tudo, no caso da inteligência, esta alegação encontra-se fundada no objeto mesmo desta faculdade. Este, com efeito, é o ser universal. Se, portanto, a inteligência estivesse preliminarmente atuada, e sendo o ser universal [[lexico:i:infinito:start|infinito]], seguir-se-ia que a inteligência seria infinita. Ora, só a inteligência divina possui esta [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]]. Mas o que pode exatamente significar para uma inteligência, que é [[lexico:s:ser-espiritual:start|ser espiritual]], o fato de "padecer"? Tomás de Aquino, no artigo citado, explica cuidadosamente que a passividade, de que se trata, não comporta de modo algum, no sujeito [[lexico:r:receptor:start|receptor]], qualquer deterioração, ou ablação de qualquer [[lexico:p:propriedade:start|propriedade]] [[lexico:n:natural:start|natural]]: padecer, no caso presente, significa somente a simples passagem, sob a ação do agente, da potência ao ato, ou o fato de o sujeito adquirir o ato com relação ao qual estava em potência. Entendida neste sentido, uma [[lexico:p:paixao:start|paixão]] é um aperfeiçoamento. Os comentadores (cf. Cajetano, In Iam Part., q. 79, a. 2, XVI a XX; João de Tomás de Aquino, Curs. Philos., De Anima, q. 6 a 3) precisam que, na recepção do inteligível, o intelecto é passivo de dois modos diferentes: primeiro, conforme uma passividade material, devendo a "species" em questão ser preliminarmente recebida entitativamente na inteligência, como toda forma em um sujeito; em segundo [[lexico:l:lugar:start|lugar]], conforme uma passividade imaterial, devendo o objeto a conhecer perfeicionar a potência na ordem objetiva ou intencional. Evidentemente esta segunda passividade será [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] do conhecimento. **A recepção da "species"** Consideraremos [[lexico:a:agora:start|agora]] a atuação do intelecto passivo. Esta é devida à atuação conjugada do intelecto agente, causa principal, e do "phantasma", causa instrumental. Esta ação tem por efeito, antes de tudo, modificar como ser o sujeito inteligente determinando nele, a título de [[lexico:a:acidente:start|acidente]], uma "species". Conjuntamente se produz uma segunda informação que atua a inteligência como potência intencional. Pode-se produzir neste caso somente o ato de conhecimento propriamente dito. Esta segunda informação, notemos, pode seguir ou não a informação entitativa, apresentando-se a segunda destas alternativas quando a inteligência cessa de [[lexico:p:pensar:start|pensar]] um objeto. Este, então, não está mais inteligivelmente presente; permanece, contudo, na potência a título entitativo, ou como "habitus". Aliás novamente a partir desta [[lexico:p:presenca:start|presença]] entitativa, a inteligência poderá passar, graças a uma nova informação intencional, a um novo ato de conhecimento. Assim se explicam as passagens sucessivas da ideia não pensada à ideia atualmente apreendida, isto é, o [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] da [[lexico:m:memoria:start|memória]] intelectual. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}